s Vianna ia D a n li o r a eja · C William Cer Damien Christiane Ensino Méd io 2 ANO Volume II M PN 0 81 01 10 12 L AT D EM ER IA 202 LD 6 CÓ DI E D – 20 0 0 GO D IV 29 8 1 A CO UL – GA C A P 2 LEÇ Ã Ç Ã TEG 6 0 O: O O RI A 1− e d a d enti O MANUAL D R O S S FE O PR Língua Portuguesa ecimento: Área do conh ias 1 suas Tecnolog e ns ge Lingua 2 Volume II Língua Portuguesa imento: Área do conhec as Tecnologias 1 su e s en ag Lingu William Cereja Doutor em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Mestre em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP). Bacharel em Letras - Português e Linguística e licenciado em Letras - Português pela USP. Professor da rede particular de ensino em São Paulo (SP). Carolina Dias Vianna Doutora em Linguística Aplicada na área de Linguagem e Educação pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp-SP). Mestra em Linguística Aplicada na área de língua materna pela Unicamp-SP. Bacharela e licenciada em Letras - Português pela Unicamp-SP. Professora das redes pública e particular de ensino nos estados de São Paulo e Minas Gerais e coordenadora da rede particular de ensino no estado de São Paulo. Christiane Damien Doutora pela Universidade de São Paulo (USP) com estágio doutoral no Institut National des Langues et Civilisations Orientales (Inalco), Paris, França. Mestra em Letras pela USP. Bacharela e licenciada em Letras - Português e Francês pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp-SP), campus Araraquara. Bacharela em Ciências Econômicas pela Unesp-SP, campus Araraquara. Pesquisadora do Syrius – Grupo de Tradução e Pesquisa em Estudos Árabes e História do Pensamento (USP/CNPq). Professora da rede pública de ensino em São Paulo (SP). O MANUAL D R PROFESSO 1a edição, São Paulo, 2024. io ANO e d a d enti Ensino Méd Direção executiva de negócio e editorial: Flavia Alves Bravin Direção de negócio: Volnei Korzenieski Gestão editorial: Lidiane Vivaldini Olo Gerência de conteúdo: Alice Ribeiro Silvestre Edição: Rosângela Rago (coord.), Carla Fernanda Nascimento, Jade Maia Borges (assist.), Penelope Brito, Thaís Albiero, Valéria Franco Jacintho Produção editorial: Renata Galdino Revisão: Letícia Bento Pieroni (ger.), Carlos Eduardo Sigrist (coord.), Anderson Félix (líder de projeto), Aline Vieira, Ana Paula C. Malfa, Bruno Freitas, Daniela Lima, Danielle Modesto, Diego Carbone, Gabriela M. Andrade, Helena Settecerze, Heloísa Schiavo, Kátia Godoi, Luciana B. Azevedo, Luis Boa Nova, Luiz Gustavo Bazana, Luiza Thomaz, Malvina Tomaz, Marilia Lima, Paula de Jesus, Raquel Taveira, Ricardo Miyake e Vanessa P. Santos Arte: Fernanda Costa da Silva (ger.), Erika Tiemi Yamauchi (coord.), Meyre Diniz Schwab (ed. arte) e Arte4 (diagramação) Digital: Daniela Teves Nardi (ger.), Rafael Pereira de Paula Freitas (coord. produção multimídia), Daniella dos Santos Di Nubila (coord. produção digital) e Rogério Fábio Alves (coord. conteúdo digital e publicação) Ilustrações: Erika Lourenço, Filipe Rocha, Gabi Emmerich, Ilustra Cartoon e Paulo Ricardo Dantas Cartografia: Fernanda Costa da Silva (ger.), Eric Fuzii (coord.) e Alexandre Bueno Design: Fernanda Costa da Silva (ger.), Erik Taketa (coord.), Luis Vassallo (proj. gráfico) e Gustavo Vanini (capas) Licenciamentos: Flávio Matuguma Licenciamento e iconografia: Roberta Bento (ger.), Iron Mantovanello (coord.), Alice Matoso, Claudia Balista, Cristina Akisino, Douglas Cometti, Mariana Valeiro, Paula Squaiella, Roberta Freire, Thaisi Albarracin Lima (pesquisa e licenciamento), Fernanda Crevin (tratamento de imagens), Beatriz Alves dos Santos, Daniel Scucuglia, Ligia Dona, Liliane Rodrigues, Raísa Maris Reina, Sabrina Regina de Marinho e Sueli Ferreira (analista de licenciamento) Fotos de capa: insta_photos/Adobe Stock, mimagephotos/Adobe Stock, Prostock-studio/Adobe Stock, BlueJeanImages/Shutterstock e m.jrn/Shutterstock Pré-impressão: Michel Shimamoto (coord.), Alessandro de Oliveira Queiroz, Camilla Félix Cianelli Chaves, Debora Fernandes, Diego Rodrigues de Lima, Fernanda de Oliveira, Lucas Meireles dos Santos e Valmir da Silva Santos Todos os direitos reservados por Saraiva Educação S.A. Alameda Santos, 960, 4o andar, setor 3 Cerqueira César – São Paulo – SP – CEP 01418-002 Tel.: 4003-3061 www.edocente.com.br contato@saber.com.br Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Cereja, William Identidade Saraiva : Língua portuguesa : Linguagens e suas tecnologias 1 : Ensino médio : 2º ano : volume 2 / William Cereja, Carolina Dias Vianna, Christiane Damien. -1. ed. -- São Paulo : Saraiva Educação, 2024. ISBN 978-65-5766-452-0 – aluno ISBN 978-65-5766-453-7 - professor 1. Língua portuguesa (Ensino médio) I. Título II. Vianna, Carolina Dias III. Damien, Christiane CDD 469.07 24-4741 Angélica Ilacqua - Bibliotecária - CRB-8/7057 2024 Código da obra CL 821243 CAE 876530 (AL) / 876531 (PR) 1a edição 1a impressão De acordo com a BNCC. Envidamos nossos melhores esforços para localizar e indicar adequadamente os créditos dos textos e imagens presentes nesta obra didática. Colocamo-nos à disposição para avaliação de eventuais irregularidades ou omissões de créditos e consequente correção nas próximas edições. As imagens e os textos constantes nesta obra que, eventualmente, reproduzam algum tipo de material de publicidade ou propaganda, ou a ele façam alusão, são aplicados para fins didáticos e não representam recomendação ou incentivo ao consumo. Impressão e acabamento 2 SOBR O R V I L E SEU Caro estudante, Você e muitos jovens que cursam atualmente o Ensino Médio participam de práticas diversas de leitura e escrita nos mais variados contextos: na escola, em casa ou em outros ambientes; por meio do papel, do celular, do tablet ou do computador. Da mesma maneira, você interage oralmente em situações variadas, produzindo falas mais curtas, ou longas, de modo descontraído ou formal. Lidamos com linguagens o tempo todo: para opinar, para pedir, para ceder, para brincar, para discordar, e assim vamos construindo nossa identidade e sendo construídos pela realidade que nos cerca, pelos outros sujeitos com quem interagimos, pelo que lemos, ouvimos e produzimos. Nesta obra, tomamos como base essa relação que você já tem com a linguagem para apresentar e discutir diferentes questões sobre nossa língua, sobre nossas produções literárias e culturais e sobre os textos que elaboramos. Com o estudo da literatura, você lerá textos de diferentes momentos da história, produzidos por grupos sociais diversos, e perceberá que os textos literários e as artes em geral estão intimamente conectados às realidades sociais de cada época e de cada povo, surgindo como uma espécie de resposta artística ao seu contexto de produção. Você poderá observar também que mesmo textos escritos muitos séculos atrás guardam relações próximas com obras atuais, confirmando a ideia de que a literatura e seus temas não se encerram em certo período, mas transformam-se ao longo do tempo, à medida que a sociedade e os sujeitos igualmente se modificam. Ao analisar linguisticamente textos de diferentes campos de atuação social, você vai poder desenvolver uma percepção crítica em relação a recursos e estratégias de linguagem utilizados a fim de perceber, entre outros elementos, a não neutralidade dos discursos, os posicionamentos de enunciadores e os interesses que os movem, as situações de preconceito linguístico contra as quais devemos nos posicionar para a convivência em uma sociedade mais diversa e democrática. Nesse percurso, conhecerá também nuances da língua na leitura e na produção textual, ao analisar e elaborar textos que circulam em situações de comunicação variadas: discurso político, videocurrículo, entrevista, artigo de opinião, cartas argumentativas, documentário, entre outros. Entendemos que, para além das práticas cotidianas de leitura e escrita, também faz parte das práticas de um estudante do Ensino Médio a participação em situações bem específicas de linguagem, vividas por quem se prepara para a entrada na universidade e/ou no mercado de trabalho. Por isso, você terá contato com textos específicos dessas esferas, a fim de que esteja bem-preparado para esse novo momento de sua vida. O objetivo principal desta obra é, portanto, contribuir para que você faça um uso cada vez mais consciente e reflexivo das possibilidades da língua, quaisquer que sejam as situações de comunicação em que se engaje, como leitor ou como produtor de textos. Esperamos que esse caminho seja tão interessante e motivador para você quanto foi, para nós, a elaboração deste livro. Um abraço, Os Autores. 3 A Ç E CONH VRO SEU LI L IT E R AT U R A Os capítulos são organizados em três partes. Para colaborar com sua formação literária, esta primeira parte dos capítulos procura levá-lo a conhecer diferentes estilos de época, as características e o contexto de produção desses estilos, seus autores mais significativos e obras, além de incentivá-lo a perceber conexões entre essas obras e outras. L Í N G UA E L IN G UAG E M Para produzir e compreender os mais diversos textos, esta segunda parte dos capítulos propõe atividades para que você possa analisar e avaliar, de forma consciente, os aspectos linguísticos dos textos, observando os efeitos de sentido dos recursos da língua tendo em vista as características do gênero a que cada texto pertence e a situação comunicativa em que ele costuma ser usado. PR O D U ÇÃO DE TEXTO Nesta terceira parte dos capítulos, as atividades estão, em geral, organizadas em dois blocos: no primeiro, são estudadas as características de certo gênero textual e sua situação comunicativa; no segundo, você é convidado a produzir um texto do mesmo gênero tendo como apoio as etapas indicadas. 4 RA ABERTU D E U N IDA D E comum e indica um tema O título da unidad dupla, na e bloco. Na pági aos capítulos dess ual e vis ou e/ agens verbal legas há textos em lingu co os e cê vo e s para qu o algumas pergunta do an ion r sobre o tema ac possam conversa speito dele. que já sabem a re 3 unid ade era a expressão do belo, e o Para os gregos antigos, a arte era a representação da realidabelo, com equilíbrio e harmonia, De a arte representar a realidade? de. Mas até que ponto pode XIX entendiam seu papel na que maneira os artistas do século Como se veem os artistas de sociedade? E os do século XX? Pescando (1894), de Almeida Júnior (1850-1899). IV. Discurso do Capibaribe hoje em dia? Competências específicas da área de Linguagens: 2, 4, 6 Habilidades específicas da área de Linguagens: EM13LGG204, EM13LGG401, EM13LGG601, EM13LGG602, EM13LGG604 Habilidades de Língua Portuguesa: EM13LP03, EM13LP05, EM13LP14, EM13LP50 Como um cachorro é mais espesso do que uma maçã. Como é mais espesso o sangue do cachorro do que o próprio cachorro. Como é mais espesso um homem do que o sangue de um cachorro. Como é muito mais espesso o sangue de um homem do que o sonho de um homem. [...] Reprodução/Coleção particular BNC C Competências gerais da Educação Básica: 1, 3, 7 Tempo Compo particular sto/Coleção DA Romulo Fialdini/ E M B U S CA VERDA DE O que vive é espesso como um cão, um homem, como aquele rio. Como todo o real é espesso. Aquele rio é espesso e real. Como uma maçã é espessa. MELO NETO, João Cabral de. “O [...] cão sem plumas”. In: Poesias completas. São Paulo: Alfaguara, 2020. Conver se com a turma uma corrente estética do associada ao Realismo, isto é, A pintura de Almeida Júnior é de modo fiel. A pincompromisso retratar a realidade final do século XIX que tinha como a realista? Por quê? tura Pescando pode ser considerad ou seja, de nosso tempo. Ela é uma obra contemporânea, 2. Murundu, de Luiz Escañuela, muito, acima. Por significa que “Hiper” é um prefixo grego é considerada hiper-realista. 1. Hiper-realismo? que essa obra é associada ao do século XX, ao tentar definir de Melo Neto, poeta brasileiro 3. Os versos de João Cabral Que pontos de contato linguagem objetiva, quase coisa. ou descrever as coisas, usa uma e os versos de João Cabral? de Almeida Júnior e Escañuela você identifica entre as pinturas Murundu (2019), de Luiz Escañuela (1993-). 171 170 E HORA D TILHAR C O M PA R ades e das unid ra al u rt e b Na a ção textu e e Produ d d ra e o rt a “H p na , o boxe s lo u e ít v p o e nto dos ca anuncia r” a ao h il rt a la turma comp izado pe des. n a rg o r a se unida algumas final de C O N E CT E -S E ! você onecte-se!, Na seção C as um lg (a as encontra dic culturais ) de objetos as ad nt e m co os dos s aos estud relacionado á às vezes H . e ad unid capítulos da , em certos onecte-se!” . um boxe “C e repertório ss pliando e am s, o ul ít cap Converse com a turma Sugestão de questões para refletir sobre um tema com base nas imagens e nos textos propostos para leitura na abertura de unidade e então compartilhar ideias, hipóteses e experiências com a turma. 5 URA ABERT O D E CA P ÍT U L izagens do jetivos de aprend Apresenta os ob Literatura. o dos estudos de capítulo e o iníci Não escreva no livro. 2 (II) o: poesia Romantism : palavras Classes de I) revisão (I Entrevista vai: Neste capítulo você Amália; Alves e de Narcisa romântica de Castro preposição, • conhecer a poesia s: verbo, advérbio, tes classes de palavra elas cons• rever as seguin os sentidos que ição; e refletir sobre interje e ção conjun troem nos textos; outras mídias. oral, escrita e para produzir entrevista • ler entrevista e Justificativa BN CC da Competências gerais 1, 3, 4, 9 Educação Básica: cas Competências específi ens: 1, 2, da área de Linguag 3, 4, 6 cas Habilidades específi ens: da área de Linguag EM13LGG101, EM13LGG202, EM13LGG203, EM13LGG302, EM13LGG401, EM13LGG601, EM13LGG602, EM13LGG604 cas Habilidades específi esa: de Língua Portugu 5, EM13LP01, EM13LP0 7, EM13LP06, EM13LP0 8, EM13LP20, EM13LP2 6, EM13LP30, EM13LP4 9, EM13LP48, EM13LP4 2, EM13LP50, EM13LP5 EM13LP53 A L IT E R AT U R Parte do capítulo com os estudos de Literatura, que apresenta um estilo de época, suas características e sua contextualização, além de suas relações com outras artes, com outras áreas do saber e com produções literárias de outras épocas. longo do sécuros efetiva no Brasil ao o star de maneira mais eiras, enfrentaram começou a se manife ocorria com as estrang A autoria feminina iras, assim como capítulo anterior, o, autoras brasile como você viu no lo XIX. Nesse períod de suas obras ou, seguinte, capas nas século do nomes seus pública. No final preconceito ao assinar se proteger da opinião seu primeieu para escond g ônimos pseud britânica J.K. Rowlin optaram por utilizar Potter, a escritora a autora de Harry u sua obra. na década de 1990, editora que publico no mundo por sugestão da trabalho reconhecido ro nome, Joanne, ades para ter seu iar a leitura de obras es enfrentam dificuld Então, que tal prestig Ainda hoje as mulher a, seus do trabalho, em geral. mundo no e sua produção artístic lar, pouco mais sobre artístico, em particu de conhecer um fim a es, mulher produzidas por pos pessoais? do repertório contem desafios e suas história ra do século XIX ou autoras da literatu de seu professor, de ção obras ne orienta a ; depois, com Pesquise e selecio ntá-lo, prede prosa ou poesia lida. Antes de aprese ou estrangeiras, tivo sobre a obra râneo, nacionais comentário aprecia resenha crítica. seu uma ir turma a produz apresente para do professor de como base nas instruções pare sua fala com En tre liv leitor ira e seu público ão da literatura brasile lina que aborO processo de formaç feminina e mascu m textos de autoria capítulo, contempla també tempo; por isso, neste s e sociais de seu a estética dam questões política em diálogo com que, s poema contato com conservocê entrará em vam as perspectivas vam ideias que desafia á-lo a retoromântica, divulga ser a base para convid ção e . Esses textos vão vadoras da época io, preposição, conjun palavras verbo, advérb classes de pamar as classes de analisar como essas possa que a . Assim, maneir interjeição, de sentidos dos textos na construção dos e terá gadas língua empre da lavras são usos e sentidos refletir sobre os próvocê também poderá as ao produzir seus mia para fazer escolh ao verificar as mais domínio e autono a dinâmica da língua , ainda, observar entrevista uma indo prios textos. Poderá ista, produz s de uma entrev o transprecis é o características básica quand árias as adaptações necess oral e lidando com idiático. impresso ou multim crevê-la para veículo Literatura sia (II) Romantismo: poe romântica A terceira geração tráfico XIX, a extinção do da metade do século econômiNo Brasil, na segun ência de novas forças em 1850, e a emerg crescente negreiro, ocorrida mia cafeeira e o volvimento da econo de visões de cas – como o desen tavam mudanças s urbanos – fomen comércio nos centro da Editora/Reprodução/ RJ/Reprodução/Acervo Commons/Reprodução/ Ana Marina Coutinho/UF ção/Wikipedia/Wikimedia Conteúdo/AE Magalhães/Estadão Arquivo Nacional, RJ./Reprodu Arquivo Nacional, RJ./Otávio cap ítul o intelectualis conquistavam a licanas e abolicionista da sociedade ente, ideias repub e escravocratas) mundo. Progressivam rvadores (imperialistas ram, entre os redutos conse romântica exerce terceira geração dade e desafiavam da s poeta os ideias. contexto que ação dessas novas brasileira. Foi nesse tante papel na divulg (1802-1885), e 1870, um impor r francês Victor Hugo as décadas de 1860 escrito pelo te para o “ouciados principalmen de atenção do “eu” Tais poetas, influen s, deslocando o centro recebeu de os problemas sociai da influência que voltaram-se para exterior. Em razão reira. O condor, ave interior para o mundo hugoana ou condo da tro”, ou seja, do mundo chama foi tica poetas tinham ra geração român vo da visão que os Victor Hugo, a tercei voos, é representati poesia que produ grande porte e altos longe. Portanto, a sul-americana de is, elevados, que viam um meio que acred de anseios nobre de tais anseios e de si: detentores alto, era o reflexo processo social. retumbante, de voo assim, interferir no e, lidade ziram, vigorosa e menta na também suscitar mudanças o. Além dele, figuram tavam ser capaz de a do condoreirism 1884) e Sousândraal expressão poétic Pedro Luís (1839Castro Alves é a princip a Amália (1852-1924), tica. o romântica Narcis tos, da estética român na terceira geraçã cia, em certos aspec cuja obra se distan autor 1902), de (1833- Carrossel de imagens da Algumas autoras literatura brasileira, da de cima para baixo, esquerda para a direita: ra, Eliane Potigua Maria Benedita a Bormann, Carolin Maria de Jesus, Cora Coralina, Júlia ae Lopes de Almeid z. Rachel de Queiro Literatura 55 54 Foco no texto Seção que consta da parte de Literatura e de Língua e linguagem com o objetivo de apresentar um texto/uma imagem acompanhado(a) de atividades para que você identifique nele(a) seus sentidos e o tópico em estudo. E N T R E SA B E OS Nesta seção, a ideia é promover um diálogo entre textos distintos, mas que exploram um mesmo tema, muitas vezes de autores e épocas diferentes, procurando expandir as possibilidades de estabelecer relações. RES Nesta seção, a proposta é convidá-lo a explorar a interdisciplinaridade, ou seja, discutir um tema conectando seus estudos do componente curricular Língua Portuguesa com outras áreas do conhecimento. 6 E NTRE TEX T E N T R E L IN G U AG E N S Na seção Entre linguagens, o objetivo é convidá-lo a estabelecer relações em torno de um mesmo tema, desenvolvido em diferentes linguagens. Aplique o que aprendeu E L Í N G UA L IN G UAG E M Texto e enunciação dos de língua É a parte dos estu ica do capítulo e análise linguíst textos autênticos. tendo como base Seção da parte de Língua e linguagem em que, tendo a análise de um texto como base, são explorados os sentidos desse texto e o recurso linguístico em estudo. Não escreva no livro. Língua e linguagem Variação linguística: tipos de variação, norma e usos da língua Foco no texto do Na seção Entre Saberes deste capítulo, você leu um trecho da qual início do romance O cortiço. A seguir, você vai ler uma cena portuparticipam três outros personagens: Jerônimo, um imigrante também guês que veio tentar a vida no Brasil; sua mulher, Piedade, cena, portuguesa, e Rita Baiana, todos moradores do cortiço. Nessa dele, mas Jerônimo está em casa acamado e Rita aparece para cuidar Piedade não está muito satisfeita com essa situação. — ‘Stá bem, filha, não vais tratar do teu serviço?... [diz Jerônimo a Piedade] — Não te dê isso cuidado! Não parou o trabalho! Pedi à Leocádia […] não que me esfregasse a roupa. Ela hoje tinha pouco que fazer e... há transtorno!... [responde Piedade] — Transtorno já é estar eu parado; e o pior será pararem os dois! — Eu queria ficar a teu lado, Jeromo! — E eu acho que isso é tolice! Vai! anda! a Ela ia retirar-se, como um animal enxotado, quando deu com a fumeRita, que entrava muito ligeira e sacudida, trazendo na mão grosso gante palangana de café com parati e no ombro um cobertor para dar um suadouro ao doente. — Ah! fez Piedade, sem encontrar uma palavra para a mulata. como E deixou-se ficar. Rita, despreocupadamente, alegre e benfazeja sempre, pousou a vasilha sobre a cômoda do oratório e abriu o cobertor. — Isso é que o vai pôr fino! disse. Vocês também, seus portugueses, última por qualquer coisinha ficam logo pra morrer, com uma cara da hora! E ai, ai, Jesus, meu Deus! Ora esperte-se! Não me seja maricas! perEle riu-se assentando-se na cama. — Pois não é assim mesmo? guntou ela a Piedade, apontando para o carão barbado de Jerônimo. Olhe só pr’aquela cara e diga-me se não está a pedir que o enterrem! resA portuguesa não dizia nada, sorria contrafeita, no íntimo, pelo sentida contra aquela invasão de uma estranha nos cuidados o seu homem. Não era a inteligência nem a razão o que lhe apontava pelas perigo, mas o instinto, o faro sutil e desconfiado de toda fêmea exposto. ninho seu o outras, quando sente Competências específicas da área de Linguagens: 1, 2, 3, 4, 6 Habilidades específicas da área de Linguagens: EM13LGG101, EM13LGG102, EM13LGG103, EM13LGG201, EM13LGG202, EM13LGG203, EM13LGG301, EM13LGG302, EM13LGG401, EM13LGG402, EM13LGG601, EM13LGG604 Habilidades específicas de Língua Portuguesa: EM13LP01, EM13LP02, EM13LP06, EM13LP08, EM13LP09, EM13LP10, EM13LP46, EM13LP52 parati: aguardente, cachaça. suadouro: medicação para provocar transpiração. benfazeja: afetuosa, generosa. vai pôr fino: curar. esperte-se: anime-se. 1. (Urca-CE, 2020) somente Seção que consta 3 da obra. dos volumes 2 e exames Traz questões de mentadas co de larga escala que você ra pa s em detalhe mo possa entender co tivas na diferenciar as alter a tiv na er alt incorretas da es tõ es qu correta em objetivas. Habilidades específicas de Língua Portuguesa: EM13LP01, EM13LP02, EM13LP05, EM13LP06, EM13LP07, EM13LP11, EM13LP12, EM13LP15, EM13LP27, EM13LP28, EM13LP32, EM13LP34, EM13LP37, EM13LP38, EM13LP39, EM13LP43, EM13LP45 Reprodução/Jornal Nacional/TV Globo Carrossel de imagens Na unidade anterior, você estudou a notícia, gênero que é o centro do universo jornalístico. Neste capítulo, você vai estudar outro gênero jornalístico: a reportagem. Foco no gênero Para dar início ao estudo do gênero textual reportagem, leia o texto a seguir. Amazônia Legal tem o maior desmatamento em 15 anos, aponta Imazon Dados do Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD) do Instituto apontam que de agosto de 2021 a julho de 2022, foram derrubados 10.781 km² de floresta, área que equivale a sete vezes a cidade de São Paulo. O Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) anunciou nesta quarta-feira (17) que a área de floresta desmatada da Amazônia Legal em 2022 foi a maior dos últimos 15 anos. De agosto de 2021 a julho de 2022, foram derrubados 10.781 km² de floresta, o que equivale a sete vezes a cidade de São Paulo. Foco no gênero Na parte de Produção de texto, esta seção propõe a análise de um modelo do gênero em foco. Os dados são do Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD) do instituto, que diferem da metodologia do Deter, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que também divulgou números na última sexta-feira (12). Segundo o Imazon, os satélites usados são mais refinados que os dos sistemas do governo e são capazes de detectar áreas devastadas a partir de 1 hectare, enquanto os aler- Desmatamento na Amazônia Legal. 122 Produção de texto Somadas, as áreas destruídas nos últimos dois calendários chegaram a 21.257 km², quase o tamanho do estado de Sergipe. Os dados do instituto também apontam que essa foi a quarta vez seguida em que a devastação atingiu o maior patamar desde 2008, quando o Imazon iniciou o monitoramento com o SAD. de Caminha. de. A Carta de Pero Vaz f>) (CAMINHA, Pero Vaz ivros_eletronicos/carta.pd ital.bn.br/Acervo_Digital/l Disponível em <http://objdig MENTE: de Caminha revela PRINCIPAL de No trecho citado, a atitude que denota o desejo da palavra “bestial”, a) racismo, pelo emprego por serem como animais. escravizar os índios, e dediferenças culturais de compreender as b) tolerância, pelo esforço Carta. Rei, destinatário da fendê-las diante do a diversidade da cultura apreciar negativamente c) etnocentrismo, por modo de viver europeu. critérios baseados no do Outro, por meio de os aspecíndio se dá em todos desqualificação do d) xenofobia, pois a es. não serem portugues tos, pelo fato de eles o direito de os portugueses têm que implícito está e) autoritarismo, pois crenças. de seus costumes e impor aos índios a adoção Com ent‡ rio o, que corresponde à Alternativa c. o conceito de etnocentrism ao descrever é importante ter em mente própria sociedade. Caminha, (“como padrões e valores da Para responder à questão, que vivem como animais culturas com base nos e sem morada, sugerindo e um modo tendência de avaliar outras bestial”, “de pouco saber” por quem tem uma cultura Caminha os indígenas como “gente uma presunção de superioridade e desprezo trecho do texto em análise, que aves ou alimárias”), expressa alternativa a, há informações a mais, pois, no discordante, uma vez Na Na alternativa b, há informação de vida diferente do seu. compreender e defender de escravizar os indígenas. revela o interesse de não expressa desejo assinalada. ser esquiva”, “bestial”, não deve e “gente como correta está Caminha, ao usar expressões A alternativa c, portanto, indígenas por a desqualificação dos indígenas diante do rei. destaque , pois não há, no texto, em diferenças culturais dos texto no discordante informação não há elementos Na alternativa d, há também alternativa e, há informações a mais, já que dos portugueses. s. Na não serem portuguese os costumes e as crenças de impor aos indígenas que indiquem o anseio 302 É uma proposta de ento na organização de ev rtilhar as pa escola para com a com a rm tu produções da . lar co es e ad comunid H A R: O M PA RT IL H O RA D E C JORNAL DE CIÊNCIA E CULTUR A BNCC Competências gerais da Educação Básica: 1, 2, 3, 4, 5, 8, 10 Competências específicas da área de Linguagens: 1, 3, 6, 7 tas do Inpe levam em conta áreas maiores que 3 hectares (entenda mais abaixo). Ainda de acordo com os novos dados do Imazon, essa foi a segunda vez consecutiva em que o desmatamento passou dos 10 mil kmá no período. ou maneira delas.” E HORA D R C O M PA R T IL H A Produção de texto Reportagem hou um a literatura desempen identidade nacional, Na formação de nossa e modos de expressão a, determinando temas o mundo papel de extrema importânci nossa maneira de ver muito presentes em que que que, ainda hoje, são a seguir e assinale o atentamente o trecho e falar sobre ele. Leia se pede: nundisse, já que o deu que a Capitão teve nas naus, e por “Os outros dois, que o bestial, de pouco saber – do que tiro ser gente muito ca mais aqui apareceram muito bem curados e e com tudo isso andam monisso tão esquiva. Porém são como aves ou alimárias parece ainda mais que porque os limpos. E naquilo me mansas, às que cabelo melhor pena e melhor teses, às quais faz o ar que não pode mais ser. tão gordos e tão formosos, corpos seus são tão limpos, que se acolham, e casas nem moradas a têm não que casa Isto me faz presumir até agora vimos nenhuma faz tais. Nem nós ainda o ar, a que se criam, os 191 É a parte do capí tulo com propos ta de análise de gênero s considerando, além de suas caracter ísticas e da situa ção comunicativa em que se encontra m, o contexto de prod ução deles. BNCC DE TÕE S DA S QUES CO M EN TA EX AM ES (Bom Livro). PR OD UÇÃO DE TE XT O Competências gerais da Educação Básica: 1, 2, 4, 7, 9, 10 Na parte de Língua e linguagem, esta seção desenvolve o tópico em estudo e explora os conceitos por meio da leitura de textos autênticos. ES DE EXAM S E Õ T S QUE C O M E N TA DAS palangana: regionalismo das regiões Norte e Nordeste do Brasil para se referir a uma xícara grande. Língua e linguagem Competências específicas de Linguagens: 1, 3, 4, 7 Habilidades específicas de Linguagens: EM13LGG101, EM13LGG102, EM13LGG103, EM13LGG104, EM13LGG202, EM13LGG301, EM13LGG302, EM13LGG303, EM13LGG304, EM13LGG402 Reflexões sobre a língua Hora de produzir Seção da parte de Produção de texto em que é sugerida a produção do gênero em estudo. Habilidades específicas da área de Linguagens: EM13LGG101, EM13LGG103, EM13LGG104, EM13LGG201, EM13LGG202, EM13LGG204, EM13LGG301, EM13LGG302, EM13LGG303, EM13LGG304, EM13LGG305, EM13LGG402, EM13LGG601, EM13LGG602, EM13LGG603, EM13LGG604, EM13LGG701, EM13LGG703 prátiNas unidades 3 e 4, você produziu textos dos campos das cas de estudo e pesquisa, artístico-literário e jornalístico-midiático. nas redes Discutiu temas como demência, feminismo, cancelamento longo dos sociais e leu crônicas e resenhas críticas de obra literária. Ao opinião, capítulos, produziu artigo de divulgação científica, artigo de crônica e resenha. e Agora, você vai participar da organização de um jornal de ciência a cultura, impresso ou digital, no qual será apresentada à comunidade exposto produção feita por vocês ao longo do semestre. O jornal será em um evento escolar. Habilidades específicas de Língua Portuguesa: EM13LP01, EM13LP04, EM13LP09, EM13LP13, EM13LP15, EM13LP16, EM13LP21, EM13LP46, EM13LP47 Macrovector/Shutterstock AZEVEDO, Aluísio. O cortiço. ô0. ed. São Paulo: Ática, 1997. p. 59-60. BNCC Competências gerais da Educação Básica: 1, 3, 4, 7, 9 Seção da parte de Língua e linguagem em que se reforça o estudo do tópico desenvolvido. 298 7 O I R Á M U S O trabalho com a BNCC ...........................................12 Produções em foco........................................................14 UNIDADE 1 Olhares em perspectiva ......................................16 CAPÍTULO 1 Romantismo: poesia (I) / Classes de palavras: revisão (I) / Notícia e enquete ................19 LITERATURA Romantismo: poesia (I)...........................................................19 Contexto de produção e recepção do Romantismo ..........................................................................19 Meios de circulação......................................................... 20 Romantismo em contexto .................................................. 20 Foco no texto.....................................................................................21 Texto: “I-Juca-Pirama” (trecho), de Gonçalves Dias ............... 21 Entre saberes: Reflexões sobre o despertar da nacionalidade brasileira e sobre a situação das mulheres escritoras no século XIX ..................................24 Romantismo no Brasil: três gerações de poetas ......................................................................................26 Primeira geração romântica: Gonçalves Dias ....................................................................26 Segunda geração romântica: Álvares de Azevedo .......................................................... 27 Foco no texto....................................................................................28 Texto: “A T...” (trecho), de Álvares de Azevedo ........................ 28 Entre textos .................................................................................... 30 Texto 1: “Canção do exílio”, de Gonçalves Dias .......................30 Texto 2: “Pátria minha”, de Vinicius de Moraes ......................30 LÍNGUA E LINGUAGEM Classes de palavras: revisão (I) – substantivo, adjetivo, artigo, numeral e pronome ..........................32 Foco no texto....................................................................................32 Texto: “A T...” (trecho), de Álvares de Azevedo ........................ 32 Reflexões sobre a língua............................................................33 Substantivo, adjetivo, artigo e numeral ........................33 Aplique o que aprendeu ................................................................34 Pronomes......................................................................................36 Pronomes pessoais, pronomes de tratamento e pronomes possessivos .....................36 Texto 1: “A miragem”, de Vinicius de Moraes ........................... 36 Texto 2: “Você sabe quem vos fala?”, de Carolina Delboni ............................................................................ 36 Texto 3: “Meu caro amigo”, de Chico Buarque..........................37 Pronomes demonstrativos, indefinidos e interrogativos .......................................................................39 Relação espacial ................................................................ 40 8 Relação temporal .............................................................. 40 Relação textual .....................................................................41 Pronomes relativos.............................................................41 Aplique o que aprendeu ................................................................42 Texto e enunciação .......................................................................45 Texto: “O crime de propaganda enganosa...”, propaganda ..................................................................................... 45 PRODUÇÃO DE TEXTO Notícia e enquete ......................................................................46 Notícia .............................................................................................46 Foco no gênero ............................................................................... 47 Texto: “Dinossauro mais antigo do Nordeste é descoberto por pesquisadores da UFPE”, de Maria Priscila Martins .............................................................47 Enquete ......................................................................................... 50 Hora de produzir ............................................................................ 50 Notícia ............................................................................................ 50 Hora de produzir ............................................................................ 50 Notícia em outras mídias: em áudio e modalidades audiovisuais .............................................52 CAPÍTULO 2 Romantismo: poesia (II) / Classes de palavras: revisão (II) / Entrevista ................................................. 54 LITERATURA Romantismo: poesia (II) ........................................................54 Terceira geração romântica................................................54 Castro Alves ..........................................................................56 Foco no texto....................................................................................56 Texto: “O navio negreiro”, de Castro Alves .............................. 56 Narcisa Amália ..................................................................... 58 Foco no texto....................................................................................59 Texto: “O africano e o poeta”, de Narcisa Amália ................... 59 LÍNGUA E LINGUAGEM Classes de palavras: revisão (II) – verbo, advérbio, conjunção, preposição e interjeição .....................................................63 Foco no texto....................................................................................63 Entre saberes: A escravização de negros africanos na história do Brasil ..............................................65 Reflexões sobre a língua........................................................... 68 Verbos............................................................................................ 68 Modo indicativo.................................................................. 68 Modo subjuntivo .................................................................70 Modo imperativo ................................................................. 71 Formas nominais .................................................................. 71 Advérbios ...................................................................................... 72 Preposições e conjunções ................................................. 73 Conjunções coordenativas .......................................... 74 Conjunções subordinativas.......................................... 75 Integrantes ............................................................................. 75 Adverbiais ............................................................................... 75 Interjeições .................................................................................. 77 Aplique o que aprendeu .................................................................77 Texto e enunciação ....................................................................... 79 Texto: “Se essa bolha fosse minha”, de Gregório Duvivier .....................................................................79 PRODUÇÃO DE TEXTO Entrevista .........................................................................................83 Foco no gênero ...............................................................................83 Texto: “Entrevista: Carlos Nobre afirma que mudanças climáticas são o maior desafio da humanidade”, de Leandro Reis .............................................................................. 83 Hora de produzir ............................................................................ 89 UNIDADE 2 O tempo de cada um..............................................92 Foco no gênero .............................................................................122 Texto: “Amazônia Legal tem o maior desmatamento em 15 anos, aponta Imazon”, de Roberto Peixoto ................. 122 Hora de produzir ...........................................................................126 CAPÍTULO 4 Romantismo: prosa (II) / Análise sintática: período simples (revisão) / Fotorreportagem .............................................................129 LITERATURA Romantismo: prosa (II)........................................................ 130 A prosa gótica ......................................................................... 130 Álvares de Azevedo .........................................................131 Foco no texto...................................................................................131 Texto: “Gennaro”, de Álvares de Azevedo ............................... 131 Maria Firmina dos Reis ..................................................135 Foco no texto..................................................................................136 Texto: Úrsula (trecho), de Maria Firmina dos Reis .......................................................................... 136 CAPÍTULO 3 Romantismo: prosa (I) / Concordância nominal e concordância verbal / Reportagem ..........................................................................95 LITERATURA Romantismo: prosa (I) ............................................................96 A prosa romântica no Brasil ................................................96 José de Alencar: o romance indianista...................96 Foco no texto.................................................................................... 97 Texto: “Iracema”, de José de Alencar .........................................97 Entre saberes: A identidade nacional no tempo do Romantismo ........................................................................... 101 Manuel Antônio de Almeida: o romance urbano ........................................................... 105 Foco no texto................................................................................. 105 Texto: Memórias de um sargento de milícias (trecho), de Manuel Antônio de Almeida ................................................105 Entre textos .................................................................................. 108 Texto: “Os Arcos da Carioca”, de Ruy Castro .........................108 LÍNGUA E LINGUAGEM Concordância nominal e concordância verbal ................................................................................................. 110 Reflexões sobre a língua............................................................111 Casos especiais de concordância nominal ..............112 Aplique o que aprendeu ...............................................................114 Concordância verbal: casos especiais, segundo a norma-padrão...................................................115 Aplique o que aprendeu ............................................................... 117 Concordância, variação linguística e preconceito ............................................................................119 Texto e enunciação .................................................................... 120 Texto: “Feminismo é uma construção”, de Nádia Lapa .................................................................................... 120 PRODUÇÃO DE TEXTO Reportagem .................................................................................122 LÍNGUA E LINGUAGEM Análise sintática: período simples (revisão) ................................................ 140 Foco no texto................................................................................. 140 Reflexões sobre a língua..........................................................142 Sujeito, predicado e predicação verbal.....................142 Aplique o que aprendeu .............................................................143 Termos ligados ao verbo: objetos direto e indireto e adjunto adverbial ..............................................145 Aplique o que aprendeu .............................................................146 Termos ligados ao nome: adjunto adnominal e complemento nominal..................................................... 147 Aplique o que aprendeu ............................................................. 147 Predicativo do sujeito, predicativo do objeto e tipos de predicado ........................................... 148 Aplique o que aprendeu .............................................................149 Tipos de sujeito ...................................................................... 150 Aplique o que aprendeu ............................................................ 150 Aposto e vocativo ...................................................................151 Aplique o que aprendeu ..............................................................151 Texto e enunciação .....................................................................152 Texto: “Coisas ridículas para roteiros”, de Tati Bernardi ........................................................................... 152 PRODUÇÃO DE TEXTO Fotorreportagem .....................................................................154 Foco no gênero .............................................................................154 Texto: “Em parceria com Pulitzer, A Lente apresenta ‘A guerra invisível na Amazônia’”, de Ahmad Jarrah e Juliana Palmo .................... 154 Hora de produzir .......................................................................... 158 Hora de compartilhar: Jornal de variedades................................................. 160 Questões de exames comentadas.........164 9 Em busca da verdade ..........................................170 LITERATURA Realismo e Naturalismo: Júlia Lopes de Almeida e Eça de Queirós ...................................... 209 CAPÍTULO 5 Realismo: Júlia Lopes de Almeida ............................... 209 Foco no texto................................................................................. 210 UNIDADE 3 Realismo, Naturalismo e Parnasianismo (I) / Variação linguística: tipos de variação, norma e usos da língua / Artigo de divulgação científica ................................................................................173 LITERATURA Realismo, Naturalismo e Parnasianismo (I) ......... 174 Contexto de produção e recepção do Realismo, do Naturalismo e do Parnasianismo ...... 174 Meios de circulação........................................................ 175 Realismo, Naturalismo e Parnasianismo em contexto....................................................................................... 175 Foco no texto ................................................................................. 175 Texto: Memórias póstumas de Brás Cubas (trecho), de Machado de Assis ....................................................................176 Entre saberes: Teorias influentes no século XIX ................................................................................ 178 Realismo e Naturalismo ...................................................... 181 Realismo: Machado de Assis .....................................182 Dom Casmurro ...............................................................182 Foco no texto..................................................................................183 Texto: Dom Casmurro (trecho), de Machado de Assis ................................................................... 183 Entre textos ................................................................................... 187 Texto 1: Dom Casmurro (trecho), de Machado de Assis ....................................................................187 Texto 2: A audácia dessa mulher (trecho), de Ana Maria Machado ..............................................................188 LÍNGUA E LINGUAGEM Variação linguística: tipos de variação, norma e usos da língua ........................................................191 Foco no texto...................................................................................191 Texto: O cortiço (trecho), de Aluísio Azevedo ........................ 191 Realismo-Naturalismo: Eça de Queirós .....................213 Foco no texto..................................................................................214 Texto: Os Maias (trecho), de Eça de Queirós ......................... 214 Parnasianismo: Olavo Bilac .............................................. 217 Olavo Bilac ..................................................................................218 Foco no texto..................................................................................219 Texto 1: “Rio abaixo”, de Olavo Bilac ........................................ 219 Texto 2: “XXXI”, de Olavo Bilac ................................................ 219 Entre textos ................................................................................... 221 Texto: Cem anos de solidão (trecho), de Gabriel García Márquez ........................................................ 221 LÍNGUA E LINGUAGEM Modalização e impessoalização da linguagem ..............................................................................224 Foco no texto.................................................................................224 Texto: Os Maias (trecho), de Eça de Queirós ........................ 224 Reflexões sobre a língua.........................................................225 Aplique o que aprendeu ............................................................. 227 Estratégias de impessoalização ...................................229 Texto e enunciação ................................................................... 230 Texto: Tira, de Will Leite ...........................................................230 PRODUÇÃO DE TEXTO Artigo de opinião ....................................................................232 Foco no gênero ............................................................................232 Texto: “Quantos likes vale a revolta?”, de Djamila Ribeiro .......................................................................232 Hora de produzir .......................................................................... 237 Texto 1: “Cultura do cancelamento e suas consequências jurídicas”, de Fernanda Galera Soler .......................................237 Texto 2: "Quais seriam os principais comportamentos que levariam você a cancelar alguém?", gráfico.......................... 238 Texto 3: "Grande parte tem noção do que essas práticas podem representar - e suas consequências", infográfico ............... 239 Reflexões sobre a língua..........................................................192 Variação diacrônica ...............................................................192 Variação diatópica .................................................................193 Variação diastrática ...............................................................193 Variação diamésica................................................................193 Variação de registro..............................................................193 UNIDADE 4 Aplique o que aprendeu ..............................................................194 Palavra e música...................................................... 242 Texto e enunciação .....................................................................196 PRODUÇÃO DE TEXTO Artigo de divulgação científica ....................................199 Foco no gênero .............................................................................199 Texto: “Poluição e demência”, de Drauzio Varella ................ 199 Entre saberes: Ciência e informação ......................... 204 Hora de produzir ......................................................................... 205 CAPÍTULO 6 Realismo, Naturalismo e Parnasianismo (II) Modalização e impessoalização da linguagem / Artigo de opinião.................................208 10 Texto: A falência (trecho), de Júlia Lopes de Almeida .........................................................210 CAPÍTULO 7 Simbolismo (I) / Regência verbal e regência nominal / Crônica............................................................ 245 LITERATURA Simbolismo (I) ............................................................................245 Contexto de produção e recepção do Simbolismo ........................................................................245 Meios de circulação....................................................... 247 Simbolismo em contexto ............................................248 Foco no texto.................................................................................249 Texto: “Siderações”, de Cruz e Sousa...................................... 249 Entre saberes: Dinamismo no universo artístico e científico do Simbolismo .............................251 Simbolismo ...............................................................................253 Cruz e Sousa ......................................................................253 Foco no texto.................................................................................254 Texto: “Crianças negras”, de Cruz e Sousa ............................ 254 LÍNGUA E LINGUAGEM Regência verbal e regência nominal ...................... 257 Foco no texto................................................................................. 257 Texto: “Crianças negras”, de Cruz e Sousa .............................257 Reflexões sobre a língua.........................................................258 Regência verbal......................................................................259 Aplique o que aprendeu ............................................................ 260 Regência nominal ..................................................................262 Aplique o que aprendeu .............................................................263 Texto e enunciação ....................................................................264 Texto: “Demora”, de Lucão........................................................ 264 PRODUÇÃO DE TEXTO Crônica ............................................................................................265 Foco no gênero ............................................................................265 Texto: “O puxador de palmas”, de Antonio Prata ................ 265 Hora de produzir ........................................................................... 271 Texto: “O olhar da truta”, de Luis Fernando Verissimo ........................................................................................271 CAPÍTULO 8 Simbolismo (II) / Análise linguística: retomadas / Resenha crítica e videorresenha ....................................................................274 LITERATURA Simbolismo (II) .......................................................................... 275 Alphonsus de Guimaraens ............................................... 275 Foco no texto................................................................................. 276 Texto: “Hão de chorar por ela os cinamomos…”, de Alphonsus de Guimaraens ...................................................276 Entre saberes: Reflexões sobre racismo ..................277 Entre textos ...................................................................................281 Texto 1: “Emparedado”, de Cruz e Sousa ................................ 281 Texto 2: “A cor da pele”, de Adão Ventura .............................. 282 Entre linguagens .......................................................................283 LÍNGUA E LINGUAGEM Análise linguística: retomadas .....................................284 Aplique o que aprendeu 1 ..........................................................284 Aplique o que aprendeu 2 .........................................................286 Aplique o que aprendeu 3 ......................................................... 287 PRODUÇÃO DE TEXTO Resenha crítica........................................................................ 290 Foco no gênero ........................................................................... 290 Texto: “Quarto de despejo – Carolina Maria de Jesus”, de Isabela Araújo ........................................................................290 Hora de produzir ..........................................................................293 Videorresenha ..........................................................................295 Foco no gênero ............................................................................295 Hora de produzir ..........................................................................296 Hora de compartilhar: Jornal de ciência e cultura ..........................298 Questões de exames comentadas ..... 302 Transcrição de áudios................................... 308 Referências bibliográficas comentadas ............................................................ 311 IS O B JE T O S D IG ITA Como identificar fake news ................ 126 José de Alencar: vida e obra ............... 96 Machado de Assis: vida e obra ......... 182 Infográfico clicável Luís Gama: vida e obra ............................ 280 Podcast Como fazer uma fotorreportagem ......................................... 158 Modalização e impessoalização........ 224 Romantismo brasileiro ............................ 26 Entrevista: mais do que perguntas e respostas ..................................................... 89 Vídeo Apresentação oral de resenha crítica .................................................................. 290 Mapa clicável Escritoras invisibilizadas ....................... 55 Carrossel de imagens Alguns biomas brasileiros .................... 122 Contexto histórico do Romantismo .................................................. 19 Transcrição de áudios ............................. 308 Transcrição de áudio 11 OT NC B A M O C R A BA L H O C A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) é o documento que define as aprendizagens mínimas que os estudantes de todo o Brasil devem desenvolver em cada etapa da Educação Básica. Esse documento foi elaborado prevendo os conhecimentos e as habilidades essenciais para o desenvolvimento dos estudantes em cada área do conhecimento (Matemática e suas Tecnologias; Linguagens e suas Tecnologias; Ciências da Natureza e suas Tecnologias; Ciências Humanas e Sociais Aplicadas) e seus componentes curriculares com o objetivo de garantir uma educação de qualidade e com equidade. A BNCC prevê também o trabalho com Temas Contemporâneos Transversais (TCTs) para incentivar a conscientização a respeito de questões que podem afetar o presente e o futuro de todos. A seguir, indicam-se os códigos das competências e habilidades mobilizadas ao longo dos estudos com este volume, assim como os TCTs favorecidos. Os descritivos desses códigos estão no documento oficial da BNCC, disponível em: https://tedit.net/2x9e1m. Acesso em: 30 abr. 2025. Unidade 1 – Olhares em perspectiva A BNCC nesta unidade Competências gerais da Educação Básica 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 10 Competências e habilidades específicas da área de Linguagens e suas Tecnologias para o Ensino Médio Competências 1, 2, 3, 4, 6, 7 Habilidades EM13LGG101, EM13LGG102, EM13LGG103, EM13LGG104, EM13LGG105, EM13LGG201, EM13LGG202, EM13LGG203, EM13LGG204, EM13LGG301, EM13LGG302, EM13LGG303, EM13LGG401, EM13LGG402, EM13LGG601, EM13LGG602, EM13LGG604, EM13LGG701, EM13LGG703, EM13LGG704 Habilidades de Língua Portuguesa para o Ensino Médio EM13LP01, EM13LP02, EM13LP03, EM13LP04, EM13LP05, EM13LP06, EM13LP07, EM13LP08, EM13LP09, EM13LP10, EM13LP11, EM13LP12, EM13LP13, EM13LP14, EM13LP15, EM13LP16, EM13LP17, EM13LP18, EM13LP20, EM13LP27, EM13LP28, EM13LP30, EM13LP31, EM13LP32, EM13LP33, EM13LP34, EM13LP38, EM13LP39, EM13LP40, EM13LP42, EM13LP43, EM13LP46, EM13LP48, EM13LP49, EM13LP50, EM13LP52, EM13LP53 Temas Contemporâneos Transversais (TCTs) Diversidade Cultural; Educação Ambiental; Educação em Direitos Humanos; Educação para valorização do multiculturalismo nas matrizes históricas e culturais Brasileiras 12 P1_2IDPort_g26Sa_012a013_TRABALHO_BNCC_LE.indd 12 02/05/25 11:45 Unidade 2 – O tempo de cada um A BNCC nesta unidade Competências gerais da Educação Básica 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10 Competências e habilidades específicas da área de Linguagens e suas Tecnologias para o Ensino Médio Competências 1, 2, 3, 4, 6, 7 Habilidades EM13LGG101, EM13LGG102, EM13LGG103, EM13LGG104, EM13LGG201, EM13LGG202, EM13LGG203, EM13LGG204, EM13LGG301, EM13LGG302, EM13LGG303, EM13LGG304, EM13LGG305, EM13LGG401, EM13LGG402, EM13LGG403, EM13LGG601, EM13LGG602, EM13LGG603, EM13LGG604, EM13LGG701, EM13LGG703, EM13LGG704 Habilidades de Língua Portuguesa para o Ensino Médio EM13LP01, EM13LP02, EM13LP03, EM13LP04, EM13LP05, EM13LP06, EM13LP07, EM13LP08, EM13LP09, EM13LP10, EM13LP11, EM13LP12, EM13LP14, EM13LP15, EM13LP16, EM13LP18, EM13LP19, EM12LP20, EM13LP21, EM13LP27, EM13LP28, EM13LP30, EM13LP32, EM13LP33, EM13LP34, EM13LP36, EM13LP37, EM13LP38, EM13LP39, EM13LP41, EM13LP42, EM13LP43, EM13LP45, EM13LP46, EM13LP47, EM13LP48, EM13LP49, EM13LP50, EM13LP51, EM13LP52, EM13LP53 Temas Contemporâneos Transversais (TCTs) Diversidade Cultural; Educação Ambiental; Educação para valorização do multiculturalismo nas matrizes históricas e culturais Brasileiras Unidade 3 – Em busca da verdade A BNCC nesta unidade Competências gerais da Educação Básica 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10 Competências e habilidades específicas da área de Linguagens e suas Tecnologias para o Ensino Médio Competências 1, 2, 3, 4, 6, 7 Habilidades EM13LGG101, EM13LGG102, EM13LGG103, EM13LGG104, EM13LGG201, EM13LGG202, EM13LGG203, EM13LGG204, EM13LGG301, EM13LGG302, EM13LGG303, EM13LGG304, EM13LGG305, EM13LGG401, EM13LGG402, EM13LGG601, EM13LGG602, EM13LGG604, EM13LGG701, EM13LGG702, EM13LGG704 Habilidades de Língua Portuguesa para o Ensino Médio EM13LP01, EM13LP02, EM13LP03, EM13LP04, EM13LP05, EM13LP06, EM13LP07, EM13LP08, EM13LP09, EM13LP10, EM13LP11, EM13LP13, EM13LP14, EM13LP15, EM13LP26, EM13LP27, EM13LP28, EM13LP29, EM13LP30, EM13LP31, EM13LP32, EM13LP34, EM13LP36, EM13LP38, EM13LP40, EM13LP41, EM13LP43, EM13LP45, EM13LP46, EM13LP48, EM13LP49, EM13LP50, EM13LP52 Temas Contemporâneos Transversais (TCTs) Ciência e Tecnologia; Educação Ambiental; Direitos da Criança e do Adolescente; Educação em Direitos Humanos; Processo de envelhecimento, respeito e valorização do Idoso; Saúde Unidade 4 – Palavra e música A BNCC nesta unidade Competências gerais da Educação Básica 1, 2, 3, 4, 5, 7, 8, 9, 10 Competências e habilidades específicas da área de Linguagens e suas Tecnologias para o Ensino Médio Competências 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7 Habilidades EM13LGG101, EM13LGG102, EM13LGG103, EM13LGG104, EM13LGG201, EM13LGG202, EM13LGG203, EM13LGG204, EM13LGG301, EM13LGG302, EM13LGG303, EM13LGG304, EM13LGG305, EM13LGG306, EM13LGG401, EM13LGG402, EM13LGG601, EM13LGG602, EM13LGG603, EM13LGG604, EM13LGG701, EM13LGG703 Habilidades de Língua Portuguesa para o Ensino Médio EM13LP01, EM13LP02, EM13LP03, EM13LP04, EM13LP05, EM13LP06, EM13LP07, EM13LP08, EM13LP09, EM13LP10, EM13LP13, EM13LP14, EM13LP15, EM13LP16, EM13LP20, EM13LP21, EM13LP28, EM13LP29, EM13LP30, EM13LP32, EM13LP34, EM13LP45, EM13LP46, EM13LP47, EM13LP48, EM13LP49, EM13LP50, EM13LP51, EM13LP52, EM13LP53, EM13LP54 Temas Contemporâneos Transversais (TCTs) Educação em Direitos Humanos; Educação para valorização do multiculturalismo nas matrizes históricas e culturais Brasileiras; Saúde 13 PRODUÇÕES EM FOCO Ilustrações: Gabi Emmerich/Arquivo da editora Conheça, a seguir, as produções que este livro vai convidar você a fazer na seção Hora de produzir dos capítulos de cada uma das quatro unidades para depois compartilhar com a comunidade escolar nos eventos organizados pela turma na seção Hora de compartilhar ao final das unidades pares. UNIDADE 1 Notícia e enquete • No capítulo 1, você vai ser convidado a experimentar práticas do campo jornalístico-midiático, particularmente notícias, em variados formatos: impressa, em podcast e em vídeo. Vai ter a oportunidade de avaliar o que é preciso transformar, ajustar, de uma modalidade para outra, ou seja, do impresso para o podcast e para o vídeo. Outra produção desse capítulo é a enquete, um gênero das práticas de estudo e pesquisa utilizado em muitas situações no mundo contemporâneo. Entrevista • No capítulo 2, a produção sugerida é de entrevista, outro gênero do campo jornalístico-midiático. Para essa produção, você vai experimentar elaborar um roteiro com as perguntas a serem feitas, entender como selecionar tais perguntas e como agir no momento em que a entrevista acontece e, depois, ao transcrevê-la para uma publicação impressa, por exemplo. 14 UNIDADE 2 Reportagem • No capítulo 3, predominam as práticas do campo jornalístico-midiático, a produção de uma reportagem é o destaque. Estudar a organização das reportagens e experimentar produzir um texto desse gênero pode colaborar para ampliar seu domínio de diferentes linguagens e dos recursos da língua portuguesa. E é uma oportunidade de se aventurar por uma investigação temática e se aprofundar nessa questão. Fotorreportagem • No capítulo 4, você poderá produzir outro gênero do campo jornalístico-midiático, a fotorreportagem, e perceber o poder da linguagem visual, ou seja, como é possível empregar imagens para expressar um ponto de vista. UNIDADE 3 Artigo de divulgação científica • No capítulo 5, as produções giram em torno das práticas do campo de estudo e pesquisa. Você poderá experimentar produzir um artigo de divulgação científica. Para isso, vai pesquisar um tema relacionado ao universo científico e elaborar um texto para divulgar esse tema a pessoas que provavelmente não são especialistas no assunto, não conhecem a linguagem usada por cientistas desse campo do saber, ou seja, vai lidar com o desafio de explicar mais detalhadamente, com outras palavras, o que descobriu em suas pesquisas. Artigo de opinião • No capítulo 6, a produção proposta é de artigo de opinião, um gênero que faz parte do campo jornalístico-midiático. Por meio dessa experiência, você poderá expressar suas ideias sobre determinado tema, soltar sua voz. Ilustrações: Gabi Emmerich/Arquivo da editora Crônica UNIDADE 4 • No capítulo 7, você poderá experimentar produzir uma crônica, um gênero muito apreciado pelos brasileiros, que costuma ser publicado em jornais, revistas e/ou livros. Ele transita então entre os campos artístico-literário e jornalístico-midiático. A leitura de uma crônica em geral é um caminho para a fruição literária, aliada muitas vezes ao humor e/ou à reflexão. O compartilhamento das produções da turma promete ser um momento para isso. Resenha crítica e videorresenha • No capítulo 8, os gêneros a serem produzidos são resenha crítica e videorresenha. Eles fazem parte do campo jornalístico-midiático, entre outros. Ter essa experiência pode colaborar para que você desenvolva a expressão de seu ponto de vista sobre alguma coisa, incentivando-o a analisar mais a fundo objetos culturais, por exemplo, para que possa expressar cada vez melhor suas ideias. A produção de videorresenha será um momento especial, em que os recursos de um audiovisual estarão em jogo. 15 1 unidade OLHARES EM PE RS PE CT IVA BN CC Competências gerais da Educação Básica: 1, 3, 7 Quais são os traços da cultura, da língua e do povo brasileiro? Como se caracterizam as paisagens do Brasil? Que elementos podem definir uma identidade nacional? Existe uma única identidade brasileira? Questões como essas permearam as reflexões e a produção cultural de vários artistas do século XIX. E hoje em dia, essas reflexões permanecem nas produções artísticas? Observe as imagens e leia o texto para refletir sobre isso. Inc./Alamy Liv e News/Fotoa Habilidades de Língua Portuguesa: EM13LP03, EM13LP14, EM13LP46, EM13LP50, EM13LP52 ZUMA Press, Habilidades da área de Linguagens: EM13LGG202, EM13LGG203, EM13LGG204, EM13LGG302, EM13LGG601, EM13LGG602 rena Competências específicas da área de Linguagens: 1, 2, 3, 6 Raoni Metuktire (1932-), cacique kaiapó, retratado pelo artista brasileiro Kobra (1975-). Lisboa, Portugal, 2021. 16 Nepũ Arquepũ - Rede macaco, em tukano (2019), da artista tukana-dessana Duhigó (1957-). Na imagem, Duhigó representa a celebração do nascimento de uma criança: a mãe descansa com o bebê na rede macaco e recebe os cuidados do pajé e dos parentes próximos. Instituto Dirson Costa 1. A imagem expressa os valores da comunhão, do acolhimento e da união no momento da chegada de uma nova criança à comunidade, uma vez que a celebração envolve não apenas os familiares, mas também o pajé. Respostas pessoais. 2. Ao pintar o rosto de Raoni em um grande mural em Lisboa, capital de Portugal, Kobra chama atenção para a importância da proteção dos povos indígenas, da preservação da Amazônia, causas defendidas pelo líder kaiapó, e, além disso, valoriza as diferentes etnias e a ancestralidade brasileira como um todo. A presença do enorme retrato do líder kaiapó em um local simbólico, capital do país que colonizou os povos indígenas no Brasil, amplia a repercussão de sua mensagem e da reflexão que ela propõe. Os brancos não pensam muito adiante no futuro. Sempre estão preocupados demais com as coisas do momento. É por isso que eu gostaria que eles ouvissem minhas palavras através dos desenhos que você fez delas; para que penetrem em suas mentes. Gostaria que, após tê-las compreendido, dissessem a si mesmos: “Os Yanomami são gente diferente de nós, e no entanto suas palavras são retas e claras. Agora entendemos o que eles pensam. São palavras verdadeiras! […]”. KOPENAWA, Davi; ALBERT, Bruce. A queda do céu. São Paulo: Cia das letras, 2015, p. 64. 3. Kopenawa aspira que, por meio das palavras escritas, os brancos compreendam os valores, as ideias e o modo de vida dos povos originários. Ambos, Duhigó e Kopenawa, almejam, por meio da arte pictórica e das palavras, expressar sua cultura. Converse com a turma 1. Com o objetivo de construir uma consciência de unidade na jovem nação multicultural, os românticos representaram os indígenas como parte das raízes nacionais. Hoje em dia, são consideradas e valorizadas as próprias expressões e representações que os indígenas fazem de seus povos. Que valores de sua comunidade Duhigó expressa na obra Nepũ Arquepũ? O que mais chamou sua atenção? Que emoções essa imagem desperta em você? Por quê? 2. O líder kaiapó Raoni Metuktire ficou mundialmente conhecido por sua luta em prol da preservação da Amazônia e dos povos indígenas. Que sentido especial ganha esse grafite quando feito em Lisboa? Qual mensagem esse retrato apresenta? 3. O trecho em destaque é o registro de uma conversa entre Davi Kopenawa, líder do povo Yanomami, e o francês Bruce Albert. No diálogo, o indígena deseja que os desenhos (ou seja, as palavras escritas) de seu interlocutor o auxiliem em suas aspirações. Que aspirações são essas? Que relação se pode estabelecer entre a fala de Kopenawa e a imagem pintada por Duhigó? 4. Kopenawa diz desejar que suas palavras sejam compreendidas como “retas e claras”. O que você acha que sejam palavras “retas e claras”? Qual é a importância dessa troca entre as visões de mundo dos indígenas e dos não indígenas? Por palavras retas e claras é possível compreender que Kopenawa espera uma compreensão de seu discurso como objetivo e legítimo, como uma ideia que merece ser levada em consideração, porque tem fundamento, razão de ser, ainda que tome por base uma perspectiva cultural diferente da dos não indígenas. É importante que não indígenas compreendam e respeitem a visão de mundo dos indígenas para vivermos em uma sociedade mais justa e democrática, que considere e preserve todas as culturas e formas de vida. Os povos indígenas, por exemplo, têm um grande conhecimento da natureza e podem contribuir para melhorar a relação da sociedade como um todo com o meio ambiente e para recuperar danos causados por modos de exploração indevidos. 17 C O N E CT E - S E ! Livros • Romantismo, de Adilson Citelli. São Paulo: Ática, 2006. • A vida literária no Brasil durante o Romantismo, de Ubiratan Machado. Rio de Janeiro: Tinta Negra, 2010. • Dias e Dias: uma biografia de Gonçalves Dias, de Ana Miranda. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. • Carlota Joaquina, Princesa do Brasil, de Carla Camurati. Brasil, 1995 (100 min), 14 anos. • Oliver Twist, de Roman Polanski. Reino Unido, 2005 (130 min), 14 anos. • Amistad, de Steven Spielberg. Estados Unidos, 1997 (152 min), 14 anos. • Os miseráveis, de Bille August. Estados Unidos, 1998 (131 min), 10 anos; de Tom Hooper. Reino Unido, 2012 (158 min), 14 anos; de Ladj Ly. França, 2019 (103 min), 14 anos. Reprodução/Giros Audiovisual/Globo Filmes Filmes e documentários • Amor e inocência, de Julian Jarrold. Reino Unido, 2007 (120 min), 12 anos. • Sombras de Goya, de Milos Forman. Espanha, 2006 (113 min), 14 anos. • Menino 23: infâncias perdidas no Brasil, de Belisario Franca. Brasil, 2016 (79 min), 12 anos. Documentário sobre a descoberta do historiador Sidney Aguilar: durante os anos 1930, empresários integralistas e nazistas raptaram 50 meninos negros de um orfanato no Rio de Janeiro para a Fazenda Santa Albertina de Osvaldo Rocha Miranda, Campina do Monte Alegre (SP), onde viveram por dez anos em condições de escravidão e isolamento. Cartaz do documentário Menino 23: infâncias perdidas no Brasil, 2016. Músicas • Composições de: Robert Schumann (1810-1856); Felix Mendelssohn (1809-1847); Frederic Chopin (1810-1849); Hector Berlioz (1803-1869); Franz Liszt (1811-1886). ar : H ora de co m pa rt ilh Jorn al de varie dade s Ao final da Unidade, você e os colegas irão produzir um jornal de variedades e organizar um evento de lançamento para compartilhá-lo com a comunidade escolar. O jornal contará com as notícias, entrevistas, reportagens e fotorreportagens produzidas pela turma. 18 capítulo 1 Romantismo: poesia (I) Classes de palavras: revisão (I) Notícia e enquete Neste capítulo você vai: • conhecer a poesia de Gonçalves Dias e de Álvares de Azevedo, expoentes do Romantismo brasileiro; • rever as seguintes classes de palavras: substantivo, adjetivo, artigo, numeral, pronome; e refletir sobre os sentidos que elas constroem nos textos; • produzir enquete; • ler e produzir notícias em textos verbais, em áudio e em vídeo. Justificativa Para levá-lo a compreender o processo de formação da literatura brasileira e seu público leitor e continuar o aprimoramento de sua habilidade de leitura literária, neste capítulo você entrará em contato com poemas de autores consagrados do Romantismo brasileiro, conhecendo as concepções estéticas da época em que se deu esse estilo, bem como o contexto social e histórico de sua produção. BN CC Competências gerais da Educação Básica: 1, 2, 3, 7 Competências específicas da área de Linguagens: 1, 2, 3, 4, 6 Habilidades específicas da área de Linguagens: EM13LGG101, EM13LGG202, EM13LGG302, EM13LGG401, EM13LGG601, EM13LGG602, EM13LGG604 Habilidades específicas de Língua Portuguesa: EM13LP01, EM13LP03, EM13LP04, EM13LP05, EM13LP06, EM13LP28, EM13LP46, EM13LP48, EM13LP49, EM13LP50, EM13LP52 Esses textos vão ser a base para convidá-lo a retomar algumas classes de palavras — o substantivo e seus determinantes (adjetivo, artigo, numeral e pronome) —, bem como pensar a função dessas palavras na construção de sentidos de diferentes textos. Assim, você também poderá refletir sobre possíveis usos da língua e ter mais autonomia para fazer escolhas ao produzir seus textos. Poderá, ainda, observar a dinâmica da língua ao verificar as características do gênero textual notícia: você será convidado a produzir notícias a partir da realização de uma enquete sobre a juventude atual. Literatura Romantismo: poesia (I) Mapa clicável Contexto de produção e recepção do Romantismo O Romantismo teve origem na Alemanha, no final do século XVIII, e difundiu-se por todo o Ocidente na primeira metade do século XIX. Quem produzia literatura romântica no Brasil nesse período? Quem era o público consumidor? 19 Meios de circulação Reprodução/Museu Paulista da USP, São Paulo, SP. No Brasil, a transferência da Corte portuguesa para o Rio de Janeiro, em 1808, e a Proclamação da Independência, em 1822, acarretaram grandes mudanças culturais ao longo do século XIX. Até então proibida no Brasil, a imprensa foi instalada no Rio de Janeiro — capital do Reino e, logo depois, do país —, propiciando a circulação de jornais, livros e revistas. Surgiram também a Biblioteca Nacional, mais livrarias, gabinetes de leitura, teatros, escolas e as primeiras faculdades. Independência ou morte (1888), de Pedro Américo (1843-1905). Reprodução/Museu do Exército, Paris, França. Ao contrário do que ocorreu durante o período colonial, os escritores românticos eram muitos e originários de diferentes regiões do Brasil, e seu público leitor era constituído de uma reduzida elite cultural burguesa, formada, sobretudo, por estudantes, funcionários da burocracia e mulheres. Foi nesse período que, além de constituir uma parte do público leitor, mulheres começaram a escrever e a publicar obras literárias no país. Romantismo em contexto Napoleão no trono imperial (1806), de Jean-Auguste-Dominique Ingres (1780-1867). As invasões napoleônicas em diversos países da Europa afloraram nos povos invadidos um sentimento patriótico que, depois, se manifestou na literatura romântica. 20 L ite ra tu ra Os ideais que embasaram o movimento romântico expressavam não apenas uma reação às concepções artísticas e aos valores do Classicismo, mas, também, aos fatos históricos e sociais mais marcantes da virada do século XVIII para o século XIX: a Revolução Industrial, a Revolução Francesa e as guerras lideradas por Napoleão Bonaparte (1769-1821) em grande parte da Europa. Nesse contexto, situações como a miséria acarretada pelas máquinas, a desigualdade socioeconômica entre as pessoas — que a Revolução Francesa não conseguiu abolir — e os horrores das Guerras Napoleônicas suscitaram uma visão de mundo que não se adequava mais ao racionalismo clássico. Não escreva no livro. Re vo lu çã o In du st ri al Reprodu•‹o/Cole•‹o parti Diante dessa realidade frustrante, os autores do Romantismo refugiaram-se no tempo passado, em busca das raízes nacionais, como também se voltaram para seu mundo interior, valorizando a subjetividade, a introspecção e a imaginação. Junto a essa centralidade do “eu”, desenvolveu-se uma sensibilidade voltada para o “outro”, que se traduziu em obras voltadas para o enfrentamento da realidade. cular Na segunda metade do século XVIII, iniciou-se na Inglaterra o período de avanço tecnológico conhecido como Revolução Industrial: as máquinas passaram a ser centrais na produção de bens, o que permitiu a organização das indústrias e a consolidação do capitalismo. Isso alterou profundamente as formas de produção e as relações de trabalho. Era possível produzir mais mercadorias e mais rapidamente. Os trabalhadores começaram a vivenciar uma intensa exploração de sua força de trabalho, em um ambiente que muitas vezes não era seguro. Os centros urbanos desenvolveram-se de forma desordenada para comportar, de algum modo, os trabalhadores, muitos deles vindos da zona rural. Foco no texto Você vai ler, a seguir, dois trechos do poema épico “I-Juca-Pirama” (termos em tupi que significam “O que há de ser morto” ou “O que é digno de ser morto”), de Gonçalves Dias, um dos principais autores do Romantismo brasileiro. No poema, narra-se a história do último descendente de uma comunidade indígena Tupi que é feito prisioneiro pelos Timbira. Inicia-se, então, o ritual antropofágico. O guerreiro, antes de receber o golpe fatal, começa seu canto de morte, no qual narra toda a sua bravura e revela que tem um pai cego e doente e pede que seja libertado a fim de cuidar dele. O cacique Timbira lhe concede a liberdade e o guerreiro promete voltar logo após a morte do pai. Quando parte e encontra o pai, o ancião percebe, pelo cheiro das tintas, que o filho fora preso para o sacrifício e decide levá-lo até os Timbira para que o ritual antropofágico seja cumprido. Diante dos Timbira, o ancião Tupi renega seu filho, dizendo: “Pois a que tanta vileza chegaste, / Que em presença da morte choraste, / Tu, cobarde, meu filho não és”. O trecho a seguir aborda esse momento da trama. O silêncio (c. 1799-1801), de Johann Heinrich Füssli (1741-1825). Essa pintura é considerada romântica por voltar-se para a interioridade humana e retratar estados de alma, sonhos e pesadelos. I-Juca-Pirama Canto IX Isto dizendo, o miserando velho A quem Tupã tamanha dor, tal fado Já nos confins da vida reservara, Vai com trêmulo pé, com as mãos já frias Da sua noite escura as densas trevas Palpando. — Alarma! Alarma — O velho para O grito que escutou é a voz do filho, Voz de guerra que ouviu já tantas vezes Noutra quadra melhor. — Alarma! — alarma! — Esse momento só vale apagar-lhe Tupã: na mitologia Tupi, deus do trovão, cultuado como divindade suprema. Alarma: grito para chamar às armas. quadra: fase, período da vida. Li te ra tu ra 21 exaurido: esgotado, exausto. alborota: alvoroça, agita. imprecaç›es: impropérios, xingamentos. estertor: agonia. vagas: multidões. Timbiras: povo inimigo do povo indígena Tupi. assaz: muito, bastante. mister: necessário, preciso. cinge: agarra, abraça. Os tão compridos transes, as angústias, Que o frio coração lhe atormentaram De guerreiro e de pai: — vale, e de sobra. Ele que em tanta dor se contivera, Tomado pelo súbito contraste, Desfaz-se agora em pranto copioso, Que o exaurido coração remoça. A taba se alborota, os golpes descem, Gritos, imprecações profundas soam, Emaranhada a multidão, braveja. Revolve-se, enovela-se confusa, E mais revolta em mor furor se acende. E os sons dos golpes que incessantes fervem. Vozes, gemidos, estertor de morte Vão longe pelas ermas serranias Da humana tempestade propagando Quantas vagas de povo enfurecido Contra um rochedo vivo se quebravam. Era ele, o Tupi; nem fora justo Que a fama dos Tupis — o nome, a glória, Aturado labor de tantos anos, Derradeiro brasão da raça extinta, De um jacto e por um só se aniquilasse. — Basta! Clama o chefe dos Timbiras. — Basta, guerreiro ilustre, assaz lutaste. E para o sacrifício é mister forças. O guerreiro parou, caiu nos braços Do velho pai, que o cinge contra o peito, com lágrimas de júbilo bradando: “Este, sim, que é meu filho muito amado! E pois que o acho enfim, qual sempre o tive, Corram livres as lágrimas que choro. Estas lágrimas, sim, que não desonram.” DIAS, Gonçalves. I-Juca-Pirama. Canto IX. In: BRAIT, Beth (org.). Gonçalves Dias: seleção de textos, notas, estudo biográfico, histórico e crítico e exercícios por Beth Brait. São Paulo: Abril Cultural, 1982. p. 53-55. (Literatura comentada). 1. Na poesia do Romantismo, diferentemente do que se observa na estética do Arcadismo, o emprego dos elementos formais (métrica, rimas, ritmo, imagens e recursos estilísticos) tem relação com os anseios de expressão do poeta, e não com regras de composição meramente convencionais. a) Faça a escansão dos primeiros versos do poema de Gonçalves Dias e responda: Há regularidade métrica nesse poema? Justifique sua resposta. Sim, os versos são decassílabos (10 sílabas métricas). b) Como as estrofes estão organizadas quanto ao número de versos? As estrofes não têm regularidade quanto ao número de versos: a primeira tem 17 versos; a segunda, 11 versos; a terceira, 8 versos; a quarta, 7 versos. Não; são versos brancos (sem rima). c) Há um esquema de rimas no poema? 22 L ite ra tu ra 2. a) O jovem Tupi entra em combate contra os inimigos e derrota quem dele se aproxima até que o chefe Timbira ordena o fim da luta (“Quantas vagas de povo enfurecido / Contra um rochedo vivo se quebravam”). Essa atitude revela sua bravura e destreza na luta. Não escreva no livro. 2. O canto IX retrata a atitude do jovem guerreiro Tupi ao ver que o pai não tinha compreendido o motivo de seu retorno. a) Qual é essa atitude? O que ela revela? Justifique sua resposta com elementos do texto. b) No final do canto IX, o ancião chora e afirma: “Estas lágrimas, sim, que não desonram”. Por que, Não desonram porque não são lágrimas derramadas por causa de nesse contexto, tais lágrimas não desonram? uma suposta covardia do filho, mas, sim, em razão da emoção de perceber a coragem e a bravura dele. c) Conclua: De acordo com o canto IX, pode-se dizer que o jovem guerreiro será levado ao sacrifício? Justifique sua resposta com elementos do texto. Provavelmente sim, pois ele provou que é um guerreiro valoroso e o chefe dos Timbira afirma: “Basta, guerreiro ilustre! Assaz lutaste, / E para o sacrifício é mister forças”. 3. Inspirado pelos valores do Romantismo, Gonçalves Dias expressou um novo ponto de vista a respeito do indígena: buscando trazer a voz dele para o centro do texto, tentou mostrá-lo sob a perspectiva dos valores e da cultura de seus ancestrais, e não sob a perspectiva da cultura europeia, como no Arcadismo, que representou o indígena como um herói ilustrado, distante da cultura dos povos originários. De acordo com o poema em estudo, que valores o indígena conferia ao ritual antropofágico? De acordo com o poema, o ritual antropofágico envolvia valores como a coragem e a dignidade diante da vida e da morte. 4. Uma das características do Romantismo é o nacionalismo, isto é, a busca das raízes nacionais. Enquanto na Europa os artistas voltaram-se para a Idade Média à procura de suas raízes, no Brasil, uma nação recém-independente, os primeiros poetas românticos elegeram o indígena como protagonista da história nacional e a fauna e a flora nativas como elementos essenciais de nossa nacionalidade. a) No poema de Gonçalves Dias, o herói Tupi, como representante de nossas raízes, destaca-se por quais valores e sentimentos? Pela coragem, bravura, dignidade, fidelidade às suas tradições e pelo amor filial. b) A valorização da figura do indígena pelos escritores românticos europeus, por influência do filósofo franco-suíço Jean-Jacques Rousseau, está presente também no Romantismo brasileiro. Leia o boxe “Rousseau e a crítica à sociedade” e, depois, discuta com os colegas e o professor: Os traços de caráter do herói do poema “I-Juca-Pirama” evocam a ideia do ser humano em estado de natureza, abordada por Rousseau? Por quê? Sim, pois o guerreiro Tupi é um ser íntegro, digno e fiel, seja ao próprio pai, seja à nação a que pertence. Ro us se au e a crí tic a à so cie da de ROSENFELD, Anatol; GUINSBURG, Jacó. Romantismo e Classicismo. In: GUINSBURG, Jacó (org.). O Romantismo. São Paulo: Perspectiva, 2005. p. 266. Reprodução/Museu de O que distingue Rousseau e o transforma em fonte inspiradora da escola romântica é o seu profundo pessimismo no tocante à sociedade e à civilização. Ele não acredita nem em uma nem em outra, estabelecendo o postulado de uma natureza humana primitiva, que vai sendo corrompida pela cultura. Mas não só ela, como também a propriedade, fonte de desigualdade entre os homens, contribuem para que o ser originalmente puro e inocente se perverta no contexto da civilização e da sociedade. […] Daí ressalta, evidentemente, a imagem do bom selvagem, do ser íntegro e primitivo, que deve figurar como ideal para o homem corrompido pela sociedade. Arte e História, Genebra, Suíça. Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) foi um dos principais filósofos do Iluminismo e precursor do Romantismo. Suas ideias inspiraram reformas políticas, econômicas e educacionais, além de influenciarem o desenvolvimento da noção de direitos humanos. Algumas de suas obras mais conhecidas são: Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens (1755), Do contrato social (1762), Emílio, ou Da educação (1762). Para Rousseau, o ser humano em estado de natureza é fundamentalmente bom, virtuoso, mas a vida em sociedade o corrompe. A ideia do humano em estado natural é, muitas vezes, interpretada como “mito do bom selvagem”. Leia a seguir a opinião de alguns pensadores sobre a influência desse filósofo no desenvolvimento do Romantismo. Retrato de Jean-Jacques Rousseau (1753), de Maurice Quentin (1704-1788). 5. Com base nas reflexões feitas ao longo do estudo do poema de Gonçalves Dias e considerando as notícias atuais sobre a situação dos povos indígenas brasileiros, converse com os colegas e o professor: É possível afirmar que hoje a figura do indígena é valorizada? Resposta pessoal. Li te ra tu ra 23 RES E B A S E R T N E nas e Ciências Hum a plicadas Sociais A Reflexões sobre o despertar da nacionalidade brasileira e sobre a situação das mulheres escritoras no século XIX Com a invasão das tropas de Napoleão em Portugal, o rei dom João VI e a sua corte decidiriam se estabelecer no Rio de Janeiro, em 1808. Essa mudança impulsionou um desenvolvimento econômico e cultural que acabou por impactar no processo de independência do Brasil, em 1822. Com o advento da Proclamação da Independência, como foi o despertar da nacionalidade brasileira? E quanto às mulheres, elas já se expressavam literariamente, como escritoras, nessa época? Para refletir sobre essas questões, leia os textos a seguir. O primeiro, do professor Luiz Roncari, trata da questão do despertar da nacionalidade. O segundo, tendo como base observações da professora Sandra Vasconcelos, comenta a situação das escritoras mulheres no século XIX. Texto 1 A independência do Brasil Reprodução/Museu Júlio de Castilhos, Porto Alegre, RS. A independência política do país, em 1822, com a ruptura dos laços coloniais com Portugal e a organização de uma nação independente, tinha sido o fato mais decisivo para a emergência de uma consciência nacional. […] A cultura geral da época, romântica por excelência, estava voltada, por um lado, para a valorização das particularidades, como a terra natal, as características regionais e a afirmação nacional; e, por outro, para a crítica da civilização urbano-burguesa europeia. Disso resultava a valorização do Novo Mundo, cujas populações indígenas, vivendo em grandes espaços de florestas selvagens, eram idealizadas e vistas com bons olhos. Tais aspectos da cultura da época ou do “espírito do tempo” — muito acentuados depois da derrota de Napoleão e da sua política universalista de criar uma grande Europa sob domínio francês — contribuíram para que as elites brasileiras aceitassem o seu distanciamento do europeu em geral. Era mais importante afirmarem-se como “brasileiros” e autônomos, possuidores de uma nacionalidade própria; o que coincidia com os acontecimentos da Europa, onde cada nação procurava afirmar-se nas suas particularidades e ressaltar o que tinha de culturalmente característico. Selva brasileira (1853), de Manuel de Araújo (1806-1879). 24 Não escreva no livro. No Brasil, essa disposição tinha uma força especial, pois entre as suas particularidades o país continha um elemento altamente promovido e valorizado pelo espírito romântico: a participação do indígena na constituição do povo […]. Além do indígena, o país era valorizado ainda pela forte presença do “mundo natural”, grandes extensões de prados, rios e florestas, em oposição ao ambiente essencialmente urbano que começava a caracterizar os países europeus adiantados. 1. A cultura romântica europeia estava voltada, por um lado, para a valorização das particularidades e a afirmação nacionais […] e, por outro, para a crítica à civilização urbano-burguesa. Essas perspectivas fomentavam a valorização da América, que Texto 2 contava com um amplo espaço natural e, ao mesmo tempo, com a presença dos povos originários, considerados puros RONCARI, Luiz. Literatura brasileira: dos primeiros cronistas aos últimos românticos. 2. ed. São Paulo: Edusp, 2014. p. 288-290. e bons. Esses valores românticos contribuíram para a formação da consciência nacional no Brasil recém-independente porque incentivaram as elites do país a se distanciar do mundo europeu e a valorizar as particularidades do Brasil, ou seja, os indígenas e a natureza. “Escrito por uma dama” Durante os séculos 18 e 19, diz Vasconcelos, cristalizou-se o papel da mulher como primordialmente mãe e esposa dentro da família burguesa. “A esposa era a responsável pelo mundo doméstico, da porta da casa para dentro. Muitas delas não tinham sequer acesso à educação formal. E toda mulher que tinha algum tipo de ambição para além disso era um ponto fora da curva.” Mulheres que desejavam se tornar escritoras de romances publicavam com pseudônimos ou mesmo anonimamente, a partir do século 18. A mais famosa delas é a inglesa Jane Austen. A capa de seu primeiro romance, Orgulho e Preconceito, diz apenas: “Um romance. Em três partes. Escrito por uma dama.” Austen, na verdade, não publicou nenhum romance assinado em vida. Os seus livros seguintes eram creditados à “mesma autora” dos anteriores. […] No Brasil, muitas escritoras também usaram o recurso do pseudônimo ou do livro anônimo pelos mesmos motivos, segundo a professora de literatura brasileira da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Constância Lima Duarte. “Claro que o círculo mais próximo (da escritora) sabia do que se tratava. Mas elas faziam isso para se proteger da opinião pública. Os homens também chegaram a fazer isso, mas por motivos mais subjetivos” […] A maioria destas escritoras, no entanto, apenas começa a ser descoberta, segundo Duarte. Uma delas é Maria Firmina dos Reis, autora do romance Úrsula (1859), considerado por alguns historiadores como o primeiro romance abolicionista da literatura brasileira. Sua assinatura, no entanto, dizia apenas “uma maranhense”. Em 1887, na Bahia, o livro As Mulheres: Um protesto por uma mãe denuncia o “diminuto mercado de trabalho que era reservado às mulheres, a absurda diferença salarial entre homens e mulheres e a valorização excessiva das funções reservadas aos homens”, explica a pesquisadora. “É um livro importantíssimo, mas ela se escondeu tão bem que ninguém descobriu depois quem teria sido essa escritora.” COSTA, Camilla. As escritoras que tiveram de usar pseudônimos masculinos – e agora serão lidas com seus nomes verdadeiros. BBC News Brasil, São Paulo, 15 abr. 2018. Disponível em: https://tedit.net/z42h9j. Acesso em: 17 set. 2024. • Agora discuta com os colegas e o professor: 1. De acordo com o texto de Luiz Roncari, de que maneira a cultura romântica europeia contribuiu para a formação da consciência nacional, no Brasil, após a Independência do país? 2. Como, no século XVIII e XIX, a figura feminina estava associada ao âmbito familiar e doméstico, o acesso à educação formal era restrito e qualquer anseio fora desse domínio não era bem-visto pela sociedade. Por isso, tanto na esfera nacional quanto na 2. Em que contexto as mulheres começaram a escrever e a publicar suas obras na esfera internacional e nacional? No Brasil, que características da literatura produzida por mulheres são destacadas no internacional, as mulheres lançavam mão de pseudônimos para escrever e publicar suas obras, a texto de Camilla Costa? fim de evitar críticas sociais e familiares. No Brasil, a autora destaca os traços sociais das obras produzidas pelas mulheres, como é o caso de Maria Firmina dos Reis, que, sob o pseudônimo “uma maranhense”, publicou seu romance abolicionista Úrsula (1859); bem como a autora anônima de As mulheres: um protesto por uma mãe, que denuncia a situação de desigualdade vivenciada pelas mulheres. 25 Romantismo no Brasil: três gerações de poetas Vídeo O Romantismo iniciou-se no Brasil na década seguinte à Proclamação da Independência, com a publicação de Suspiros poéticos e saudades (1836), de Gonçalves de Magalhães (1811-1882). Nesse contexto, os primeiros escritores românticos tiveram um importante papel na formação da ideia de nacionalidade brasileira e na definição de novas perspectivas para a literatura nacional. Baseados na concepção romântica de que cada nação devia ter uma poesia própria, que correspondesse às suas raízes e ao seu povo, esses poetas buscaram produzir uma poesia que se distinguisse tanto dos modelos clássicos, conforme propunha o Romantismo europeu, como da tradição literária portuguesa. A poesia romântica brasileira foi produzida por gerações sucessivas, formadas por grupos distintos quanto aos temas ou às concepções ideológicas. A primeira geração foi marcada pelo nacionalismo, pelo indianismo e pela religiosidade; entre seus autores estão Gonçalves Dias e Nísia Floresta (1810-1885). A segunda geração se caracterizou pelo “mal do século” e é representada, sobretudo, por Álvares de Azevedo (1831-1852). Quanto à terceira geração, ela se distinguiu pela produção de uma poesia de cunho social e político; nela figuraram autores como Castro Alves (1847-1871) e Narcisa Amália (1852-1924). Primeira geração romântica: Gonçalves Dias Reprodução/Arquivo da editora Principal representante da primeira geração romântica, Gonçalves Dias transformou os grandes temas românticos da pátria, da natureza e da religião em temas de obras poéticas duradouras, mantendo-se ao longo do tempo como um dos responsáveis pelas bases da poesia brasileira. Gonçalves Dias Antônio Gonçalves Dias nasceu em Caxias (MA), em 1823, filho de um comerciante português e de uma mestiça; dizia-se descendente das três etnias que formaram o povo brasileiro. Formou-se em Direito em Coimbra, onde entrou em contato com a poesia romântico-nacionalista dos escritores Almeida Garrett (1799-1854) e Alexandre Herculano (1810-1877). Retrato de Antônio Gonçalves Dias, de autoria desconhecida. Após retornar ao Brasil, em 1845, estabeleceu-se no Rio de Janeiro. No ano seguinte, publicou Primeiros cantos, obra que o consagrou como poeta. Depois, publicou Segundos cantos (1848), Sextilhas de Frei Antão (1848) e Últimos cantos (1851). Movido por um interesse legítimo pelos indígenas, realizou pesquisas de etnografia e linguística na Amazônia e, como resultado desse trabalho, publicou Brasil e Oceania (1852) e Dicionário da língua tupi (1858). Faleceu em um naufrágio no litoral do Maranhão, em 1864. Além da poesia épica, que você conheceu no início deste capítulo com o estudo de um trecho de “I-Juca-Pirama”, o autor maranhense produziu poesia lírica e peças teatrais. Sua poesia caracteriza-se pelo virtuosismo rítmico. Nela, imagens e ações se harmonizam com a musicalidade dos versos, enriquecendo a experiência estética do leitor/ouvinte. 26 L ite ra tu ra Não escreva no livro. Segunda geração romântica: Álvares de Azevedo Após o amadurecimento da tradição literária nacionalista ocorrido na década de 1840, o Romantismo brasileiro passou a apresentar nos anos seguintes maior subjetividade, cultivada pelos poetas ultrarromânticos. Influenciados por autores europeus, como o britânico Lorde Byron (1788-1824), os poetas dessa geração, na maioria adolescentes que não chegaram a atingir a plena juventude, distinguiram-se por um profundo pessimismo, típico do chamado “mal do século”, e pelo desinteresse por questões político-sociais. “M al do sé cu lo” Essa expressão começou a ser empregada entre os autores românticos europeus após 1830 para designar a inadequação do “eu” à ordem do mundo. Esse mal-estar existencial traduziu-se em uma poesia marcada por tédio e sofrimento; ou ainda por fuga da realidade, voltando-se para a fantasia, o devaneio, a nostalgia da infância, o mistério, a noite, a loucura e a morte. Álvares de Azevedo é o expoente da segunda geração romântica. Além dele, destacam-se os poetas Casimiro de Abreu (1839-1860), com a obra Primaveras (1859); Fagundes Varela (1841-1875), com Cantos e fantasias (1865); e Junqueira Freire (1832-1855), com Inspirações do claustro (1855). Azevedo produziu poesia lírica, prosa e drama. Sua principal obra é o livro de poemas Lira dos vinte anos (1853). A primeira parte dessa obra lírica apresenta o lado idealizado da vida, regido, segundo o autor, pela figura do mítico Ariel, espírito que, em A tempestade (1610), peça do dramaturgo inglês William Shakespeare (1564-1616), habita o sonho e o ar. Prevalecem nesse aspecto de sua poesia o ambiente onírico e o devaneio, o amor platônico e a morte como saída para as angústias ou como um meio de alcançar a plenitude do amor espiritual e eterno. Reprodução/Fundação Biblioteca Nacional, RJ. A segunda parte da Lira dos vinte anos pertence aos domínios de Caliban (monstro que, na peça de Shakespeare, simboliza o erótico e o desleixo). Essa outra face da obra, ao representar o cotidiano e o prosaico, desmitifica os elementos sublimes contidos na primeira parte. Álvares de Azevedo Manuel Antônio Álvares de Azevedo nasceu em São Paulo, em 1831. Toda a sua obra foi produzida enquanto cursava Direito. Nesse período, integrou grupos boêmios e participou da Sociedade Epicureia, associação dos estudantes de Direito do Largo de São Francisco que tinha como principal fonte de inspiração os textos literários e o modo de vida do poeta inglês Lorde Byron. Retrato de Álvares de Azevedo (sem data), de M. J. Garnier. Morreu aos 21 anos, em 1852, em decorrência de um acidente que sofreu enquanto andava a cavalo. Suas obras, entre as quais Lira dos vinte anos, Noite na taverna e Macário, foram publicadas postumamente. Li te ra tu ra 27 Foco no texto Para continuar a refletir sobre as características estéticas do Romantismo e conhecer a poesia de Álvares de Azevedo, leia a seguir trechos de um poema que pertence à primeira parte de Lira dos vinte anos. Reprodução/Museu Ashmolean, Universidade de Oxford, Reino Unido. A T... No amor basta uma noite para fazer de um homem um Deus. Propércio Amoroso palor meu rosto inunda, Mórbida languidez me banha os olhos, Ardem sem sono as pálpebras doridas, Convulsivo tremor meu corpo vibra: Quanto sofro por ti! Nas longas noites Adoeço de amor e de desejos E nos meus sonhos desmaiando passa A imagem voluptuosa da ventura… Eu sinto-a de paixão encher a brisa, Embalsamar a noite e o céu sem nuvens, E ela mesma suave descorando Os alvacentos véus soltar do colo, Cheirosas flores desparzir sorrindo Da mágica cintura. Ofélia (c. 1863), de Arthur Hugues (1832-1915). Sinto na fronte pétalas de flores, Sinto-as nos lábios e de amor suspiro. Mas flores e perfumes embriagam, palor: palidez muito grande. E no fogo da febre, e em meu delírio languidez: lentidão; falta de vigor. Embebem na minh’alma enamorada doridas: doloridas, que sente dor. voluptuosa: sensual, libidinosa. embalsamar: perfumar; tratar um cadáver com substâncias que evitam sua decomposição. colo: região do corpo compreendida pelo pescoço e pelos ombros; regaço. desparzir: espalhar, distribuir. virações: ventos suaves, brisas. 28 L ite ra tu ra Delicioso veneno. […] Ah! vem, pálida virgem, se tens pena De quem morre por ti, e morre amando, Dá vida em teu alento à minha vida, Une nos lábios meus minh’alma à tua! Eu quero ao pé de ti sentir o mundo Na tu’alma infantil; na tua fronte Beijar a luz de Deus; nos teus suspiros Sentir as virações do paraíso; E a teus pés, de joelhos, crer ainda Que não mente o amor que um anjo inspira, Não escreva no livro. Que eu posso na tu’alma ser ditoso, Beijar-te nos cabelos soluçando E no teu seio ser feliz morrendo! ditoso: feliz, afortunado. AZEVEDO, Álvares de. A T... In: HELLER, Bárbara; BRITO, Luís Percival Leme de; LAJOLO, Marisa (org.). Álvares de Azevedo: seleção de textos, notas, estudo biográfico, histórico e crítico por Bárbara Heller, Luís Percival Leme de Brito e Marisa Philbert Lajolo. São Paulo: Abril Cultural, 1982. p. 21-22. (Literatura comentada). 1. Um dos procedimentos habituais dos poetas românticos é a introspecção, ou seja, a exploração da subjetividade. a) Nos primeiros versos do poema de Álvares de Azevedo, o eu lírico descreve seu estado físico. Como é esse estado? O eu lírico tem o rosto pálido, os olhos lânguidos e sente o corpo tremer. b) O que leva o eu lírico a ter essas sensações? Justifique sua resposta Essas sensações decorrem de uma grande paixão, que com elementos do texto. provoca no eu lírico dor e sofrimento (“Quanto sofro por ti! Nas longas noites / Adoeço de amor e de desejos”). c) Ao voltar-se para seu mundo interior, o eu lírico mergulha em um estado de sonho e devaneio. De acordo com a 1a estrofe, o que esse estado propicia ao eu lírico? Justifique sua resposta com elementos do texto. Propicia ao eu lírico um encontro com a imagem da amada (“Eu nos meus sonhos desmaiando passa”), no qual ele chega a sentir sua presença 2. A figura feminina foi abordada de várias formas em Lira dos vinte anos. No (“Eu sinto-a de paixão encher a brisa”). poema em estudo, identifique dois trechos em que a mulher é: a) retratada como pura e inocente; “pálida virgem”, “tu’alma infantil”, “anjo”. b) identificada com os elementos da natureza; “Cheirosas flores desparzir sorrindo / Da mágica cintura”, “Eu sinto-a de paixão encher a brisa”. c) capaz de colocar o eu lírico em contato com o divino e com a suprema felicidade. “na tua fronte / Beijar a luz de Deus”, “Sentir as virações do paraíso”. 3. O amor foi um tema amplamente explorado pelos poetas românticos. Entre os itens a seguir, indique no caderno o que não corresponde à concepção de amor observada no poema. I. A predominância de elementos diáfanos e leves, como a noite embalsamada, a brisa, os “alvacentos véus” e a imagem pura e incorpórea da amada expressa uma ideia de amor sublime, não realizado fisicamente. II. O sentimento amoroso relaciona-se à ideia de transcendência e, por isso, a morte é algo desejável: ao morrer, o eu lírico pode perder sua natureza física e material e adquirir, como a imagem da mulher amada, uma essência espiritual. III. A sensualidade da mulher, expressa no verso “A imagem voluptuosa da ventura…”, e o desejo ardente do eu lírico (“no fogo da febre”, “Delicioso veneno”) sugerem um amor erótico, corpóreo e possível de se realizar concretamente. Alternativa III. 4. No texto em estudo, de que maneira a atração pela morte se manifesta? Justifique sua resposta com elementos do texto. 5. A literatura de tradição clássica exigia conhecimentos acerca das culturas grega e romana da Antiguidade. No poema de Álvares de Azevedo, é possível observar elementos da mitologia greco-romana ou da tradição cristã? Justifique sua resposta com elementos do texto. 4, A atração pela morte se manifesta por meio de elementos descritivos referentes ao eu lírico (“Amoroso palor meu rosto inunda”, “Mórbida languidez me banha os olhos”) e à sua amada (“pálida”, “desmaiando”), assim como na sugestão da própria morte (“E no teu seio ser feliz morrendo”). Há elementos da tradição cristã: “Beijar a luz de Deus”, “Sentir as vibrações do paraíso”. Li te ra tu ra 29 E NTRE TEX TO S Você vai ler, a seguir, dois poemas: A “Canção do exílio”, um dos poemas mais conhecidos da literatura brasileira, composto por Gonçalves Dias em 1843, quando o poeta estava cursando Direito na cidade de Coimbra, em Portugal; e o poema “Pátria minha” (1954), de Vinicius de Moraes (1913-1980), composto quando o poeta estava morando nos Estados Unidos. Texto 1 Canção do exílio Minha terra tem primores, Que tais não encontro eu cá; Em cismar — sozinho, à noite — Mais prazer encontro eu lá; Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá. Minha terra tem palmeiras Onde canta o Sabiá; As aves, que aqui gorjeiam, Não gorjeiam como lá. Nosso céu tem mais estrelas, Nossas várzeas têm mais flores, Nossos bosques têm mais vida, Nossa vida mais amores. Não permita Deus que eu morra, Sem que eu volte para lá; Sem que desfrute os primores Que não encontro por cá; Sem qu’inda aviste as palmeiras, Onde canta o Sabiá. Em cismar, sozinho, à noite, Mais prazer encontro eu lá; Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá. DIAS, Gonçalves. Canção do exílio. In: BRAIT, Beth (org.). Gonçalves Dias: seleção de textos, notas, estudo biográfico, histórico e crítico e exercícios por Beth Brait. São Paulo: Abril Cultural, 1982. p. 11-12. (Literatura comentada). Texto 2 Pátria minha A minha pátria é como se não fosse, é íntima Doçura e vontade de chorar; uma criança [dormindo É minha pátria. Por isso, no exílio Assistindo dormir meu filho Choro de saudades de minha pátria. […] Fonte de mel, bicho triste, pátria minha Amada, idolatrada, salve, salve! Que mais doce esperança acorrentada O não poder dizer-te: aguarda… Não tardo! cismar: pensar insistentemente. 30 Quero rever-te, pátria minha, e para Rever-te me esqueci de tudo Fui cego, estropiado, surdo, mudo Vi minha humilde morte cara a cara Rasguei poemas, mulheres, horizontes Fiquei simples, sem fontes. Pátria minha… A minha pátria não é florão, [nem ostenta Lábaro não; a minha pátria é desolação De caminhos, a minha pátria é terra sedenta E praia branca; a minha pátria é o grande [rio secular Que bebe nuvem, come terra E urina mar. 4. b) O poema nega o discurso oficial. O discurso poético é lírico e emotivo e se refere à pátria de maneira carinhosa, pessoal e íntima (“patriazinha”); não tem a finalidade de idealizá-la nem de tratá-la do ponto de vista militar (“ostenta lábaro”). Não escreva no livro. A pátria é filha, é “ilha de ternura”. Mais do que a mais garrida a minha pátria tem Uma quentura, um querer bem, um bem Um libertas quae sera tamen Que um dia traduzi num exame escrito: “Liberta que serás também” E repito! […] Agora chamarei a amiga cotovia E pedirei que peça ao rouxinol do dia Que peça ao sabiá Para levar-te presto este avigrama: “Pátria minha, saudades de quem te ama… Vinicius de Moraes.” Não te direi o nome, pátria minha Teu nome é pátria amada, é patriazinha Não rima com mãe gentil Vives em mim como uma filha, que és Uma ilha de ternura: a Ilha libertas quae sera tamen: expressão, em latim, de autoria do poeta Virgílio, que significa “liberdade, ainda que tardia”; foi utilizada como lema do movimento da Inconfidência Mineira e hoje aparece na bandeira de Minas Gerais. presto: ligeiro, rápido. Brasil, talvez. MORAES, Vinicius de. Pátria minha. In: MORAES, Vinicius de. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Companhia José Aguilar, 1974. p. 267-269. 1. Exílio significa desterro, estar fora da pátria, do país de origem. Com base nessa informação e no texto 1, de Gonçalves Dias, responda: a) Em todo o poema, o eu lírico expressa um contraste entre dois lugares distintos: o exílio (Portugal) e a pátria (Brasil). Que palavras do poema indicam tais lugares, respectivamente? Cá (Portugal) e lá (Brasil). b) Ao descrever o Brasil, que elementos o eu lírico destaca? Trata-se de uma descrição realista ou O eu lírico destaca elementos da natureza. Esses elementos naturais são descritos de maneira idealizaidealizada? Justifique. da, pois representam o Brasil com uma imagem exuberante, paradisíaca, em que tudo é mais bonito: há “palmeiras”, o “Sabiá” canta, as várzeas são mais floridas, os bosques são cheios de vida e o “céu tem mais estrelas”. c) Tendo em vista o título do poema e a resposta anterior, responda: Que sentimentos o eu lírico expressa no poema? O eu lírico sente saudade e orgulho de sua terra natal, tem desejo de sair da situação de exílio e de retornar para sua pátria. d) Que palavras ou expressões constroem no texto a ideia de pertencimento coletivo, de nação? As expressões acompanhadas pela palavra nosso(s)(as): “Nosso céu tem mais estrelas / Nossas várzeas têm mais flores / 2. Na primeira estrofe de “Pátria minha”, o eu lírico compara a pátria a uma criança dormindo. O que Nossos bosques têm mais vida”. A “íntima doçura”, isto é, o eu lírico tem com a pátria uma intimidade semelhante à que tem com o próprio filho. há em comum entre os elementos dessa comparação? 3. O eu lírico do texto 2 se refere à pátria por meio de um conjunto de metáforas, como “fonte de mel”, “bicho triste”, “desolação de caminhos”, “terra sedenta”, “grande rio secular”, “ilha de ternura”. Que Tem uma visão subjetiva, emocional, carinhosa visão ele revela ter sobre a pátria, por meio dessas metáforas? da pátria. Ao mesmo tempo, ele a vê como um conjunto de contradições, com maravilhas (“fonte de mel, “ilha de ternura”) e problemas (“desolação de caminhos”). 4. Em alguns trechos, o poema “Pátria minha” estabelece uma relação intertextual com o Hino Nacional. a) Identifique esses trechos. “Amada, idolatrada, salve, salve!”, “não é florão, nem ostenta / Lábaro não”, “mais garrida”, “mãe gentil”. b) A apropriação do discurso oficial sobre a pátria, nesse caso, confirma-o ou nega-o? Justifique. 5. Releia a última estrofe do poema “Pátria minha”. Por analogia a telegrama, o neologismo avigrama a) Explique a formação e o sentido do neologismo avigrama. (ave + -grama) sugere que a mensagem será enviada por uma ave. b) Tendo em vista que cotovia e rouxinol são aves típicas do continente europeu, responda: Por que o eu lírico chama esses pássaros se é o sabiá que vai que vai levar o avigrama? Como o eu lírico se encontra no exterior, ele contará com a cotovia e o rouxinol para levar a carta ao sabiá, ave brasileira, que, por sua vez, vai levá-la ao Brasil. c) “Pátria minha” estabelece uma relação intertextual com “Canção do exílio”. Que elementos dessa estrofe, em particular, e do poema, em geral, explicitam essa relação? A referência ao sabiá, na última estrofe do poema, e o tema do exílio, abordado no poema, evidenciam a relação intertextual com o poema de Gonçalves Dias. d) Geralmente, a voz que fala nos poemas é a do eu lírico, que nem sempre corresponde à voz do próprio poeta. Essa simulação poética também se verifica no poema “Pátria minha”? Justifique em “Pátra minha” o poeta assume a voz do eu lírico ao assinar o poema como com elementos dessa estrofe. Não; “Vinicius de Moraes”. 6. Discuta com os colegas: Qual efeito de sentido a citação de “Canção do exílio” produz no poema citação de “Canção do exílio”, poema que é referência em relação ao sentimento pátrio, reforça o ideal de “Pátria minha”? A pertencimento e de identidade nacional no poema “Pátria minha”. 31 Língua e linguagem BN CC Competências gerais da Educação Básica: 1, 2, 7 Competências específicas da área de Linguagens: 1, 4, 6 Habilidades específicas da área de Linguagens: EM13LGG2103, EM13LGG401, EM13LGG601, EM13LGG602 Habilidades específicas de Língua Portuguesa: EM13LP01, EM13LP02, EM13LP06, EM13LP07, EM13LP08, EM13LP09, EM13LP10, EM13LP14, EM13LP46, EM13LP49 Classes de palavras: revisão (I) — substantivo, adjetivo, artigo, numeral e pronome Foco no texto Para responder às questões 1 e 2, releia, a seguir, os versos iniciais do poema de Álvares de Azevedo que você estudou anteriormente neste capítulo. A T... No amor basta uma noite para fazer de um homem um Deus. Propércio Amoroso palor meu rosto inunda, Eu sinto-a de paixão encher a brisa, Mórbida languidez me banha os olhos, Embalsamar a noite e o céu sem nuvens, Ardem sem sono as pálpebras doridas, E ela mesma suave descorando Convulsivo tremor meu corpo vibra: Os alvacentos véus soltar do colo, Quanto sofro por ti! Nas longas noites Cheirosas flores desparzir sorrindo Adoeço de amor e de desejos Da mágica cintura. E nos meus sonhos desmaiando passa […] A imagem voluptuosa da ventura… AZEVEDO, Álvares de. A T... In: HELLER, Bárbara; BRITO, Luís Percival Leme de; LAJOLO, Marisa (org.). Álvares de Azevedo: seleção de textos, notas, estudo biográfico, histórico e crítico por Bárbara Heller, Luís Percival Leme de Brito, Marisa Philbert Lajolo. São Paulo: Abril, 1982. p. 21-22. (Literatura Comentada). 1. As palavras escolhidas para nomear os elementos do poema contribuem para a construção de uma ambientação específica, típica do Romantismo, conforme você estudou anteriormente. Observe, a seguir, algumas das palavras que nomeiam elementos nos oito primeiros versos do poema: palor corpo rosto noites languidez olhos amor desejos sono sonhos pálpebras imagem tremor ventura a) Troque ideias com os colegas e o professor e, considerando os sentidos de cada uma dessas palavras no poema, indique, no caderno: delas nomeiam partes do corpo do eu lírico? • Quais rosto, olhos, pálpebras, corpo delas nomeiam elementos ligados ao estado de espírito do eu lírico? • Quais palor, languidez, sono, tremor, amor, desejos • Quais delas se referem a elementos que compõem o ambiente ou que o eu lírico vê? b) Identifique, nos demais versos do poema, outras palavras usadas para nomear elementos, brisa, noite, céu, nuvens, véus, colo, flores, cintura, etc. ações, seres, objetos, estados de espírito. Paixão, Se julgar conveniente, vá lendo o texto verso a verso em voz alta e faça a atividade em conjunto com a turma. 2. Para descrever a amada e a si mesmo, o eu lírico utiliza termos que são importantes para expressar certa visão do amor, conforme você também já estudou anteriormente. 32 Língua e linguagem 2. b) Para descrever o eu lírico: “amoroso palor”, “mórbida languidez”, “doridas pálpebras” e “convulsivo tremor”; e a interlocutora: “voluptuosa imagem”, “alvacentos véus”, “cheirosas flores”, “mágica cintura”. Devido aos sentidos das palavras utilizadas para construir essas expressões, elas contribuem para descrever o estado de sofrimento do eu lírico, em comparação à Não escreva no livro. imagem idealizada da interlocutora. a) Identifique a que outros termos do texto se refere cada uma das palavras a seguir. • amoroso palor • mórbida languidez • doridas pálpebras • convulsivo tremor • voluptuosa imagem • alvacentos véus • cheirosas flores • mágica cintura b) Troque ideias com os colegas e o professor: Quais das palavras em estudo no item a são usadas para descrever o eu lírico e quais são empregadas para descrever sua interlocutora? E qual é o papel desses termos na construção das imagens dos dois? 3. Agora observe as palavras em destaque nos versos a seguir: E nos meus sonhos desmaiando passa E a teus pés, de joelhos, crer ainda A imagem voluptuosa da ventura… Que não mente o amor que um anjo inspira, […] a) Qual outra palavra do texto é acompanhada por cada uma delas? Respectivamente: sonhos, imagem, ventura, amor e anjo. b) Compare estas construções: A imagem voluptuosa da ventura… – não mente o amor que um anjo inspira Uma imagem voluptuosa da ventura – não mente o amor que o anjo inspira Troque ideias com os colegas e o professor e levante hipóteses: Que mudança de sentido ocorre nas frases em razão da troca dos termos em destaque em cada um dos trechos? Nos versos originais, a expressão “a imagem” indica uma imagem específica, aquela que o eu lírico vê. Já a expressão “um anjo”, por sua vez, não se refere a um anjo determinado, mas sim a qualquer anjo que inspire o amor. 4. Releia estes outros quatro versos do poema, observando os termos em destaque. Ah! vem, pálida virgem, se tens pena Dá vida em teu alento à minha vida, De quem morre por ti, e morre amando, Une nos lábios meus minh’alma à tua! a) Identifique quais dos termos em destaque fazem referência ao eu lírico e quais fazem referência à interlocutora. Ao eu lírico: quem, minha, meus, minha/minh’; à interlocutora: ti, teu, tua. b) Considerando sua resposta ao item a, conclua: É possível afirmar que os termos no masculino se referem ao eu lírico e os termos no feminino referem-se à interlocutora? Justifique sua refere-se ao eu lírico (1a pessoa) e está no feminino, ao passo que o termo resposta. Não, pois o termo minha /minh’) a teu refere-se à interlocutora (2 pessoa) e está no masculino. c) Interprete: A contraposição desses termos contribui para a construção de qual sentido no trecho? A contraposição, de forma intercalada, de termos que se referem ao eu lírico e a sua interlocutora contribui para reforçar a grande diferença entre os dois. Reflexões sobre a língua Substantivo, adjetivo, artigo e numeral Ao responder às questões anteriores, você viu que há palavras que designam coisas, seres, ações. Essas palavras são os substantivos, que você já estudou em anos anteriores da sua escolarização, no Ensino Fundamental. Você viu, ainda, que há outras palavras que se ligam ao substantivo para determiná-lo, indeterminá-lo, especificá-lo, generalizá-lo, particularizá-lo, diferenciá-lo. Essas palavras, conforme você também já estudou anteriormente, podem ser artigos, numerais e adjetivos. Substantivos são palavras variáveis em gênero e número que designam seres — visíveis ou não, animados ou não —, objetos, lugares, ações, estados, sentimentos, desejos, ideias. Adjetivos são palavras variáveis que caracterizam e particularizam os seres, indicando condição ou estado provisórios ou permanentes. Referem-se sempre a um substantivo explícito ou subentendido na frase, com o qual concordam em gênero e número. Podem expressar percepções subjetivas. Artigo é a palavra que antecede o substantivo, definindo-o ou indefinindo-o. Numeral é a palavra que expressa quantidade numérica ou ordem. Língua e linguagem 33 APLIQUE O QUE APRENDEU 2. a) Abra a discussão com a turma, comentando que o exército e a polícia eram, até algumas décadas atrás, instituições exclusivamente compostas de homens e apenas no século XX as mulheres começaram a ocupar oficialmente esses postos. É provável, portanto, que a forma masculina ainda prevaleça por hábito linguístico. Leia estes títulos e trechos de notícias para responder às questões 1 a 4. I. PM inicia maratona de atendimentos médicos no Verão 2020 [...] Coordenadora do programa, a capitão Ana Carolina de Miranda explica que a estrutura dos consultórios itinerantes chama a atenção das pessoas, em geral. FIGUEIREDO, Taiane. PM inicia maratona de atendimentos médicos no Verão 2020. Agência Pará, Belém, 2 jul. 2020. Disponível em: https://tedit.net/qua41g. Acesso em: 20 out. 2024. II. Capitã da PM representa Segurança Pública em livro que trata da atuação feminina em Direitos Humanos CAPITà da PM representa Segurança Pública em livro que trata da atuação feminina em Direitos Humanos. Polícia Militar da Paraíba, João Pessoa, 26 ago. 2020. Disponível em: https://tedit.net/77sd4p. Acesso em: 24 out. 2024. III. Foto de sargento amamentando bebê viraliza nas redes sociais Uma policial militar foi flagrada amamentando um bebê, que chorava de fome, na Delegacia de Mulheres em Belo Horizonte. O ato de solidariedade ganhou as redes sociais e conquistou o coração de muita gente. FOTO de sargento amamentando bebê viraliza nas redes sociais. R7, Brasília, 25 fev. 2020. Disponível em: https://tedit.net/zae8ke. Acesso em: 20 out. 2024. IV. Patrulha Maria da Penha de Sinop promove lives no mês de combate à violência doméstica [...] A coordenadora da Patrulha, a sargenta da PM Lucélia, disse que durante o mês Lilás serão debatidos os avanços da Lei Maria da Penha, como as medidas protetivas de urgência, além de políticas públicas voltadas à prevenção da violência contra a mulher no município de Sinop. PATRULHA Maria da Penha de Sinop promove lives no mês de combate à violência doméstica. Polícia Militar de Mato Grosso, Cuiabá, 12 ago. 2020. Disponível em: https://tedit.net/ot0o5i. Acesso em: 20 out. 2024. V. A soldada mais condecorada da História era a Mulan do século XX A SOLDADA mais condecorada da História era a Mulan do século XX. Zap, [s. l.], 14 dez. 2022. Disponível em: https://tedit.net/fr8snv. Acesso em: 20 out. 2024. VI. Família de soldado desaparecida nos EUA diz que exército americano mentiu FAMÍLIA de soldado desaparecida nos EUA diz que exército americano mentiu. UOL, São Paulo, 2 jul. 2020. Disponível em: https://tedit.net/och5p5. Acesso em: 20 out. 2024. 1. Todos os trechos ou manchetes lidos fazem referência a mulheres do exército ou da polícia militar que ocupam cargos de patente nessas instituições. Identifique de que modo cada um dos textos lidos nomeia essas patentes. Respectivamente: capitão, capitã, sargento, sargenta, soldada, soldado. 2. Embora o Vocabulário ortográfico da língua portuguesa registre os nomes femininos das patentes, é mais comum ver a utilização das formas masculinas nesse contexto. a) Levante hipóteses: Por que as formas masculinas prevalecem? b) Explique como cada um dos textos que utiliza as formas masculinas sinaliza que a referência é feita a uma mulher. Nos textos I, III e VI, os determinantes utilizados no feminino sinalizam que se trata de mulheres. São eles: coordenadora (I), uma, flagrada (III), desaparecida (VI). 3. Releia os textos que optam por formas femininas e observe seu conteúdo. Em seguida, troque ideias com os colegas e o professor e levante hipóteses: Por que a forma feminina foi usada nesses casos? 3. Abra a discussão com a turma. Os textos que optam pelas formas femininas abordam assuntos relacionados à presença da mulher nessas instituições e na sociedade em geral. 34 Língua e linguagem Não escreva no livro. 4. Identifique no caderno, entre os grupos de palavras indicados nas opções a seguir, aquele que contém substantivos cujas formas podem ser diferentes no masculino e no feminino. Em seguida, que os estudantes indiquem o grupo do item c: “mestre, parente, giganindique quais seriam essas formas. Espera-se te”, cujas formas femininas são mestra, parenta e giganta. a) vítima, dentista, artista c) mestre, parente, gigante b) gerente, agente, atendente d) jornalista, jovem, policial Leia o texto e responda às questões 5 a 8. A maratona do herói A maratona é a mais longa, difícil e emocionante prova olímpica. Desde 1908, seu percurso é de 42.195 m. Tudo começou no ano de 490 a.C., quando soldados gregos e persas travaram uma batalha que se desenrolou entre a cidade de Maratona e o mar Egeu. A luta estava difícil para os gregos. Comandados por Dario, os persas avançaram seu exército em direção a Maratona. Milcíades, o comandante grego, resolveu pedir reforço. Chamou Fidípides, um de seus valentes soldados. Ótimo corredor, ele levou o apelo de cidade em cidade até chegar em Atenas, 40 km distante. Voltou com 10 mil soldados e os gregos venceram a batalha, matando 6.400 persas. Entusiasmado com a vitória, Milcíades ordenou que Fidípides fosse correndo até Atenas outra vez para informar que eles tinham vencido a batalha. Fidípides foi de novo, sem parar. Quando chegou ao seu destino, só teve forças para dizer uma palavra: “Vencemos!”. E caiu morto. Em 1896, durante os primeiros Jogos Olímpicos da era moderna, Fidípides foi homenageado com a criação da prova. No início, a distância a ser percorrida era de 40 km, a mesma que separava Maratona de Atenas. DUARTE, Marcelo. O guia dos curiosos. 3. ed. São Paulo: Panda Books, 2005. p. 245. 5. Quais adjetivos são utilizados no texto para caracterizar a prova olímpica da maratona? longa, difícil, emocionante 6. Observe estas frases: 6. Em “soldados gregos e persas travaram uma batalha”, gregos e persas são adjetivos, pois caracterizam os soldados. Em “os persas avançaram” e “os gregos venceram a batalha”, persas e gregos são substantivos, pois designam homens nascidos na Grécia e na Pérsia, respectivamente. ● soldados gregos e persas travaram uma batalha ● os persas avançaram ● os gregos venceram a batalha Os termos destacados nas frases são substantivos ou adjetivos? Justifique sua resposta. 7. Os adjetivos podem ser empregados em diferentes graus, que exprimem quantidade e intensidade. a) Deduza: Quais adjetivos do primeiro parágrafo do texto estão no grau superlativo relativo de supeadjetivos longa, difícil e emocionante e a expressão é “a mais”, rioridade e qual expressão indica esse grau? Os que os antecede. b) Identifique no segundo parágrafo o uso de uma variação do grau do adjetivo bom. ótimo c) Troque ideias com os colegas e o professor: Que efeito de sentido as construções observadas uso de graus do adjetivo que exprimem maior intensidade vapor você nos itens a e b constroem no texto? O loriza a prova da maratona e sua origem histórica. 8. Releia os seguintes trechos: ● soldados gregos e persas travaram uma batalha ● só teve forças para dizer uma palavra a) Em qual deles a palavra uma é empregada como numeral? E em qual ela é empregada como No primeiro trecho é empregada como artigo indefinido, pois refere-se a alguartigo indefinido? Justifique sua resposta. ma batalha entre muitas que podem ter ocorrido; no segundo trecho, como numeral, pois indica a quantidade de palavras que o soldado conseguiu dizer. b) Perceba que, no primeiro trecho, a expressão “soldados gregos e persas” é empregada sem artigos. Identifique os termos que retomam esses nomes no segundo parágrafo do texto. “os gregos”, “os persas”, “os gregos”, “6.400 persas”. c) Discuta com os colegas e o professor os sentidos das diferentes expressões observadas por você no item b. Explique a diferença de sentido no emprego dessas diferentes formas no texto. No primeiro trecho, a palavra soldados é apresentada sem artigo porque refere-se a soldados de forma não específica. Já ao longo do segundo parágrafo a presença dos artigos definidos indica que se trata dos mesmos gregos e persas mencionados anteriormente. Língua e linguagem 35 Pronomes Ao analisar alguns versos do poema de Álvares de Azevedo, você viu que o enunciador utiliza a palavra quem para fazer referência a si mesmo; as palavras minha e meus para estabelecer relação entre ele próprio e outros elementos do texto (vida e lábios, respectivamente); a palavra ti para fazer referência a sua interlocutora; e as palavras teu e tua para estabelecer relação entre sua interlocutora e outros elementos do texto (alento e alma, respectivamente). Pronomes são palavras que substituem ou acompanham outras palavras, principalmente substantivos, fazendo referência às pessoas do discurso. Podem também remeter a palavras, orações e frases expressas no texto. As palavras quem, meu, minha, ti, teu e tua são pronomes. Existem diferentes tipos de pronome, cuja classificação varia de acordo com sua função e seu sentido nos enunciados. São eles: pronomes pessoais, pronomes de tratamento, pronomes possessivos, pronomes demonstrativos, pronomes indefinidos, pronomes interrogativos e pronomes relativos. Pronomes pessoais, pronomes de tratamento e pronomes possessivos Você vai ler a seguir três diferentes textos que utilizam construções linguísticas e estratégias variadas para estabelecer um diálogo com os interlocutores aos quais se dirigem. Texto 1 A miragem Não direi que a tua visão desapareceu dos meus olhos sem vida Nem que a tua presença se diluiu na névoa que veio. Busquei inutilmente acorrentar-te a um passado de dores Inutilmente. Vieste — tua sombra sem carne me acompanha Como o tédio da última volúpia. Vieste — e contigo um vago desejo de uma volta inútil E contigo uma vaga saudade… És qualquer coisa que ficará na minha vida sem termo Como uma aflição para todas as minhas alegrias. Tu és a agonia de todas as posses És o frio de toda a nudez E vã será toda a tentativa de me libertar da tua lembrança. […] MORAES, Vinicius de. A miragem. In: MORAES, Vinicius de. Poesias avulsas. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2004. Texto 2 Você sabe quem vos fala? […] Resolvi me apresentar, afinal são quase 350 mil leitores por mês e pouco conhecemos um do outro. Não sei você, mas sempre tenho curiosidade em saber quem está do lado de lá. Quem escolhe ler minha coluna, por que escolhe e o que pensa. Sim, eu me interesso pelo leitor. Vira e mexe vou procurar uma foto, informação sobre um nome. Gosto de saber quem são as pessoas. Sim, os 350 mil leitores são pessoas. DELBONI, Carolina. Você sabe quem vos vala? Estadão, São Paulo, 20 dez. 2021. Disponível em: https://tedit.net/7bp5z8. Acesso em: 18 set. 2024. 36 Língua e linguagem 1. b) O sentimento predominante do eu lírico é de melancolia e resignação em relação à figura mencionada. Ele expressa uma sensação de perda e uma luta inútil para se libertar da lembrança dessa figura. Isso é evidenciado em trechos como “Vieste — tua sombra sem carne me acompanha” e “E vã será toda a tentativa de me libertar da tua lembrança”. Texto 3 Não escreva no livro. Meu caro amigo Meu caro amigo me perdoe, por favor Se eu não lhe faço uma visita Mas como agora apareceu um portador Mando notícias nessa fita Aqui na terra ‘tão jogando futebol Tem muito samba, muito choro e rock’n’roll […] 1. c) Pode-se dizer que ele estabelece um tom mais formal, tanto em função das escolhas lexicais quanto da estrutura das frases, com o uso de palavras e construções mais solenes, além das inversões típicas da construção de poemas, tais como nos versos “Busquei inutilmente acorrentar-te a um passado de dores”; “Vieste — tua sombra sem carne me acompanha / Como o tédio da última volúpia.”; “És qualquer coisa que ficará na minha vida sem termo / Como uma aflição para todas as minhas alegrias”. Ainda há o uso de todas as formas verbais e pronominais conjugadas e flexionadas na segunda pessoa, o que é pouco comum no Brasil atualmente, mesmo em regiões que utilizam o pronome tu. MEU caro amigo. Intérprete: Chico Buarque. Compositores: Chico Buarque e Francis Hime. In: MEUS caros amigos. Intérprete: Chico Buarque. [S. l.]: Phonogram/Philips, 1976. 1 LP, lado B, faixa 5. Disponível em: https://tedit.net/0pz1xd. Acesso em: 18 set. 2024. 1. a) Ele se dirige a um(a) interlocutor(a) de quem se 1. Sobre o poema de Vinicius de Moraes, levante hipóteses: lembrou e com quem já teve uma relação próxima ou amorosa, a quem trata pela forma pronominal tu. a) A quem o eu lírico se dirige no poema? Em qual pessoa ele trata esse/essa interlocutor(a)? b) Qual é o sentimento predominante do eu lírico em relação à figura mencionada no poema? Justifique sua resposta com trechos do texto. c) Pode-se dizer que o autor constrói um tom de maior ou menor formalidade ao estabelecer a interlocução? Justifique sua resposta com elementos do texto. 2. Assim como no poema analisado na questão 1, Carolina Delboni também interpela diretamente seu interlocutor no texto 2. Troque ideias com os colegas e o professor: Qual efeito de sentido é construído pela autora ao fazer as escolhas pronominais por meio das quais se refere a seus leitores? 3. Na canção “Meu caro amigo”, de Chico Buarque, qual é a escolha do eu lírico quanto ao tratamento eu lírico chama o leitor/ouvinte de “meu caro amigo” e usa a forma de terceira pessoa lhe para se referir a ele. dado ao ouvinte? O Pergunte aos estudantes como eles costumam empregar o pronome nesses casos. Em geral, é mais comum a escolha por te, na 2a pessoa, mesmo quando tratamos o interlocutor como você, uma forma de 3a pessoa. 4. Há, nos textos, palavras que se referem às três pessoas do discurso, isto é, quem fala (1a pessoa), com quem se fala (2a pessoa) e de que se fala (3a pessoa). a) Quais palavras e expressões são empregadas para se referir a cada uma das três pessoas do Primeiro texto: 1a pessoa: meus, me, minha, minhas; 2a pessoa: tua, te, contigo, tu. Segundo texto: discurso? a a a a 1 pessoa: me; 2 pessoa: vos, vocês. Terceiro texto: 1 pessoa: meu, me; 3 pessoa: lhe. b) Troque ideias com os colegas e o professor e explique os efeitos de sentido construídos pelas diferentes escolhas no emprego das formas pronominais. Consulte a resposta da atividade 4, item b, nas Orientações específicas do Manual do Professor. 5. Entre as palavras indicadas por você no item a da questão anterior, há algumas que são utilizadas com a função de interpelar o interlocutor. a) Identifique-as. Tu e vocês. b) Embora todas elas se dirijam à 2a pessoa do discurso, nem todas são usadas na 2a pessoa. a a Explique essa afirmação. A forma vocês faz referência à 2 pessoa do discurso, mas textualmente é usada na 3 pessoa gramatical. 6. Releia estes versos: • Meu caro amigo • Tua visão desapareceu dos meus olhos sem vida • És qualquer coisa que ficará na minha vida 2. A autora, ao se apresentar aos leitores, cria uma conexão mais pessoal e direta com eles. O uso do vos, que representa uma forma pouco comum em textos atuais, pode demonstrar interesse pelos leitores, tratando-os com uma reverência pouco comum para esse gênero textual e chamando a atenção do leitor para o texto por ser utilizada logo no título. A forma escolhida na sequência, você, revela uma intimidade, reforçando a ideia da construção de uma conexão pessoal. a) Indique, em cada verso, os elementos que são colocados em relação pelas palavras meu, tua, Chame a atenção dos estudantes para o fato de que um dos elementos da relação pode ser inferido pela meus, minha. pessoa da forma pronominal. Portanto, respectivamente: eu e amigo; a interlocutora e a visão; eu e olhos; eu e vida. b) Troque ideias com os colegas e o professor: Quais relações essas palavras estabelecem entre os dois elementos que conectam em cada situação? Respectivamente: A amizade que o eu lírico demonstra pelo leitor; a imagem da interlocutora vista pelo eu lírico; os órgãos por meio dos quais o eu lírico enxerga; a vida que o eu lírico leva. Língua e linguagem 37 Como você viu ao responder às questões, os pronomes pessoais designam as pessoas do discurso; os pronomes de tratamento são utilizados por quem fala para se dirigir a seu interlocutor; e os pronomes possessivos estabelecem algum tipo de relação entre os elementos que conectam (entre elas, a de posse, daí o nome possessivo). Pronomes pessoais são aqueles que indicam as três pessoas do discurso, do singular e do plural. Pronomes de tratamento são palavras e expressões empregadas para tratar de modo familiar ou cerimonioso o interlocutor. Pronomes possessivos são aqueles que indicam relações diversas, tais como a de posse, entre os elementos por eles conectados. O sistema de pronomes pessoais do português brasileiro vem sofrendo mudanças há muito tempo e já é descrito pelos linguistas de modo diferente do da gramática normativa. Os pronomes você e (o) senhor/(a) senhora, por exemplo, tradicionalmente classificados como pronomes de tratamento, são com frequência empregados como pronomes pessoais. Veja, a seguir, um quadro que contrapõe a classificação dos pronomes pessoais segundo a norma-padrão e segundo as pesquisas linguísticas. Segundo a gramática normativa/ norma-padrão Português brasileiro informal Oblíquos/Complementos Número Pessoa 1a Singular Plural Retos/ Sujeitos Usados sem preposição (átonos) Usados com preposição (tônicos) Sujeitos Complementos eu me mim, comigo eu eu, me, mim, prep. + eu, mim você/ocê/ cê, tu você/ocê/cê, te, ti, prep. + você/ ocê 2a tu, você, o senhor, a senhora te ti, contigo prep. + o senhor/a senhora prep. + você 3a ele, ela o, a, lhe, se si, ele, ela, consigo ele/ei, ela ele/ei, ela, lhe, prep. + ele/ei, ela 1a nós nos nós, conosco a gente a gente, prep. + a gente 2a vós, vocês, os senhores, as senhoras vos vos, convosco prep. + os senhores, as senhoras prep. + vocês vocês/ ocês/cês vocês/ocês/cês, prep. + vocês/ ocês 3a eles, elas os, as, lhes, se si, eles, elas, consigo eles/eis, elas eles/eis, elas, prep. + eles/eis, elas (Quadro elaborado com base em: CASTILHO, Ataliba T. de. Nova gramática do português brasileiro. São Paulo: Contexto, 2010. p. 477.) 38 Língua e linguagem Não escreva no livro. Agora veja o quadro dos pronomes de tratamento e seus usos. Formas de tratamento Tratamento Abreviatura Usado para você v. pessoas com quem temos intimidade Vossa Alteza V. A. príncipes, duques Vossa Eminência V. Em.a cardeais Vossa Excelência V. Ex.a altas autoridades do governo e das forças armadas a Vossa Magnificência V. Mag. reitores de universidades Vossa Majestade V. M. reis, imperadores Vossa Santidade V. S. papa Vossa Senhoria V. S.a funcionários públicos graduados, oficiais (até coronel) e pessoas de cerimônia senhor, senhora sr., sra. geralmente pessoas mais velhas que nós ou a quem queremos tratar com distanciamento e respeito; a forma senhorita, já caindo em desuso, é empregada para moças solteiras Eis o quadro dos pronomes possessivos, referentes às três pessoas do discurso, segundo a gramática normativa: Pronomes possessivos Singular Número Singular Pessoa Feminino Masculino Feminino 1a meu minha meus minhas 2a teu tua teus tuas a 3 seu sua seus suas a nosso nossa nossos nossas 2a vosso vossa vossos vossas 3a seu sua seus suas 1 Plural Masculino Plural Leia este anúncio: Reprodução/ANER/ABERT/ ANJ/Agência África Pronomes demonstrativos, indefinidos e interrogativos No mundo conectado, todos têm voz. Mas quem tem responsabilidade? É cada vez mais necessário contar com uma imprensa livre e responsável para ter certeza da verdade. 3 de maio. Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE EDITORES DE REVISTAS. Quando todos têm liberdade pra falar tudo, é bom contar com quem tem responsabilidade com tudo o que fala. Brasília, 3 abr. 2018. Facebook: Associação Nacional de Editores de Revistas. Disponível em: https://tedit.net/1q2rgu. Acesso em: 18 set. 2024. Língua e linguagem 39 1. a) Tem a finalidade de promover uma ideia, a de que a imprensa precisa ser “livre e responsável” para veicular informações comprovadas e comprometidas com “a verdade”. Além disso, o anúncio convida o leitor a compartilhar a ideia, por meio do uso da forma verbal imperativa “compartilhe”, chamando a atenção para a importância dela no contexto em que qualquer pessoa pode disseminar uma informação, seja ela verdadeira ou não. 1. O anúncio é assinado por três instituições: ABERT (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão), ANER (Associação Nacional de Editores de Revistas), ANJ (Associação Nacional de Jornais). a) A finalidade principal desse anúncio é vender um produto, divulgar um evento ou promover uma ideia? Explique sua resposta com base em termos e expressões do texto. b) Qual é a relação das instituições que assinam o anúncio com a finalidade indicada por você no item a? Todas elas são ligadas ao setor de comunicação e imprensa, a veículos de mídia e profissionais que trabalham produzindo e divulgando notícias para a população em geral. 2. No enunciado central, em letras azuis e pretas, o anúncio emprega as palavras todos, tudo e quem. Troque ideias com os colegas e o professor: a) É possível identificar a quem exatamente esses termos se referem? Justifique sua resposta. Não, pois são palavras imprecisas, que fazem referência a um grupo genérico. b) Quais outros trechos do anúncio dão indícios sobre os possíveis referentes dessas palavras? No contexto do anúncio, é possível perceber, especialmente pelo trecho em letras azuis, alguns dos referentes, por exemplo, as pessoas que usam a internet, em geral (“mundo conectado”) e a imprensa (“tem responsabilidade em tudo o que fala”). 3. Observe o termo isso, empregado no enunciado inferior do anúncio. A que ele se refere, no contexto? A toda a ideia por ele veiculada (que se deseja que o leitor compartilhe), de que a imprensa é o órgão responsável por verificar a veracidade das informações e noticiá-las ao grande púbico com credibilidade. 4. O anúncio em estudo foi publicado em uma data comemorativa. a) Que data é essa? O dia 3 de maio, Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. b) Você acredita que atualmente “todos têm liberdade para falar tudo”? Por quê? Resposta pessoal. c) No anúncio, há este alerta: “É bom contar com quem tem responsabilidade em tudo o que fala”. Discuta com os colegas e o professor: Por que, ao divulgar informações em notícias e comentários em redes sociais, entre outros, é preciso “ter responsabilidade”? O que isso significa? Espera-se que os estudantes observem que ter responsabilidade significa ter consciência da validade e confiabilidade das informações divulgadas, evitando disseminar fake news e informações que possam ferir ou prejudicar outras pessoas, ameaçando os direitos alheios. As palavras que você analisou nas questões anteriores também são pronomes: isso é um pronome demonstrativo e todos, tudo e quem são pronomes indefinidos. Pronomes demonstrativos são aqueles que situam pessoas ou coisas em relação às três pessoas do discurso. Essa localização pode também se dar em relação ao tempo, ao espaço ou ao próprio texto. Pronomes indefinidos são aqueles que fazem referências vagas, imprecisas e genéricas a substantivos. Os pronomes demonstrativos podem ser utilizados para retomar textualmente outras palavras, frases ou ideias, assim como podem ser utilizados para fazer referências temporais ou espaciais. Veja um resumo do emprego do pronome demonstrativo de acordo com as regras da norma-padrão. Relação espacial • Próximo de quem fala: Este celular que está na minha mão é o seu? • Próximo da pessoa com quem se fala: Esse celular que está na sua mão é o meu? • Distante de ambos: Aquele celular em cima da mesa é o meu? Relação temporal • Presente, tempo atual: Esta semana estamos muito atarefados. • Ideia de passado relativamente próximo ou de futuro distante: Eu me lembro desse dia em que fomos ao parque./Ainda vai chegar esse dia em que viajaremos juntos. • Ideia de passado remoto: Eu me lembro daquele dia em que fomos ao parque. 5. Com base nas reflexões da questão anterior, reavalie suas postagens em redes sociais e verifique: a) Se elas foram feitas “com responsabilidade em tudo o que fala”. b) Se agora, considerando as reflexões feitas, você não teria publicado alguma delas. Em caso afirmativo, explique por quê. c) Compartilhe os achados e discuta-os com os colegas e o professor. d) Registre suas conclusões no caderno. 40 5. Respostas pessoais. É importante apoiar os estudantes na realização da tarefa, para que consigam identificar postagem e atividades problemáticas em suas redes. Ao final, reforce a importância de atuar nas redes sociais pautanLíngua e do-se pelo respeito ao outro e aos seus direitos, disseminando uma cultura de paz. linguagem Não escreva no livro. Relação textual • Referência ao que ainda não foi mencionado (catáfora): Este é o meu hobby favorito: costurar! • Referência ao que acabou de ser mencionado (anáfora): Costurar, esse é o meu hobby favorito! • Contraposição entre um elemento distante no texto e outro imediatamente anterior referido por este(a)(s): Aos finais de semana, costumo ficar na cozinha e na costura./Esta, faço por hobby; aquela, por obrigação. Veja, a seguir, os pronomes indefinidos. Pronomes indefinidos Variáveis Invariáveis algum, nenhum, todo, outro, muito, pouco, certo, vário, tanto, quanto, qualquer, qual alguém, ninguém, tudo, outrem, nada, cada, algo, que, quem O pronome quem, analisado anteriormente, também pode ser empregado em perguntas, por exemplo: “Quem veicula notícias com responsabilidade?”. Outros pronomes indefinidos têm essa mesma possibilidade, entre eles: “[O] Que as pessoas falam na internet?”, “Quanta(s) informação(ões) não é/são verdadeira(s)?”, “Quais informações não são verdadeiras?”. Nesses casos, quem, [o] que, quanta, quantas e quais são pronomes interrogativos. Pronomes interrogativos são os pronomes indefinidos quem, que, qual e quanto (e variações), quando empregados em perguntas, diretas ou indiretas. Eis o quadro dos pronomes interrogativos: Pronomes interrogativos Variáveis qual, quanto Invariáveis que, quem Pronomes relativos © 2003 Jim Davis/Paws, Inc. All Rights Reserved/ Dist. by Andrews McMeel Syndication Leia a tira a seguir. DAVIS, Jim. Garfield. Folha de S.Paulo, São Paulo, 21 fev. 2003. Língua e linguagem 41 1. a) Todas e algumas, pronomes indefinidos. São utilizadas essas formas porque Jon não aponta para quais garotas (entre as que conhece e entre as que não conhece) ligou exatamente. 1. No 2o e no 3o quadrinho, Jon e Garfield empregam alguns pronomes em suas falas. a) Qual forma pronominal acompanha o substantivo garotas na fala de Jon no 2o quadrinho? Dê a classificação dela e indique qual pronome do mesmo tipo foi empregado no 3o quadrinho. Em seguida, justifique o emprego dessas formas no contexto. b) E quais pronomes são utilizados por Garfield? Identifique o referente de cada um deles no contexto. Isso, que se refere ao que Jon disse ter feito, e essas, que se refere às garotas para quem Jon ligou mesmo sem conhecê-las. c) Troque ideias com os colegas e o professor e explique de que forma as falas de Garfield nesses quadrinhos contribuem para a construção do humor do texto. As falas de Garfield enfatizam o desatino das ações de Jon, pois é como se ele precisasse confirmar a veracidade delas para que o leitor acredite, tamanha falta de bom senso de seu tutor. 2. Observe as frases a seguir: • Liguei para todas as garotas — conheço todas as garotas • Até para algumas — não conheço algumas a) Deduza: Qual palavra utilizada nas falas de Jon no 2o e no 3o quadrinho foi empregada para substituir os termos em destaque na segunda frase de cada par? A palavra que. b) Una as frases a seguir utilizando essa mesma palavra ou outra que cumpra o mesmo papel. visitar nossos amigos — não vemos nossos amigos há muito tempo. • Vamos Vamos visitar nossos amigos que não vemos há muito tempo. a casa — minha mãe morou na casa quando criança. • Visitei Visitei a casa em que/na qual/onde minha mãe morou quando criança. • Veja o livro — comprei o livro ontem. Veja o livro que comprei ontem. c) Troque ideias com os colegas e o professor e explique a função das palavras utilizadas por você palavras substituem um nome (no caso, um substantivo) anteriormente expresso, contribuindo para elimino item b. Essas nar repetições e deixar o texto mais conciso e enxuto. Quando substitui uma palavra ou expressão antecedente, isto é, já mencionada, a palavra que é um pronome relativo. Pronome relativo é aquele que liga orações e se refere a um termo anterior — o antecedente. Eis o quadro dos pronomes relativos: Pronomes relativos Variáveis Masculino Feminino Invariáveis Singular Plural Singular Plural o qual os quais a qual as quais que cujo cujos cuja cujas quem quanto quantos quanta quantas onde APLIQUE O QUE APRENDEU © Fernando Gonsales/Acervo do cartunista Leia as tiras e responda às questões 1 a 5. 42 GONSALES, Fernando. Níquel Náusea. Folha de S.Paulo, São Paulo, 30 jun. 2008. Língua e linguagem Laerte/Acervo da cartunista Não escreva no livro. LAERTE. Piratas do Tietê. Folha de S.Paulo, São Paulo, 25 fev. 2012. 2. a) Respectivamente, um médico e um vendedor, o que é possível perceber, no primeiro caso, pelo teor da conversa, reforçado pela roupa branca, os quadros que se supõe serem diplomas e certificados na parede, a plaquinha com o nome em cima da mesa. No terceiro quadrinho, um vendedor, s: vo ti ra st on o que se percebe pela fala com a informação do preço, pelas prateleiras ao fundo Pr on om es de m sugerindo o ambiente de uma loja e os outros objetos expostos na bancada. an ça um si st em a em m ud A maior parte dos falantes brasileiros, mesmo aqueles que utilizam variedades urbanas de prestígio, não faz uma distinção rigorosa entre os demonstrativos de 1a e 2a pessoas, principalmente em textos orais. Para alguns linguistas, isso é sinal de que o sistema ternário desses pronomes está se transformando em um sistema binário. Essa constatação quer dizer que, na prática, os pronomes estão sendo utilizados do seguinte modo: de um lado, os pronomes de 1a ou 2a pessoa; de outro, os pronomes de 3a pessoa. Assim, um falante tende a dizer, indiferentemente, “Nesse momento” ou “Neste momento”, e o que vai determinar se ele se refere ao momento presente ou a um momento anterior ao enunciado no discurso é o contexto. Apesar dessa tendência da língua, em muitos textos escritos essa distinção ainda é feita e, especialmente em situações de avaliação, tais como concursos e exames, tende a ser considerada. 1. b) Resposta pessoal. Sugestão: Ela se deve à posição de hierarquia entre o rei e o seu súdito. Também é possível que a quadrinista quisesse remeter a história a um tempo antigo, fazendo uso de uma linguagem arcaica. 1. Observe a situação de comunicação retratada em cada tira. a) Em qual delas existe maior formalidade no discurso? Justifique sua resposta. Na segunda, pois o súdito trata o rei por vós; além disso, emprega a dupla forma pronominal vo-lo (vos + o) que desapareceu do português falado de hoje. b) Levante hipóteses: A que você atribui essa formalidade? 2. Compare as situações retratadas no primeiro e no último quadrinho da primeira tira. a) Deduza: Quem são os personagens que estão atrás das mesas em cada um desses quadrinhos? Justifique sua resposta com base em elementos da tira. b) Qual revelação é feita pelo texto não verbal no último quadrinho? Explique de que forma essa revelação contribui para a construção de humor da tira. c) Na fala “Três reau” há dois desvios em relação à norma-padrão. Indique quais são eles. Em seguida, troque ideias com os colegas e o professor e levante hipóteses: Qual efeito de sentido é construído por essa escolha? O desvio da concordância do plural, “três reais”, e o desvio ortográfico na última letra da palavra real. 3. Na segunda tira, um dos personagens emprega uma dupla forma pronominal, algo em desuso no porb) É revelado o conteúdo da imagem que o tuguês brasileiro atual: “vo-lo trouxesse”. Em relação a vo-lo, responda: 2. personagem tinha em mãos. Essa revelação a) Como é constituída essa dupla forma pronominal? Ela é a soma dos pronomes oblíquos átonos vos e (l)os. b) A que ou a quem ela se refere? Vos refere-se ao rei e equivale a “para vós”. Lo refere-se ao mar, citado anteriormente. 4. Compare as tiras. O que elas têm em comum quanto ao conteúdo? contribui para a construção do humor da tira porque, no primeiro quadrinho, o leitor é levado a pensar que o personagem tinha uma foto de uma pessoa com um nariz considerado belo, e não um nariz postiço, que pode ser comprado em uma loja de fantasias. Em ambas as tiras os personagens querem algo impossível. Em ambas, não se sabe se eles ficarão satisfeitos com o que recebem. 5. Identifique uma ocorrência de pronome interrogativo nas tiras e justifique o uso. A forma (o) que, na fala do rei no 1o quadrinho da 2a tira é um pronome interrogativo, pois introduz uma pergunta feita por ele ao súdito. Língua e linguagem 43 6. b) O próprio Calvin, o “eu” da tira, isto é, quem fala nos quadrinhos, é colocado em relação com o termo mãos. Minha é um pronome possessivo da primeira pessoa do singular e concorda em gênero e número com o termo mãos (feminino, plural). © 1988 Bill Watterson/Dist. by Andrews McMeel Syndication Leia os quadrinhos a seguir e responda às questões 6 a 10. WATTERSON, Bill. Calvin e Haroldo: o livro do décimo aniversário. São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2013. p. 103. 6. a) Como sujeito das formas verbais tenho, sou e controlo, Calvin utiliza o pronome reto, eu; diante de preposição (sem), ele utiliza o pronome oblíquo mim. 6. Na tira, Calvin conversa com as flores e utiliza alguns pronomes para se referir a si mesmo. a) Explique a diferença de emprego entre os pronomes pessoais eu e mim nas falas de Calvin, considerando a classificação e os usos desses pronomes segundo as regras da norma-padrão. b) Quais entes são colocados em relação pela forma pronominal minhas? Classifique esse pronome e indique o tipo de relação que ele estabelece entre esses termos. c) Se no 1o quadrinho Calvin fosse usar um pronome demonstrativo para se referir ao regador (e não o artigo indefinido um), qual seria esse pronome, considerando as regras da norma-padrão? O pronome seria este, masculino, singular e de 1a pessoa, uma vez que faz referência ao regador que Justifique. está nas mãos de Calvin, quem fala. 7. Observe os pronomes empregados no 2o quadrinho para fazer referência às flores. a) Qual forma de tratamento Calvin utiliza para se referir a suas interlocutoras? vocês b) Quais outros pronomes ele utiliza em referência às flores? seu e sua c) Identifique os termos que são colocados em relação pelas formas pronominais indicadas por você no item b. Em seu são colocados em relação flores e destino; em suas são colocados em relação flores e vidas. d) Os pronomes empregados por Calvin em referência a suas interlocutoras são de 2a ou 3a pessoa? Justifique sua resposta e o emprego desses pronomes no contexto da tira. São de 3a pessoa, mas se referem à 2a pessoa do discurso, isto é, à pessoa a quem o enunciador se dirige diretamente. Isso ocorre porque, em português, a 2a pessoa 8. Agora observe o pronome quem utilizado por Calvin no 2o quadrinho. do plural, vós, foi substituída pela forma vocês, de 3a pessoa. a) Qual é a classificação desse pronome na tira? Pronome relativo. a Calvin, que fala na tira em 1 pessoa; portanto, nesse quadrinho o quem b) A quem ele se refere nesse contexto? A se refere especificamente ao pronome pessoal “eu”. c) Reescreva a fala de Calvin, sem alterar substancialmente o sentido, empregando essa mesma palavra como pronome interrogativo. Entre outras possibilidades: “Quem decide se vocês recebem água ou não? Eu!...”. 9. Calvin estabelece uma situação de relação direta entre ele e suas interlocutoras, as flores. a) Na relação com as flores, Calvin se coloca em posição de superioridade ou igualdade? Por que ele se coloca assim? Calvin se coloca em posição de superioridade. Ele faz isso porque tem a água de que as flores precisam. b) Tendo em vista o que acontece no último quadrinho, conclua: A afirmação feita por Calvin era verdadeira? Não, porque as flores receberam água da chuva, deixando de depender da água que Calvin tinha. 10. Observe as falas e as fisionomias de Calvin. É possível considerar que há uma gradação no comportamento do garoto nos três primeiros quadrinhos, interrompida por um desfecho inesperado no 4o quadrinho. 10. a) A fisionomia inicial de Calvin é sorridente, mostrando boa vontade, mas o poder sobe à cabeça do garoto e sua fisionomia vai se tornando mais raivosa e maldosa. a) Descreva sucintamente a gradação na fisionomia de Calvin nos três quadrinhos iniciais. O sentimento de frustra- b) No último quadrinho, qual sentimento é explicitado na fisionomia de Calvin? ção, de decepção. c) Com humor, o autor da tira retrata e ironiza uma característica que não é exclusiva do personagem. Qual é essa característica? O desejo do ser humano de ter poder. 44 Língua e linguagem 2. b) Respectivamente, substantivo e adjetivo. Abra a discussão com a turma: como uma das funções do adjetivo é especificar o termo que ele acompanha, a presença do adjetivo enganosa ao lado de propaganda já contém em si a ideia de que se trata de uma propaganda específica, que engana os consumidores, isto é, que promete algo que não entrega na realidade, tal como consta na definição apresentada pela peça. Não escreva no livro. Texto e enunciação Reprodução/TJDFT Leia o texto a seguir. PROPAGANDA enganosa ou abusiva. Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios, Brasília, 2015. Disponível em: https://tedit.net/tb53ei. Acesso em: 18 set. 2024. 1. O texto lido faz parte de uma série intitulada #DireitoFacil publicada pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT). a) A que classes de palavras pertencem as palavras direito e fácil e qual é o sentido delas, no contexto? Respectivamente, substantivo e adjetivo. No contexto têm os sentidos, respectivamente, de conjunto de leis que regem a vida em sociedade, e de aquilo que se compreende sem esforço ou dificuldade. b) Deduza: Por que as palavras direito e fácil foram escritas sem espaçamento e qual é a função escritas dessa forma porque funcionam como um único “rótulo” do símbolo de hashtag, #, no contexto? Foram que cataloga o teor da postagem. A hashtag ajuda a encontrar outras posc) Entre as opções a seguir, indique no caderno aquela que melhor descreve a função desse tagens relacionadas ao mesmo assunto ou que fazem parte da mesma campanha, permitindo texto. que os internautas localizem mais facilmente conteúdos ligados ao tema. • Incentivar os pais a comprar presentes para os filhos no Dia das Crianças. • Orientar o público sobre como agir com crianças em situações de irritação ou teimosia. • Alertar o público para um tipo de crime praticado por meio de alguns anúncios publicitários. Os estudantes devem indicar a terceira opção no caderno. 2. Para atingir o seu objetivo, o texto constrói uma definição para uma expressão. a) Identifique essa expressão e indique quais recursos visuais marcam a importância dela no texto. A expressão é “propaganda enganosa”, cuja importância é marcada pelo tamanho maior da fonte em relação às demais e também pela cor diferenciada. b) Classifique morfologicamente as palavras que compõe essa expressão, troque ideias com os colegas e o professor e explique por que é possível considerar que uma dessas palavras já contém em si indícios sobre o sentido específico da expressão. 2. c) A ilustração retrata uma situação de pessoas que foram vítimas de uma propaganda enganosa, ao retratar uma criança e uma mulher adulta, ambas com expressões c) Explique a relação entre a ilustração e a definição da expressão feita no texto verbal. faciais de frustração e decepção, porque veem, na propaganda televisiva, um produto diferente daquele que foi comprado. d) Considerando sua resposta ao item c, conclua: Qual palavra da fala da menina indica a relação entre o termo definido e a situação ilustrada? Como se classifica morfologicamente essa palapalavra diferente, da fala da menina, explicita essa relação, é vra e a qual outra ela se refere, no contexto? A classificada como adjetivo e, no contexto, refere-se ao substantivo coelho. 3. Observe os termos em destaque a seguir: O crime de propaganda enganosa é aquele capaz de levar o consumidor a erro, prometendo algo que, na realidade, não vai ocorrer. Língua e linguagem 45 3. b) No texto em análise, o artigo definido o confere um sentido genérico à expressão “crime de propaganda enganosa”, pois refere-se a todos os crimes de propaganda enganosa e não a um crime determinado, específico. A expressão “o consumidor” também não se refere a um consumidor específico, mas corresponde a todos os consumidores. a) Classifique cada um deles de acordo com a classe de palavras a que pertencem. Respectivamente: artigo definido, pronome demonstrativo, artigo definido e pronome indefinido. b) Troque ideias com os colegas e o professor e conclua: A função dos artigos definidos nesse texto é de especificar ou de generalizar? Justifique sua resposta. c) Dê as classificações de gênero e número do pronome demonstrativo empregado no texto, identifique o termo ao qual ele se refere e, por fim, explique o sentido construído por essa escolha, de acordo com a classificação indicada. d) Qual outro pronome demonstrativo foi empregado no texto, em outro trecho? Explique essa escolha, considerando a função do pronome e a palavra a que ele se refere no contexto. Na fala da menina foi empregado o pronome esse, em referência ao coelho comprado. Retome o quadro dos pronomes demonstrativos: no caso, é possível considerar que o emprego está de acordo com a localização do objeto, que não está na mão da me4. A situação descrita no texto pode acontecer na vida cotidiana de qualquer pessoa. nina, a enunciadora, e sim perto de sua mãe, a pessoa com a) Você sabia que essa situação configurava crime? Resposta pessoal. quem ela fala. b) Você já passou ou conhece alguém que tenha passado por uma situação como essa? Em caso afirmativo, algo foi feito para tentar resolver a situação? Compartilhe com a turma. 3. c) O pronome demonstrativo aquele é masculino e singular; no texto, refere-se ao substantivo crime (aquele crime). Sobre o sentido construído no texto, abra a discussão com a turma: o uso de aquele sugere uma referência externa ao texto, distante, remetendo a todos os casos nos quais ocorre a situação descrita. Resposta pessoal. BN CC Competências gerais da Educação Básica: 1, 2, 4, 5, 6, 7, 10 46 Produção de texto Notícia e enquete Competências específicas da área de Linguagens: 1, 2, 3, 4, 7 Notícia Habilidades específicas da área de Linguagens: EM13LGG101, EM13LGG103, EM13LGG104, EM13LGG105, EM13LGG201, EM13LGG202, EM13LGG301, EM13LGG302, EM13LGG401, EM13LGG402, EM13LGG701, EM13LGG703, EM13LGG704 No início deste capítulo, você conheceu o Romantismo brasileiro, que teve início na primeira metade do século XIX, logo após a chegada da família real portuguesa a uma de suas colônias, o Brasil, em 1808. Nesse mesmo ano, dom João VI oficializou a Imprensa Régia, dando início ao jornalismo no país, antes proibido pela Coroa portuguesa. Habilidades específicas de Língua Portuguesa: EM13LP01, EM13LP02, EM13LP07, EM13LP11, EM13LP12, EM13LP13, EM13LP14, EM13LP15, EM13LP16, EM13LP17, EM13LP18, EM13LP27, EM13LP28, EM13LP30, EM13LP32, EM13LP33, EM13LP34, EM13LP38, EM13LP39, EM13LP42, EM13LP43 Nesta seção, você vai estudar a notícia, gênero textual que é uma das bases do jornalismo em todas as épocas. Pr od uç ão de te xt Reprodução/Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos/ Departamento de Filatelia e Produt os. Apesar de a maioria da população brasileira ser, na época, analfabeta, a imprensa se desenvolveu aos poucos e cumpriu um papel fundamental na formação de um público leitor. E a poesia romântica, como você viu, estava comprometida com a construção de uma identidade nacional. o Selo comemorativo de 200 anos da Imprensa Nacional. Observa-se, à direita, a fachada do prédio sede da Imprensa Régia; ao fundo, a primeira página da primeira edição da Gazeta do Rio de Janeiro e, à esquerda, a prensa manual utilizada pelo escritor Machado de Assis quando foi aprendiz de tipógrafo. Não escreva no livro. Leia a notícia a seguir, que trata de algo ainda pouco conhecido e explorado nos dias de hoje: a riqueza paleontológica do Brasil. Dinossauro mais antigo do Nordeste é descoberto por pesquisadores da UFPE A descoberta foi realizada no município de Ibimirim, no Sertão de Pernambuco Paleontólogos da Universidade Federal de Pernambuco Ilustração de um Dilophosaurus (UFPE) revelaram, em recente publicação, a descoberta do de tamanho médio. dinossauro mais antigo da região Nordeste do Brasil. A vértebra de um terópode (dinossauro bípede) do Período Jurássico, que aconteceu de 145 a 208 milhões de anos atrás, foi encontrada próxima à cidade de Ibimirim, no Sertão pernambucano, ainda no ano de 2019. Reprodução/jurassicwo rld-evolution.fandom Foco no gênero A pesquisa identificou que o segmento analisado é comparável com um Dilophosaurus de tamanho médio. O dinossauro já fez parte até do filme Jurassic Park. Na produção cinematográfica, o Dilophosaurus apresenta algo parecido com asas nas laterais da cabeça e usa essas “asas” abertas em sinal de ameaça. No Nordeste do Brasil, há apenas duas ocorrências de dinossauros do Período Jurássico. A primeira, anteriormente vista como a ocorrência de dinossauro mais antiga da região, coletada na década de 1960, ocorreu em Petrolândia, também no Sertão de Pernambuco. Entre essa descoberta, registrada para o Período Jurássico Superior (de 145 até 163 milhões de anos atrás), e a mais recente, realizada pelo paleontólogo Leonardo M. de Oliveira, há uma janela de 20 a 25 milhões de anos. O Dilophosaurus é mais “velho”, com ocorrência determinada no Jurássico Médio, que vai de 163 a 174 milhões de anos atrás. “Estávamos fazendo um trabalho de mapeamento geológico, em que a gente só via as rochas, além de coletar fósseis diversos. Mas calhou de encontrarmos esse fóssil, que já tínhamos a expectativa de encontrar há muito tempo”, relembrou Leonardo. A descoberta do novo dinossauro foi fruto do mestrado de Leonardo, que explicou que a idade do fóssil encontrado se deu por conta da formação rochosa onde ele foi encontrado. “O nosso é o mais antigo do Nordeste, porque o de Petrolândia foi encontrado em uma rocha acima da nossa. E, por conceito de Geologia, a idade da rocha de cima é mais nova que a rocha de baixo”. […] “Essa formação ocorreu durante a separação do Brasil e da África, em que se gerou uma depressão (região mais rebaixada em comparação ao seu entorno) nessa região, que vai do sul da Bahia até o sul de Pernambuco, e essa região culminou em um grande lago. Nesse lago, foram se depositando várias rochas em que se formou a aliança”, explicou. O dinossauro encontrado provavelmente fazia parte da fauna que circundava o lago formado na depressão. “Foi nessa região mais rebaixada em que esse lago se originou. Era um lago onde viviam diversos peixes, ósseos e cartilaginosos, tubarões, além de crocodilo e diversas faunas que podiam circundar esse lago à procura de água e alimentação, o que poderia ter sido o caso desse dinossauro”, completou o pesquisador. […] MARTINS, Maria Priscila. Dinossauro mais antigo do Nordeste é descoberto por pesquisadores da UFPE. Folha de Pernambuco, Recife, 7 maio 2022. Disponível em: https://tedit.net/lwori9. Acesso em: 18 set. 2024. Pr od uç ão de te xto 47 3. e) Essa informação não consta do lide, mas aparece no quarto parágrafo, no qual se informa que a descoberta ocorreu quando os pesquisadores estavam fazendo o mapeamento geológico do local, e aí depararam com o fóssil, que procuravam havia muito tempo, mas acharam por acaso. 1. A notícia, assim como a entrevista, a reportagem e o editorial, é um gênero do campo jornalístico. acontecimentos recentes e fatos que despertam o interesse do público a) Qual é o objetivo de uma notícia? Relatar em geral. b) A que tipo de público essa notícia se dirige? Ao público em geral e, em especial, às pessoas que se interessam por Arqueologia. 2. Entre os gêneros da esfera jornalística, há os que priorizam a informação e os que privilegiam o comentário. Os textos que priorizam a informação divulgam um fato novo, um acontecimento. Já os textos que priorizam o comentário expressam uma opinião, um julgamento. a) Do que as notícias se ocupam de forma predominante: de informação ou de comentário? De informação. b) A notícia em estudo confirma sua resposta à questão anterior? Espera-se que os estudantes respondam que sim. 3. Uma notícia geralmente compõe-se de duas partes: lide e corpo. O lide consiste no primeiro parágrafo da notícia e apresenta um resumo feito em poucas linhas, no qual são fornecidas respostas às questões fundamentais do Jornalismo: “O quê?” (fatos); “Quem?” (personagens/pessoas envolvidas); “Quando?” (tempo); “Onde?” (lugar); “Como?”; e “Por quê?”. Na notícia em estudo, identifique no primeiro parágrafo: 3. a) Uma publicação de pesquisadores informa que foi encontrada uma vértebra de um terópode, o a) o fato principal; dinossauro mais antigo da região Nordeste do Brasil. d) onde; Próximo à cidade de Ibimirim, no Sertão pernambucano. b) as pessoas ou instituições envolvidas; Paleontólogos da Universidade Federal de Pernambuco. e) por que o fato aconteceu. c) quando; Em 2019. 4. O corpo da notícia é a parte que apresenta o detalhamento do lide, fornecendo ao leitor novas informações em ordem cronológica ou de importância. Na notícia em estudo: a) Qual parágrafo constitui o corpo da notícia? Todos os parágrafos, com exceção do primeiro. b) Que detalhes o corpo da notícia apresenta em relação aos seguintes tópicos? • tipo de dinossauro cuja vértebra foi encontrada; O dinossauro assemelha-se a um Dilophosaurus, um dinossauro representado no filme Jurassic Park com asas na cabeça. de outras ocorrências de dinossauros do Período Jurássico no Nordeste brasileiro; • presença Já tinha havido uma ocorrência em 1960, em Petrolândia, de um dinossauro do Período Jurássico. como a vértebra foi encontrada; • modo Foi encontrada durante um mapeamento geológico. Leonardo M. de Oliveira sobre por que o dinossauro • explicações dadas peloOpesquisador dinossauro provavelmente estava à beira do lago — formado por uma depressão no terreestava naquela região. no que ocorreu durante a separação do Brasil e da África — em busca de alimentos e água. 5. Para ampliar ou aprofundar o enfoque sobre o fato relatado, os jornalistas costumam entrevistar pessoas ou reproduzir informações de outras fontes. Na notícia em estudo: a) Quem é entrevistado? O pesquisador Leonardo M. de Oliveira. b) Que recurso é utilizado para isolar a fala do entrevistado em relação à fala do jornalista? São utilizadas as aspas. Além disso, são empregados verbos dicendi, como relembrou, explicou e completou. c) Troque ideias com a turma: De modo geral, qual é o papel do discurso citado nas notícias e nos textos jornalísticos? O discurso citado confere maior credibilidade ao texto, amplia as informações e pode apresentar pontos de vista diferentes sobre o fato. 6. Observe a linguagem empregada no texto. a) Quais características ela apresenta? Copie no caderno o item que reúne as palavras e expressões que melhor descrevem essa linguagem. • Impessoal, clara, objetiva, acessível ao leitor. • Pessoal, indireta, emprega palavras de uso não corrente na língua. Impessoal, clara, objetiva, acessível ao leitor. b) Em que variedade linguística ela está? Em uma variedade linguística de acordo com a norma-padrão. 7. Observe os tempos verbais empregados na notícia em estudo. a) Que tempos predominam? Considerando o fato noticiado, o que justifica o emprego desses Predominam os tempos do presente e do pretérito perfeito do modo indicativo. Predomina o tempo tempos verbais? presente quando se fala da publicação recente da pesquisa. Já o pretérito perfeito predomina quando se fala do achado, que ocorreu três anos antes. b) Levante hipóteses: Por que a notícia foi publicada no jornal três anos depois da descoberta? 48 Porque a descoberta só foi revelada com a publicação feita pela universidade, o que ocorreu depois de Leonardo M. de Oliveira ter concluído sua pesquisa. Pr od uç ão de te xt o 8. b) O destaque do título da notícia recai sobre a descoberta em si e sobre o fato de que os autores dessa descoberta são da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Já o subtítulo enfatiza o local onde se deu a descoberta. Não escreva no livro. 8. Releia o título e o subtítulo da notícia em estudo. Dinossauro mais antigo do Nordeste é descoberto por pesquisadores da UFPE A descoberta foi realizada no município de Ibimirim, no Sertão de Pernambuco a) Eles anunciam o assunto que será desenvolvido? Sim. b) Qual é o enfoque dado, respectivamente, pelo título e pelo subtítulo na notícia em estudo? c) O título e o subtítulo são objetivos ou subjetivos? São objetivos. d) Para a maioria dos leitores, as palavras empregadas são de fácil compreensão? Sim. e) Em que tempo e voz verbal encontram-se as formas verbais empregadas no título e no subtítulo? f) Troque ideias com a turma: Por que, na maioria dos títulos de notícias, as formas verbais ficam no tempo presente do modo indicativo? O uso da voz verbal observada no item anterior dá dar a ideia de que o fato noticiado é recente e acabou de acontecer. O uso da voz passiva dá destaque a quê? Para destaque, no título, ao que é descoberto e, no subtítulo, à descoberta em si. 9. Com a orientação do professor, reúna-se com alguns colegas para resumirem em grupo as características básicas da notícia. Para isso, copiem o quadro a seguir no caderno e respondam às questões de acordo com o que perceberam da notícia em estudo ou de outras notícias conhecidas. 8. e) As formas verbais estão na voz passiva tanto no título como no subtítulo (é descoberto no título e foi realizada no subtítulo). No título, o verbo auxiliar ser está no tempo presente. No subtítulo, o verbo auxiliar ser encontra-se no tempo pretérito perfeito. Notícia: construção e recursos expressivos Quem são os interlocutores da notícia? Jornal/jornalista e o público leitor/espectador/ouvinte de notícias. Qual é o objetivo desse gênero textual? Informar os leitores/espectadores/ouvintes sobre fatos recentes e relevantes que aconteceram. Por onde circula? Geralmente, o texto é divulgado em órgãos de imprensa (jornais impressos, televisivos e de rádio) e na internet (sites e podcasts). De que linguagens a notícia se constitui? Em veículos impressos, ela se estrutura por meio de linguagem verbal e pode ser acompanhada de imagens, em especial fotografias. Em rádio e podcasts, a linguagem verbal é transmitida em Como se caracteriza a linguagem verbal de uma notícia? Geralmente, faz-se uso de uma variedade linguística de acordo com a norma-padrão, com certo grau de formalidade, mas isso pode variar. Busca-se a objetividade e a impessoalidade. Qual é a estrutura básica da notícia? Título, subtítulo, lide e corpo. áudios. Na TV, em canais ou em portais da internet, a notícia é transmitida em vídeos. 10. A descoberta do Dilophosaurus foi noticiada pela Folha de Pernambuco, um jornal de alcance regional. No entanto, esse fato também ganhou destaque em veículos de alcance nacional. Sob a orientação do professor, reúna-se com alguns colegas para pesquisar, em portais e agências de notícias, mecanismos de busca, etc. a descoberta do Dilophosaurus, feita pelos pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco. Façam o que se pede a seguir. a) Leiam os textos e os analisem atentamente, com a ajuda do professor, a fim de comparar o enfoque que cada veículo de imprensa deu ao fato. Resposta pessoal. b) Discutam no grupo: Qual das notícias encontradas é a mais completa, isto é, contém mais informações sobre o fato noticiado, e qual é a mais sucinta? Resposta pessoal. c) Que veículo de imprensa publicou cada uma das notícias selecionadas por vocês no item b? Resposta pessoal. d) Levantem hipóteses: Há relação entre o veículo que publica uma notícia, com sua linha editorial específica, e o enfoque dado ao fato noticiado? Expliquem. Resposta pessoal. e) Por que alguns veículos são mais sucintos, concentrando-se nos dados essenciais de um fato, enquanto outros adotam uma postura mais detalhada e analítica ao noticiar um acontecimento? Resposta pessoal. f) Concluam: De que forma essa comparação ajudou o grupo a ter uma visão mais ampla sobre a descoberta do Dilophosaurus? Espera-se que os estudantes observem que, ao comparar diferentes textos com variados graus de profundidade e enfoques distintos, a compreensão do fato pode se dar de forma mais abrangente. Pr od uç ão de te xto 49 Enquete Hora de produzir Ao final da unidade 2, você vai montar com a turma um jornal de variedades. Entre o público da comunidade escolar à qual se destina o jornal, estão os jovens, grupo do qual você também faz parte. Para conhecerem o que pensam os estudantes do Ensino Médio da escola que você frequenta, e assim poderem delimitar melhor os interesses dessa parte do público do jornal, participe com a turma da produção de uma enquete. Para tanto, você e a turma devem preparar um roteiro com questões de múltipla escolha sobre o tema Quem é o jovem de hoje e o que ele deseja?. O professor vai conversar com vocês sobre propostas de tema para a enquete. Sob a orientação dele, organizem-se em grupos. Cada grupo vai ficar responsável por um tema, discuti-lo e formular questões de múltipla escolha para compor a enquete a ser feita com os estudantes de Ensino Médio da escola. Para se prepararem melhor para formular as perguntas da enquete, vocês poderão aprofundar os conhecimentos sobre o tema escolhido por meio de pesquisas, a serem realizadas em diferentes fontes — livros, revistas, jornais e sites da internet —, buscando recolher informações qualificadas sobre cada tema. Ao acessarem os conteúdos, adotem uma postura crítica, procurando perceber a linha editorial do veículo de imprensa, se ele é menos ou mais imparcial ao tratar do tema, se apresenta informações seguras ou comprovadas, se as ideias têm fundamento em fatos ou em pesquisas científicas, se são entrevistadas ou citadas autoridades ou especialistas no assunto. Sempre que possível, consultem mais de uma fonte e confrontem as informações e os pontos de vista. Reúnam todas as questões formuladas pela turma, definam uma redação final para a enquete e discutam com o professor como ela será aplicada: por meio de entrevistas orais, em papel ou de forma digital. Se possível, contem com a colaboração de outros professores e da direção escolar. Após a aplicação da enquete, apurem os resultados e, se for o caso, façam gráficos ou infográficos para cada uma das questões. Convidem o professor de Matemática para auxiliá-los. Anotem as informações mais importantes que obtiverem e indiquem a autoria e a fonte do texto verbal, do vídeo ou do áudio para eventualmente aproveitá-las na produção das notícias. Notícia Hora de produzir Chegou a hora de produzir as notícias para o jornal de variedades que a turma vai realizar ao final da unidade 2. Cada grupo vai noticiar a enquete sobre o que pensam e querem os jovens brasileiros de hoje, bem como alguns dos resultados obtidos. Veja as orientações a seguir. Planejamento da notícia • Definam como desenvolver os elementos essenciais da notícia que devem integrar o lide e responder às questões: “O quê?”; “Quem?”; “Quando?”; “Onde?”; “Como?”; “Por quê?”. A divulgação dos resultados da enquete pode ser a base de construção do lide. • Reúnam as informações que coletaram na enquete e na pesquisa. Selecionem aquelas que poderão desenvolver e aprofundar as ideias do lide. • Decidam se vocês vão inserir algum comentário de uma pessoa relacionada aos resultados da enquete, observando a relevância da fala no contexto. 50 Pr od uç ão de te xt o Não escreva no livro. Escrita • Pensem no perfil dos leitores — outros estudantes, professores e funcionários da escola, familiares e amigos — e empreguem uma linguagem adequada ao gênero e ao público. • Comecem o texto pelo lide, destacando o fato central, a realização da enquete e seus objetivos – e procurem responder às perguntas que um leitor faria: “O quê?”; “Quem?”; “Quando?”; “Onde?”; “Como?”; “Por quê?”. • Iniciem o corpo da notícia, desenvolvendo mais cada uma das perguntas iniciais e oferecendo informações a respeito dos resultados da enquete. • Escrevam com simplicidade e na ordem direta. Elaborem frases curtas, com duas ou três linhas no máximo, e parágrafos com poucas frases. Utilizem um vocabulário acessível e evitem tanto palavras excessivamente difíceis quanto termos exageradamente coloquiais. • Procurem apenas informar, não explicitando abertamente sua opinião sobre o fato. • Empreguem uma variedade linguística de acordo com a norma-padrão da língua. • Caso tenham decidido incluir comentários de alguém ou informações de uma fonte es- pecial, empreguem expressões como “De acordo com Fulano” ou “Segundo tal fonte”, entre outras. Se reproduzirem a fala por meio do discurso direto, demarquem os trechos citados utilizando aspas, precedidos ou sucedidos por verbos como dizer (“Disse Fulano”), destacar (“Destacou Fulana”), declarar, comentar e responder, entre outros. • Usem elementos linguísticos que garantam a conexão entre as ideias e os parágrafos. • Deem à notícia um título curto e sugestivo, que anuncie o assunto que será desenvolvido. Revisão e reescrita Releiam a notícia para observar se: • ela apresenta título, lide e corpo; • o lide menciona a maior parte das informações essenciais relacionadas ao fato ocorrido: “O quê?”; “Quem?”; “Quando?”; “Onde?”; “Como?”; “Por quê?”; • o corpo da notícia contém o detalhamento do lide; • a linguagem empregada é objetiva e clara e segue a norma-padrão; • a incorporação de falas de terceiros está corretamente demarcada e identificada. Façam as alterações necessárias, elaborando a versão final da notícia. De co mp or pa ra so luc ion ar Pensamento computacional A solução para um problema pode ser encontrada por meio da decomposição desse problema em partes menores, agrupadas segundo alguns padrões e a seleção de dados relevantes (abstração). Por exemplo, observe que, na seção Produção de texto, há ao menos um problema a ser solucionado por você: Como produzir um texto do gênero textual em estudo? Nesta obra, todos os capítulos contêm a seção Produção de texto, cujo objetivo é levar você a resolver esse problema. Mas de que maneira o faz? Com a ajuda do professor, reúna-se com alguns colegas e analisem a estrutura da seção Produção de texto. Montem no caderno então um esquema que mostre as partes de que é composta essa seção, assim com as etapas que compõem essas partes a fim de levar a turma a resolver o problema e ser capaz de produzir um texto do gênero textual em estudo. Hora de compartilhar: Jornal de variedades Guardem a versão final das notícias de vocês para a produção do jornal, que será compartilhado com a comunidade escolar no evento que a turma vai organizar no final da unidade 2. Pr od uç ão de te xto 51 Notícia em outras mídias: em áudio e modalidades audiovisuais O jornal impresso foi o primeiro suporte de notícias. Hoje, os gêneros do campo jornalístico são produzidos para diferentes mídias, como jornal impresso, portal de notícias, jornal radiofônico e jornal televisivo. Com a internet, os textos do campo jornalístico transitam em diferentes suportes: uma notícia publicada em um jornal impresso também aparece no site do jornal ou em seu aplicativo; uma notícia transmitida por uma estação de rádio vai ainda para a internet em formato de podcast; uma notícia que vai ao ar no jornal televisivo depois é postada nas redes sociais da emissora ou em seu site oficial, e assim por diante. Em outras palavras, as notícias podem ser lidas, ouvidas e vistas na palma da mão, em tablets e smartphones. Em grupos, analisem uma notícia de jornal televisivo e uma notícia de jornal radiofônico. Vocês podem ter acesso a elas pela TV e pelo rádio ou acessar os site de emissoras de televisão e de estações de rádio para revê-las ou escutá-las novamente. • Qual é o título da notícia? Quem anuncia o título? • Qual é o principal fato noticiado? • Informações que costumam constar no lide são ditas no início da notícia? • Quanto à linguagem oral e ao texto verbal da notícia: • Caracterizem a fala do repórter e do âncora no que diz res- LightField Studios/Shutterstock Roteiro de estudo de notícia em jornal televisivo e em jornal radiofônico peito a aspectos como altura, intensidade e ritmo da voz. Observem se há mudanças no tom de voz, na respiração e na entonação. • O texto parece espontâneo ou soa como um texto planejado? • O texto é iniciado com lide e depois o fato é detalhado, exemplificado e ampliado? • A linguagem utilizada segue a norma-padrão? • O texto apresenta características usuais do gênero notícia, como concisão, objetividade e impessoalidade? Em caso negativo, em que difere desse padrão? • Quanto às imagens da notícia televisiva: I. Como podem ser descritas: • Cenas em que o repórter aparece, falando parte do texto? • Cenas com pessoas e objetos relacionados à notícia, com narração do repórter? • Cenas de pessoas entrevistadas, com trechos do que disseram? • Imagens de gráficos, tabelas e outros recursos imagéticos e gráficos? II. Que tipo de informação esses recursos veiculam? • Caracterizem a imagem dos jornalistas no que se refere a: postura corporal, movimentos e gestualidade, expressão facial. • Detalhem as imagens que compõem a notícia audiovisual (quem são os entrevistados e qual é sua relação com o fato noticiado). • Quanto à parte sonora da notícia radiofônica: • Há sonoplastia (no início, no meio ou no final)? 52 Pr od uç ão de te xt o Não escreva no livro. Produzindo a notícia em podcast e em vídeo A proposta agora é que vocês transformem as notícias produzidas por vocês em notícias em formato de áudio — um podcast — e em formato audiovisual. Para isso, a notícia escrita não deve ser apenas lida, mas adaptada ao novo formato. Organizem um roteiro para os diferentes formatos. No caso da notícia em vídeo, ao elaborar o roteiro, considerem as questões e orientações a seguir. • Haverá âncora? Quais partes do texto serão ditas por ele? • Onde serão gravadas as cenas? Sempre que possível, escolham ambientes relacionados ao fato noticiado. • Quem será entrevistado? Quais perguntas serão feitas a ele(s)? • Qual será a ordem das cenas? A cada cena, qual trecho do texto em áudio a acompanhará? • Será feito uso de recursos como gráficos, infográficos, fotografias e mapas? • Revisem os textos para que estejam de acordo com as características básicas da notícia veiculada por vídeo. • Planejem também a entonação e o ritmo da fala. • Planejem o posicionamento dos estudantes que vão aparecer e sua gesticulação. • Gravem as cenas e confiram se o áudio está com qualidade suficiente para ser bem ouvido pelos espectadores. • Façam a edição das cenas, dos recursos gráficos e dos áudios, ordenando-os conforme o roteiro. • Planejem também o figurino dos estudantes que vão atuar como âncoras e repórteres. No caso da notícia em áudio, sigam as mesmas orientações, com exceção dos itens sobre cenas, gestos, figurinos e recursos gráficos. 5. A notícia apresenta um título, seguido de um lide no primeiro parágrafo — o qual contém elementos essenciais que respondem às questões “O quê?”; “Quem?”; “Quando?”; “Onde?”; “Como?”; “Por quê?” — e, depois, o corpo, que é o desenvolvimento das informações do lide, distribuído em parágrafos. Hora de compartilhar: Jornal de variedades Guardem as notícias em podcast e em vídeo produzidas por vocês para compartilhá-las com a comunidade escolar no evento que vocês vão organizar no final da unidade 2. 1. Os elementos particulares e locais, que diziam respeito à paisagem, à cultura e às próprias questões do país (povos originários, fauna e flora locais, entre outras) com os quais o público poderia se identificar. Além disso, a poesia romântica não demandava conhecimentos que estavam fora do universo cultural brasileiro, como a poesia árcade, que exigia do leitor o conhecimento de história e da mitologia greco-romana. Avali an do os es tu do s Retome os objetivos indicados no início do capítulo e avalie os estudos e o caminho percorridos, considerando questões como: 1. Os autores românticos foram importantes não apenas por participarem da afirmação da nacionalidade brasileira após a Independência, mas também por promoverem um amadurecimento literário e cultural no país. Levante hipóteses: Que elementos da poesia romântica propiciaram sua aproximação junto ao público leitor/ouvinte, ampliando sua difusão pelo país? 2. Em geral, os diferentes temas abordados pelos poetas românticos brasileiros podem ser observados em produções culturais contemporâneas? Justifique sua resposta. Espera-se que os estudantes respondam afirmativamente à questão. Quanto à justificativa, há variadas possibilidades de resposta. 3. Quais classes de palavras podem acompanhar os substantivos, particularizando-os, definindo-os, especificando-os, modificando o seu sentido? Adjetivos, artigos, numerais e pronomes. ao público fatos recentes e relevantes que ocorreram em deter4. Qual é a finalidade principal da notícia? Informar minada localidade (o município, o país ou o mundo todo). 5. Qual é a estrutura básica da notícia? Pr od uç ão de te xto 53 capítulo 2 I) (I ia s e o p : o m s ti n a m o R Classes de palavras: revisão (II) E ntrevista Neste capítulo você vai: • conhecer a poesia romântica de Castro Alves e de Narcisa Amália; • rever as seguintes classes de palavras: verbo, advérbio, preposição, conjunção e interjeição; e refletir sobre os sentidos que elas constroem nos textos; • ler entrevista e produzir entrevista oral, escrita e para outras mídias. Justificativa BN CC Competências gerais da Educação Básica: 1, 3, 4, 9 Competências específicas da área de Linguagens: 1, 2, 3, 4, 6 Habilidades específicas da área de Linguagens: EM13LGG101, EM13LGG202, EM13LGG203, EM13LGG302, EM13LGG401, EM13LGG601, EM13LGG602, EM13LGG604 Habilidades específicas de Língua Portuguesa: EM13LP01, EM13LP05, EM13LP06, EM13LP07, EM13LP20, EM13LP28, EM13LP30, EM13LP46, EM13LP48, EM13LP49, EM13LP50, EM13LP52, EM13LP53 54 O processo de formação da literatura brasileira e seu público leitor contempla também textos de autoria feminina e masculina que abordam questões políticas e sociais de seu tempo; por isso, neste capítulo, você entrará em contato com poemas que, em diálogo com a estética romântica, divulgavam ideias que desafiavam as perspectivas conservadoras da época. Esses textos vão ser a base para convidá-lo a retomar as classes de palavras verbo, advérbio, preposição, conjunção e interjeição, de maneira que possa analisar como essas classes de palavras são empregadas na construção dos sentidos dos textos. Assim, você também poderá refletir sobre os usos e sentidos da língua e terá mais domínio e autonomia para fazer escolhas ao produzir seus próprios textos. Poderá, ainda, observar a dinâmica da língua ao verificar as características básicas de uma entrevista, produzindo uma entrevista oral e lidando com as adaptações necessárias quando é preciso transcrevê-la para veículo impresso ou multimidiático. Literatura Romantismo: poesia (II) A terceira geração romântica No Brasil, na segunda metade do século XIX, a extinção do tráfico negreiro, ocorrida em 1850, e a emergência de novas forças econômicas – como o desenvolvimento da economia cafeeira e o crescente comércio nos centros urbanos – fomentavam mudanças de visões de Não escreva no livro. mundo. Progressivamente, ideias republicanas e abolicionistas conquistavam a intelectualidade e desafiavam os redutos conservadores (imperialistas e escravocratas) da sociedade brasileira. Foi nesse contexto que os poetas da terceira geração romântica exerceram, entre as décadas de 1860 e 1870, um importante papel na divulgação dessas novas ideias. Tais poetas, influenciados principalmente pelo escritor francês Victor Hugo (1802-1885), voltaram-se para os problemas sociais, deslocando o centro de atenção do “eu” para o “outro”, ou seja, do mundo interior para o mundo exterior. Em razão da influência que recebeu de Victor Hugo, a terceira geração romântica foi chamada hugoana ou condoreira. O condor, ave sul-americana de grande porte e altos voos, é representativo da visão que os poetas tinham de si: detentores de anseios nobres, elevados, que viam longe. Portanto, a poesia que produziram, vigorosa e retumbante, de voo alto, era o reflexo de tais anseios e um meio que acreditavam ser capaz de suscitar mudanças na mentalidade e, assim, interferir no processo social. Castro Alves é a principal expressão poética do condoreirismo. Além dele, figuram também na terceira geração romântica Narcisa Amália (1852-1924), Pedro Luís (1839-1884) e Sousândrade (1833-1902), autor cuja obra se distancia, em certos aspectos, da estética romântica. En tr e liv ro s A autoria feminina começou a se manifestar de maneira mais efetiva no Brasil ao longo do século XIX. Nesse período, autoras brasileiras, assim como ocorria com as estrangeiras, enfrentaram o preconceito ao assinar seus nomes nas capas de suas obras ou, como você viu no capítulo anterior, optaram por utilizar pseudônimos para se proteger da opinião pública. No final do século seguinte, na década de 1990, a autora de Harry Potter, a escritora britânica J.K. Rowling escondeu seu primeiro nome, Joanne, por sugestão da editora que publicou sua obra. Ainda hoje as mulheres enfrentam dificuldades para ter seu trabalho reconhecido no mundo artístico, em particular, e no mundo do trabalho, em geral. Então, que tal prestigiar a leitura de obras produzidas por mulheres, a fim de conhecer um pouco mais sobre sua produção artística, seus desafios e suas histórias pessoais? Ana Marina Coutinho/UFRJ/Reprodução/Acervo da Editora/Reprodução/ Arquivo Nacional, RJ./Reprodução/Wikipedia/Wikimedia Commons/Reprodução/ Arquivo Nacional, RJ./Otávio Magalhães/Estadão Conteúdo/AE Pesquise e selecione obras de autoras da literatura do século XIX ou do repertório contemporâneo, nacionais ou estrangeiras, de prosa ou poesia; depois, com a orientação de seu professor, apresente para a turma seu comentário apreciativo sobre a obra lida. Antes de apresentá-lo, prepare sua fala com base nas instruções do professor de como produzir uma resenha crítica. Carrossel de imagens Algumas autoras da literatura brasileira, de cima para baixo, da esquerda para a direita: Eliane Potiguara, Maria Benedita Bormann, Carolina Maria de Jesus, Cora Coralina, Júlia Lopes de Almeida e Rachel de Queiroz. Li te ra tu ra 55 Castro Alves O poeta baiano Castro Alves cultivou a poesia lírica, a épica social e o drama. As imagens impactantes e o tom eloquente, vibrante e declamatório de seus poemas renderam-lhe grande popularidade. Em sua poesia social, abordou temas que despertavam discussões acaloradas na época, como o da liberdade e o do progresso. Mas o grande tema de sua poesia social foi, notadamente, o abolicionismo, que atingiu um grande público, indo além das camadas cultas de seu tempo. Reprodução/Acervo Biblioteca Nacional, RJ. Em sua poesia épica, reunida na obra Os escravos, os poemas, concebidos com a finalidade de emocionar e convencer o ouvinte/leitor, apresentam poderosa sonoridade e imagens de grande efeito, produzidas pelo emprego de figuras de linguagem como hipérboles, comparações, antíteses, metáforas, apóstrofes, aliterações, entre outras. Castro Alves Antônio de Castro Alves nasceu em 1847, na cidade de Curralinho, hoje denominada Castro Alves (BA). Cursou Direito no Recife, onde participou de grupos abolicionistas e republicanos. Em 1870, publicou Espumas flutuantes, obra na qual reuniu sua poesia lírica. Morreu em Salvador no ano seguinte, aos 24 anos, vitimado pela tuberculose. Postumamente, foram publicados Gonzaga ou a Revolução de Minas, A cachoeira de Paulo Afonso e Os escravos. Foco no texto Você vai ler, a seguir, um trecho da quinta parte de “O navio negreiro”, um dos poemas épicos da obra Os escravos, de Castro Alves. Nesse poema, publicado pela primeira vez em 1868, o poeta retrata o transporte de africanos escravizados ao Brasil, prática comercial proibida em 1850 com a Lei Eusébio de Queirós. O navio negreiro Canto V desgraçados: infelizes, desditosos. resvala: passa, desliza. musa: na mitologia da Grécia antiga, cada uma das nove deusas representadas por jovens belas, protetoras da arte e da ciência. libérrima: superlativo de livre. 56 L ite ra tu ra Senhor Deus dos desgraçados! Quem são estes desgraçados, Dizei-me vós, Senhor Deus! Que não encontram em vós, Se é loucura... se é verdade Mais que o rir calmo da turba Tanto horror perante os céus... Que excita a fúria do algoz? Ó mar! por que não apagas Quem são?... Se a estrela se cala, Co’a esponja de tuas vagas Se a vaga à pressa resvala De teu manto este borrão?... Como um cúmplice fugaz, Astros! noite! tempestades! Perante a noite confusa... Rolai das imensidades! Dize-o tu, severa musa, Varrei os mares, tufão! Musa libérrima, audaz! Não escreva no livro. São os filhos do deserto Ontem a Serra Leoa, Onde a terra esposa a luz. A guerra, a caça ao leão, Onde voa em campo aberto O sono dormido à toa A tribo dos homens nus... Sob as tendas d’amplidão... São os guerreiros ousados, Hoje... o porão negro, fundo, Que com os tigres mosqueados Infecto, apertado, imundo, Combatem na solidão... Tendo a peste por jaguar... Homens simples, fortes, bravos. E o sono sempre cortado Hoje míseros escravos Pelo arranco de um finado, Sem luz, sem ar, sem razão... E o baque de um corpo ao mar... alquebradas: que andam curvadas em razão de cansaço ou doença. São mulheres desgraçadas Ontem plena liberdade, tíbios: sem vigor, sem força. Como Agar o foi também, A vontade por poder... Que sedentas, alquebradas, Hoje... cum’lo de maldade De longe... bem longe vêm... Nem são livres p’ra... morrer... Trazendo com tíbios passos, Prende-os a mesma corrente Filhos e algemas nos braços, — Férrea, lúgubre serpente — N’alma — lágrimas de fel. Nas roscas da escravidão, Como Agar sofrendo tanto E assim roubados à morte, Que nem o leite do pranto Dança a lúgubre coorte Tem que dar para Ismael... Ao som do açoite... Irrisão!... [...] [...] ALVES, Castro. O navio negreiro. Canto V. In: LAJOLO, Marisa; CAMPEDELLI, Samira (comp.). Castro Alves. São Paulo: Abril Cultural, 1980. p. 61-63. (Literatura comentada). O “N av io ne gr ei ro mosqueados: que têm o corpo salpicado de pintas ou manchas. Agar: personagem bíblica que teria sido serva de Sara, esposa de Abraão, e mãe de Ismael, o primeiro filho do patriarca. fel: manifestação de amargura; azedume; ressentimento. Serra Leoa: país localizado na região oeste do continente africano. arranco: gemido de agonia. lúgubre: que inspira grande tristeza. coorte: conjunto numeroso de pessoas. irrisão: escárnio, zombaria. ” em di ál og o NurPhoto/Corbis/Getty Images O grupo O Rappa, na canção “Todo camburão tem um pouco de navio negreiro”, dialoga com o poema do poeta condoreiro. Veja, a seguir, um trecho da letra da canção e, se possível, ouça a música na internet. [...] É mole de ver Que em qualquer dura O tempo passa mais lento pro negão Quem segurava com força a chibata Agora usa farda Engatilha a macaca Escolhe sempre o primeiro Negro pra passar na revista Pra passar na revista Todo camburão tem um pouco de navio negreiro Todo camburão tem um pouco de navio negreiro [...] Momento de show de O Rappa, em Florianópolis, 2015. TODO camburão tem um pouco de navio negreiro. Intérprete: O Rappa. Compositores: Alexandre Menezes; Marcelo Lobato; Falcão; Marcelo Yuka; Nelson Meirelles. In: O RAPPA – 1994. [S. l.]: WEA, 1994. CD, faixa 3. © Warner Chappell Edições Musicais Ltda. Li te ra tu ra 57 3. b) Ela enfatiza o contraste vivido pelos negros escravizados, que, diferentemente do que experimentavam em liberdade, agora, no navio que os transporta, vivenciam uma situação de grande despojamento: “Sem luz, sem ar, sem razão...”. Reprodução/Coleção particular 1. O eu lírico de um poema pode se dirigir a alguém ou a algo que esteja presente ou ausente, que seja animado ou inanimado, concreto ou abstrato, para exprimir lamentos, pedidos ou censuras. Esse recurso retórico é uma figura de linguagem chamada apóstrofe. a) Identifique as apóstrofes empregadas nas duas primeiras estrofes do poema. “Senhor Deus dos desgraçados”,“Senhor Deus”,“Ó mar”,“Astros, noites, tempestades”, “tufão”, “severa musa”, “musa libérrima, audaz”. b) Nessas duas estrofes, que pedidos o eu lírico faz a seus interlocutores? Primeiro, pede a Deus que diga se é “loucura” ou “verdade” todos os horrores vistos no navio. solicita aos elec) Que efeito o emprego das apóstrofes produz no texto? Depois, mentos da natureza que Narcisa Amália Nascida em 1852, em São João da Barra (RJ), Narcisa Amália de Oliveira Campos era filha de professores. Iniciou sua carreira nas letras com traduções para o português de obras literárias francesas e foi a primeira jornalista profissional do Brasil. Com vinte anos, publicou Nebulosas (1872), sua única obra de poesia. Esse livro de estreia foi bem recebido pela elite intelectual da época: D. Pedro II, Machado de Assis e Sílvio Romero, por exemplo, estavam entre os que celebraram a qualidade dos versos da jovem autora. O seu talento literário e a postura desafiadora em relação aos costumes conservadores da época despertaram animosidades, como a acusação de não ser a autora de Nebulosas, calúnia que só foi inteiramente desfeita no final dos anos 1940. Faleceu no Rio de Janeiro, em 1924. 58 L ite ra tu ra Maior expressividade, emoção e ênfase na abordagem do tema: a desonra da escravização. reajam a esses horrores. Por fim, pede à “severa 2. A partir da 3 estrofe, há uma mudança de voz no poema. musa” que lhe diga quem são os “desgraçados” (infelizes, desdia) De quem é essa nova voz? Da “severa musa”. tosos) a bordo do navio. a b) Que informações essa voz introduz no poema? Justifique sua resposta Informações sobre o passado livre e vigoroso dos negros escracom elementos do texto. vizados (“Homens simples, fortes, bravos”, “Ontem plena liber- dade”) e sobre a então atual condição de escravidão, degradação e miséria deles (“Hoje míseros escra- 3. Na 3a estrofe, há o retrato dos negros africanos. vos”, “São mulheres desgraçadas”). a) Nessa estrofe, o eu lírico associa a ideia de liberdade a imagens que evocam luminosidade e movimento. Que palavras ou expressões suA luminosidade é sugerigerem luminosidade? E quais sugerem movimento? da em “a terra esposa a luz”, e o movimento em “Onde voa em campo aberto / A tribo dos homens nus” e em “Combatem”. b) No último verso dessa estrofe, o poeta emprega uma gradação. Que efeito de sentido o uso dessa figura de linguagem produz no texto? c) Nessa gradação, há a expressão “sem razão”. Troque ideias com os colegas e o professor e depois responda no caderno: De acordo com o contexto, que sentidos podem ser atribuídos a essa expressão? Sugestão: Pode significar sem perspectivas de vida, sem senso lógico, como também sem consideração por parte daqueles que tiram a liberdade dos negros africanos. 4. Na 4a estrofe, o poeta emprega, para retratar a figura da escravizada negra, simultaneamente, uma comparação e uma hipérbole. a) Identifique e explique tais figuras de linguagem nessa estrofe. b) Que efeito de sentido a hipérbole produz no texto? A ênfase no tom trágico da cena descrita pela musa. 5. Para retratar o navio negreiro, o poeta cria imagens que associam, simultaneamente, movimento e sonoridade. a) Identifique na 5a estrofe palavras ou expressões que representam essas imagens. “arranco de um finado” e “baque de um corpo ao mar”. b) O que a “dança”, na 6a estrofe, representa? Representa os movimentos que os negros escravizados fazem enquanto são açoitados. c) Quem são os autores da “irrisão”? Explique. Os tripulantes, que, em torno do açoitamento, juntam-se para zombar do negro que está sendo castigado. 6. Esse poema foi escrito em um momento em que o tráfico de africanos escravizados estava proibido, mas a escravidão ainda encontrava-se em vigor no Brasil. Com base no estudo realizado, discuta com a turma: Que estratégias o poeta utiliza para convencer seu interlocutor de que a escravização de seres humanos era intolerável e deveria ser extinta? Ele emprega recursos bastante expressivos, criando, por meio de figuras de linguagem, imagens contrastantes, bem como cenas de grande impacto, que envolvem, além de elementos visuais, aspectos sonoros. Esse retrato expressivo ressalta, aos olhos e ouvidos do leitor/ouvinte, os horrores da escravidão, com o objetivo de sensibilizá-lo para a causa abolicionista. Narcisa Amália Ao longo de sua carreira, essa autora fluminense não só defendeu ideias republicanas e abolicionistas como também registrou os problemas enfrentados pela condição feminina, entre eles a dificuldade de acesso ao estudo e o preconceito contra mulheres artistas. 4. a) Primeiro, há comparação entre as escravizadas negras do navio e Agar. Em seguida, há emprego de hipérbole em “nem o leite do pranto / Têm que dar para Ismael”, ou seja, o sofrimento e a penúria das africanas escravizadas eram tão intensos que tudo dentro delas, até mesmo as lágrimas, acabou e secou, não restando nada para alimentar os filhos. Não escreva no livro. Em Nebulosas, estão presentes traços estéticos das três gerações românticas. Em diálogo com poetas precedentes, da primeira e da segunda gerações, a obra de Narcisa apresenta poemas que expressam o estado de alma melancólico, a morte como a saída para as angústias, a valorização da subjetividade bem como a abordagem de temas como a exaltação da natureza, o amor à pátria e a saudade da infância. Há também poemas de cunho político e social, elemento característico da terceira geração romântica, que revela a consciência crítica da autora em relação ao momento histórico. Foco no texto O poema que você vai ler, a seguir, pertence à obra Nebulosas, de Narcisa Amália. Em determinadas estrofes, o eu lírico cede sua voz ao africano. O africano e o poeta Ao Dr. Celso Magalhães Les esclaves... est-ce qu’ils ont des dieux? Est-ce qu’ils ont des fils, eux qui n’ont point d’aïeux? Lamartine No canto tristonho Do pobre cativo Que elevo furtivo, Da lua ao clarão; Na lágrima ardente Que escalda-me o rosto, De imenso desgosto Silente expressão; Quem pensa? — O poeta Que os carmes sentidos Concerta aos gemidos De seu coração. — Deixei bem criança Meu pátrio valado, Meu ninho embalado da Líbia no ardor; Mas esta saudade Que em meu túmido anseio Lacera-me o seio Sulcado de dor, Les esclaves... est-ce qu’ils ont des dieux?/ Est-ce qu’ils ont des fils, eux qui n’ont point d’aïeux?: versos em francês que podem ser assim traduzidos: “Os escravos… têm deuses?/ Eles, que não têm antepassados, têm filhos?”. furtivo: disfarçado, que não se expõe. carmes: quaisquer composições poéticas, como o poema e o canto. concerta: coloca em harmonia. valado: terreno, propriedade cercada ou defendida por valas. túmido: que se avolumou, dilatou. sulcado: atravessado, que vai de um lado a outro. Li te ra tu ra 59 Quem sente? — O poeta Que o elísio descerra; Que vive na terra De místico amor! — Roubaram-me feros A férvidos braços; Em rígidos laços Sulquei vasto mar; Mas este queixume Do triste mendigo, Sem pai, sem abrigo, Quem quer escutar?... elísio: lugar de felicidade, bem-aventurança. descerra: abre, revela. feros: que demonstram ferocidade, cruéis. paços sidéreos: palácios celestiais. brenhas: matas, selvas. — Quem quer? O poeta Que os térreos mistérios Aos paços sidéreos Deseja elevar. — Mais tarde entre as brenhas Reguei mil searas Co’as bagas amaras Do pronto revel; searas: campos de terra cultivada. Das matas caíram bagas: gotas. Mas esses trabalhos amaras: amargas. revel: que se revolta contra algo; rebelde. Cem troncos, mil galhos; Do braço novel, Quem vê? — O poeta novel: novo, jovem. Que expira em arpejos arpejos: acordes em que as notas são tocadas em sequência. Aos lúgubres beijos proscrito: exilado, degredado. simum: vento forte, seco e quente (pode chegar a 54 °C) que atinge regiões desérticas do norte da África, como o Egito e a Líbia. crestou: tornou escuro. orbe: globo, esfera. Da fome cruel! — Depois o castigo Cruento, maldito, Caiu no proscrito Que o simum crestou; Coberto de chagas, Sem lar, sem amigos, Só tendo inimigos... Quem há como eu sou?!... — Quem há?... O poeta Que a chama divina Que o orbe ilumina Na fronte encerrou! 60 L ite ra tu ra Não escreva no livro. — Meu Deus! ao precito Sem crenças na vida, Sem pátria querida, Só resta tombar! Mas... quem uma prece precito: condenado. Na campa do escravo campa: túmulo, sepultura. Que outrora foi bravo Triste há de rezar?!... — Quem há-de?... O poeta Que a lousa obscura Uma lágrima pura Vai sempre orvalhar!? AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas. Rio de Janeiro: Gradiva, 2017. p. 130-132. Reprodução/Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, RJ. M od in ha A leitura de “O africano e o poeta” inspirou o regente e compositor brasileiro João Gomes de Araújo (1846-1943) a criar uma modinha homônima com o poema de Narcisa Amália. A modinha, gênero musical muito apreciado no século XIX, é uma das raízes da música popular brasileira. Partitura da modinha “O africano e o poeta”, de João Gomes de Araújo e letra de Narcisa Amália. 1. Enquanto no Classicismo, no Barroco e no Arcadismo destacava-se o gosto pelo soneto, considerado um tipo refinado de composição poética, no Romantismo, conforme você viu no capítulo anterior, os poetas se interessaram pela exploração de diferentes formas poéticas. a) No poema de Narcisa Amália, a métrica empregada é típica das cantigas populares. Faça a escansão dos primeiros versos e identifique a métrica utilizada no poema. Redondilha menor (cinco sílabas métricas). b) Os versos estão organizados em oitavas alternadas por quadras; estas últimas funcionam no poema como um refrão. Qual é o esquema de rimas das oitavas e das quadras? As oitavas têm o esquema de rimas ABBCDEEC e as quadras, FGGC. c) Como você pode observar no boxe “Modinha”, o poema “O africano e o poeta” foi musicado no século XIX. Os versos desse poema possuem métrica, rima e ritmo que constroem internamente a musicalidade do texto. O ritmo é construído pela alternância entre sílabas pronunciadas com maior e menor intensidade. Observe as sílabas acentuadas neste verso: A 1a oitava e a 1a quadra do poema apresentam o mesmo esquema rítmico: acentuação na 2a e na 5a sílabas métricas dos versos. No/ can/to/ tris/to/nho 2a 5a Identifique e registre no caderno o(s) esquema(s) rítmico(s) da primeira oitava e da primeira quadra do poema em estudo. d) Com base nas respostas anteriores, discuta com a turma e, depois, registre a resposta no caderno: Que efeito a musicalidade do poema produz junto ao leitor/ouvinte? Explique. A musicalidade contribui para a experiência estética do leitor/ouvinte, uma vez que a sonoridade e o ritmo embalam e seduzem quem ouve ou lê o poema. 2. Discuta as questões seguintes com a turma e registre suas respostas no caderno: No poema, o eu lírico manifesta determinados aspectos de sua subjetividade diante do mundo que o cerca. a) Que sentimentos ele expressa na primeira oitava do poema? Por que ele se sente assim? O eu lírico sente “imenso desgosto” por causa do triste lamento do africano escravizado. Li te ra tu ra 61 3. c) Expressa sentimentos de profunda tristeza, de saudade da terra natal, de dor, abandono, solidão, desproteção, temor (“Coberto de chagas/ Sem lar, sem amigos/ só tendo inimigos”). b) Na última oitava do poema, que temor o eu lírico expressa? O que justifica suas inquietações? O eu lírico teme pela vida do africano, uma vez que “sem crenças Justifique sua resposta com elementos do texto. na vida” e “sem pátria”, ou seja, sem elementos que fortaleçam sua identidade, nada mais lhe resta a não ser “tombar”, morrer. c) Que traços da primeira e da segunda geração romântica podem ser observados nas duas últimas estrofes do poema? Justifique sua resposta com elementos do texto. Religiosidade cristã (“há de rezar”; “Meu Deus!”), morbidez e interesse pelo tema da morte (“lousa obscura”; “Só resta tombar!”); valorização das raízes históricas, nacionais (“sem pátria querida”). 3. Na 2a oitava do poema, há uma mudança de voz. a) De quem é essa voz? A voz é do africano escravizado. b) Que história essa voz narra ao longo do poema? Justifique sua resposta com elementos do O africano narra o processo de sua escravização: roubado quando criança na Líbia (“roubaram-me feros”), seu país natexto. tal; transportado com grilhões no navio (“em rígidos laços/ Sulquei vasto mar”); submetido a duros trabalhos na lavoura e a castigos cruéis (“coberto de chagas”). c) Que sentimentos essa voz expressa? Justifique sua resposta com elementos do texto. d) Que efeito de sentido a presença dessa voz constrói no poema? Qual é o efeito dessa mudança presença da voz do africano, que narra sua história e expressa suas dores e viode voz junto ao leitor/ouvinte? A lências sofridas em primeira pessoa, constrói um efeito de verdade para o que está sendo abordado e, por isso, causa maior impacto no leitor/ouvinte, pois ele se torna testemunha dos sofrimentos proferidos. 4. Observe os seguintes versos extraídos das quatro primeiras quadras: Quem pensa? – o poeta Quem sente? – o poeta Quem quer? – o poeta Quem vê? – o poeta 4. a) A função do poeta consiste em pensar, sentir, escutar, ver e expressar as dores dos que sofrem; portanto, o poeta tem uma função social, uma vez que, por meio de sua obra, lança luz sobre diferentes questões que diante dele se apresentam (“Concerta aos gemidos”; “Que expira em arpejos/ Aos lúgubres beijos/ Da fome cruel”). 6. a) Há o emprego da hipérbole em “Reguei mil searas/ Co’as bagas amaras/ Do pranto revel;/ Das matas caíram/Cem troncos, mil galhos”. Ao dizer que o escravizado derrubou “cem troncos” e regou “mil searas” com suas lágrimas, são destacados a exaustão do trabalho e o grande sofrimento enfrentados pelo africano escravizado. Agora releia as estrofes a que esses versos se referem; depois, discuta com a turma as questões e registre as respostas no caderno: a) De acordo com os versos em destaque e as quadras às quais pertencem, em que consiste a função do poeta? Justifique sua resposta com elementos presentes no texto. b) No poema, as quadras se assemelham a um refrão: são iniciadas com perguntas parecidas, cujas respostas se iniciam sempre da mesma maneira. Que sentido esse recurso constrói no poema? As quadras que se assemelham a um refrão reforçam a importância do poeta na sociedade e sua função de ser um agente de transformação social. 5. O poema em estudo evoca, em seu início, outras vozes: ele é iniciado por uma epígrafe e, também, vem acompanhado de uma dedicatória. Epígrafe é uma citação breve colocada no início de um poema ou de um capítulo e sugere o tema que será abordado no texto. a) Leia, no glossário, a tradução da epígrafe, isto é, da citação próxima ao título, que constitui uma espécie de apoio temático ao poema. No caso, os versos são do poeta francês Lamartine (1790-1869) e responda: Que possível relação se pode estabelecer entre o poema em estudo e os versos do poeta francês? b) Narcisa Amália dedicou o poema ao “Dr. Celso de Magalhães”, jurista maranhense e abolicionista que levou a julgamento uma baronesa, acusada de atentar contra a vida de uma pessoa escravizada. Pode-se dizer que essa dedicatória confirma a função do poeta expressa no poema? pois, ao dedicar um poema sobre as mazelas da escravidão a um abolicionista que enfrentou a elite conservaJustifique. Sim, dora, Narcisa Amália se colocou como uma poeta que, por meio de sua arte, afirmava seu compromisso com a causa abolicionista e, aspirando à transformação social, buscava sensibilizar o leitor/ouvinte para a causa que defendia. 6. Para sensibilizar os leitores/ouvintes, a poeta utiliza também imagens bastante expressivas. a) Na 7a estrofe há uma hipérbole para representar o trabalho do africano escravizado. Identifique e explique essa figura de linguagem. b) Que outra(s) imagem(ns) do poema chamou(aram) sua atenção? Compartilhe com a turma suas pessoal. Incentive a troca de impressões acerca do percepções estéticas e ouça as de seus colegas. Resposta poema: ele emocionou os estudantes? c) Com base no estudo realizado e em diálogo com a turma, conclua e registre sua resposta no caderno: Que estratégias a poeta utilizou para convencer seu leitor/ouvinte de que a escravização A presença da voz do africano e as imagens de seu sofrimento são vigente no país não podia mais ser tolerada? recursos estéticos expressivos que podiam sensibilizar o leitor/ou- 62 L ite ra tu ra vinte para a causa abolicionista. 5. a) Ambos os textos abordam aspectos da vida de pessoas escravizadas, como a perda de conexões com seus antepassados, observada no poema tanto no aspecto familiar quanto pátrio, e a espiritualidade que, no caso do poema em estudo, não é abordada com clareza. Não escreva no livro. Língua e linguagem Classes de palavras: revisão (II) – verbo, advérbio, conjunção, preposição e interjeição Competências gerais da Educação Básica: 1, 2, 7 Foco no texto Releia, a seguir, alguns versos do poema “O navio negreiro”, que você estudou neste capítulo. Ontem a Serra Leoa, A guerra, a caça ao leão, O sono dormido à toa Sob as tendas d’amplidão... Hoje... o porão negro, fundo, Infecto, apertado, imundo, Tendo a peste por jaguar... E o sono sempre cortado Pelo arranco de um finado, E o baque de um corpo ao mar... BN CC Ontem plena liberdade, A vontade por poder... Hoje... cum’lo de maldade Nem são livres p’ra... morrer... Competências específicas da área de Linguagens: 3, 4, 6 Habilidades específicas da área de Linguagens: EM13LGG302, EM13LGG303, EM13LGG401, EM13LGG602 Habilidades específicas de Língua Portuguesa: EM13LP02, EM13LP06, EM13LP07, EM13LP08, EM13LP46, EM13LP49 1. b) A vida dos personagens, no passado, era de liberdade, de atividades variadas ao ar livre, em seu ambiente de origem. Em contrapartida, a vida no presente era de sofrimento, aprisionamento, desconforto, morte. 1. Dois tempos diferentes são contrapostos nos versos lidos. As palavras ontem e hoje, que se repetem no trecho a) Quais palavras marcam esses dois diferentes tempos? lido, reforçando essa demarcação temporal entre passado e presente. b) Troque ideias com os colegas e o professor e, com base no texto, levante hipóteses: Como era a vida dos personagens descritos no poema em cada um desses tempos? c) Qual fato histórico é responsável por essa mudança na vida dos personagens? A escravização de africanos por meio de perseguição, aprisionamento e imigração forçada para o continente americano, especialmente o Brasil entre os séculos XVI e XIX. 2. O trecho lido é construído essencialmente por meio do emprego de substantivos e adjetivos, omitindo algumas formas verbais que poderiam completar o seu sentido. Releia estes versos: Ontem a Serra Leoa, A guerra, a caça ao leão, O sono dormido à toa Sob as tendas d’amplidão... Hoje... o porão negro, fundo, Infecto, apertado, imundo, Tendo a peste por jaguar... a) No último verso, ao colocar em paralelo a peste enfrentada nos porões dos navios e um jaguar, o poema faz uma comparação. Qual palavra dos dois primeiros versos equivale ao “jaguar” citado nesse último verso? A palavra leão. b) Considerando sua resposta ao item a, troque ideias com os colegas e o professor e explique o efeito de sentido que essa comparação produz no poema. c) Nesse trecho foi empregada uma única forma verbal. Identifique-a e indique a qual verbo ela pertence. A forma verbal tendo, do verbo ter. d) Observe as formas verbais a seguir: desfrutavam faziam realizavam veem 2. b) Anteriormente, os africanos caçavam os leões e arriscavam suas vidas ao enfrentá-los na caça. Quando estão nos navios negreiros, entretanto, sua vida é colocada em risco pelas doenças disseminadas naquele ambiente insalubre, a “peste”. O fato de os dois elementos, leão e peste, colocarem a vida dos personagens em risco em diferentes momentos permite o paralelo e a construção da metáfora. viviam Língua e linguagem 63 3. b) As formas são: roubaram-me, sulquei e escutar. Abra a discussão com a turma: em roubaram-me, trata-se de sujeito indeterminado, mas, pelo contexto, ainda que não se consiga definir exatamente quem são os agentes, é possível saber que se trata das pessoas que sequestraram os negros africanos à época; em sulquei, a conjugação na 1a pessoa do singular permite identificar facilmente que o sujeito é o próprio eu lírico. Por fim, em escutar, o sujeito é o pronome quem, interrogativo e sem referente específico, o que sugere, no contexto, que ninguém vai querer escutar os lamentos do eu lírico. No contexto do poema, cada uma dessas formas verbais poderia completar o sentido de quais versos? Reescreva-os em seu caderno, inserindo a forma verbal mais adequada de acordo com o sentido e fazendo adaptações, se necessárias. Ontem viviam na Serra Leoa; Faziam a guerra; realizavam a caça ao leão; desfrutavam o sono dormido à toa; Hoje veem o porão negro, fundo. 3. Compare os versos de Castro Alves a esta estrofe do poema de Narcisa Amália em estudo: 3. a) Dialoga com o tempo do “hoje” do poema, isto é, o tempo presente vivido à época, de escravização, quando os africanos foram — Roubaram-me feros Mas este queixume presos e transportados forçadamente nos navios, A férvidos braços; Do triste mendigo, conforme comprovam os primeiros versos Em rígidos laços Sem pai, sem abrigo, quatro “roubaram-me feros / a férSulquei vasto mar; Quem quer escutar?...vidos braços / em rígidos laços / sulquei vasto mar”. a) Com qual dos diferentes tempos narrados por Castro Alves, identificados por você na atividade 1, esses versos de Narcisa Amália dialogam diretamente? Justifique sua resposta, por meio de semelhanças nos dois comparados em relação ao conteúdo. b) Identifique as formas verbais empregadas nos versos de Narcisa Amália. Então troque ideias com os colegas e o professor e, considerando os sentidos do poema, deduza: Quem é o responsável pela ação indicada em cada uma delas? c) Na atividade 2, você pôde observar que Castro Alves não emprega formas verbais nos versos analisados. Troque ideias com os colegas e o professor e explique: Que diferença de efeitos de sentido isso ajuda a provocar entre os versos de Narcisa Amália, que contêm formas verbais, e que os estudantes observem que a presença das formas verbais dá destaque às ações os de Castro Alves? Espera-se realizadas, ao passo que a ausência dela dá mais destaque aos cenários descritos e aos elementos que os compõem, que são enumerados nos versos. Compare estes dois grupos de versos para responder às questões 4 a 7. O sono dormido à toa Sob as tendas d’amplidão... E o sono sempre cortado Pelo arranco de um finado, E o baque de um corpo ao mar... 4. Os dois grupos de versos colocam um mesmo elemento em paralelo no contexto do poema. a) Qual é esse elemento colocado em paralelo? Explique a diferença apresentada na descrição desse elemento nos dois grupos de versos. O sono, que no primeiro grupo é descrito como tranquilo na terra natal; e, no segundo, como agitado, entrecortado por episódios de morte nos navios. b) Deduza: as palavras dormido e cortado empregadas no poema pertencem a que verbos? Pertencem aos verbos dormir e cortar. c) As palavras em destaque no trecho têm a função de conectar outras palavras, estabelecendo entre elas determinado sentido. Indique em seu caderno quais outras palavras são conectadas por cada um dos termos destacados e dê o sentido deles entre as opções a seguir: • indica origem, causa • indica lugar, espaço • indica destino, direção sob: conecta as palavras sono e tendas, com sentido de lugar, espaço; de: conecta, respectivamente, as palavras arranco e finado, baque e corpo, com sentido de origem, causa; ao: conecta as palavras corpo e mar, com sentido de destino, direção. 5. Algumas palavras podem se apresentar em combinações, isto é, conectadas a outras palavras. a) Observe os termos em destaque nos versos e deduza: qual deles corresponde a uma combinação com o artigo o? A palavra ao, que equivale à preposição a unida ao artigo o. b) Troque ideias com a turma e, considerando o que você já aprendeu em anos anteriores, con5. b) Incentive os estuclua: Que outras palavras há em combinações ou contrações nesses versos? dantes a procurar inicialmente entre palavras dos versos em análise que tenham alguma especificidade na escrita: o acento grave indicativo de crase e o 6. Agora observe o emprego da palavra e no segundo grupo de versos. Entre as opções a seguir, indique em seu caderno a que melhor descreve a função dessa palavra no contexto. contrários que mostram a discrepância nos dois momentos vividos pelos • Contrapor elementos apóstrofo (supressão de letras): à é a contração da preposição a com o artigo a (“à toa”); “d’amplidão” é a con- personagens. tração da preposição de com a palavra amplidão. Em seguida, chame atenção para o termo pelo (“Pelo arranco”) e pergunte aos estudantes se eles se lembram que se trata da contração da preposição por com o artigo o. • Conectar elementos que se somam uns aos outros na descrição do sofrimento dos personagens. Os estudantes devem indicar no caderno a segunda opção. 7. Você já aprendeu, em anos anteriores, que as interjeições são palavras que, entre outras possibilidades, expressam emoções, sentimentos, estados de espírito. Quais sentimentos seriam expressos no contexto do poema se a interjeição “Ah!” fosse acrescentada: a) aos versos do primeiro grupo? Sugestão: sentimentos de saudade, nostalgia. 64 Língua e linguagem b) aos versos do segundo grupo? Sugestão: sentimentos de desgosto, pesar. RES E B A S E R T N E Ciências Não escreva no livro. e Humanas plicadas Sociais A A escravização de negros africanos na história do Brasil No início deste capítulo, você leu e analisou textos literários escritos à época em que ainda havia negros escravizados no Brasil. Nesta seção, você vai refletir sobre a condição das pessoas negras ao longo da história do Brasil e procurar observar as relações entre a constituição da nossa sociedade, as leis e políticas de governo e seus impactos atualmente. A que custo se constituiu a diversidade da sociedade brasileira? E de que forma essa constituição social repercute nos dias de hoje? Para pensar e discutir com a turma a respeito dessas e outras questões, leia, a seguir, dois trechos do texto “A escravização e racismo no Brasil, mazelas que ainda perduram”, da professora Eunice Prudente, da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP). [...] Sem dúvida, a escravização de africanos e afrodescendentes foi o ponto contraditório do liberalismo à brasileira. A escravização em período áureo do liberalismo – que louvava a liberdade aliada ao principal objetivo da classe burguesa, o direito à propriedade privada – cresceu. Nos séculos XVII, XVIII e XIX as ideias liberais são introduzidas pelos jovens de famílias abastadas que estudavam na Europa, no entanto, aqui foram devidamente adaptadas. Nossa primeira Constituição foi a monárquica de 1824, considerada de cunho liberal, não fazia nenhuma referência ao sistema econômico adotado, pois era o escravizador chamado de escravocrata. O liberalismo de “casa” serviu aos salões e, portanto, nunca foi efetivamente aplicado. […] Não há, nunca houve, nem haverá escravos. O ser humano, sob violência física ou simbólica, tem sido escravizado, mas não escravo. O escravo é um ser inerte convencido de sua inferioridade face ao opressor, subordinado em todas as esferas da vida. Isso, nenhum ser humano o é. O que o mundo conhece sobre dominações – adiciono escravidão, escravatura, escravismo – são formas de violência, impedindo e opondo-se ao exercício da liberdade. Alguém, muitas vezes falseando amor ou proteção, submete pessoas. Em família, em uniões amorosas, observam-se formas suaves e racionais de escravizar o outro mediante formas de violências simbólicas. Violência simbólica, como pensada pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu, constrange, submete e provoca dor moral. A liberdade é condição da espécie humana, integra a nacionalidade dos humanos. Liberdade é oposição da escravização, posto que escravidão seja apenas a dominação de formas de escravização como vigentes na Antiguidade. […] Somente pela verve violenta se escravizam pessoas. Pensa-se livremente, o direito de pensar é livre e assim absoluto. Ao direito, expressando o sentido do justo em sociedade, cabe garantir expressões do exercício dessa liberdade – seja ela de comunicação, locomoção, permanência ou verve: vivacidade, crenças –, mas também é seu dever discipliná-lo. entusiasmo. [...] PRUDENTE, Eunice. A escravização e racismo no Brasil, mazelas que ainda perduram. Jornal da USP, São Paulo, 10 jun. 2020. Disponível em: https://tedit.net/qtox26. Acesso em: 19 set. 2024. 65 1. Em seu texto, Eunice afirma que a escravização foi “o ponto contraditório do liberalismo à brasileira”. a) Quais princípios do liberalismo são citados no primeiro parágrafo do texto? A liberdade aliada ao direito à propriedade privada. b) E por que é possível afirmar, da perspectiva da autora, que houve uma contradição desses princípios e que o liberalismo “nunca foi efetivamente aplicado”? Porque os africanos escravizados nunca puderam usufruir de nenhum desses princípios, uma vez que não eram livres nem tinham propriedade privada. 2. Algumas palavras contrapostas têm o sentido explorado por Eunice no texto. Observe os pares a seguir: escravizador – escravocrata escravo – escravizado a) Troque ideias com os colegas e o professor e, com base no texto, explique a diferença de sentido existente entre as palavras que compõem cada um dos pares observados. b) Que outras palavras da mesma família que essas são também empregadas no trecho lido? escravidão, escravatura, escravismo, escravizar Agora leia outro trecho do mesmo texto para responder às questões 3 a 5. Durante seus quatro séculos, a escravização no Brasil fez também parte de um importante ciclo do sistema socioeconômico do capitalismo em sua fase mercantil, já alcançando a primeira industrialização. As relações brasileiras com a Inglaterra eram intensas, posto que os ingleses lucraram com o tráfico de pessoas, acumulando capital suficiente para aplicar em sua industrialização. Assim, no século XIX já não interessava à burguesia liberal inglesa a escravização. Necessitavam, sim, de mercados consumidores para suas manufaturas e se impunham entre os estados produtores com ampla campanha contra a “escravidão”. No Brasil, no entanto, o tráfico prosseguiu ilegalmente, mesmo depois de criada a Lei de 7 novembro de 1831, que declarava livres os africanos importados após a proibição e incriminava os traficantes nos termos do artigo 179 do Código Criminal. E prossegue também depois de criada a Lei Eusébio de Queirós (Lei 581, de 4 de setembro de 1850). Certamente, imperavam interesses econômicos, visto que foram trazidos ilegalmente para o Brasil 560.000 africanos nesse período. A expressão “lei para inglês ver” advém dos descumprimentos da Lei Eusébio de Queirós. [...] Assim, mesmo conquistando a cidadania, os negros brasileiros passaram à invisibilidade, ausentes em todas as instituições públicas e privadas. Exceto nas cadeias públicas, manicômios e nas verdadeiras extensões das favelas e periferias das cidades brasileiras. No século XIX, os negros eram aproximadamente 53% da população nacional, mas permaneciam à margem do desenvolvimento. Como a imigração dos trabalhadores livres europeus iniciou-se em 1811, famílias trabalhadoras brancas e negros escravizados conviveram por quase cem anos. Atos normativos monárquicos, manifestadamente racistas, bem demonstram a opção por imigração de famílias e por determinadas regiões da Europa. 2. a) Primeiro par: a palavra escravocrata faz uso do sufixo grego -crata, que remete à ideia de “adepto ao po[...] der/governo”; ou seja, um escravocrata é alguém que defende o poder proporcionado pela posse de pessoas Enquanto escravizados, as reações são as rebeliões e a formação de quilombos ou ações libertadoras; somente com os processos judiciais, propostos por Luís Gama, importante advogado dos negros perante os tribunais, houve a libertação de dezenas de escravizados. Quando na posição jurídica de libertos, os negros não votavam no legislativo monárquico e, constantemente, eram obrigados a esclarecer sua situação de cidadãos libertos, pois sempre se suspeitava serem escravos fugidos. Ser negro no Brasil era ser escravo, portanto, para ser Já em escravizador há o sufixo -dor, que contém a ideia de escravo e livre era preciso comprovar. escravizadas. “aquele que exerce uma ação” – no caso a de escravizar – conferindo à Assim, a legislação manifestadamente racista revela, por si, a monarquia escravizadora, mas também a república desigual, pois os primeiros decretos de Deodoro da Fonseca, de 1890, proibiam a imigração de africanos. Soma-se a isso a inexistência de qualquer política escravizadora maior responsabilidade por essa ação. No seintegradora para os negros brasileiros. [...] pessoa gundo par, escravo passa a ideia de alguém que se submete volunta- 66 PRUDENTE, Eunice. A escravização e racismo no Brasil, mazelas que ainda perduram. Jornal da USP, São Paulo, 10 jun. 2020. Disponível em: https://tedit.net/qtox26. Acesso em: 19 set. 2024. riamente ao poder de outra pessoa, como se ser escravizado fosse uma característica inerente a quem estivesse nessa situação. Já no termo escravizado, particípio do verbo escravizar, ressalta-se o fato de que há alguém responsável pela ação de submeter o outro a essa condição, ou seja, essa condição não lhe é natural nem inerente, mas uma imposição proveniente do exterior. 4. b) Porque, segundo a autora, atos monárquicos da época manifestavam a preferência do governo pela imigração de famílias europeias brancas de determinadas regiões da Europa, enquanto as pessoas negras ficavam à margem da justiça e não podiam usufruir direitos básicos garantidos por lei. Não escreva no livro. 3. No primeiro parágrafo do trecho, a autora aborda a relação do Brasil com a Inglaterra. a) Por que, segundo o texto, no século XIX o tráfico de pessoas já não interessava à Inglaterra? Porque à época a Inglaterra estava se industrializando e precisava de um mercado consumidor para comprar seus produtos. b) Explique a origem e o sentido da expressão “lei para inglês ver”. Você já ouviu essa expressão em alguma situação? Comente com a turma. O sentido de que algo não acontece de fato, é feito apenas como uma simulação. Resposta pessoal. 4. A autora comenta sobre o tratamento dado pelo governo brasileiro aos negros africanos ou afrodesa) Segundo o texto, as possibilidades eram agir em rebeliões para manifestar seu desconcendentes. Segundo o texto: 4. tentamento, ou tentar buscar o direito à liberdade por meio de processos judiciais. a) De que modo essas pessoas podiam reagir diante da falta de acolhimento do governo? b) Por que, segundo a autora, a legislação brasileira seria “manifestadamente racista”? 5. Compare os dados do trecho lido com as seguintes informações, extraídas de censos realizados no Brasil no século XXI: Com relação à composição em termos raciais e de gênero, 67% das pessoas que vivem em favelas são negras, 12% a mais do que a composição total de brasileiros e brasileiras, na qual o percentual é de 55%. Com relação ao gênero, 6,3 milhões de mulheres brasileiras vivem em favelas e 69% delas são negras. Portanto, é legítimo afirmar que favelas são territórios essencialmente negros onde prevalece a presença de mulheres negras. MOTTA, Athayde; BRANDÃO, Rita Corrêa. Favelas – uma condição urbana de caráter nacional. Ibase, [s. l.], 20 jun. 2022. Disponível em: https://tedit.net/sxrr7s. Acesso em: 4 set. 2024. Dos mais de 850 mil presos no país, cerca de 70% são negros, um universo de 470 mil pessoas. Os números escancaram o racismo estrutural no sistema carcerário brasileiro. Os dados são de 2023 e estão no Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Segundo o documento, em nenhum momento da série histórica, iniciada em 2005, a representação racial se deu de modo diferente, sendo, portanto, um processo criminal que tem cor. RIBEIRO, Renato. Estudo: 70% da população carcerária no Brasil é negra. Agência Brasil, Brasília, 19 jul. 2024. Disponível em: https://tedit.net/atfntp. Acesso em: 4 set. 2024. a) A proporção de pessoas negras na sociedade brasileira variou muito ou pouco entre os séculos XIX e XXI? Justifique sua resposta com dados dos textos. Variou pouco: no século XIX, a população negra era de 53% e, no século XXI, é de 55%. N ec ro po lít ic a “Necropolítica é a capacidade de estabelecer parâmetros em que a submissão da vida pela morte está legitimada. Para Mbembe, a necropolítica não se dá só por uma instrumentalização da vida, mas também pela destruição dos corpos. Não é só deixar morrer, é fazer morrer também. Esse poder de morte, esse necropoder, é um elemento estrutural no capitalismo neoliberal de hoje, atuando por meio de práticas e tecnologias de gerenciamento de morte de certos grupos e populações”, explica Mariana Castro, pesquisadora de necropolíticas da fronteira, mestra em políticas públicas e direitos humanos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Espera-se que os estudantes observem que as práticas marginali- zantes e violentas estão enraizadas na história colonial e escravocraNECROPOLÍTICA. Educação e Território, [s. l.], 18 dez. 2020. Disponível em: https://tedit.net/gssiv1. Acesso em: 22 out. 2024. ta do Brasil e, sob diferentes formas, continuam a se manifestar na contemporaneidade sob a égide da necropolítica. Ao longo de nossa história, africanos e afrodescendentes não conseguiram se estabelecer de forma apropriada na sociedade brasileira, uma vez que não foram acolhidos e integrados à sociedade por meio de políticas e auxílios dos governos, conforme a reflexão da professora Eunice. Assim, precisaram por conta própria encontrar meios de sobreviver e se estabelecer após a abolição da escravatura, o que ocorreu de forma b) O filósofo camaronês Achille Mbembe (1957-), com base em estudos sobre as práticas do poder do Estado e das relações entre colonialismo, racismo e capitalismo, criou o conceito de necropolítica. Leia o boxe “Necropolítica”, relacione esse conceito às informações dos censos indicadas nesta seção e à discussão feita por meio das questões anteriores. Em seguida, troque ideias com os colegas e o professor e conclua: É possível considerar que as políticas resultantes das práticas do período colonial e a prática contemporânea da necropolítica impactam a situação de desordenada e sem planejamento, dando origem a habitapessoas negras no Brasil nos dias atuais? Explique. ções que hoje correspondem às favelas. Além disso, o fato de mais de 70% dos presos no Brasil serem negros também pode ser vinculado ao preconceito racial, ao não reconhecimento dos direitos cidadãos da população negra e à falta de condições dignas de sobrevivência dadas aos africanos escravizados mesmo após a abolição. Essa lógica de controle e exclusão demonstra, portanto, como a necropolítica é uma continuação das estruturas de poder e de opressão estabelecidas desde o período colonial. 67 Reflexões sobre a língua Verbos Ao comparar os versos do poema “Navio negreiro”, de Castro Alves, aos do poema “O africano e o poeta”, de Narcisa Amália, você pôde observar que algumas palavras indicam ações atribuídas a um sujeito, tais como roubar, sulcar, escutar, que, no contexto, poderiam ser atribuídas a personagens do poema. Tais palavras são verbos. Verbos constituem uma classe de palavras que, do ponto de vista semântico, contém as noções de ação, processo ou estado. Morfologicamente são palavras variáveis em número, pessoa, tempo, modo e voz. O s m or fe m as do s ve rb os • Radical: contém a significação básica da palavra; normalmente ele se repete em todos os modos e tempos, sem sofrer modificações. No verbo escutar, por exemplo, o radical é escut-. • Vogal temática: é a vogal que se segue ao radical dos verbos e indica a conjugação a que eles pertencem: -a indica a 1a conjugação: amar; -e indica a 2a conjugação: beber; -i indica a 3a conjugação: partir. • Tema: é o radical somado à vogal temática: atravess + a = atravessa. • Desinências: são morfemas que indicam a pessoa do discurso (1a, 2a ou 3a), o número (singular ou plural), o tempo e o modo do verbo: atravessa + re + mos. Modo indicativo A seguir, você vai ver um quadro-resumo com as conjugações dos tempos simples do modo indicativo, de acordo com a norma-padrão do português brasileiro. 1a conjugação (terminação -ar) Tempo 68 2a conjugação (terminação -er + pôr e derivados) 3a conjugação (terminação -ir) Presente ignoro ignoras ignora ignoramos ignorais ignoram escolho escolhes escolhe escolhemos escolheis escolhem desisto desistes desiste desistimos desistis desistem Pretérito perfeito ignorei ignoraste ignorou ignoramos ignorastes ignoraram escolhi escolheste escolheu escolhemos escolhestes escolheram desisti desististe desistiu desistimos desististes desistiram Língua e linguagem Não escreva no livro. Tempo 1a conjugação (terminação -ar) 2a conjugação (terminação -er + pôr e derivados) 3a conjugação (terminação -ir) Pretérito imperfeito ignorava ignoravas ignorava ignorávamos ignoráveis ignoravam escolhia escolhias escolhia escolhíamos escolhíeis escolhiam desistia desistias desistia desistíamos desistíeis desistiam Pretérito mais-que-perfeito ignorara ignoraras ignorara ignoráramos ignoráreis ignoraram escolhera escolheras escolhera escolhêramos escolhêreis escolheram desistira desistiras desistira desistíramos desistíreis desistiram Futuro do presente ignorarei ignorarás ignorará ignoraremos ignorareis ignorarão escolherei escolherás escolherá escolheremos escolhereis escolherão desistirei desistirás desistirá desistiremos desistireis desistirão Futuro do pretérito ignoraria ignorarias ignoraria ignoraríamos ignoraríeis ignorariam escolheria escolherias escolheria escolheríamos escolheríeis escolheriam desistiria desistirias desistiria desistiríamos desistiríeis desistiriam • Observe estas manchetes, que têm os verbos destacados flexionados em tempos do modo indicativo. Considerando o que sabe desse modo verbal e os sentidos dos verbos nos enunciados em questão, escreva no caderno que ideia o uso do modo indicativo sinaliza: I. hipótese/possibilidade; III. certeza/fato real, verossímil. II. ordem/orientação; Os estudantes devem copiar no caderno o item III. Rafael Nadal desiste da Laver Cup e adia retorno aos torneios depois das Olimpíadas REDAÇÃO DO GE. Globo.com, Rio de Janeiro, 12 set. 2024. Disponível em: https://tedit.net/2ged6y. Acesso em: 19 set. 2024. Alex Telles diz por que escolheu o Botafogo e revela como Textor e Tiquinho Soares foram fundamentais em acerto ESPN. ESPN.com.br, [s. l.], 10 set. 2024. Disponível em: https://tedit.net/2jheob. Acesso em: 19 set. 2024. Professora diagnosticada com autismo tardiamente: “Médicos me ignoravam” MACHADO, Simone. Universa, São Paulo, 8 out. 2020. Disponível em: https://tedit.net/3g7v5m. Acesso em: 19 set. 2024. Língua e linguagem 69 Ade Sampa prorroga editais que escolherão organizações gestoras de novos espaços colaborativos de trabalho SÃO PAULO. Cidade de São Paulo, São Paulo, 13 set. 2019. Disponível em: https://tedit.net/l1it00. Acesso em: 19 set. 2024. Modo subjuntivo Veja um quadro-resumo com as conjugações dos tempos simples do modo subjuntivo, de acordo com a norma-padrão do português brasileiro. 1a conjugação (terminação -ar) Tempo 2a conjugação (terminação -er + pôr e derivados) 3a conjugação (terminação -ir) Presente ignore ignores ignore ignoremos ignorei ignorem escolha escolhas escolha escolhamos escolhais escolham desista desistas desista desistamos desistais desistam Pretérito imperfeito ignorasse ignorasses ignorasse ignorássemos ignorásseis ignorassem escolhesse escolhesses escolhesse escolhêssemos escolhêsseis escolhessem desistisse desistisses desistisse desistíssemos desistísseis desistissem Futuro ignorar ignorares ignorar ignorarmos ignorardes ignorarem escolher escolheres escolher escolhermos escolherdes escolherem desistir desistires desistir desistirmos desistirdes desistirem • Analise os verbos destacados nas manchetes a seguir. Considerando o que sabe sobre o modo subjuntivo e os sentidos dos verbos nos enunciados em questão, escreva no caderno que ideia o uso do modo subjuntivo aponta: Os estudantes devem copiar no caderno o item I. I. hipótese/possibilidade; III. certeza/fato real, verossímil. II. ordem/orientação; Companhia aérea permite que mulheres escolham não se sentar ao lado de homens em voos REDAÇÃO Alô Alô Bahia. Correio, Salvador, 8 set. 2024. Disponível em: https://tedit.net/0nxwd3. Acesso em: 19 set. 2024. Projeto de lei permitiria que funcionários ignorassem ligações do chefe fora do expediente SOUSA, Diego. Isto É, São Paulo, 5 abr. 2024. Disponível em: https://tedit.net/89jese. Acesso em: 19 set. 2024. Franquias que ignorarem tecnologia vão morrer, diz CEO da IFA ZUINI, Priscila. Pequenas empresas, grandes negócios. Globo.com, Rio de Janeiro, 27 ago. 2015. Disponível em: https://tedit.net/gna0sr. Acesso em: 19 set. 2024. 70 Língua e linguagem Não escreva no livro. Modo imperativo Agora, observe um quadro-resumo com as conjugações do modo imperativo, de acordo com a norma-padrão do português brasileiro. 2a conjugação (terminação -er + pôr e derivados) 1a conjugação (terminação -ar) Tempo 3a conjugação (terminação -ir) Afirmativo — ignora ignore ignoremos ignorai ignorem — escolhe escolha escolhamos escolhei escolham — desiste desista desistamos desisti desistam Negativo — não ignores não ignore não ignoremos não ignoreis não ignorem — não escolhas não escolha não escolhamos não escolhais não escolham — não desistas não desista não desistamos não desistais não desistam • Leia as manchetes a seguir, observando os verbos destacados. A partir do que já conhece do modo imperativo e dos sentidos dos verbos nos enunciados em questão, escreva no caderno que ideia o uso do modo imperativo sinaliza: Os estudantes devem copiar no caderno o item II. I. hipótese/possibilidade; III. certeza/fato real, verossímil. II. ordem/orientação; Ignore o hype e faça investimentos pequenos: três CEOs mostram como adotar a IA na sua empresa GIL, Marisa Adán. Época Negócios. Globo.com, Rio de Janeiro, 16 abr. 2024. Disponível em: https://tedit.net/h30gco. Acesso em: 19 set. 2024. ‘Não Desista!’: Fotógrafo volta à escola na EJA e faz documentário de curta-metragem sobre história de colegas SÃO PAULO. Governo do Estado de São Paulo, São Paulo, 13 ago. 2024. Disponível em: https://tedit.net/xocj1n. Acesso em: 19 set. 2024. Formas nominais Veja um quadro-resumo com as formas nominais simples dos verbos, de acordo com a norma-padrão do português brasileiro. Infinitivo ignorar escolher desistir Gerúndio ignorando escolhendo desistindo Particípio ignorado escolhido desistido Língua e linguagem 71 • Observe estas manchetes, que têm destacados os verbos empregados em formas nominais. Considerando o que sabe dessas formas verbais e os sentidos dos verbos nos enunciados em questão, escreva no caderno qual função as formas nominais exercem: I. determinam o tempo no qual ocorreu a ação verbal; II. desempenham papel semelhante aos dos substantivos, dos adjetivos ou dos advérbios; Os estudantes devem copiar no caderno o item II. 10 histórias infantis para a hora de dormir SENA, Clarice. Bebê.com.br, São Paulo, 3 set. 2024. Disponível em: https://tedit.net/ohl0tu. Acesso em: 19 set. 2024. REDAÇÃO. Tempo. Primeira Página, [s. l.], 21 jul. 2024. Disponível em: https://tedit.net/tkmchn. Acesso em: 19 set. 2024. Irina Stre lnik ova /Sh utte rsto ck Cuiabá fervendo! 35 °C e nada de nuvens na capital neste domingo Força-tarefa apreende mais de 6 mil garrafas de azeite falsificado PIMENTEL, Carolina. Agência Brasil, Brasília, 27 nov. 2023. Disponível em: https://tedit.net/zf4o7r. Acesso em: 19 set. 2024. Os verbos que não seguem as conjugações indicadas no quadro, porque sofrem alteração no radical ou se afastam do modelo de conjugação ao qual pertencem, são chamados de irregulares. São irregulares verbos como caber (caibo, coube), poder (podemos, puder), ter (tenha, tivesse), dizer (diga, disseram), haver (hei, houve), vir (vim, veio, viesse), ver (vejo, visse, vir), etc. Os verbos ser e ir, que ao se conjugarem apresentam alterações profundas no radical (com formas tais como sou, é, és, fui, foste, era, eras, do verbo ser; vou, vais, vai, fui, foste, ia, ias – do verbo ir), são chamados verbos anômalos. Para saber se um verbo é regular ou irregular, basta conjugá-lo no presente ou no pretérito perfeito do indicativo. Se esses dois tempos seguirem o modelo dos verbos regulares, os outros tempos também seguirão. Se não, é sinal de que são irregulares ou anômalos. Advérbios Além das formas verbais, você observou, na análise dos versos, que as palavras ontem e hoje acrescentam circunstâncias de tempo aos eventos narrados no poema, contribuindo para a construção do sentido do texto. As palavras ontem e hoje são advérbios. Advérbios são palavras invariáveis que indicam principalmente as circunstâncias em que se dá uma ação verbal, podendo também se relacionar com outras classes de palavras, principalmente com o adjetivo e o próprio advérbio. Podem, ainda, modificar o sentido de uma frase inteira. Quando duas ou mais palavras formam uma locução e funcionam como advérbio, essa formação é chamada de locução adverbial. 72 Língua e linguagem Não escreva no livro. C la ss ifi ca çã o do s ad vé rb io s Tradicionalmente, as gramáticas normativas classificam os advérbios e as locuções adverbiais por um critério semântico, tendo em vista a circunstância que expressam. Essas classificações podem variar de acordo com a fonte. A seguir, estão algumas delas. • Lugar/espaço: aqui, dentro, ali, adiante, fora, acolá, atrás, além, lá, detrás, cá, acima, onde, perto, aí, abaixo, aonde, longe, debaixo, afora, embaixo, em cima, etc. • Tempo: hoje, logo, ontem, outrora, amanhã, cedo, depois, antigamente, antes, doravante, nunca, então, jamais, agora, sempre, já, enfim, afinal, amiúde, breve, às vezes, etc. • Modo: bem, mal, assim, melhor, pior, depressa, devagar, às pressas, às claras, às cegas, à toa, à vontade, às escondidas, aos poucos, desse jeito, desse modo, dessa maneira, em geral, de cor, em vão; e grande parte dos que terminam em -mente: calmamente, tristemente, etc. • Afirmação: sim, certamente, realmente, efetivamente, decerto, etc. • Negação: não, nem, nunca, jamais, tampouco, de jeito nenhum, etc. • Dúvida: acaso, porventura, possivelmente, provavelmente, quiçá, talvez, casualmente, etc. • Intensidade: muito, demais, pouco, tão, bastante, mais, menos, quanto, quão, tanto, tudo, nada, todo, quase, extremamente, intensamente, grandemente, etc. • Interrogação: onde, por que, quando, como. Preposições e conjunções Ao analisar os versos de Castro Alves, você observou que há palavras e expressões que têm a função de estabelecer determinadas relações de sentido entre outras palavras, expressões e orações. Essas palavras são chamadas de palavras relacionais e se dividem entre preposições e conjunções. As relações estabelecidas pelas preposições e conjunções contribuem para que um texto apresente textualidade, isto é, seja coerente e coeso, e não uma sequência de palavras sem sentido. Conforme você pôde observar em expressões como “tendas d’amplidão” ou “baque de um corpo”, as preposições destacadas cumprem o papel de colocar dois termos em relação, de forma que um complemente, explique ou especifique o sentido do outro. Concluímos, portanto, que: Preposição é a palavra que coloca dois termos em relação, de forma que um complemente, explique ou especifique o sentido do outro. Os va lor es se mâ nti co s da pr ep os içã o Nos versos analisados, você observou que as preposições de e ao ligam o substantivo arranco ao substantivo finado e o substantivo corpo ao substantivo mar construindo, respectivamente, o sentido de causa, origem e o sentido de destino, direção. Assim, as preposições, além de ligarem palavras, têm valor semântico, isto é, significado próprio no contexto da expressão que compõem. De acordo com a relação que as preposições e as locuções prepositivas estabelecem entre as palavras, inúmeros são os valores semânticos que elas exprimem. Entre eles, estão estes: Língua e linguagem 73 Reprodução/Editora Ática • assunto: O sacerdote falou da fraternidade. • causa: A criança estava trêmula de frio. • origem: As tulipas vêm da Holanda. • direção contrária: Agiu contra todos. • distância: Daqui a dois quilômetros há um bar. • fim: Saíram para pescar bem cedinho. • meio: Vim de ônibus. • posse: Esta casa é de meu pai. • delimitação: É uma pessoa rica de virtudes. • conformidade: Como é teimoso! Saiu ao avô. • instrumento: Redigiu os artigos a lápis. • lugar: Os livros estão sobre a mesa da sala. • matéria: Ganhou uma correntinha de ouro. Correndo contra o destino, de Raul Drewnick. São Paulo: Ática, 2021. Observe a capa do livro de Raul Drewnick. Qual preposição é empregada no título? Qual valor semântico ela estabelece entre as palavras do título? Preposição contra, com valor de direção contrária. As conjunções, por sua vez, relacionam duas orações ou dois termos semelhantes de uma mesma oração, como no conjunto dos versos “Tendo a peste por jaguar / E o sono sempre cortado / Pelo arranco de um finado / E o baque de um corpo ao mar”. Portanto: Conjunção é a palavra que relaciona duas orações ou dois termos de mesmo valor sintático. A seguir há um resumo com as classificações e os sentidos mais usuais das conjunções e das locuções conjuntivas. Utilize para fins de consulta. Conjunções coordenativas • Aditivas: ligam dois termos ou duas orações, estabelecendo entre eles uma relação de adição: e, nem (e não), que, não só... mas também, etc. Aço Brasil: setor não demorou para ligar alto-forno e nem aumentou exportação GOMES, Wagner; DURÃO, Mariana. CNN Brasil, [s. l.], 27 nov. 2020. Disponível em: https://tedit.net/zgopqh. Acesso em: 14 out. 2024. • Adversativas: ligam dois termos ou duas orações, estabelecendo entre eles uma relação de oposição, contraste, ressalva: mas, porém, todavia, contudo, no entanto, entretanto, etc. Baleia-franca é mais vista no Brasil, porém espécie permanece ameaçada BRASIL, Cristina Índio do. Tribuna do Sert‹o, Alagoas, 31 jul. 2023. Disponível em: https://tedit.net/q584g0. Acesso em: 14 out. 2024. 74 Língua e linguagem Não escreva no livro. • Alternativas: ligam palavras ou orações, estabelecendo entre elas uma relação de separação ou exclusão: ou, ou... ou, já... já, ora... ora, quer... quer, etc. [...] ora as peças estão próximas, ora [estão] afastadas. TILKIAN, Carol. Folha de S.Paulo, São Paulo, 11 jul. 2024. Disponível em: https://tedit.net/7amshg. Acesso em: 14 out. 2024. • Conclusivas: ligam duas orações de modo que a segunda exprime conclusão em relação ao que se afirmou na primeira: logo, pois (no meio ou no fim da oração), portanto, por conseguinte, por isso, assim, etc. Adam Curtis: “nós criamos a sociedade, portanto podemos fazê-lo novamente” AZEVEDO, Carolina; LIMA, Eduardo. Le Monde Diplomatique Brasil, São Paulo, 12 abr. 2024. Disponível em: https://tedit.net/wwy08m. Acesso em: 14 out. 2024. • Explicativas: ligam duas orações de modo que a segunda justifica ou explica o que se afirmou na primeira: que, porque, porquanto, pois (no início da oração). João Carlos Martins: Virada Cultural foi um sucesso, pois alcançou a cidade inteira PINOTTI, Fernanda. CNN Brasil, [s. l.], 31 maio 2022. Disponível em: https://tedit.net/pgjkwb. Acesso em: 14 out. 2024. Conjunções subordinativas Integrantes • São as conjunções que e se quando introduzem orações que funcionam como sujeito, objeto direto, objeto indireto, predicativo, complemento nominal ou aposto da oração principal. 80% da geração Z acredita que os memes facilitam a conexão entre pessoas TILIA, Caroline de. Forbes, São Paulo, 21 jun. 2024. Disponível em: https://tedit.net/an7khu. Acesso em: 14 out. 2024. Jon Bon Jovi não sabe se voltará a fazer turnês após cirurgia nas cordas vocais CAMIOTTO, Giovanna. Terra, São Paulo, 18 mar. 2024. Disponível em: https://tedit.net/z7gi1f. Acesso em: 14 out. 2024. Egito tem 90% de certeza de que há uma câmara secreta com Tutancâmon GONZÁLEZ, Ricard. El País, Tunísia, 25 nov. 2015. Disponível em: https://tedit.net/06yi93. Acesso em: 14 out. 2024. “O problema é que o café é uma planta exigente” [...] HENRIQUES, Isabela. Tudo Gostoso, [s. l.], 18 jul. 2024. Disponível em: https://tedit.net/cvsk59. Acesso em: 14 out. 2024. Adverbiais • Causais: iniciam oração que indica a causa, o motivo, a razão do efeito expresso na oração principal: que (= porque), porque, como, visto que, já que, uma vez que, etc. Língua e linguagem 75 “Essas chuvas de abril vieram acompanhadas de raio, relâmpago e trovão porque tanto os oceanos quanto a atmosfera continuam muito aquecidos. [...]” FONSECA, Igor. Chuva no Grande Recife: saiba o porquê de tantos trovões e relâmpagos. Diário de Pernambuco, Recife, 10 abr. 2024. Disponível em: https://tedit.net/ckhnxy. Acesso em: 14 out. 2024. • Comparativas: iniciam oração que estabelece uma comparação em relação a um elemento da oração principal: como, que, do que (depois de mais, menos, maior, menor, melhor, pior), qual (depois de tal), quanto (depois de tanto ou tão), assim como, bem como. A três meses do fim do ano, Brasil já tem mais focos de incêndio do que em todo 2023 MAES, Jéssica. Folha de S.Paulo, São Paulo, 23 set. 2024. Disponível em: https://tedit.net/gu4m95. Acesso em: 14 out. 2024. • Concessivas: iniciam oração que indica um fato contrário ao expresso na oração principal, mas insuficiente para impedir sua realização: embora, conquanto, ainda que, mesmo que, se bem que, por mais que, etc. A empolgação dos investidores não parece voltar, ainda que os números do setor pareçam melhorar expressivamente. VASCONCELLOS, Marcos de. Gigantes do setor imobiliário estão longe de se recuperar. Folha de S.Paulo, São Paulo, 6 out. 2024. Disponível em: https://tedit.net/rklq41. Acesso em: 14 out. 2024. • Condicionais: iniciam oração que expressa uma hipótese ou condição para que ocorra o fato expresso na oração principal: se, caso, contanto que, salvo se, a menos que, etc. HORÁRIO DE VERÃO: Empresas aéreas pedem 180 dias para adaptação caso haja mudança do horário ABC MAIS. [S. l.], 24 set. 2024. Disponível em: https://tedit.net/s2xbxr. Acesso em: 14 out. 2024. • Conformativas: iniciam oração que estabelece uma ideia de conformidade em relação ao fato expresso na oração principal: conforme, como, segundo, etc. [...] todos os protocolos de segurança para proteção dos indígenas foram adotados, conforme orientação dada pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI) [...]. PF REALIZA ação em terras indígenas no Vale do Javari no AM. D24am, Manaus, 13 ago. 2024. Disponível em: https://tedit.net/zan484. Acesso em: 14 out. 2024. • Consecutivas: iniciam a oração que indica uma consequência, um efeito do fato expresso na oração principal: que (precedido dos advérbios de intensidade tal, tão, tanto, tamanho), de forma que, de modo que, etc. [...] há tanto interesse no tema e a quantidade de pesquisas realizadas é tão grande que o barateamento é questão de tempo. SABINO, Alex. Entre jacarés, macacos e guarás-vermelhos, porto de Santos planeja hidrogênio verde. Folha de S.Paulo, São Paulo, 12 out. 2024. Disponível em: https://tedit.net/jvx270. Acesso em: 14 out. 2024. • Finais: iniciam oração que apresenta uma finalidade em relação ao fato expresso na oração principal: para que, a fim de que, porque (= para que), que, etc. [...] “a temperatura diária deve ficar em torno de 20 ºC, a fim de que todos os processos metabólicos ocorram normalmente” [...]. COSTA, Gilberto. Azeite brasileiro tem qualidade reconhecida e mercado em expansão. Agência Brasil, Brasília, 6 abr. 2024. Disponível em: https://tedit.net/aboxq8. Acesso em: 14 out. 2024. 76 Língua e linguagem Não escreva no livro. • Proporcionais: iniciam oração que indica concomitância, simultaneidade ou proporção em relação a outro fato: à proporção que, à medida que, enquanto, etc. [...] à medida que a Terra se aproxima de pontos perigosos de inflexão de ameaça à humanidade, maior esforço coletivo será necessário [...]. QUIRINO, Carla. Vida selvagem diminui 73% em 50 anos, diz relatório da WWF. Agência Brasil, Brasília, 10 out. 2024. Disponível em: https://tedit.net/7tmsxx. Acesso em: 14 out. 2024. • Temporais: iniciam oração que indica o momento, a época da ocorrência de certo fato: quando, antes que, depois que, até que, logo que, desde que, etc. “Foi uma das melhores partidas desde que chegamos” [...] COSTA, Eduardo; NUNES, Tiago. Zero Hora, Porto Alegre, 29 ago. 2024. Disponível em: https://tedit.net/lbpmxu. Acesso em: 14 out. 2024. Interjeições Ainda no estudo realizado sobre o poema “O navio negreiro”, você analisou possibilidades de sentido da palavra “Ah!”, percebendo que sua função principal no texto é a de exprimir uma emoção. As palavras e expressões que desempenham esse papel denominam-se interjeições. Interjeição é a palavra que expressa emoções, apelos, sentimentos, sensações, estados de espírito. APLIQUE O QUE APRENDEU ruinaria: conjunto de ruínas. Leia o poema a seguir, de Mário Quintana, e responda às questões 1 a 4. bimbalhavam: badalavam. Quem ama inventa Erika Lourenço/Arquivo da editora Quem ama inventa as coisas que ama... Talvez chegaste quando eu te sonhava. Então de súbito acendeu-se a chama! Era a brasa dormida que acordava... E era um revoo sobre a ruinaria, No ar atônito bimbalhavam sinos, Tangidos por uns anjos peregrinos Cujo dom é fazer ressurreições... Um ritmo divino? Oh! Simplesmente O palpitar de nossos corações Batendo juntos e festivamente, Ou sozinhos, num ritmo tristonho... Oh! meu pobre, meu grande amor distante, Nem sabes tu o bem que faz à gente Haver sonhado... e ter vivido o sonho! QUINTANA, Mário. Quem ama inventa. In: QUINTANA, Mário. A cor do invisível. São Paulo: Global, 2005. p. 58. 1. Numere os versos do poema e observe o tempo, o modo e a pessoa do discurso em que estão os verbos, em especial os que aparecem nos versos 2 e 14. a) A quem se dirige o eu lírico? Dirige-se à pessoa amada. b) Em que pessoa verbal o eu lírico trata seu interlocutor? Na 2a pessoa do singular (tu). Língua e linguagem 77 1. c) Sim, porque ele sempre se dirige ao interlocutor tratando-o na 2a pessoa do singular (tu); a 3a pessoa do singular é utilizada quando ele se refere ao tema do qual se ocupa, que é o amor. c) O eu lírico mantém coerência nesse tratamento que dá ao seu interlocutor? Por quê? 2. Consulte o quadro resumo das conjugações verbais nas páginas 68 a 71 e, entre as opções a seguir, indique em seu caderno aquelas que nomeiam corretamente os tempos verbais e modos verbais das formas chegaste e sabes, respectivamente. Os estudantes devem indicar no caderno a alternativa III. I. pretérito perfeito do indicativo e imperativo negativo. II. pretérito imperfeito do indicativo e presente do indicativo. III. pretérito perfeito do indicativo e presente do indicativo. 3. Alguns advérbios foram empregados no poema. a) Identifique os advérbios e locuções adverbiais utilizados nos três primeiros versos e dê o valor semântico deles no contexto. Os advérbios talvez, dúvida; então, tempo, e a locução adverbial “de súbito”. b) Deduza: A qual forma verbal empregada anteriormente no poema se refere o advérbio simplesmente, no 9o verso? Qual é o valor semântico desse advérbio no contexto? À forma verbal era, que está subentendida (“(Era) simplesmente...”), também empregada nos 4o e 5o versos. Advérbio de modo. c) Identifique no poema outro advérbio de mesmo valor semântico, indicando qual forma verbal ele modifica. O advérbio festivamente, que modifica a forma verbal batendo. d) Encontre a locução adverbial que, no poema, está em contraposição ao advérbio apontado por você no item c, modificando a mesma forma verbal. Justifique sua resposta considerando o ritmo tristonho” é a locução adverbial que se contrapõe a festivamente, uma vez que também sentido do poema. “num modifica a forma verbal batendo, indicando o modo oposto como os corações batiam: no primeiro caso, quando estavam juntos e, no segundo, quando estavam sozinhos. 4. Dê uma interpretação para o título do poema. De tanto querer amar ou de tanto amar o próprio amor, o eu lírico sonhou ou inventou um ser amado e, com ele, viveu um sonho de amor. Assim, embora o ser amado não fosse real, o sonho de amor foi realmente vivido. Leia este poema, de Roseana Murray para responder às questões 5 e 6. Chão aí fermentam as palavras, os símbolos, os sons com que me unto todos os dias para atravessar a ponte entre a poesia e as horas. MURRAY, Roseana. Chão. In: MURRAY, Roseana. Poemas para ler na escola. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011. p. 40. Paulo Ricardo Dantas/Arquivo da editora Meu universo é um chão de terra, 5. O eu lírico do poema se dedica diariamente a uma atividade. a) Qual é essa atividade? A fazer poesia, para o que utiliza palavras, símbolos, sons. b) Levante hipóteses: Qual é, no contexto, o sentido da oração “atravessar a ponte entre a poesia e as horas”? Consulte a resposta da atividade 5, item b, nas Orientações específicas do Manual do Professor. 6. Identifique as preposições empregadas no poema e o valor semântico de cada uma delas no contexto. de: matéria; com: instrumento; para: fim; entre: lugar 7. Compare estes dois enunciados: • Dei tudo de mim e não consegui passar no concurso. • Dei tudo de mim e consegui passar no concurso. Os dois enunciados são possíveis na língua portuguesa, mas com sentidos diferentes. a) Que sentido tem a conjunção e em cada enunciado? b) Em qual deles a conjunção e poderia ser substituída por uma conjunção adversativa, como mas, porém, contudo, sem alterar o sentido? No primeiro enunciado. 78 Língua e linguagem 7. a) Na primeira situação, e tem um sentido de oposição, pois liga duas ideias contrárias: a pessoa deu tudo de si, mas não conseguiu passar no concurso. Na segunda situação, e tem um sentido de adição, de acréscimo; também é possível inferir um sentido conclusivo, “ou seja”, e com o sentido de logo. Não escreva no livro. Fernando Gonsales/Acervo do Cartunista Leia a tira a seguir para responder às questões 8 a 12. GONSALES, Fernando. Níquel Náusea. Folha de S.Paulo, São Paulo, 20 out. 2003. 8. No 1o quadrinho, a ratinha faz uma pergunta a Níquel Náusea. a) Descreva a reação que o ratinho tem quando ouve a pergunta. Ele arregala os olhos, como se tivesse ficado surpreso ou desconfortável com a pergunta. b) Tendo em vista a reação do ratinho, deduza: Qual é o significado da fala “Hum”, nesse quadrinho? Dúvida, desconforto. 9. Releia a fala de Níquel no 2o quadrinho e levante hipóteses: Qual é a relação entre o que diz e o aparente desconforto em que fica com a pergunta inicial? Ele supõe que sua resposta deixará a ratinha contrariada. 10. No 3o quadrinho, a ratinha diz a Níquel: “Puxa!! Obrigada!”. Que sentimentos as palavras da ratinha expressam no contexto? Surpresa, contentamento, agradecimento. 11. Observe a fisionomia de Níquel no 3o quadrinho. a) A reação da ratinha foi a que ele esperava? Justifique sua resposta. Não, pois ele fica desconcertado, com a expressão de não ter gostado do que ouviu. b) Que reação ele esperava que a ratinha tivesse? Ele provavelmente esperava que ela ficasse contrariada ou triste. c) Caso o que a ratinha disse atendesse à expectativa de Níquel, que palavras ou expressões ela provavelmente teria usado? Resposta pessoal. Sugestões: “Que chato!”, “Ah, não!”, “Droga!”, “Bah!”, “Ora!”, etc. 12. Observe as palavras hum, puxa e obrigada, na tira. Retomando o estudo feito nas questões anteriores, identifique em seu caderno entre os itens a seguir o que se refere adequadamente à função dessas palavras na tira. I. Expressam alegria e satisfação, tanto por parte do enunciador como por parte do destinatário. II. Caracterizam psicologicamente os personagens da tira, uma vez que se referem a emoções que eles têm. III. Expressam sensações e sentimentos, prevendo e provocando certas reações no interlocutor. IV. Apontam seres e objetos que participam da história e/ou compõem o cenário da tira. Os estudantes devem copiar no caderno o item III. Texto e enunciação Leia a seguir um trecho do texto “Se essa bolha fosse minha”, de Gregório Duvivier. A frase que mais ouvi nos últimos anos depois de “crédito ou débito” foi “o problema é que a gente só fala com quem tá dentro da bolha”, geralmente dita pra quem tá dentro da bolha, por quem tá dentro da bolha. Fala-se muito da tal bolha: essa redoma de segurança que a internet cria, e graças a algoritmos complicados eis que de repente “boom”, todas as pessoas pensam igual a você, e você fica feliz e querido e recompensado, porque você acha que o mundo inteiro te ama e pensa igual a você, mas na verdade não é o mundo, é só a famosa bolha. Língua e linguagem 79 1. a) O emprego de formas pronominais típicas de contextos informais, como “a gente” e você; de reduções de formas verbais típicas da fala informal, tais como tá, pra, tô; presença de palavras e expressões características de uma interação informal, como “de repente ‘boom’”, “essa palhaçada”; repetições que aproximam o tom do texto da fala (“tá dentro da bolha” no começo, a conjunção e em diversos trechos, entre outras). Se você nunca sentiu isso, fica tranquilo que eu também não. Tô só repetindo o que me explicaram. [...] Na minha bolha seria banido o beijo no coração, e o coração com as mãos, mesmo ironicamente, e toda sobremesa seria de chocolate, pra acabar com essa palhaçada de abacaxi com raspa de limão, e todos se locomoveriam de bicicleta e saberiam fazer pão de fermentação natural e shiatsu, e fariam ambos assim que solicitados. [...] Todos torceriam pro Fluminense. Os outros times existiriam, claro, mas só pra perder, por pouquinho, e sempre de surpresa. “Que milagre! Achei que era hoje que o Fluminense perdia, mas não. Ufa”. “Ufa”, eu diria. [...] “Passa lá em casa que tô fazendo um pão”. “Sourdough?”.“Ób-vio”. sourdough: denominação inglesa para o pão feito com leveduras selvagens. DUVIVIER, Gregório. Se essa bolha fosse minha. Folha de S.Paulo, São Paulo, 27 set. 2017. Disponível em: https://tedit.net/w9ftuf. Acesso em: 19 set. 2024. 1. É possível considerar que o texto foi escrito em uma linguagem informal. a) Identifique termos e expressões do texto que justifiquem essa afirmação. b) Troque ideias com os colegas e o professor: Que efeito é construído no texto pelo uso dessa uso dessa linguagem aproxima o autor do texto de seus leitores, uma vez que ele escreve como se estivesse linguagem? O de fato conversando informalmente com eles. 2. Observe a forma verbal fala empregada na frase “O problema é que a gente só fala com quem tá refere-se à expressão “a gente”. O autor está incluído nessa referência, pois “a gente” dentro da bolha.” 2. b) No contexto, a corresponde à 1 pessoa do plural, referindo-se às pessoas em geral, entre as quais ele se inclui. a) Em qual modo, número e pessoa essa forma verbal está conjugada? Na 3a pessoa do singular do presente do indicativo. b) A quem essa forma verbal se refere no contexto, isto é, “quem fala”, nesse caso? O autor do texto está incluído nessa referência? Justifique sua resposta. c) Troque ideias com os colegas e o professor: A qual pronome pessoal corresponde o termo indicado por você na resposta do item b? Reescreva a frase do texto utilizando esse pronome e fazendo as alterações necessárias na conjugação da forma verbal. Corresponde ao pronome pessoal nós. “O problema é que nós só falamos com quem tá dentro da bolha”. 3. Observe as ocorrências das formas verbais dos verbos falar e dizer em destaque no trecho. Indique no caderno os termos que acompanham essas formas verbais. a) cumprindo o papel do agente da ação verbal; “por quem tá dentro da bolha” b) cumprindo o papel de destinatário da ação verbal; “com quem tá dentro da bolha”; “pra quem tá dentro da bolha” c) cumprindo o papel de conteúdo da ação verbal. “da tal bolha” É importante que os estudantes compreendam que as palavras por, com, p(a)ra e da são essenciais para a construção dos sentidos das formas verbais analisadas. d) Considerando suas respostas anteriores, troque ideias com os colegas e o professor e explique a importância da escolha das preposições nesse contexto. 3. d) As preposições são essenciais na Releia as frases a seguir para responder às questões 4 e 5. ● A gente só fala com quem tá dentro da bolha. ● Tô só repetindo o que me explicaram. ● Os outros times existiriam, claro, mas só para perder. construção dos sentidos e no estabelecimento das relações entre as formas verbais falar e dizer, usadas no contexto como sinônimas, e seus complementos. Ao se trocar a preposição, muda-se o sentido: falar com quem; falar para quem; falar de quem ou de quê; falado/ dito por quem. 4. Nessas três frases foi empregado o advérbio só. a) Qual outra palavra ele modifica em cada uma delas? Respectivamente, fala, repetindo e existiriam. b) Indique em seu caderno por quais das opções a seguir ele poderia ser substituído sem acarreOs estudantes devem indicar no caderno as patar mudança substancial de sentido nas frases em estudo: lavras unicamente e somente. sozinho solitário unicamente isoladamente somente c) Reescreva as frases fazendo as substituições indicadas por você no item b. 80 A gente fala somente/unicamente com quem tá dentro da bolha / Tô somente/unicamente repetindo o que me explicaram / Os outros times existiriam, claro, mas somente/unicamente para perder. Língua e linguagem Não escreva no livro. 5. Uma palavra que em geral é usada como adjetivo foi usada em uma dessas frases com outra função. Troque ideias com os colegas e o professor: a) Qual é essa palavra? A palavra claro. b) Identifique o sentido dela na frase e indique, no caderno, qual das palavras a seguir poderia substituí-la no contexto preservando, em grande parte, o sentido dela: brilhante, transparente ou evidentemente. No contexto, claro tem o sentido de “sem dúvida”, podendo ser substituída pela palavra evidentemente. c) Agora analise o sentido da palavra claro, se inserida na primeira frase: A gente só fala claro com quem tá dentro da bolha. A qual outra palavra ela se refere nesse contexto e a que classe ela pertence? Justifique sua resposta. No contexto, a palavra claro se refere à forma verbal fala, modificando seu sentido: não se trata apenas de falar, mas falar de forma clara, compreensível. Nesse caso, claro é um advérbio (corresponde a claramente). 6. Agora leia os pares a seguir: • A frase que mais ouvi — “crédito ou débito” • redoma — segurança • todas as pessoas pensam igual — algoritmos complicados • igual — você • o beijo — coração • o coração — as mãos • locomoveriam — bicicleta • pão — fermentação natural a) Volte ao texto e identifique a preposição ou locução prepositiva que conecta cada um desses pares entre si. Respectivamente: “depois de”, de, “graças a”, a, no, com, de, de. b) Três desses pares são conectados por uma mesma preposição. Quais são eles? Responda no caderno. redoma de segurança, locomoveriam de bicicleta, pão de fermentação natural c) Troque ideias com os colegas e o professor: A relação semântica que essa preposição estabelece entre os termos que conecta é a mesma nos três pares? Justifique sua resposta. Espera-se que os estudantes percebam que há distinção entre as relações: no primeiro par, trata-se do tipo de redoma, da sua função; no segundo, trata-se do meio utilizado para a locomoção; no terceiro, do processo por meio do qual o pão é produzido. 7. Releia este trecho: [...] todas as pessoas pensam igual a você, e você fica feliz e querido e recompensado, porque você acha que o mundo inteiro te ama e pensa igual a você. a) A conjunção e é empregada diversas vezes nesse pequeno trecho. Troque ideias com os coleA repetição aproxima o ritmo do texto do ritmo gas e o professor: Que efeito essa repetição cria no texto? da fala em uma conversa informal e enfatiza o sentido dos adjetivos conectados pela conjunção, construindo um efeito de sentido de agitação, ansiedade. b) Indique no caderno em quais trechos a conjunção e: • conecta termos em paralelo na frase; “feliz e querido e recompensado” as pessoas pensam igual a você, e você fica feliz”, • estabelece relação de adição entre duas orações. “todas “você acha que o mundo inteiro te ama e pensa igual a você” c) Identifique outros trechos do texto em que o e tem as mesmas funções indicadas por você no Termos em paralelo: “o beijo no coração, e o coração com as mãos”, “pão de fermentação natural e shiatsu”; adição item b. entre orações: “seria banido o beijo no coração [...] e toda sobremesa seria de chocolate [...] e todos se locomoveriam de bicicleta e saberiam fazer pão de fermentação natural [...] e fariam [...] assim que solicitados”. d) Entre as opções a seguir, indique em seu caderno aquela que corresponde à relação construída pela conjunção porque ao conectar as orações. • proporção • causa Os estudantes devem indicar a relação de causa. • conformidade • condição Língua e linguagem 81 8. No caderno, faça a correlação entre as colunas a seguir, considerando a relação que a palavra em destaque estabelece entre as duas orações que ela conecta. a) “você acha que o mundo inteiro te ama e pensa igual a você, mas na verdade não é o mundo, é só a famosa bolha.” I. condição II. finalidade b) “Se você nunca sentiu isso, fica tranquilo” III. explicação c) “toda sobremesa seria de chocolate, pra acabar com essa palhaçada de abacaxi com raspa de limão” IV. oposição, contraste d) “Passa lá em casa que tô fazendo um pão” Os estudantes devem fazer as seguintes correlações: a IV; b I; c II; d III. Releia o trecho final do texto para responder às questões 9 e 10: Todos torceriam pro Fluminense. Os outros times existiriam, claro, mas só pra perder, por pouquinho, e sempre de surpresa. “Que milagre! Achei que era hoje que o Fluminense perdia, mas não. Ufa”. “Ufa”, eu diria. [...] “Passa lá em casa que tô fazendo um pão”. “Sourdough?”. “Ób-vio”. 9. a) No contexto, elas foram usadas para indicar que se trata da representação de diálogos em discurso direto. Retome o conhecimento prévio dos estudantes 9. Algumas frases e palavras foram empregadas entre aspas nesse final. Leo uso das aspas e, mesmo que eles não se lembrem dos possíveis vante hipóteses: sobre usos, releia o trecho e estimule-os a apreender o sentido pelo conteúdo do texto em estudo. a) Qual é a função das aspas no contexto? b) Por que a palavra ób-vio foi escrita dessa forma, com a marcação da separação silábica? Para simular uma entonação específica, mais enfática. 10. Dependendo do contexto, diferentes palavras podem ser utilizadas para expressar sentimentos, conforme você viu ao analisar um adjetivo que foi empregado como uma interjeição na questão 5. a) Identifique, nesse trecho final, palavras ou expressões que expressam que os estudantes anotem no caderno as seguintes correlaestas emoções: Espera-se ções, respectivamente: supresa/ “Que milagre!”; alívio/ “Ufa”; concor- 10. c) Sugestão: o emprego dessas palavras para expressar emoções sem o ponto de exclamação simula a fala de uma pessoa que sugere certo tom de superioridade, de quem se posiciona de forma indiferente às novidades, não se empolga ou demonstra muita animação ao conversar. Essa sugestão constrói um efeito de humor no texto, pois permite ao leitor considerar que o narrador está fazendo uma sátira do comportamento dessas pessoas por meio de ironia, ao dizer, em primeira pessoa, que gostaria que o seu mundo fosse dessa forma, mas demonstrando completa indiferença em uma suposta realização desse desejo. 82 Língua e linguagem • surpresa • alívio dância/ “Ób-vio”. • concordância b) Considerando as análises que você fez sobre palavras utilizadas em um texto para expressar emoção, levante hipóteses: é possível considerar que as palavras indicadas por você no item a são usadas como interjeições no texto? Justifique sua resposta. c) Troque ideias com os colegas e o professor e, com base no sentido do texto, deduza: Por que apenas uma das expressões indicadas por você no item a foi utilizada com ponto de exclamação? Qual efeito de sentido é construído no texto pelo emprego dessas palavras escritas dessa forma e com essa pontuação? 10. b) Em princípio, palavras de diferentes classes e expressões variadas podem assumir o valor de uma interjeição quando usadas de forma isolada, para expressar um sentimento ou emoção. Não escreva no livro. Produção de texto BN CC Entrevista Competências gerais da Educação Básica: 1, 2, 4, 5, 9, 10 Foco no gênero No capítulo anterior, ao estudar a poesia romântica da primeira geração, você viu que a natureza e os indígenas ganharam um papel relevante na literatura, uma vez que foram utilizados como elementos essenciais construção da identidade nacional do período. Passados quase dois séculos, qual é a relação do Brasil com nossas florestas e com o meio ambiente em geral? Para refletir sobre isso, leia uma entrevista com o cientista brasileiro Carlos Nobre. Entrevista: Carlos Nobre afirma que mudanças climáticas são o maior desafio da humanidade O combate ao desmatamento e à degradação do planeta está nas mãos das novas gerações de universitários, segundo o professor e climatologista Carlos Nobre [...]. [...] Em conversa com o portal da Ufes, direto da COP27 (Conferência das Partes, reunião de países membros da ONU sobre alterações climáticas), realizada no Egito, Nobre disse que as mudanças climáticas são “o maior desafio da história da humanidade”. Confira a entrevista [a seguir]: Competências específicas de Linguagens: 1, 2, 3, 4, 7 Habilidades de Linguagens: EM13LGG101, EM13LGG102, EM13LGG104, EM13LGG105, EM13LGG201, EM13LGG301, EM13LGG302, EM13LGG303, EM13LGG402, EM13LGG701, EM13LGG703 Habilidades de Língua Portuguesa: EM13LP01, EM13LP02, EM13LP11, EM13LP12, EM13LP13, EM13LP14, EM13LP15, EM13LP16, EM13LP17, EM13LP18, EM13LP27, EM13LP28, EM13LP30, EM13LP31, EM13LP40 Mohamed Abd El Ghany/REUTERS/Fotoarena [...] Cúpula da COP27 em Sharm El-Sheikh, no Egito, em 2022. COP: sigla de Conferência das Partes, órgão supremo das Nações Unidas que promove reuniões anuais com o objetivo de discutir a situação ambiental. As reuniões são feitas em diferentes cidades do mundo e uma das mais importantes foi a COP21, realizada em Paris, na França, em 2015. A cidade de Belém (PA), no centro da floresta Amazônica, foi escolhida para sediar a COP30, em 2025. Pr od uç ão de te xto 83 Em relação ao momento climático do mundo, o que é importante dizer aos jovens que serão futuros universitários? Estamos vivendo o maior desafio da história da humanidade. Não há nada parecido nos dez ou onze mil últimos anos. Essa época geológica teve uma grande estabilidade climática, que foi uma condição importante para o desenvolvimento da agricultura. Nunca tivemos uma ameaça climática no nível da que temos agora. Precisamos evitar um colapso climático que pode afetar a vida de bilhões de pessoas e da biodiversidade do Planeta Terra. Temos que seguir as rigorosas metas do acordo de Paris: reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 50% até 2030 e zerá-las antes de 2050. Até 2022, as emissões continuaram aumentando. Este ano será o ano com maiores emissões de gases de efeito estufa. Temos sinalizações não muito ambiciosas dos países, que podem até mostrar a redução do nível de aumento das emissões, mas, se continuarmos nessa trajetória, é possível que até 2030 as emissões ainda estejam crescendo. É essencial dizer aos jovens universitários que é nesta geração, na geração deles, que estão todos os desafios de mudar o sistema produtivo, de geração de energia e de geração de alimentos. E temos que remover muito gás carbônico da atmosfera. Uma das maneiras mais óbvias de fazer isso é com a restauração florestal. O Brasil é um dos países com maior potencial de restauração florestal, partindo para praticar uma agricultura produtiva e sustentável – a chamada agricultura regenerativa. Isso liberaria uma quantidade imensa de áreas no Brasil, talvez mais de um milhão de quilômetros quadrados, que poderiam ser biomas brasileiros restaurados – Mata Atlântica, Floresta Amazônica, Cerrado, Pampas, Pantanal. O Brasil poderia contribuir para retirar centenas de milhões de toneladas de gás carbônico e ser um dos primeiros países a atingir as emissões líquidas zero. O senhor já publicou estudos amplamente divulgados acerca do “ponto de não retorno” em que a Amazônia pode chegar, no que diz respeito ao desmatamento. Hoje, qual a real situação da Amazônia? Quando seria, numa estimativa em anos, esse ponto de não retorno? O que deve ser feito, em linhas gerais, para que isso não aconteça? De fato, publiquei o primeiro estudo em 1990 e o segundo em 1991, em que apontava que se continuássemos o desmatamento, a Amazônia passaria desse ponto de não retorno, quando todo o sul da Amazônia se tornaria um ecossistema muito degradado, parecendo uma savana tropical, mas sem a riqueza de biodiversidade do Cerrado e sem a capacidade de absorção de carbono que o Cerrado tem. Aquilo era uma projeção, mas hoje inúmeros estudos indicam que o sul da Amazônia inteiro, desde o Oceano Atlântico até a Amazônia boliviana, está muito próximo do ponto de não retorno. São mais de dois milhões de quilômetros quadrados. Todos os elementos indicam que estamos perto de tornar aquela região um ecossistema muito degradado. Um aspecto é o aquecimento global, que está aumentando e induzindo secas mais frequentes, como aconteceram na Amazônia em 2005, 2010, 2015, 2016 e 2020. Três dessas secas tiveram muita relação com o aquecimento do Oceano Atlântico ao Norte do Equador. E outro aspecto é o desmatamento e a degradação da floresta. Quando se desmata uma área imensa – e a Amazônia brasileira é a que tem o maior índice de desmatamento (toda aquela região já atingiu mais de 35% de desmatamento e mais uns 15% de degradação) –, a substituição por pastagem faz a floresta perder a capacidade de reciclar água. Essa combinação faz com que a estação seca fique mais longa. A seca já está de 4 a 5 semanas mais longa, além dos 3 a 4 meses que durava, ficando próxima da estação seca do Cerrado, que é de 6 meses. Estamos vendo um enorme aumento da mortalidade das árvores e um aquecimento de 2 a 3 graus de temperatura na floresta. Vários estudos indicam que no Norte do Mato Grosso e Sul do Pará, a floresta já passou a ser uma fonte de carbono. 84 Pr od uç ão de te xt o Não escreva no livro. As florestas, globalmente, retiram até um terço do carbono que jogamos na atmosfera. A Amazônia já retirou cerca de 2 bilhões de toneladas, mas essa região da floresta se tornou uma fonte de carbono. Se continuarmos com esse nível de desmatamento dos últimos anos, talvez em 10 ou 20 anos cruzaremos esse ponto de não retorno. E aí, a degradação da floresta se torna uma autodegradação: ela vai se degradando, e essa degradação não ficará só no Sul da Amazônia. No mínimo 50%, até 70% da floresta, vai se degradar e perder mais de 250 bilhões de toneladas de gás carbônico, tornando impossível atingir as metas do Acordo de Paris. Temos que criar um grande projeto de restauração florestal, restaurando mais de meio milhão de quilômetros quadrados para dar uma oportunidade de a Amazônia renascer, voltar a reciclar água, diminuir a temperatura máxima e, quem sabe, conseguiremos salvar a floresta. Muitos especialistas apontam que o Brasil regrediu nos últimos anos na política ambiental. O senhor tem esperança de que o país reduza a degradação nos próximos anos ou isso ainda parece uma utopia? Acordo de Paris: acordo firmado em Paris, em 2015, que adotou medidas de redução de emissão de dióxido de carbono a partir de 2020, com o objetivo de fortalecer o combate às mudanças climáticas. Por meio do acordo, os governos se comprometeram a agir para manter o aumento da temperatura média mundial “bem abaixo” dos 2 °C em relação aos níveis pré-industriais e empenhar-se para limitar o aumento a 1,5 °C. Sem dúvida o Brasil regrediu muito, principalmente nos últimos 4 anos com um governo federal totalmente anticiência e antiambiental, que desacreditava que o planeta estivesse sofrendo por mudanças climáticas. Com isso, os desmatamentos e as emissões aumentaram. O relatório de emissões do Observatório do Clima para 2021 mostraram aumento de 12% em relação às emissões de 2020, que foi um ano de pandemia, quando as emissões do planeta inteiro diminuíram de 5 a 7%. E no Brasil elas cresceram. Quase 50% das emissões são associadas ao desmatamento, sendo 80% da Floresta Amazônica. Essa política tem que ser combatida com muita eficácia e de forma urgente. O presidente eleito disse, aqui na COP27, que o Brasil vai retomar seu protagonismo no combate à emergência climática. [...] Lógico, é um enorme desafio, mas julgo que é possível, sim. Por exemplo, mais de 90% dos desmatamentos da Amazônica são ilegais, mais de 80% no Cerrado são ilegais, controlados pelo crime organizado. Então, há que se combater a ilegalidade. Hoje é muito mais difícil, comparado a dez anos atrás, porque o crime organizado controla ainda mais as atividades na Amazônia, com grilagem de terra, roubo de madeira, mineração ilegal, tráfico de animais. Mas julgo que podemos ter algum otimismo, sim, que podemos contribuir muito. Como consumidores de produtos que vêm da Amazônia, é nossa responsabilidade tornar esse consumo responsável e sustentável. Se os brasileiros exigissem a rastreabilidade da carne que compram, já diminuiria imensamente o desmatamento. Para encerrar, gostaria que o senhor falasse um pouco sobre a sua percepção da COP27. O que vem sendo dito e proposto com relação ao Brasil e à Amazônia? A COP27, como a grande maioria das COPs, tem avanços passo a passo. As COPs que tiveram avanços disruptivos foram a 21, em Paris, em 2015, quando os países assumiram compromissos voluntários de reduzir as emissões, e a COP26, no ano passado, em Glasgow, quando houve acordo para reduzir em 50% as emissões até 2030 e zerá-las até 2050. Essas metas continuam, e espero algum avanço no compromisso dos países ricos com os fundos necessários para que os países em desenvolvimento rapidamente atinjam essas metas. Pr od uç ão de te xto 85 Fundo Verde do Clima: conhecido como GCF (Green Climate Fund), é uma entidade criada em 2010 com o objetivo de arrecadar recursos das nações desenvolvidas e encaminhá-los às nações em desenvolvimento, impulsionando investimento em projetos de baixo carbono e adaptação às mudanças climáticas. O Fundo Verde do Clima, no qual os países concordaram que até 2020 haveria 100 bilhões de dólares, chegou só até 80. Mas, na verdade, é necessário um valor muito maior, centenas de bilhões de dólares – há estimativas de 700 bilhões de dólares. Isso teria que rapidamente fluir para os países em desenvolvimento, para que eles migrassem seus sistemas para uma redução de emissões, por exemplo, geração de energia renovável, migração para uma agricultura regenerativa. E zerar o desmatamento em países tropicais, onde ele é muito alto. Espera-se que os países ricos entendam que são necessários centenas de bilhões de dólares por ano para não só reduzir as emissões nos países em desenvolvimento, mas principalmente tornar as populações vulneráveis mais resilientes às mudanças climáticas. Mais de um bilhão de pessoas na África sofrem com os extremos climáticos, e a África só contribuiu com 4% das emissões globais. O Brasil contribuiu com quase isso – é o quarto maior emissor historicamente do planeta. Então, é importante que pelo menos metade desse fundo vá para tornar essas sociedades menos vulneráveis. É preciso compensar essas populações pelos danos sofridos, já que elas não contribuíram quase em nada com a emissão de gases de efeito estufa. apress Lucas Lacaz Ruiz/Folh REIS, Leandro. Entrevista: Carlos Nobre afirma que mudanças climáticas são o maior desafio da humanidade. Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, 21 nov. 2022. Disponível em: https://tedit.net/ugtr2l. Acesso em: 5 set. 2024. Carlos Nobre: o guardião das florestas Carlos Nobre (1951-) nasceu em São Paulo, estudou engenharia eletrônica no Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), fez doutorado em meteorologia no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), Estados Unidos. Tornou-se uma das principais referências internacionais em áreas de pesquisa como meteorologia, climatologia, mudanças climáticas, desastres naturais, etc. Recebeu vários prêmios nacionais e internacionais, sendo um dos autores mais destacados da equipe que ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 2007 pela publicação do Quarto Relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas. Participa de vários órgãos internacionais relacionados às mudanças climáticas; entre eles, atua como chefe do Comitê Científico do International Geosphere Biosphere Programme. 1. Observe que, antes da entrevista propriamente dita, há um título e uma introdução. A de utilizar nela uma afirmação feita pelo entrevistado (“Esta- a) Que estratégia foi utilizada na criação do título? mos vivendo o maior desafio da história da humanidade”). Co- mente com os estudantes que esse procedimento é comum em títulos de entrevistas e visa atrair o leitor para a leitura do texto. É a de situar o leitor em relação ao trabalho da pessoa entrevistada. Geralmente apresenta um breve resumo de quem ela é, o que faz, que novidades tem a comentar sobre o assunto, etc. b) Qual é a finalidade da introdução? 2. Normalmente, quando uma pessoa é entrevistada, há interesse sobre algo novo que ela tenha a dizer. a) Qual é o tema central da entrevista? As mudanças climáticas do planeta. b) Por que o cientista brasileiro Carlos Nobre foi convidado a falar sobre esse tema? Porque ele é um cientista que estuda as questões meteorológicas há décadas e tem se destacado internacionalmente. 3. Carlos Nobre entende que as mudanças climáticas são o maior desafio da humanidade hoje. a) De acordo com o cientista, por que a estabilidade climática dos últimos milênios foi importante para a humanidade? Ela foi importante porque permitiu o desenvolvimento da agricultura. b) Deduza: Caso essa estabilidade seja comprometida, que consequências haverá para a vida no planeta? Entre outras coisas, ela afetará a produção de alimentos e a biodiversidade do planeta. 86 Pr od uç ão de te xt o 5. b) Por um lado, é o aquecimento global, que induz ao aquecimento dos oceanos e provoca secas mais frequentes; de outro, o desmatamento e a degradação da floresta. Re sp ei ta r o so lo , Não escreva no livro. re sg at ar a vi da Atualmente, vários movimentos têm se juntado para lutar contra as mudanças climáticas. Eles reconhecem a importância de recuperar os solos degradados, respeitar o meio ambiente e conservar espécies polinizadoras (como as abelhas), aumentando a captura de carbono e a retenção de água no solo. No Brasil, importantes nomes têm se destacado internacionalmente na busca de uma agricultura limpa e sustentável, como Ernst Götsch e Ana Primavesi. Para saber mais, acesse: • Agenda Gotsch: https://tedit.net/3i2tmq; • Ana Primavesi: https://tedit.net/k21g7e. Acesso em: 19 set. 2024. 4. O cientista chama a atenção para a importância do Acordo de Paris. a) Se cumprido plenamente, que benefício ele traria para o meio ambiente? Seriam retiradas centenas de milhões de toneladas de gás carbônico da atmosfera. b) Por que o Brasil tem condições de dar uma grande contribuição no combate às mudanças o Brasil, que detém várias florestas e diferentes biomas, é um dos países com maior potencial para climáticas? Porque restauração de florestas, desde que adote uma matriz de agricultura sustentável. 5. Carlos Nobre foi um dos primeiros cientistas a alertar o mundo sobre o ponto de não retorno da floresta Amazônica. É o limite de desmatamento da Amazônia, a partir do qual já não a) Em que consiste esse ponto de não retorno? haveria mais condição de restaurar a floresta, que se transformaria em uma espécie de savana com pouca biodiversidade. b) Segundo o cientista, quais são as duas principais causas da savanização da floresta? c) Que consequências positivas o reflorestamento poderá trazer para o clima? Ele poderá trazer de volta a reciclagem da água e, assim, a temperatura tende a diminuir. 6. Durante a pandemia de covid-19 (2020-2021), as emissões de gás na atmosfera diminuíram no planeta em 5 a 7%. a) No Brasil, entretanto, elas cresceram. O que explica esse crescimento? O afrouxamento das restrições governamentais ao desmatamento das florestas. b) De que forma o governo brasileiro pode atuar de forma a diminuir essas emissões? Ele pode contribuir combatendo toda forma de ilegalidade: grilagem de terras, roubo de madeira, mineração ilegal, tráfico de animais. c) Segundo a entrevista, de que forma o cidadão comum pode contribuir para preservar a floresta Amazônica? Ele pode contribuir consumindo apenas produtos certificados da região Amazônica, a começar pela carne. 7. O entrevistado menciona o papel que o Fundo Verde do Clima pode desempenhar na redução das emissões, especialmente se chegar ao apoio de 100 bilhões de dólares que serão destinados aos países em desenvolvimento. a) Por que os países em desenvolvimento recebem recursos do Fundo, em vez de doar? Porque, além de serem mais pobres, eles têm menor responsabilidade pelas emissões historicamente feitas no planeta. b) O que os países em desenvolvimento deverão fazer com esses recursos? Eles deverão usar esses recursos para diminuir suas emissões, com medidas como geração de energia renovável e criação de uma agricultura regenerativa. c) Qual é o sentido moral que tem essa doação a esses países? Os países desenvolvidos historicamente emitiram mais e agora todos pagam as consequências disso, com os desastres ambientais. Partindo disso, há uma compreensão de que esses recursos poderão auxiliar as populações desses países a se adaptar às novas condições climáticas. 8. Carlos Nobre afirma: “O combate ao desmatamento e à degradação do planeta está nas mãos das novas gerações de universitários”. Conforme é explicitado no corpo da entrevista, são as gerações que cursam a universidade a) Explique essa afirmação. atualmente que terão condições de mudar o sistema produtivo, envolvendo a produção de alimentos e de energia. b) De modo geral, o entrevistado manifesta otimismo em relação ao eventual sucesso que possam ter as medidas que vêm sendo tomadas? Justifique sua resposta. Sim. Ele se se mostra otimista ao afirmar, por exemplo, que “o Brasil poderia contribuir para retirar centenas de milhões de toneladas de gás carbônico e ser um dos primeiros países a atingir as emissões líquidas zero” e “Lógico, é um enorme desafio, mas julgo que é possível, sim.” 9. Ao ser interrogado sobre a degradação ambiental no Brasil, Carlos Nobre responde: Sem dúvida o Brasil regrediu muito, principalmente nos últimos 4 anos com um governo federal totalmente anticiência e antiambiental, que desacreditava que o planeta estivesse sofrendo por mudanças climáticas. Com isso, os desmatamentos e as emissões aumentaram. [...] Pr od uç ão de te xto 87 9. d) Resposta pessoal. Em geral, nos textos de divulgação científica, as informações são baseadas em estudos científicos publicados em revistas acadêmicas, livros e artigos científicos. A autoria é também importante, pois os autores confiáveis pertencem a instituições científicas reconhecidas publicamente. Uma estratégia para verificar o que é pseudociência e o que é fake news é analisar, portanto, a fonte dos argumentos e justificativas apresentados nos textos. Sobre essas afirmações do cientista, responda em seu caderno: a) Ao mencionar uma política ambiental “anticiência” e “antiambiental”, Carlos Nobre se refere a que fenômeno climático? Ao aquecimento global. b) Você, como estudante do Ensino Médio, certamente acompanha o debate sobre o aquecimento global. O discurso “anticiência” e “antiambiental”, mencionado por Carlos Nobre, é muitas vezes qualificado como “negacionista”, e dissemina a tese sem comprovação científica de que não há aquecimento global ou que esse aquecimento não é provocado pelas atividades humanas. Você já teve contato com algum texto que veicula esse discurso? Em caso afirmativo, em que circunstância isso ocorreu? Que veículo publicou esse discurso? Resposta pessoal. É importante a identificação do veículo, pois será possível analisar com os estudantes se se trata de entidade com ou sem credibilidade científica. c) Em grupos, localizem exemplos de publicações que veiculam esse discurso negacionista. Verifiquem o veículo que as publicou e analisem, com a ajuda do professor de Ciências da Natureza, se ele tem ou não credibilidade científica. Analisem também os principais argumentos e justificativas apresentados para negar as evidências científicas. Procurem refutar os argumentos apresentados com base em conhecimentos científicos adquiridos no Ensino Médio. d) Que estratégias interpretativas e de compreensão textual vocês mobilizaram, com a ajuda dos professores, para identificar os elementos não científicos e as fake news eventualmente presentes nos textos analisados? e) Discuta com os colegas e o professor: De que forma, em sua opinião, a divulgação desses discursos negacionistas dificulta o debate sobre o meio ambiente e a tomada de medidas para mitigar Espera-se que os estudantes percebam que, ao desacreditar o discurso científico os efeitos do aquecimento global? e ganhar espaço no debate público, o discurso negacionista e a pseudociência podem levar grupos sociais a tomar decisões capazes de agravar um problema, como é o caso do negacionismo climático, conforme mencionado por Nobre em sua entrevista. 10. Antes de realizar uma entrevista, o jornalista deve se preparar, procurando colher informações sobre a vida e as atividades profissionais do entrevistado; além disso, deve também montar um 10. a) Sim. Isso fica claro, por exemplo, na segunda pergunta, na qual ele diz “O senhor já roteiro básico de perguntas. publicou estudos amplamente divulgados acerca do ‘ponto de não retorno’”, o que demonstra uma pesquisa prévia a respeito do histórico e das pesquisas do entrevistado. a) O entrevistador se preparou para entrevistar Carlos Nobre? Justifique sua resposta. b) Em uma entrevista em que entrevistador e entrevistado falam ao vivo, como se estivessem conversando, o entrevistador pode, a partir de uma resposta, improvisar e fazer uma nova pergunta. Você acha que, na entrevista lida, foram feitas perguntas de improviso? Em caso positivo, justifique sua resposta com elementos do texto. Não, aparentemente a entrevista segue um roteiro traçado, sem novidades. 11. É comum que as entrevistas sejam feitas oralmente, e depois transcritas e editadas com a finalidade de serem publicadas. Durante a edição, dependendo do perfil do órgão de imprensa, podem ser suprimidas marcas de oralidade e de informalidade, tais como gírias, repetições, pausas, palavras e expressões como “né?”, “tá ligado?”, “hum...”, etc. Na entrevista lida, há marcas de oralidade? Por que você acha que isso acontece? Não há marcas de oralidade. É provável que elas tenham ocorrido, mas o editor deve ter optado por suprimi-las por entender que no contexto eram desnecessárias. 12. Nas entrevistas impressas, para não haver confusão entre a voz do entrevistador e a do entrevistado, é comum os jornais e as revistas identificarem os interlocutores, inserindo o nome do jornal ou revista e o nome do entrevistado antes da fala de cada um. Na entrevista lida, entretanto, foi utilizado outro recurso. Qual é esse recurso? Ele foi eficiente para distinguir as vozes no texto? A reprodução da voz do entrevistador em negrito e a da voz do entrevistado logo abaixo, sem negrito, recurso usado de modo eficiente para distinguir as vozes no texto. 13. Releia o texto introdutório, que precede a entrevista: O combate ao desmatamento e à degradação do planeta está nas mãos das novas gerações de universitários, segundo o professor e climatologista Carlos Nobre [...]. Em conversa com o portal da Ufes, direto da COP27 (Conferência das Partes, reunião de países membros da ONU sobre alterações climáticas), realizada no Egito, Nobre disse que as mudanças climáticas são “o maior desafio da história da humanidade”. 88 Pr od uç ão de te xt o 9. c) A participação do professor de Ciências da Natureza nesta atividade é desejável, pois ele poderá auxiliar os estudantes tanto a identificar argumentos anticientíficos quanto a formular refutações com base em conhecimentos científicos comprovados. 13. b) A voz do entrevistado é parcialmente transcrita entre aspas, no final da introdução: “o maior desafio da história da humanidade”. Na primeira frase, o trecho “O combate... novas gerações de universitários” também parece ser uma transcrição fiel da fala do entrevistado, em virtude do emprego da expressão “segundo o professor...”, porém essa fala não foi demarcada com Não escreva no livro. aspas, como costume. Há, nesse texto, a voz do jornalista que realizou a entrevista e a voz do entrevistado, Carlos Nobre, a qual aparece em duas circunstâncias. Ela se manifesta no trecho “Em conversa com o portal a) Em que trecho(s) se situa a voz do entrevistador? Ufes... Nobre disse”, na expressão “segundo o professor e climatologista Carlos Nobre” e no verbo dicendi disse. b) E em que trecho(s) a fala do pesquisador aparece em discurso direto? De que forma é marcada e delimitada essa fala? 14. Em relação à linguagem empregada na entrevista, tanto pelo entrevistador quanto pelo entrevistado: a) Ela está de acordo com a norma-padrão? Ela tende à formalidade ou à informalidade? Sim, ela está de acordo com a norma-padrão e tende à formalidade. b) A linguagem está de acordo com o contexto e com o veículo em que foi divulgada? Justifique está de acordo com o contexto e o veículo, pois o entrevistado e o conteúdo de sua entrevista pertencem sua resposta. Sim, ao universo acadêmico e científico, no qual predomina a norma-padrão. Além disso, a entrevista foi publicada no portal da Universidade Federal do Espírito Santo, órgão oficial da universidade em que prevalece a norma-padrão. 15. Com a orientação do professor, junte-se a alguns colegas para sintetizar as características de uma entrevista. Para isso, copiem o quadro a seguir no caderno e respondam às questões considerando os estudos e as experiências de vocês como produtores e leitores de entrevistas. drão, podendo ser menos ou mais formal. Entrevista: construção e recursos expressivos Quem são os interlocutores de uma entrevista? Uma pessoa entrevista alguém que se destaca em sua área e a entrevista é publicada em um meio de comunicação direcionado a um público que, geralmente, se interessa pelo tema abordado. Qual é o objetivo desse gênero textual? Informar os leitores sobre assuntos que têm ou vêm ganhando destaque na sociedade e na imprensa. Por onde a entrevista circula? Como se caracteriza a linguagem da entrevista? Como a entrevista se estrutura? Geralmente o texto, vídeo ou áudio é divulgado por órgãos de imprensa (jornais impressos, televisivos e de rádio) e/ou na internet (sites, blogs e podcasts). A linguagem costuma ser direta, enxuta e adequada ao perfil dos interlocutores, mas pode sofrer variações, dependendo da situação de comunicação. Em jornais impressos e/ou digitais, costuma predominar uma variedade linguística de acordo com a norma-paGeralmente a entrevista é introduzida por um texto de apresentação, que contextualiza o tema e informa quem é o entrevistado; em seguida, o texto passa a ser formado basicamente de perguntas (do entrevistador) e de respostas (do entrevistado). Hora de produzir Vídeo Ao final da unidade 2, você vai montar com a turma um jornal sobre meio ambiente, a ser divulgado para a comunidade escolar. Nesse jornal, entre outros gêneros, haverá entrevistas. Reúna-se com os colegas de grupo para produzirem uma entrevista. A pessoa a ser entrevistada deve ser um profissional de uma área relacionada com o meio ambiente ou alguém que atua em entidades que lutam pela a entrevista, são sugeridos os seguintes profissionais: biólogo, cientista, guarda ou preservação do meio ambiente. Para engenheiro florestal, oceanógrafo, engenheiro ambiental, entre outros. Antes de iniciarem, façam, com a turma, uma lista de questões que podem servir como tema central da entrevista. Vejam algumas sugestões, mas pensem em várias outras: • Relação existente entre a pecuária e a produção de metano que é expelido para a atmosfera. • Produção de alimentos sustentável e meio ambiente. • Produção de lixo e aquecimento global. • Latifúndio, monocultura e aquecimento global. • O Brasil e os desafios da transição para a produção de energia renovável. • O cidadão comum e o combate ao aquecimento global. • Principais causas da poluição dos oceanos hoje. Pr od uç ão de te xto 89 Planejamento da entrevista • Procurem conhecer a pessoa a ser entrevistada e o assunto que será o foco da entrevista. Busquem informações sobre essa pessoa: onde trabalha, há quanto tempo, como é esse trabalho, se participa ou representa alguma entidade ambiental, etc. • Conhecendo o perfil do entrevistado, façam um recorte do tema que pretendem abordar. Pesquisem sobre o assunto e observem seus aspectos mais polêmicos. • Definam previamente o tempo de duração da entrevista e, de acordo com essa definição, planejem um número maior ou menor de perguntas. Escrita do roteiro • Pensem no perfil dos leitores e empreguem uma linguagem adequada ao gênero e a esse público. • Preparem o roteiro de perguntas. Vocês podem começar, por exemplo, perguntando sobre a biografia e a atuação profissional da pessoa e, só depois, entrar nas questões específicas relacionadas ao assunto da entrevista. • Elaborem perguntas curtas e objetivas. Procurem usar uma linguagem próxima da norma-padrão. Prevejam possíveis respostas e preparem novas perguntas relacionadas a essas respostas. • Verifiquem se o número de perguntas é adequado para o tempo disponível e, se necessário, quais delas eventualmente poderão ser descartadas. Realizando a entrevista oral • Ao entrevistarem, usem o gravador do celular, uma câmera de vídeo ou um gravador de áu- dio. Se forem registrar em vídeo o momento, fiquem atentos à iluminação do ambiente, aos movimentos da câmera, etc. Peçam autorização ao entrevistado para fotografar ou filmar. • Antes de começarem a entrevista, cumprimentem seu entrevistado e agradeçam a ele por conceder a entrevista. • Apresentem uma pergunta de cada vez pronunciando as palavras de modo que o entrevistado as compreenda bem. Ouçam o entrevistado com atenção. Fiquem atentos às respostas, pois vocês podem aproveitar um comentário do entrevistado e improvisar uma pergunta que resulte em uma resposta interessante. • Se necessário, interfiram no andamento das respostas, fazendo novas perguntas, como “Por quê?” ou “Poderia dar um exemplo?”. • Fiquem atentos para não exceder o tempo combinado. • Antes de concluírem, agradeçam novamente ao entrevistado e, se quiserem, perguntem a ele se gostaria de acrescentar mais alguma ideia ou informação. • Com a gravação em mãos, transcrevam a entrevista, copiando-a a mão ou digitando-a. Transcrevendo a entrevista • Escolham uma frase significativa do entrevistado para servir de título ou criem um título com base no assunto tratado. • Escrevam uma introdução, apresentando o entrevistado e o assunto da entrevista. • Para distinguir as vozes no texto, insiram o nome do entrevistador (ou o nome do grupo ou do jornal) antes de cada pergunta e o nome do entrevistado antes das respostas ou empreguem recursos gráficos, como negrito ou sublinhado. • Reproduzam o diálogo mantendo a linguagem empregada pelo entrevistado, mas evitando ou diminuindo as marcas da linguagem oral. 90 Pr od uç ão de te xt o Pit uk TV /S h utt er sto ck 3. Entre outras possibilidades, a palavra rápido. Em: “Aquele carro passou rápido” é advérbio, pois modifica o sentido da forma verbal passou. Em “Aquele carro é rápido”, é adjetivo, pois confere uma atribuição ao substantivo carro. Outra possibilidade: a palavra meio, que em “Ele deu um meio sorriso” é adjetivo, pois especifica o substantivo sorriso (não era um sorriso inteiro, completo, era um sorriso pela metade). Já em “Ele deu um sorriso meio envergonhado” é advérbio, pois modifica o sentido do adjetivo envergonhaNão escreva no livro. do (não era um sorriso completamente envergonhado, mas apenas um pouco envergonhado). Revisão e reescrita Antes de fazerem a versão final da entrevista, releiam-na, observando: • se há título e texto de apresentação; • se ela veicula informações suficientes a respeito do assunto abordado; • se a sequência de perguntas e respostas flui com naturalidade; • se o nome do entrevistador (ou do grupo ou do jornal) e o nome do entrevistado estão inseridos, respectivamente, antes das perguntas e das respostas, ou se as falas de um e outro são diferenciadas por meio de recursos gráficos; • se a linguagem está adequada ao perfil dos leitores e ao gênero. Façam as alterações necessárias e passem o texto para o suporte e o formato definidos no início desta seção. A entrevista em outras mídias Se seu grupo optou por outros formatos, como áudio ou vídeo, levem em conta aspectos como: • Que equipamentos sonoros e/ou audiovisuais serão necessários para fazer as gravações? • Onde serão gravadas as cenas? O lugar é silencioso? • Haverá mesa, cadeiras e cenário para a realização da entrevista? • No caso da entrevista audiovisual, o entrevistador deve usar uma roupa especial para realizar a entrevista? • Haverá uma vinheta a ser executada antes de iniciar a entrevista propriamente dita? • Planejem a entonação e o ritmo da fala do entrevistador. • No caso da entrevista audiovisual, planejem o posicionamento do entrevistador e do entrevistado, calculando sua gesticulação e expressão facial. • Façam a edição das cenas, dos recursos gráficos e dos áudios, ordenando-os conforme o roteiro. • No caso de entrevista por áudio, avaliem se vão usar músicas e/ou efeitos sonoros; em caso afirmativo, escolham quais vão entrar e em que momento. Avali an do os es tu do s 1. Sua poesia apresenta tom eloquente, próximo da oratória, bem como sonoridade e imagens impactantes, produzidas por meio de figuras como aliteração, hipérbole, metáfora, comparação, etc., com o objetivo de conquistar o público leitor/ouvinte para causas sociais, em especial o abolicionismo. Retome os objetivos indicados no início do capítulo e avalie os estudos e o caminho percorri2. Nessa obra, os poemas de Narcisa Amália apresentam traços das três gerações dos, considerando questões como: românticas, como o amor à pátria, a religiosidade cristã, a morte como saída para as angústias, a saudade da infância, a exaltação da natureza e, também, a aborda- 1. de questões Quais são as principais características da poesia épica social de Castro Alves? gem de cunho político e social. A autora ex- 2. Em Nebulosas, de Narcisa Amália, que características gerais de sua poesia podem ser observadas? 3. Dê um exemplo de uma palavra que na fala corrente brasileira pode ser utilizada como adjetivo ou advérbio, dependendo do seu sentido e da sua função no contexto. Explique em quais recursos estéticos como a mudança de voz no poema e imagens situações isso ocorre, dando exemplos. plora impactantes a fim de sensibilizar o leitor/ouvinte para a causa abolicionista. Além disso, Narcisa Amália também expressa sua visão de que o poeta é um agente de transformação social. 4. Considerando que, nas entrevistas em geral, o entrevistado é uma pessoa que tem um conhecimento ou vivência especial sobre determinado assunto, de que forma se pode obter do Espera-se que os estudantes levantem hipóteses entrevistado informações de qualidade para o público? como: fazer uma pesquisa prévia sobre a biografia do entrevistado e sobre sua atuação na área de interesse da entrevista; preparar um roteiro com questões que explorem os aspectos mais importantes de sua trajetória; dispor as perguntas de forma lógica e gradativa, de modo que cada uma vá ampliando e aprofundando as informações mais importantes. Pr od uç ão de te xto 91 2 unidade O TEMPO DE CA DA UM BN CC Competências gerais da Educação Básica: 1, 3, 7 Competências específicas da área de Linguagens: 1, 2, 3, 6 Você já se fez a pergunta: “Quem sou eu?”. A busca de nossa identidade, de nossas origens e de nossos antepassados é uma inquietação que povoa a mente de muitas pessoas. Hoje em dia, é até possível fazer testes de genoma em laboratório para saber mais sobre nossa ancestralidade. Mas, às vezes, olhando à nossa volta e para o nosso passado, podemos encontrar as respostas. A literatura e as demais expressões artísticas podem nos ajudar na construção de nossa identidade? Observe as imagens e leia o texto para refletir sobre isso. Habilidades da área de Linguagens: EM13LGG202, EM13LGG203, EM13LGG204, EM13LGG302, EM13LGG601, EM13LGG602 © 2023 Rosana Pau © 2023 Rosana Paulino/Acervo da artista lino/Acervo da arti sta Habilidades de Língua Portuguesa: EM13LP03, EM13LP05, EM13LP14, EM13LP46, EM13LP50, EM13LP52 Detalhe da obra Parede da memória. 92 Parede da memória (1994-2015), de Rosana Paulino (1967-). Instalação em microfibra, tecidos, imagem digital sobre papel, linha e aquarela. Composta de 11 fotografias da família da artista, que se repetem mescladas no grande painel num conjunto de 1500 peças. Reprodução/Instituto Moreira Salles Rio de Janeiro (c. 1892), de Karl Oenike (1862-1924). Quem é diferente de quem? Uma pessoa apenas se torna diferente no momento em que dizem para ela que ela é diferente daquelas/es que têm o poder de se definir como “normal”. KILOMBA, Grada. Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano. Rio de Janeiro: Editora Cobogó, 2019. p. 103. Converse com a turma 1. Na instalação Parede da memória, a artista brasileira contemporânea Rosana Paulino reúne imagens de sua família, impressas em patuás (um tipo de amuleto) de algodão e dispostas na parede. A artista procura resgatar a memória da família e sua negritude, dando visibilidade a uma parte da população brasileira que foi invisibilizada e silenciada durante séculos. E você? O que sabe de sua família? Quais são as suas origens? Que imagens você reuniria para compor um painel de sua história? Respostas pessoais. 2. A escritora e artista multidisciplinar portuguesa Grada Kilomba associa a ideia de normalidade a um padrão estabelecido por aqueles que estão no poder. De que forma o trabalho de Rosana Paulino se relaciona com o ponto de vista de Grada Kilomba? 3. No século XIX, após a Independência do Brasil, houve um interesse muito grande dos artistas, brasileiros e estrangeiros, de retratar a paisagem como forma de construir uma identidade nacional. Observe a pintura Rio de Janeiro, do pintor alemão Karl Oenike. a) Você reconhece essa paisagem? Você reconhece a pintura Rio de Janeiro como sendo um retrato de nossa gente? Trata-se dos morros do Pão de Açúcar, ponto turístico do Rio de Janeiro. Resposta pessoal. b) Se você fosse pintar uma paisagem que representasse o seu mundo – seu passado e seu presente, o lugar em que vive e onde você se reconhece – como ela seria? Resposta pessoal. 2. Rosana Paulino, ao dar visibilidade a membros de sua família, muitos dos quais negros, combate o preconceito que foi enfrentado e que ainda enfrentam no Brasil, ou seja, o negro escravizado era visto como o outro, o diferente, pelos colonizadores europeus. Essa visão preconceituosa do que está fora do que é considerado “normal” está na raiz da discriminação e do preconceito ainda existente hoje, desde o período colonial. 93 C O N E CT E - S E ! Livros • Memórias de um sargento de milícias, obra de Manuel Antônio de Almeida, adaptada para quadrinhos. São Paulo: Escala/São Paulo: Ibep, 2016. • O guarani, obra de José de Alencar, adaptada por Luís Gê para quadrinhos. São Paulo: Ática, 2009. • Assassinatos na rua Morgue e outras histórias, de Edgar Allan Poe. São Paulo: Saraiva, 2012. • As trevas e outros poemas, de Lorde Byron. São Paulo: Saraiva, 2019. Filmes • O morro dos ventos uivantes, de Peter Kosminsky, Inglaterra, 1992 (135 min), 12 anos. • Orgulho e preconceito, de Joe Wright. Reino Unido, Estados Unidos e França, 2005 (129 min), livre. Sites As obras dos principais escritores românticos brasileiros, como José de Alencar, Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo, Castro Alves, Maria Firmina dos Reis e Casimiro de Abreu, entre outros, são de domínio público e podem ser encontradas na internet. Músicas Ouça composições de músicos românticos, como Ludwig van Beethoven e Richard Wagner. Conheça as canções da Música Popular Brasileira (MPB) que dialogam com a tradição romântica, como “Você é linda”, de Caetano Veloso; e “O que eu também não entendo”, de Jota Quest. Obras arquitetônicas Reprodu•‹o/IEPHA, MG. Dois estilos arquitetônicos diferentes se destacaram no período romântico: o neoclassicismo e o neogótico. Exemplos de construções no estilo neogótico romântico brasileiro: Catedral de Caxias do Sul (RS); Catedral de São Paulo (SP); Catedral de Santos (SP); Catedral São João Batista, em Santa Cruz do Sul (RS). Exemplos de construções no estilo neoclássico romântico brasileiro: Escola Normal do Rio de Janeiro (RJ) e Escola Estadual D. Pedro II, em Belo Horizonte (MG). Escola Estadual D. Pedro II, em Belo Horizonte (MG). ar : H ora de co m pa rt ilh Jorn al de varie dade s Ao final desta unidade, você e os colegas irão produzir um jornal de variedades e organizar um evento de lançamento para compartilhá-lo com a comunidade escolar. O jornal contará com as notícias, entrevistas, reportagens e fotorreportagens produzidas pela turma. 94 capítulo 3 Rom a ntism o: p rosa (I) le Con cord â n cia n om in a concord ân cia verba l Reporta gem Neste capítulo você vai: • conhecer a prosa romântica de José de Alencar e de Manuel Antônio de Almeida e refletir sobre ela; • observar a construção de conflito e de foco narrativo na prosa e seus efeitos de sentido; • rever algumas das principais regras de concordância nominal e de concordância verbal; • comparar usos do português brasileiro com o tratamento dado pela gramática tradicional às concordâncias nominal e verbal, debatendo tópicos de variação linguística; BN CC Competências gerais da Educação Básica: 1, 2, 3, 7, 9 Competências de Linguagens: 1, 2, 3, 6 Habilidades específicas da área de Linguagens: EM13LGG101, EM13LGG102, EM13LGG103, EM13LGG202, EM13LGG203, EM13LGG302, EM13LGG601, EM13LGG602, EM13LGG604 Habilidades específicas de Língua Portuguesa: EM13LP01, EM13LP04, EM13LP05, EM13LP06, EM13LP16, EM13LP20, EM13LP46, EM13LP48, EM13LP49, EM13LP50, EM13LP52 • observar as características básicas das reportagens e produzir esse gênero. Justificativa Para que você perceba as peculiaridades estruturais e estilísticas de romances e contos, bem como para identificar assimilações, rupturas e permanências no processo de formação da literatura brasileira, você vai ler textos em prosa de autores consagrados do Romantismo, tendo como base as concepções estéticas desse estilo e o contexto de sua produção. Vai também observar a construção do foco narrativo e do conflito na prosa e perceber seus efeitos de sentido. Será convidado a refletir sobre o uso das principais regras de concordância nominal e concordância verbal para ter maior autonomia e maiores possibilidades de escolha ao produzir seus textos, levando em consideração elementos diversos das práticas sociais de que participa. Além disso, analisar as regras de concordância observando a variação linguística empregada no texto vai levar você a perceber a natureza dinâmica da língua e a refletir sobre a importância de combater preconceitos linguísticos. Tendo em vista o papel relevante da imprensa no Brasil na divulgação da prosa romântica, neste capítulo você ainda vai dar continuidade ao estudo de gêneros do campo jornalístico-midiático, lendo uma reportagem e produzindo um texto desse gênero. 95 Literatura Romantismo: prosa (I) A prosa romântica no Brasil Reprodução/Coleção particular A permissão para a atividade de imprensa no Brasil, a partir de 1808, desencadeou em todo o país a publicação de diversos jornais, não apenas de cunho político, mas também literário. Muitos dos renomados romances brasileiros da época foram veiculados em jornais, nos chamados folhetins, seção em que eram publicados seus capítulos diária ou semanalmente. Os romances, principal gênero da prosa romântica, por terem uma Os Mundurucu às margens de um afluente do rio Madeira linguagem mais acessível, conquis- (1862), de François-Auguste Biard (1799-1882). taram um público crescente, interessado em encontrar na literatura projeções de seus anseios e conflitos. Nesse contexto, os romances exerceram um papel central no cenário cultural brasileiro da segunda metade do século XIX, tal como hoje desempenham os filmes, as séries e as telenovelas. Em nosso país, os autores românticos produziram romances indianistas, históricos, regionalistas e urbanos. José de Alencar, pela extensão e qualidade de sua obra, é considerado o principal romancista do Romantismo brasileiro. José de Alencar: o romance indianista Reprodução/Coleção particular Interessado em produzir uma nova proposta de literatura, de caráter nacional, José de Alencar representou diversas faces da vida brasileira em seus romances, agrupados de acordo com essa intenção, como indianistas, regionalistas, urbanos e históricos. José de Alencar Filho de um senador, José Martiniano de Alencar (1829-1877) nasceu em Messejana (CE). Comprometido com as questões nacionais, além de dedicar-se à literatura, também participou da política do país, chegando a ser deputado e ministro da Justiça. Foto de c. 1870. 96 Infográfico clicável L ite ra tu ra No jornal Correio Mercantil, do Rio de Janeiro, publicou em folhetim seus primeiros romances: Cinco minutos (1856), A viuvinha (1857) e O Guarani (1857), obra que o tornou um escritor conhecido na época. Nas décadas de 1860 e 1870, publicou diversos romances, como Lucíola (1862), Iracema – lenda do Ceará (1865), O gaúcho (1870), Til (1872), Ubirajara (1874) e Senhora (1875), entre outros. Não escreva no livro. C as a de Jo sé de A Jarbas Oliveira/Fotoarena Neste capítulo, você vai conhecer um dos romances indianistas do autor, intitulado Iracema. Nessa obra, é narrada a história de amor entre uma Tabajara e um português, situada nas matas do que hoje é o estado do Ceará, no período inicial da colonização do Brasil. A heroína, Iracema, filha do pajé Araquém, deveria manter-se virgem, porque era consagrada a Tupã e guardava o segredo da jurema, uma bebida utilizada em rituais de sua tribo. Porém, ao se apaixonar pelo português Martim, a indígena abandona suas tradições e seu povo para viver com o guerreiro branco. le nc ar Em Messejana, no Ceará, é possível visitar o local em que nasceu José de Alencar. Atualmente, a residência que sobrou das construções originais é um centro cultural vinculado à Universidade Federal do Ceará (UFC), localizado no sítio Alagadiço Novo, que abrange sete hectares remanescentes da antiga propriedade do Senador José Martiniano de Alencar. Por causa de sua relevância histórica e cultural, a universidade construiu um edifício para ampliar o espaço de exposição, que visa apresentar escritores, artistas e autoridades. O prédio novo, desenhado em estilo colonial, inclui diversas áreas de exposição, entre elas a Pinacoteca Floriano Teixeira e o Salão Iracema Descartes Gadelha. Casa de José de Alencar, no bairro de Messejana, em Fortaleza (CE). Foto de 2016. Trata-se de um centro cultural pertencente à Universidade Federal do Ceará. De acordo com o site da universidade, a missão desse centro cultural é promover a cidadania através de ações educativas, culturais e inclusivas, democratizando o acesso ao lazer, ao conhecimento e aos bens culturais, incentivando a preservação e a valorização da memória da vida e obra de José de Alencar. Foco no texto Leia, a seguir, o capítulo XXVIII de Iracema. Nesse ponto da história, Martim sente saudade de sua pátria, de sua vida em Portugal. No início do capítulo, ele ouve Iracema chorar e pergunta por que ela está triste. Iracema Capítulo XXVIII Uma vez o cristão [Martim] ouviu dentro em sua alma o soluço de Iracema: seus olhos buscaram em torno e não a viram. A filha de Araquém estava além, entre as verdes moitas de ubaia, sentada na relva. O pranto desfiava de seu belo semblante; e as gotas que rolavam uma a uma caíam sobre o regaço, onde já palpitava e crescia o filho do amor. Assim caem as folhas da árvore viçosa antes que amadureça o fruto. ubaia: um tipo de arbusto. — O que espreme as lágrimas do coração de Iracema? — Chora o cajueiro quando fica tronco seco e triste. Iracema perdeu sua felicidade, depois que te separaste dela. — Não estou eu junto de ti? — Teu corpo está aqui; mas tua alma voa à terra de teus pais, e busca a virgem branca, que te espera. Li te ra tu ra 97 Martim doeu-se. Os grandes olhos negros que a indiana pousara nele o tinham ferido no íntimo. tabuleiros: faixas de terra com poucas árvores ou arbustos. igara: canoa. tupinambá: povo da etnia Tupi. meneou: moveu de um lado para outro. jenipapo: fruto de cor escura, com polpa doce e ácida. graúna: pássaro de penas pretas. abati: milho. Icó: região do Ceará que, atualmente, é um município desse estado. murta: arbusto de folhagem escura. cingiu: abraçou; apertou. talhe: o tronco humano; torso. — O guerreiro branco é teu esposo; ele te pertence. Sorriu em sua tristeza a formosa tabajara: — Quanto tempo há que retiraste de Iracema teu espírito? Dantes, teu passo te guiava para as frescas serras e alegres tabuleiros: teu pé gostava de pisar a terra da felicidade, e seguir o rasto da esposa. Agora só buscas as praias ardentes, porque o mar que lá murmura vem dos campos em que nasceste; e o morro das areias, porque do alto se avista a igara que passa. — É a ânsia de combater o tupinambá que volve o passo do guerreiro para as bordas do mar, respondeu o cristão. Iracema continuou: — Teu lábio secou para a esposa; assim a cana, quando ardem os grandes sóis, perde o mel, e as folhas murchas não podem mais cantar quando passa a brisa. Agora só falas ao vento da praia para que ele leve tua voz à cabana de teus pais. — A voz do guerreiro branco chama seus irmãos para defender a cabana de Iracema e a terra de seu filho, quando o inimigo vier. A esposa meneou a cabeça: — Quando tu passas no tabuleiro, teus olhos fogem do fruto do jenipapo e buscam a flor do espinheiro; a fruta é saborosa, mas tem a cor dos tabajaras; a flor tem a alvura das faces da virgem branca. Se cantam as aves, teu ouvido não gosta já de escutar o canto mavioso da graúna, mas tua alma se abre para o grito do japim, porque ele tem as penas douradas como os cabelos daquela que tu amas! — A tristeza escurece a vista de Iracema, e amarga seu lábio. Mas a alegria há de voltar à alma da esposa, como volta à árvore a verde rama. — Quando teu filho deixar o seio de Iracema, ela morrerá, como o abati depois que deu seu fruto. Então o guerreiro branco não terá mais quem o prenda na terra estrangeira. — Tua voz queima, filha de Araquém, como o sopro que vem dos sertões do Icó, no tempo dos grandes calores. Queres tu abandonar teu esposo? — Não veem teus olhos lá o formoso jacarandá, que vai subindo às nuvens? A seus pés ainda está a seca raiz da murta frondosa, que todos os invernos se cobria de rama e bagos vermelhos, para abraçar o tronco irmão. Se ela não morresse, o jacarandá não teria sol para crescer tão alto. Iracema é a folha escura que faz sombra em tua alma; deve cair, para que a alegria alumie teu seio. O cristão cingiu o talhe da formosa índia e a estreitou ao peito. Seu lábio pousou no lábio da esposa um beijo, mas áspero e morno. ALENCAR, José de. Iracema. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos; São Paulo: Edusp, 1979. p. 66-67. 98 L ite ra tu ra 1. b) Martim dirige-se a Iracema como se não falasse com ela, mas de uma terceira pessoa (ele diz: “O que espreme as lágrimas do coração de Iracema?”; dirigindo-se diretamente ao interlocutor seria: “O que espreme as lágrimas de teu coração?”). Iracema emprega a 3a pessoa do singular, em vez da 1a, para falar de si mesma (ela diz: “Iracema perdeu sua felicidade”; em 1a pessoa, seria: “Perdi minha felicidade”). Não escreva no livro. 1. No prólogo do romance Iracema, José de Alencar defende que o conhecimento da língua indígena é essencial para a produção de uma verdadeira literatura nacional. Por isso, na elaboração da obra, ele buscou dar ideia do estilo e das imagens poéticas do que considerava ser uma língua falada por povos indígenas. Tendo em vista essa informação, releia o seguinte trecho: [...] O pranto desfiava de seu belo semblante; e as gotas que rolavam uma a uma caíam sobre o regaço, onde já palpitava e crescia o filho do amor. Assim caem as folhas da árvore viçosa antes que amadureça o fruto. 1. a) Na fala do narrador, o pranto de Iracema, que rola sobre o ventre no qual cresce seu filho, é comparado à queda das folhas de uma árvore antes do amadurecimento de seu fruto. Na fala de Iracema, seu choro e sua tristeza são comparados ao cajueiro cujo tronco fica seco. — O que espreme as lágrimas do coração de Iracema? — Chora o cajueiro quando fica tronco seco e triste. Iracema perdeu sua felicidade, depois que te separaste dela. [...] a) No trecho, há o emprego de comparação nas falas do narrador e de Iracema. Quais são os elementos comparados? b) Nas falas de Iracema e em algumas falas de Martim, chama a atenção o ponto de vista pouco usual que esses personagens adotam ao se dirigirem a seu interlocutor. Explique de que maneira é construído esse ponto de vista. Justifique sua resposta com elementos do texto. c) Revendo as respostas aos itens anteriores, opine: As comparações procuram mostrar a proximidade dos personagens com o quê? O ponto de vista percebido nos diálogos procura sinalizar o quê? Espera-se que os estudantes observem que as comparações procuram mostrar a proximidade entre os personagens e a natureza que os cerca. O ponto de vista tenta sinalizar particularidades da língua em uso. Tais procedimentos procuram simular um falar do indígena, na 2. Leia o boxe “O conflito na narrativa de ficção” e, depois de trocar ideias possível tentativa, no contexto de Alencom os colegas e o professor sobre o assunto, responda às questões car, de conferir um caráter de nacionalidade à literatura. no caderno. O co nf lit o na na rr at iv a de fic çã o Em uma narrativa de ficção, o conflito é um problema ou um obstáculo com que o protagonista tem de lidar e que gera as ações da história. Esse conflito ou obstáculo pode dizer respeito ao próprio protagonista ou a um elemento externo a ele, como outro personagem, a natureza, a sociedade, a família, as divindades, etc. O conflito é essencial, pois é ele que gera expectativa no leitor e o mantém atento à narração. Estruturalmente, o conflito é o meio pelo qual a ação se organiza e se desenvolve até o desfecho, quando ocorre (ou não) sua solução ou superação. insatisfação de Iracema com o compora) No capítulo de Iracema em estudo, o que dá início ao conflito? A tamento de Martim. b) O conflito é construído com base em determinados argumentos utilizados por Iracema. Quais são eles? Iracema argumenta que Martim perdeu o interesse por ela e que as atitudes dele demonstram seu desejo de voltar para sua terra natal e para a “virgem branca”. c) A reação de Martim aos argumentos de Iracema corresponde aos sentimentos mais íntimos dele? Comprove sua resposta com uma pista dada pelo narrador. Não. Embora Martim conteste os argumentos de Iracema, garantindo lealdade a ela, o narrador revela a incerteza do personagem quando se refere ao beijo que o jovem dá na esposa como “áspero e morno”. Li te ra tu ra 99 4. A morte de Iracema (que a própria personagem sinaliza em “Quando teu filho deixar o seio de Iracema, ela morrerá, como o abati depois que deu seu fruto”) simbolizaria o fim da cultura nativa, enquanto o nascimento do filho dela e de Martim simbolizaria a formação da cultura brasileira, resultante da união de indígenas com portugueses. 3. Leia o boxe “Foco narrativo” e, depois de trocar ideias com os colegas e o professor, responda: No texto em estudo, qual é o foco narrativo empregado? Justifique sua resposta com elementos do texto. Fo co na rr at iv o O narrador é onisciente, pois narra na 3a pessoa e se refere a sentimentos dos personagens, como em “Martim doeu-se. Os grandes olhos negros que a indiana pousara nele o tinham ferido no íntimo”. Foco narrativo é o ponto de vista por meio do qual o narrador conta determinada história. O narrador onisciente é aquele que narra em 3a pessoa e conhece, tal qual um deus, tudo sobre o que ocorre na história, inclusive o estado mental e emocional dos personagens. Quando há um narrador-protagonista, como o próprio nome sugere, é o personagem principal que narra os fatos, em 1a pessoa, de acordo com seus sentimentos, suas percepções e seus pensamentos, sem ter acesso ao estado mental e emocional dos demais personagens. Há também o narrador-testemunha, um personagem secundário que narra, em 1a pessoa, os conflitos de outros personagens, sem saber o que se passa no íntimo deles, e que, por isso, apenas infere, apresenta hipóteses com base no que viu e ouviu. 4. Uma interpretação possível da obra Iracema é a de que Alencar criou uma lenda para representar não só o fim das culturas nativas no Brasil, ocorrido com a chegada do colonizador, como também a formação de uma nova cultura, a brasileira, decorrente da união das etnias indígenas com a portuguesa. De que modo essa ideia é sugerida no trecho em estudo? 5. O filho de Iracema e Martim recebe o nome Moacir, que, em tupi, significa “o que vem da dor”. a) De acordo com o texto lido, de que modo o nome Moacir traduz o sentimento de Iracema em relação a Martim? b) Discuta com os colegas e o professor a pergunta a seguir e, depois, responda no caderno: Que relação se pode estabelecer entre o nome Moacir, por seu significado, e a formação do povo brasileiro? 6. Um anagrama é a mudança de lugar das letras de uma palavra na formação de outra palavra. Iracema, palavra que intitula a obra de Alencar em estudo, é anagrama da palavra América. Com base nessa informação e nas reflexões realizadas ao longo do estudo, discuta com os colegas e o professor a questão a seguir e, depois, registre a resposta no caderno: • Como a obra Iracema se relaciona com o projeto de construção de uma identidade nacional defendido por Alencar? 5. a) Iracema sofre em razão de seu amor por Martim, que, por sua vez, se vê dividido entre o amor por ela e o desejo de voltar para sua terra natal. Nesse contexto, o filho de Iracema e Martim é o fruto desse amor que provocou sofrimento tanto a um quanto a outro. CO NE CT E-S E! Livros Outras narrativas indianistas de José de Alencar: • O Guarani. Cotia: Ateliê, 2021. 5. b) O povo brasileiro, assim • Ubirajara. São Paulo: Martin Claret, 2013. como Moacir, formou-se na dor, no sacrifício das culturas Outras narrativas de José de Alencar protagonizadas por personagens femininas: nativas, que, segundo a concepção da lenda, precisaram • Lucíola. São Paulo: FTD, 2011. morrer para que ocorresse a formação de uma nova cultura • Senhora. São Paulo: Paulus, 2005. e de um novo povo. 6. A obra Iracema, além de retratar a fauna e a flora brasileiras – a história se passa nas matas do atual estado do Ceará – e de ter como protagonista a Tabajara Iracema, põe foco no colonizador e no resultado de seu contato com os nativos, que acaba resultando no nascimento de Moacir, filho miscigenado da indígena e do colonizador português Martim. Todos esses elementos dizem ite ra tu ra respeito às raízes da América e, portanto, constituem, para Alencar, a base da identidade do povo brasileiro. 100 L RES E B A S E R T N E Não escreva no livro e Hum an as Ciências is Aplicadas; Arte Socia A identidade nacional no tempo do Romantismo Como você viu no primeiro capítulo deste livro, o Romantismo se iniciou na década seguinte à da proclamação da Independência, em 1822. Com o fim do colonialismo, autores do Romantismo brasileiro buscaram produzir obras que afirmassem a identidade nacional e que definissem novas perspectivas para a literatura brasileira, distintas, portanto, dos modelos clássicos greco-romanos e da tradição literária portuguesa. O romance O Guarani (1857), de José de Alencar, foi tão reconhecido na época como representativo de tais anseios que inspirou o músico romântico brasileiro Carlos Gomes (1836-1896) a compor a ópera O Guarani (1870), cuja abertura é amplamente conhecida no país, inclusive por ser tema do programa de rádio “A voz do Brasil”. E na atualidade, que visões há a respeito da ópera O Guarani? Há traços do colonialismo ainda hoje? Você sabe o que é decolonialidade? Para refletir sobre essas e outras questões, leia os boxes “Carlos Gomes e O Guarani” e “O Guarani na contemporaneidade” bem como os textos a seguir. Texto 1 Colonialidade, Modernidade e Decolonialidade Os estudos decoloniais admitem como referência, o pressuposto de que o colonialismo enquanto um processo social e histórico não se reproduziu através do tempo somente por meios econômicos e políticos, mas também através da institucionalização e da padronização de modelos cognitivos de existência e de conhecimento que sobreviveram mesmo após a emancipação das colônias europeias [...]. Nesse sentido, para os teóricos deste programa de pesquisa, há que se destacar, desde o princípio, as distinções elementares entre colonialismo e colonialidade. De acordo com Aníbal Quijano (1991), o colonialismo compreende uma relação de dominação direta, política, social e cultural dos europeus sobre os povos conquistados de todos os continentes, caracterizando-se, portanto, como um fenômeno datado. A colonialidade, de outro modo, mas por continuidade, se refere ao entendimento de que o fim dos empreendimentos coloniais não compreendeu o fim da dominação colonial. A colonialidade, nesse sentido, nos dirá o autor, é uma espécie de continuação desta dominação, mesmo após superado o pacto colonial. cognitivos: relativos ao conhecimento ou à capacidade de aquisição de conhecimento. A noção de decolonialidade, portanto, apresenta-se como uma via teórica e prática de desconstruir padrões, conceitos e perspectivas impostas aos povos colonizados há séculos, além de perfazer ainda uma crítica radical à modernidade e ao capitalismo. [...] NASCIMENTO, Emerson Oliveira do. Colonialidade, modernidade e decolonialidade: da naturalização da guerra à violência sistêmica. Intellèctus, ano XX, n. 1, 2021, p. 55. Disponível em: https://tedit.net/90f1yy. Acesso em: 20 set. 2024. 101 Texto 2 Montagem de ‘O Guarani’ com indígenas inflama debate sobre colonialismo Ailton Krenak modifica obra-prima de Carlos Gomes excluindo balé e inserindo música indígena em espetáculo no Municipal [...] Se a célebre “Abertura” permanece intacta em seu romantismo nacionalista, a montagem concebida pelo líder indígena Krenak propõe uma leitura decolonial e engajada da história, o que suscita um debate na cena lírica brasileira. [...] Dirigida por Cibele Forjaz, a ópera tem a participação da Orquestra e do Coro Guarani do Jaraguá. [...] “A música dos guarani é circular e serpenteia ao longo da encenação, trazendo uma nova temporalidade que nos coloca no presente e também nos projeta por sobre a ópera com uma visão crítica. Os cantos guarani nos arremessam profundamente ao interior de uma trama crivada de situações estereotipadas”, escreve Krenak, em artigo ainda inédito. Na encenação, o coro indígena divide espaço com o Coro Lírico Municipal. Os indígenas ficam a todo momento no palco, num jogo de planos e profundidades. No primeiro ato, aparecem ao fundo, como se invisibilizados. No decorrer do drama, chegam cada vez mais perto da plateia, entoando cânticos na coda de cada um dos quatro atos. estereotipadas: o que se baseia em ideias preconcebidas e formadas pela falta de conhecimento, isto é, sem a distinção de características próprias de uma pessoa ou um grupo. coda: trecho conclusivo de uma composição musical (sinfonia, ópera, etc.), servindo de arremate à peça. A linguagem operística não faz parte da cultura dos povos originários. Deste modo, a música indígena não se mistura à composição de Gomes, mas reafirma a presença guarani na trama. Acentuando o contraste cultural, o duplo de Peri não canta em nenhum momento da ópera. Ele aparece sem voz, interagindo no palco com os cantores. [...] David, liderança indígena que trabalha como ator desde os sete anos, afirma que a ópera de Gomes contém passagens de teor colonialista, que reforçam os estereótipos dos guarani. “Peri foi concebido como um personagem caricato. Não era nem sequer um guarani. Essas características de guerreiro e de herói se relacionam bem mais com o comportamento dos povos tupi”, ele afirma. O libreto também o incomoda pelo tratamento dado aos portugueses. Na ópera, os colonizadores são pacíficos e convivem em harmonia com os indígenas. Apenas Gonzales, invasor espanhol, é tratado como vilão. [...] 102 Não escreva no livro. Maria Alice Volpe, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a UFRJ, pesquisa a música brasileira dos séculos 18 e 19. O caso de “O Guarani”, ela afirma, deve ser analisado sob uma perspectiva histórica. “Era outra época, com outro projeto de nação, com outro projeto identitário, e a narrativa mítica da fundação nacional consumada pela união do ‘noble sauvage’ com a mulher portuguesa, construída por esse romance, alimentou o imaginário social da época.” Volpe pensa ser positivo encenar a obra-prima de Gomes em 2023. “É compreensível também que a construção dessas alternativas se dê em diálogo com os povos originários, em conformidade com as políticas públicas atuais e as pautas decoloniais”, diz ela. “É claro que toda alteração colocará em xeque a identidade da obra ou até mesmo a integridade da obra. As releituras não deixam de ser tentativas de salvar a obra do cancelamento. Isso, em si, já torna válida a produção.” Autor da primeira tese sobre a Ópera Nacional, o diretor André-Heller Lopes prefere antes incentivar que os povos originários possam compor suas próprias óperas. “Está ficando monótona essa tendência a uma leitura quase sempre superficial do tema. Nem toda obra de outro século é racista ou sexista”, afirma. [...] Nascido em Campinas, no interior de São Paulo, Antônio Carlos Gomes veio de família modesta e aprendeu música com seu próprio pai. Devido ao grande talento, teve a oportunidade de aprimorar seus estudos musicais em Milão, onde compôs e estreou, em 1870, a ópera Il Guarany, com o título e o texto em italiano. O uso desse idioma se deu pelo contexto cultural da época, em que a Itália era a maior referência para a produção operística do mundo. O libreto (texto que acompanha a música em uma ópera) é uma adaptação do romance homônimo de José de Alencar. Seus autores são os italianos Antonio Scalvini (1835-1881) e Carlo D’Ormeville (1840-1924). Reprodução/Fundação Joaquim Nabuc Ca rlo s Go me s e O Gu ara ni o, Recife, PE. ZEITEL, Gustavo. Montagem de ‘O Guarani’ com indígenas inflama debate sobre colonialismo. Folha de S.Paulo, São Paulo, 6 maio 2023. Disponível em: https://tedit.net/3um1nl. Acesso em: 6 set. 2024. Retrato de Carlos Gomes (c. 1870) de Felipe Augusto Fidanza (1844-1903). A trama se passa em 1560, em um local próximo ao Rio de Janeiro. Ceci, filha de um português, se apaixona por Peri, um indígena guarani; o relacionamento entre eles enfrenta desafios culturais e sociais, e é a partir dessa união que se tece o mito das origens da sociedade brasileira. Entre outros personagens, figuram D. Antônio (pai de Ceci), Álvaro (pretendente de Ceci) e o vilão Gonzales, que no romance corresponde ao italiano Loredano. noble sauvage: ”nobre selvagem”, o mesmo que “bom selvagem” (bon sauvage), expressão francesa que remete a uma idealização do ser humano em estado natural, isto é, antes do contato com a civilização. Esse conceito, surgido durante os séculos XV e XVI na Europa, ganhou destaque no século XVIII, sobretudo com o filósofo franco-suíço Jean-Jacques Rousseau. cancelamento: prática de boicotar pessoas e instituições em rede social devido a situações, comportamentos ou declarações considerados ofensivos ou moralmente condenáveis, podendo evoluir para um linchamento virtual e ter como consequências ameaças e demissão do trabalho em razão de ter a imagem associada a temas polêmicos. sexista: que manifesta discriminação contra pessoas com base em seu gênero ou orientação sexual. 103 2. O colonialismo compreende um período histórico que envolveu uma relação de dominação direta em termos políticos, sociais e culturais dos europeus sobre os povos conquistados; portanto, é um fenômeno datado. Já a colonialidade é “uma espécie de continuação desta dominação”, mas não de forma direta, uma vez que as colônias conquistaram a independência do empreendimento colonial. Assim, por essa perspectiva, embora tenha havido o fim do colonialismo, a maneira como os povos das ex-colônias se viam e compreendiam o mundo continuou colonizada. Eis, então, a colonialidade, ou seja, a continuação da em po ra ne id ad e dominação europeia de maneira indireta. O G ua ra ni na co nt Adriano Vizoni/Folhapress Na montagem da ópera O Guarani, levada aos palcos em 2023 sob a direção de Cibele Forjaz em colaboração com Ailton Krenak, apresentada no Teatro Municipal de São Paulo, foram criados duplos-cênicos, interpretados por indígenas que, em silêncio, dividem o palco com os cantores líricos não indígenas: Atalla Ayan e Enrique Bravo, que interpretam Peri, são acompanhados por David Vera Popygua Ju, do povo Guarani Mbya; e Koutcher e Débora Faustino, que interpretam Ceci, são acompanhadas por Zahy Tentehar, do povo Tentehar-Guajajara. Os atores indígenas David Vera Popygua Ju, o Peri, e a atriz Zahy Tenthehar Guajajara, a Ceci, durante ensaio da nova montagem da ópera O Guarani, de Carlos Gomes, 2023. Agora discuta com a turma: 4. A nova montagem de O Guarani é decolonial porque descontrói padrões e perspectivas europeias presentes na obra de Carlos Gomes. Tendo em vista os estereótipos presentes na ópera e a ausência de indígenas em uma obra que trata de uma das culturas dos povos originários, Krenak propôs desconstruções da obra original, 1. No início do texto 1, o autor afirma que o colonialismo foi se reproduzindo ao longo do tempo não apenas na esfera política e econômica, mas também por meio de “modelos cognitivos de existência e de conhecimento que sobreviveram mesmo após a emancipação das colônias europeias”. Ao longo do período colonial, o colonialismo foi um sistema de dominação que envolveu não apenas o controle político e Explique. a exploração econômica das colônias, mas também a padronização da maneira de os colonizados pensarem, de se verem e de compreenderem o mundo. Essas marcas que envolvem a maneira de se ver e conhecer o mundo permaneceram nas sociedades que se forjaram pelo colonialismo mesmo depois da conquista da independência política. 2. Aníbal Quijano (1930-2018), sociólogo peruano, desenvolveu o conceito de colonialidade. Considerando a resposta anterior, responda: Em que a colonialidade se diferencia do colonialismo? Tendo em vista que a coloniali- 3. Que relação se pode estabelecer entre a colonialidade e a decolonialidade? dade é compreendida como o legado persistente do colonialismo, a decolonialidade é reação à colonialidade em sua esfera teórica e prática, na medida em que tem como finalidade “desconstruir padrões, conceitos e perspectiva” advindos dos colonizadores e ainda vigentes nas ex-colônias. 4. Por que se pode dizer que a montagem de O Guarani, apresentada no texto 2, é uma abordagem decolonial? Justifique sua resposta com elementos do texto. como a presença do duplo-cênico, que insere a atuação de indígenas junto aos cantores líricos que interpretam Peri e Ceci; a inserção da cultura indígena, com o coro dos cantos guarani, e a eliminação do balé. 5. A professora e pesquisadora Maria Alice Volpe pondera que a ópera O Guarani deve ser analisada sob uma perspectiva histórica, uma vez que, na época de sua composição, havia um projeto identitário diferente do de hoje. Em que consiste essa diferença? 5. Na época da composição de O Guarani, havia pouco menos de 50 anos que o Brasil havia conquistado a independência e cultivava-se no meio artístico e intelectual o projeto de formação da identidade nacional, baseada nos ideais do Romantismo europeu de se resgatar 6. A professora Volpe e o diretor Lopes se mostram favoráveis à abordagem decolonial da ópera? Você concorda com eles? O que você pensa a respeito dessa leitura feita por Krenak? Justifique se mostra mais favorável que Lopes, pois, para ela, a abordagem decolonial da obra ao menos a salvaria suas respostas. Volpe de um possível cancelamento, enquanto o diretor Lopes se mostra menos favorável, sugerindo que os povos originários compusessem suas próprias óperas. Para as demais perguntas, as respostas são pessoais. 7. No texto 2, há a menção à cultura do cancelamento. Que consequências essa prática pode trazer para quem é alvo do cancelamento? O que você pensa sobre essa atitude? Compartilhe seu ponto de vista e ouça o de seus colegas. Resposta pessoal. 104 as raízes históricas nacionais. Em pouco mais de 150 anos que separam a ópera de Carlos Gomes da atualidade, as questões de identidade no Brasil se tornaram mais complexas e passam por reconhecer que estereótipos são inaceitáveis, pois geram danos, como preconceito, invisibilidade, violência, entre outros. Não escreva no livro. Manuel Antônio de Almeida: o romance urbano O modo irônico e nada idealizado com que o autor retrata as situações vivenciadas pelos personagens confere um tom de comicidade à história, que se passa “no tempo do rei” (período em que o rei d. João VI e sua corte viveram no Rio de Janeiro, entre 1808 e 1821). Ambientado nos subúrbios cariocas, o romance tem como centro as travessuras e malandragens de Leonardo. O protagonista é filho de Leonardo Pataca, um meirinho (oficial de Justiça), e de Maria da Hortaliça, que abandona a família depois de ser flagrada pelo marido com outro homem. Com a separação dos pais, Leonardo é criado pelo padrinho, um barbeiro, e pela madrinha, uma parteira. A fi gu ra do m al an dr o O malandro é uma figura fundamental da sociedade e cultura brasileira. Malandro não é um sujeito comum; normalidade não é um adjetivo que pode ser usado para descrever sua figura. Opostamente, ambiguidade é um bom termo para definir o malandro, que oscila entre características positivas e negativas. De um lado, o malandro é uma pessoa carismática, sedutora, capaz de levar no papo até os mais tenazes desconfiados. Por outro lado, esse aspecto envolvente do malandro muitas vezes mira objetivos questionáveis: seu poder de sedução pode aliar-se à sua habitual astúcia para trapacear, enganar e obter ganhos fáceis às custas de ingênuos manés e ao arrepio das normas sociais estabelecidas. Nas manifestações culturais brasileiras, a figura do malandro está frequentemente presente. [...] Reprodu•‹o/Cole•‹o particular Sem, aparentemente, ambicionar glória literária e sem seguir os modelos dos romances românticos de seu tempo, Manuel Antônio de Almeida criou seu único livro Memórias de um sargento de milícias (1854), destacando o primeiro malandro da literatura brasileira. Manuel Antônio de Almeida Manuel Antônio de Almeida (1831-1861) nasceu no Rio de Janeiro, em uma modesta família de portugueses. Desde cedo dedicou-se ao jornalismo e produziu crônicas, artigos, crítica literária e traduções. A obra Memórias de um sargento de milícias foi primeiramente publicada em folhetim, mais especificamente em um suplemento humorístico do jornal Correio Mercantil, entre junho de 1852 e julho de 1853. 200 LIVROS: malandro é malandro. Blog da BBM, São Paulo, 19 ago. 2021. Disponível em: https://tedit.net/ggx0fh. Acesso em: 7 set. 2024. Foco no texto Leia, a seguir, um trecho do terceiro capítulo de Memórias de um sargento de milícias, no qual é narrada a chegada de Leonardo à casa de seu padrinho logo depois de ter sido abandonado pelos pais. Memórias de um sargento de milícias [...] O Leonardo abandonara de uma vez para sempre a casa fatal onde tinha sofrido tanta infelicidade; […] Li te ra tu ra 105 sisudez: compostura, seriedade. velhacaria: ação ou comportamento de velhaco, ou seja, de pessoa que propositalmente engana, ludibria, trapaceia. meirinho: funcionário judicial correspondente ao atual oficial de justiça. […] Umas vezes sentado na loja [Leonardo] divertia-se em fazer caretas aos fregueses quando estes se estavam barbeando. Uns enfureciam-se, outros riam sem querer; do que resultava que saíam muitas vezes com a cara cortada, com grande prazer do menino e descrédito do padrinho. [...] Não parava em casa coisa alguma por muito tempo patacas: moedas inteira [...] sentado à porta da rua, entendia com quem passava e com antigas de prata. quem estava pelas janelas, de maneira que ninguém por ali gostava licenciado: quem concluiu curso de dele. O padrinho porém não se dava disto, e continuava a querer-lhe nível superior. sempre muito bem. Gastava às vezes as noites em fazer castelos no letrado: quem lida ar a seu respeito; sonhava-lhe uma grande fortuna e uma elevada com leis, advogado; alguém que tem boa posição, e tratava de estudar os meios que o levassem a esse fim. Eis escolaridade. aqui pouco mais ou menos o fio dos seus raciocínios. Pelo ofício do Clérigo: sacerdote pai... (pensava ele) ganha-se, é verdade, dinheiro quando se tem jeito, católico. porém sempre se há de dizer: — ora, é um meirinho! [...] Pelo meu cura: padre ofício... verdade é que eu arranjei-me [...], porém não o quero fazer responsável por uma paróquia. escravo dos quatro vinténs dos fregueses... Seria talvez bom mandá-lo ao estudo... porém para que diabo serve o estudo? Verdade é que ele parece ter boa memória, e eu podia mais para diante mandá-lo a Coimbra... Sim, é verdade... eu tenho aquelas patacas; estou já velho, não tenho filhos nem outros parentes... mas também que diabo se fará ele em Coimbra? licenciado não: é mau ofício; letrado? era bom... sim, letrado... mas não; não, tenho zanga a quem me lida com papéis e demandas... Clérigo?... um senhor clérigo é muito bom... é uma coisa muito séria... ganha-se muito... pode vir um dia a ser cura. Está dito, há de ser clérigo... ora, se há de ser: hei de ter ainda o gostinho de Gravura retratando a Rua Direita, a principal via do o ver dizer missa... de o ver pregar na Sé, e Rio de Janeiro, durante o desembarque da família real. então hei de mostrar a toda esta gentalha Félix-Émile Taunay (1795-1881), 1821. Coimbra: cidade de Portugal onde muitos brasileiros cursavam o Ensino Superior. Reprodução/Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, RJ O pequeno, enquanto se achou novato em casa do padrinho, portou-se com toda a sisudez e gravidade; apenas porém foi tomando mais familiaridade, começou a pôr as manguinhas de fora. Apesar disto porém captou do padrinho maior afeição, que se foi aumentando de dia em dia, e que em breve chegou ao extremo da amizade cega e apaixonada. Até nas próprias travessuras do menino, as mais das vezes malignas, achava o bom do homem muita graça; não havia para ele em todo o bairro rapazinho mais bonito, e não se fartava de contar à vizinhança tudo o que ele dizia e fazia; às vezes eram verdadeiras ações de menino malcriado, que ele achava cheio de espírito e de viveza; outras vezes eram ditos que denotavam já muita velhacaria para aquela idade, e que ele julgava os mais ingênuos do mundo. 106 L ite ra tu ra Não escreva no livro. aqui da vizinhança que não gosta dele que eu tinha muita razão em lhe querer bem. Ele está ainda muito pequeno, mas vou tratar de o ir desasnando aqui mesmo em casa, e quando tiver 12 ou 14 anos há de me entrar para a escola. desasnando: ensinando, instruindo. Tendo ruminado por muito tempo esta ideia, um dia de manhã chamou o pequeno e disse-lhe: — Menino, venha cá, você está ficando um homem (tinha ele 9 anos); é preciso que aprenda alguma coisa para vir um dia a ser gente; de segunda-feira em diante (estava em quarta-feira) começarei a ensinar-lhe o b-a, ba. Farte-se de travessuras por este resto da semana. O menino ouviu este discurso com um ar meio admirado, meio desgostoso, e respondeu: — Então eu não hei de ir mais ao quintal, nem hei de brincar na porta? — Aos domingos, quando voltarmos da missa... — Ora, eu não gosto da missa. 2. a) Diferentemente da idealização romântica da criança, Leonardo é retratado como um menino travesso e já com “muita velhacaria para aquela idade”. O padrinho não gostou da resposta; não era bom anúncio para quem se destinava a ser padre; mas nem por isso perdeu as esperanças. ALMEIDA, Manuel Antônio de. Memórias de um sargento de milícias. Cotia: Ateliê, 2011. p. 81-83. 1. A obra de Manuel Antônio de Almeida retrata o cotidiano de determinada classe social do Rio de Janeiro na primeira metade do século XIX. De acordo com o trecho em estudo, qual é essa classe social? Justifique sua resposta. A classe social composta das camadas urbanas que hoje chamaríamos de classe média baixa, formada pelo barbeiro, pelo meirinho, etc. 2. No capítulo, são descritas algumas características de Leonardo quando garoto. a) A caracterização do protagonista se afasta da visão idealizada da criança pelos românticos, vista como dotada de pureza e ingenuidade. Explique essa afirmação com elementos do texto. b) Tanto na infância quanto na vida adulta, o protagonista é, com frequência, alvo de contrariedades e antipatias e de simpatias e favores. De que modo isso se apresenta no texto em estudo? c) Leonardo é considerado por alguns estudiosos o primeiro grande malandro da literatura brasileira. Tendo em vista essa informação e as respostas anteriores, discuta com os colegas e o professor: Que elementos do texto apontam para o perfil de malandro do protagonista? Leonardo é esperto, já dotado de certa malícia e de uma personalidade que atrai desafetos e, ao mesmo tempo, a afeição e favores de pessoas, que resolvem os problemas dele sem que ele tenha que fazer nenhum esforço. 3. O barbeiro faz planos para o futuro de Leonardo. a) O pai de Leonardo era meirinho. Por que o barbeiro rejeita a possibilidade de Leonardo seguir segundo ele, meirinho só ganharia dinheiro se fosse efetivamente capaz de realizar o trabalho (se essa profissão? Porque, tivesse “jeito”) e, além disso, não era uma profissão de prestígio na sociedade. b) Entre as alternativas de futura ocupação que imagina para seu afilhado, o barbeiro se decide pela de clérigo. Discuta com os colegas e o professor: Que efeito de sentido essa decisão constrói no texto em estudo? Registre a resposta no caderno. Constrói um efeito cômico, pois, ironicamente, ela põe em evidência a discrepância entre a visão que o barbeiro tinha do afilhado e o que o menino realmente era: um garoto travesso e malicioso, sem nenhuma vocação para o sacerdócio. 4. Releia estes trechos: • O pequeno [...] apenas porém foi tomando mais familiaridade, começou a pôr as manguinhas de fora. • sentado à porta da rua, entendia com quem passava e com quem estava pelas janelas • O menino ouviu este discurso com um ar meio admirado, meio desgostoso a) Em Memórias de um sargento de milícias, a linguagem se caracteriza por um estilo espontâneo, associado a registros informais. Qual trecho evidencia tal característica? Justifique sua resposta. O primeiro trecho; nele a expressão “manguinhas de fora” explicita a informalidade do texto. b) No segundo trecho, infira: Que sentido o trecho “entendia com quem passava” adquire, no contexto em que está inserida? aborrecia, provocava, “respondia” a quem passava 2. b) De um lado, Leonardo sofre a contrariedade de ser abandonado pelos pais e, em razão de suas travessuras, fica sujeito ao desafeto de seus vizinhos. De outro, ele é alvo do afeto e dos favores do padrinho, que lhe dá um lar e se preocupa com seu futuro (estudos, carreira, herança). Li te ra tu ra 107 E NTRE TEX TO S Reprodução/Museus Castro Maya, Rio de Janeiro, RJ. O romance histórico Era no tempo do rei, de Ruy Castro, estabelece uma relação intertextual com Memórias de uma sargento de milícias ao representar, ficcionalmente, uma relação de amizade entre d. Pedro, filho de d. João VI, e Leonardo, o protagonista do romance de Manuel Antônio de Almeida. Na narrativa, eles são dois garotos de 12 anos que, juntos, vivem aventuras. Leia, a seguir, um trecho do livro. Aqueduto da Carioca na primeira metade do século XIX, em pintura de Richard Bate (1775-1856). A construção, hoje conhecida por Arcos da Lapa, era chamada Arcos da Carioca na época de d. João VI. amuradas: paredões, muros de arrimo. manilha: tubo de barro usado na canalização subterrânea de água e esgoto. Os Arcos da Carioca A monumental arcaria de pedra e cal se oferecia a eles, com seus quase 300 metros de extensão a perder na noite, rumo ao morro do Desterro. Apesar da escuridão, Pedro e Leonardo podiam ver a garganta de amuradas, abrigando o cano de argila que trazia a água do rio Carioca. Os meninos saltaram sobre a manilha e correram ainda mais depressa, a 18 metros do chão da Lapa. Na disparada, foram deixando para trás, lá embaixo, a rua dos Arcos, cortada pela rua do Lavradio, e a de Mata-cavalos. Visto de cima, o crepitar das velas acesas dentro das casas fazia a cidade parecer uma comunidade de pirilampos. Mas eles não tinham tempo para olhar, só para correr — era melhor nem olhar —, cuidando para não escorregar do cano e esperando que os soldados do Vidigal, cujas botas ouviam a distância, desistissem da perseguição. Bem no meio dos Arcos, sobre a rua das Mangueiras, pararam por um instante, para apurar os ouvidos, e sentiram que o ruído das botas inimigas diminuíra ou silenciara — como se os soldados tivessem feito alto para descansar ou dado meia-volta. Mas, e se fosse um truque? E se apenas tivessem tirado as botas para correr melhor? Pedro e Leonardo esperaram um pouco mais. Na súbita quietude, era possível agora ouvir até o ruído da água dentro do cano — a água que nascia das fontes do Corcovado, do Silvestre e das Paineiras, descia por quilômetros de suaves quedas até Laranjeiras, formava o rio 108 Não escreva no livro. Eles também estavam exaustos, mas não podiam facilitar. Retomaram a corrida no mesmo ritmo, ou tanto quanto lhes permitiam as pernas e os pulmões, e finalmente chegaram ao Desterro, porto do convento de Santa Teresa. Quase sem fôlego, desceram pela ladeira que dava para a rua dos Barbonos, entraram pela travessa do Mosqueira e saíram defronte à igreja, no largo da Lapa. Estavam a salvo. Para Leonardo, uma correria como aquela era quase de rotina, mas, para Pedro, não podia ser mais emocionante. Nos últimos 15 minutos, ele protagonizara um quiproquó entre a multidão e a tropa, a luta contra os homens do Vidigal, a fuga pelo morro e a travessia pelos Arcos. Aquela estava sendo a maior aventura de sua vida — algo com que sonhara desde o dia em que espiara pela janela de seu quarto no Paço e vira o Rio à sua frente pela primeira vez. quiproquó: confusão. Logramos: enganamos. fossem à forra: vingassem-se. 2. b) Sem mostrar entusiasmo, Leonardo já previa as consequências de tal peripécia: a vingança da polícia, que iria castigar até quem somente havia testemunhado a humilhação da tropa; e, em razão da travessura de Pedro (espremer “limão-de-cheiro com água de pimenta” no major Vidigal), ganhar a inimizade desse soldado graduado. Eduardo Knapp/Folhapress Carioca e tomava o aqueduto para abastecer os chafarizes da cidade. O barulhinho do líquido escorrendo despertou-os para o fato de que estavam há horas sem urinar. Assim, depois de se certificarem de que não vinha mais ninguém pelo aqueduto, Pedro e Leonardo botaram os pipis para fora, miraram os ornamentos vazados na amurada e regaram a Lapa lá de cima mesmo, pelo buraco, do alto dos Arcos. “Logramos a tropa, Leonardo!”, exclamou Pedro. “Somos muito rápidos para eles. Devem estar cobertos de vergonha e humilhação pela derrota!” Que tolo o Pedro, pensou Leonardo. Não sabia que era preciso derrotar a polícia — sempre —, mas que era perigoso humilhá-la. Os soldados nunca esqueciam uma ofensa e não se davam por contentes enquanto não fossem à forra. E, quando isso acontecia, seus chicotes sobravam para todos, até para quem apenas testemunhara a humilhação, e exatamente por isso. E só então Leonardo lhe disse, com o ar mais natural do mundo, que o soldado em cujos olhos ele, Pedro, espremera o limão-de-cheiro com água de pimenta — e, com isso, ganhara um inimigo formidáda sociedade, uma peripécia vel e para sempre — era o major Vidigal. pulares como aquela era algo rotineiro. CASTRO, Ruy. Era no tempo do rei. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2007. p. 108-110. 1. Pedro, em companhia de Leonardo, sai do Paço (residência da família real) e se aventura pelas ruas da cidade. De acordo com o texto lido, em Protagonizar uma confusão entre a tropa e a multidão, lutar que consiste essa aventura? com os soldados do Vidigal, fugir pelo morro e atravessar, pelo alto, os Arcos da Carioca até chegar ao largo da Lapa. 2. Essa experiência tem um impacto diferente para cada um dos personagens. Para Pedro era a maior aventura de sua vida, e, além a) Como Pedro vê tal peripécia? disso, enganar a tropa lhe parecia um triunfo. b) E qual é a percepção de Leonardo? Ruy Castro O escritor e jornalista Ruy Castro, nascido em 1948, em Caratinga (MG), é autor de biografias, ensaios e livros de reconstituição histórica. Em Era no tempo do rei, ele mistura ficção e realidade para compor a narrativa, que se passa em 1810, dois anos após a chegada da família real portuguesa ao Brasil. Foto de 2019. c) Conclua: Por que o impacto de tal peripécia é diferente para cada peros meninos têm origens e experiências de vida diferentes. Para Pedro, sonagem? Porque um príncipe que vivia somente no Paço, tratava-se de uma experiência emocionante, enquanto para Leonardo, um garoto travesso vindo das camadas po- 3. De acordo com o trecho lido, o Leonardo de Era no tempo do rei mantém traços semelhantes aos do protagonista de Memórias de um sargento de milícias? Justifique sua resposta com elementos do texto. Sim. Tal como na obra do século XIX, o Leonardo de Ruy Castro é travesso (a correria da polícia era “quase de rotina”) e nada ingênuo, pois tem a malícia de considerar que, embora fosse preciso derrotar a polícia, “era perigoso humilhá-la”. 109 BN CC Competências gerais da Educação Básica: 1, 2, 3, 7, 9 Competências específicas de Linguagens: 1, 2, 3, 4, 6 Habilidades de Linguagens: EM13LGG101, EM13LGG102, EM13LGG103, EM13LGG201, EM13LGG202, EM13LGG203, EM13LGG302, EM13LGG401, EM13LGG402, EM13LGG601, EM13LGG604 Habilidades específicas de Língua Portuguesa: EM13LP01, EM13LP02, EM13LP06, EM13LP07, EM13LP08, EM13LP09, EM13LP10, EM13LP46, EM13LP49 Língua e linguagem Concordância nominal e concordância verbal No início deste capítulo, você analisou o efeito de sentido de determinado emprego da 3a pessoa gramatical na obra Iracema: a protagonista e Martim referem-se a si mesmos, assim como um ao outro, nessa pessoa do discurso, e não na 1a pessoa ou na 2a pessoa. Tal peculiaridade era uma tentativa de José de Alencar de mostrar que línguas indígenas têm suas particularidades. Releia, a seguir, um desses trechos: — O que espreme as lágrimas do coração de Iracema? — Chora o cajueiro quando fica tronco seco e triste. Iracema perdeu sua felicidade, depois que te separaste dela. — Não estou eu junto de ti? — Teu corpo está aqui; mas tua alma voa à terra de teus pais, e busca a virgem branca, que te espera. […] — O guerreiro branco é teu esposo; ele te pertence. […] — Quando teu filho deixar o seio de Iracema, ela morrerá, como o abati depois que deu seu fruto. Então o guerreiro branco não terá mais quem o prenda na terra estrangeira. […] Iracema é a folha escura que faz sombra em tua alma; deve cair, para que a alegria alumie teu seio. 3. a) Formas verbais: Espreme, chora, fica, separaste, estou, está, voa, busca, espera, deixar, deu, prenda, faz, alumie. Formas pronominais, na ordem em que aparecem no texto: te, eu, ti, teu, tua, teus, te, teu, te, teu, seu, quem, tua, teu. 1. Nesse trecho, Martim também, ao falar de si mesmo, faz uso peculiar da 3a pessoa em diálogo com Iracema. Em que parágrafo? Por que, em alguns momentos, como no 3o parágrafo, ele usa a 1a pessoa para se referir a si mesmo, ou seja, por que o autor mesclou, na fala de Martim, esses dois modos de usar a língua? No quinto parágrafo (“O guerreiro branco é teu esposo; ele te pertence.”). Consulte o restante das respostas nas Orientações específicas do Manual do Professor. 2. No caderno, reescreva o trecho transcrito de forma que cada personagem se refira a si mesmo por meio do emprego da 1a pessoa do singular e a seu interlocutor por meio da 2a pessoa do singular. Faça as adaptações necessárias para que a reescrita fique de acordo com a norma-padrão. Consulte as respostas das atividades 2 e 3 (item c) nas Orientações específicas do Manual do Professor. 3. Observe as formas verbais e pronominais empregadas no trecho em estudo. a) Quais delas permaneceram inalteradas na reescrita feita por você na questão 2? b) Quais delas sofreram alterações na reescrita feita por você na questão 2? c) Compare suas respostas aos itens anteriores e troque ideias com os colegas e o professor. Depois, conclua: Por que, na reescrita da questão 2, algumas formas verbais e pronominais 3. b) Formas verbais: Perdi, sou, pertenço, morrerei, terás, sou, sofreram alterações e outras, não? devo (cair). 4. Releia a primeira frase da última fala de Iracema: Formas pronominais: teu (de Iracema); Eu (Iracema); minha (sua); de mim (dela); eu (o guerreiro branco); eu (ele); meu (de Iracema), eu (Iracema), tu (o guerreiro branco), te (o), eu (Iracema). — Quando teu filho deixar o seio de Iracema, ela morrerá, como o abati depois que deu seu fruto. a) Quais termos do texto são colocados em relação pelos pronomes possessivos em destaque? Em qual pessoa e qual número eles estão flexionados? Explique a relação dessa flexão com o conteúdo da fala de Iracema. São colocados em relação pelo pronome possessivo teu o interlocutor a quem Iracema 110 Língua e linguagem se dirige, Martin, e o filho que ele terá com Iracema. E pelo pronome possessivo seu são colocados em relação o abati e o fruto que nasce dele. No primeiro caso, a flexão é feita na 2a pessoa porque Iracema trata Martin nessa forma, tu. No segundo caso, a flexão é feita na 3a pessoa porque o abati é o nome da planta sobre a qual Iracema fala, referindo-se a ela na 3a pessoa. Não escreva no livro. b) Reescreva a fala, trocando a palavra abati por árvores e fazendo as demais alterações necessárias de acordo com a norma-padrão. Observe a reescrita e responda: houve alteração no pronoteu filho deixar o seio de Iracema, ela morrerá, como as árvores me possessivo seu, destacado no texto? Quando depois que deram seu fruto. Não houve alteração no pronome seu. c) Agora reescreva a fala trocando a palavra fruto por frutas e fazendo as demais alterações necessárias de acordo com a norma-padrão. Observe a reescrita e responda: houve alteração no pronome possessivo seu, destacado no texto? Quando teu filho deixar o seio de Iracema, ela morrerá, como o abati depois que deu suas frutas. Houve alteração no pronome seu, que precisou ser modificado para suas. d) Compare suas respostas aos itens b e c, troque ideias com os colegas e o professor e conclua: Como é feita a concordância do pronome possessivo? Os estudantes devem, com base nas reescritas feitas, analisar a concordância do pronome possessivo, que concorda em pessoa com um dos termos ao qual se refere (nos casos analisados, tu e abati), e em gênero e número com o outro (nos casos analisados, filho e fruto e, na reescrita feita — O que espreme as lágrimas do coração de Iracema? no item c, frutas). 5. Releia as duas primeiras falas do trecho: — Chora o cajueiro quando fica tronco seco e triste. a) Reescreva-as no caderno, trocando a expressão “o que” por “quais inquietações”, a expressão “as lágrimas” pela palavra choro, a palavra cajueiro por árvores e a palavra tronco pela expressão “as cascas”. Faça as demais adaptações necessárias para que a reescrita fique de acordo com a norma-padrão. Quais inquietações espremem o choro do coração de Iracema?; Choram as árvores quando ficam as cascas secas e tristes. b) Compare sua reescrita com a versão original e conclua: Que adaptações foram feitas para atender ao comando do item a? Espera-se que os estudantes observem que, para manter o texto de acordo com a norma-padrão, há a necessidade de alterar o gênero e o número dos artigos e adjetivos relacionados aos substantivos trocados, bem como o número dos verbos cujos sujeitos tiveram também o número alterado. Reflexões sobre a língua Ao reescrever algumas falas dos personagens de Iracema, nas questões anteriores, você pôde observar que os artigos, pronomes e adjetivos se alteram em gênero e número para concordar com o substantivo ao qual se referem. Por isso, tais palavras são também trocadas quando se modifica o substantivo em casos de alterações tais como “as lágrimas” por “o choro”; “tronco seco” por “cascas secas”, ou, ainda, “seu fruto” por “suas frutas”. Você viu também, ao realizar as atividades, que as formas verbais se alteram em conformidade com os sujeitos a que se referem, concordando com eles em número e pessoa. É o que acontece, por exemplo, com o verbo ser, que se apresenta na forma singular é para concordar com o sujeito “O guerreiro branco”, e se apresenta na forma da 1a pessoa sou para concordar com o sujeito Eu. Ou, ainda, a forma chora, no singular, que concorda com o sujeito “o cajueiro”, e a forma plural choram, que concorda com o sujeito no plural “as árvores”. De fato, para sentenças formadas por sujeito simples + verbo + complemento(s), ainda que em ordem variável, a gramática normativa recomenda a concordância do verbo com o sujeito. Assim: Concordância nominal é a conformidade dos determinantes em gênero e número com o núcleo nominal a que se referem. Concordância verbal é a conformidade do verbo com seu sujeito em número e pessoa. Há, entretanto, diversos casos, tanto em relação à concordância nominal quanto à concordância verbal, que fogem a esse princípio geral. Como falante nativo da língua portuguesa, você certamente sabe concordar, na maioria dos enunciados que constrói, os determinantes com seus referentes, bem como os verbos com os respectivos sujeitos, mas é importante saber que essas regras diferem de uma variedade linguística para outra. Portanto, elencamos a seguir algumas das principais orientações para fazer a concordância nominal e a concordância verbal segundo a norma-padrão. Não há necessidade de memorizar essas regras. No entanto, é importante conhecê-las para fins de consulta e como informação complementar. Língua e linguagem 111 Casos especiais de concordância nominal Um determinante que se refere a substantivos antepostos de gêneros diversos hu imtmphoto/S tterstock Assume a forma plural ou pode concordar com o elemento mais próximo. Observe: Considerava o neto e a neta maravilhosos. Considerava a filha e a neta maravilhosas. Poderia perder o apartamento e a casa herdados. Poderia perder a fazenda e a casa herdadas. Poderia perder o apartamento e a casa herdada. Uma palavra adjetiva que se refere a substantivos pospostos de gêneros diversos Concorda com o elemento mais próximo ou pode assumir a forma plural. Observe: Soube que tinha próspera empresa e negócios. Considerava maravilhosos o neto e a neta. Considerava maravilhoso o neto e a neta. Considerava maravilhosa(s) a filha e a neta. Dois ou mais determinantes que se referem a um único substantivo O substantivo fica no singular e usa-se artigo antes de cada termo adjetivo ou o substantivo vai para o plural e não se usa artigo. Observe: A voz grave e a aguda se complementam no coro. As vozes grave e aguda se complementam no coro. 112 Língua e linguagem Não escreva no livro. É proibido / É necessário / É bom / É claro vedpku/Shutterstock Se o sujeito vem precedido de artigo ou outro determinante, concorda com ele; se o sujeito tem sentido genérico, mantém-se o masculino singular. Observe: É proibido entrada de visitantes. amingdesign/Shutterstock É proibida a entrada de visitantes. Anexo / obrigado / próprio / mesmo / quite Concordam com os nomes a que se referem: As fotografias seguem anexas. O próprio dono garantiu que os documentos eram verdadeiros. Ela mesma garantiu que viria. Estamos quites com o fornecedor. Observação: A expressão em anexo é sempre invariável: As fotografias seguem em anexo. Bastante / pouco / muito / barato / caro / meio Para definir a concordância desses termos, é preciso primeiro identificar se eles têm valor adverbial (se eles se referem a verbos ou adjetivos) ou adjetivo (se eles se referem a substantivos) no contexto analisado: Os dois atletas têm características bastante/muito semelhantes. advérbio adjetivo Bastantes/muitos atletas compareceram ao evento. adjetivo substantivo Só / a sós A expressão a sós é sempre invariável. Só é invariável se equivale a somente e variável se equivale a sozinho, concordando, neste último caso, com seu referente. Observe: Língua e linguagem 113 Só os mais jovens saíram mais cedo. = somente (advérbio) O jovem saiu só. = sozinho (adjetivo) Os dois jovens saíram sós. = sozinhos (adjetivo) APLIQUE O QUE APRENDEU André Dahmer/Acervo do Cartunista Leia a tira a seguir e responda às questões 1 a 3. DAHMER, André. Malvados. Folha on-line, São Paulo, 6 fev. 2016. 1. Qual é o sentido usual da expressão “entrar na internet”, utilizada no 1o quadrinho? Acessar a rede, conectar-se a ela. 2. Sobre a fala do 2o quadrinho: a) Quem é o sujeito da forma verbal ficam, tendo em vista toda a tira? O sujeito é “As pessoas”. b) Reescreva a frase no caderno, desta vez com o sujeito indivíduos e fazendo as alterações necessárias. “Os indivíduos ficam raivosos e violentos.” c) Reescreva a frase, agora com o sujeito o internauta e fazendo os ajustes necessários. “O internauta fica raivoso e violento.” d) Reescreva mais uma vez a frase, utilizando como sujeito “homens e mulheres” e fazendo as adaptações necessárias. “Homens e mulheres ficam raivosos e violentos.” 3. A fala do 3o quadrinho revela um novo sentido para uma palavra utilizada anteriormente na tira. a) A qual objeto a internet é comparada? A um carro. b) Qual é a palavra que ganha um novo sentido? Que sentido é esse? A palavra entrar, com o sentido de “mover-se para dentro”. c) Explique por que esse novo sentido contribui para a criação do efeito de humor da tira. Porque quebra a expectativa do leitor ao explorar um sentido diferente do verbo entrar e ao fazer uma comparação inusitada entre a internet e o carro com base no fato de que o verbo entrar também é X s e am ig ue s? utilizado na expressão “entrar no carro”. C ar @ s al un Você já deve ter observado, nas mídias e nas redes sociais, uma discussão por vezes acalorada em torno do gênero das palavras que se referem a uma pessoa ou a um grupo de pessoas. Trata-se de um debate que extrapola as regras gramaticais e atinge os âmbitos social e cultural. Com o intuito de não discriminar sujeitos que não se definem especificamente como homens ou como mulheres, surgem alternativas de grafia que mantêm indeterminado o gênero das pessoas a quem se referem, como ocorre com as palavras no título deste boxe. Nesses casos, vale observar que usar um critério estritamente gramatical para avaliar o uso da língua pode não ser adequado, uma vez que a língua reflete perspectivas e comportamentos sociais e é modificada pela sociedade. 114 Língua e linguagem Não escreva no livro. Concordância verbal: casos especiais, segundo a norma-padrão Construções com sujeito composto I. Quando formado por elementos claramente distintos, levam o verbo a ser usado no plural. Crise econômica e crise política assolam diversos países atualmente. II. No caso em que os elementos do sujeito se ligam pela conjunção ou: • o verbo fica no singular se essa conjunção indica exclusão: O filho ou o marido a acompanhará, pois só é permitido levar um convidado. • o verbo fica no plural se for feita referência a todos os elementos que compõem o sujeito: Amarelo ou laranja ficam bem em você. III. Nos casos em que o sujeito composto é finalizado por tudo, nada, nenhum, ninguém, cada qual, cada um, o verbo fica no singular: Andrew Shevchuk/Shutterstock Tio, tias, irmãos, cada um se organizou para comparecer à festa. Os cadernos, os lápis, os estojos coloridos, tudo lembrava os tempos de escola. IV. Quando o sujeito composto é posposto ao verbo, o verbo pode ir para o plural ou concordar com o elemento mais próximo. Viajaram o pai e os filhos. Viajou o pai e os filhos. V. Quando o sujeito é formado por nomes que só têm forma plural, o verbo concorda com o artigo que acompanha o nome ou fica no singular se o nome dispensa a presença de artigo. Os Estados Unidos ficaram em segundo lugar no quadro de medalhas. O Amazonas é um rio muito extenso. Vassouras fica a pouco mais de 100 km do Rio de Janeiro. Construções com pronomes relativos I. Nas construções em que o sujeito é formado pelo pronome relativo que, o verbo concorda em pessoa e número com o antecedente. Fui eu que paguei a conta. Foram eles que pagaram a conta. Fomos nós que pagamos a conta. II. Nos casos em que o sujeito é formado pelo pronome relativo quem, o verbo preferencialmente fica na 3a pessoa do singular, embora seja possível concordá-lo em pessoa e número com o antecedente. Somos nós quem fica aqui esperando. Somos nós quem ficamos aqui esperando. Língua e linguagem 115 Outros casos especiais I. Nos casos em que o sujeito é formado por expressões como cerca de, perto de, mais de, menos de, o verbo concorda com o numeral que segue a expressão. Mais de uma pessoa chegou mais cedo. Menos de dez pessoas chegaram mais cedo. II. Nas construções em que o sujeito é formado por expressões como alguns, quantos, quais de nós/vós, o verbo preferencialmente concorda com o pronome pessoal (nós/ vós) embora seja possível concordá-lo com o pronome indefinido (3a pessoa do plural). Quantos de nós ficaremos aqui esperando? Quantos de nós ficar‹o aqui esperando? III. Nas orações em que o sujeito é composto de expressões um dos que/uma das que, o verbo pode ficar no singular ou ir para o plural, dependendo da ênfase que se quer dar à referência do verbo (se a todos ou se a um que se destaque). O filme brasileiro foi um dos que ganharam o prêmio. O filme brasileiro foi um dos que ganhou o prêmio. IV. Nas orações em que o sujeito é formado pelas expressões um e outro, nem um nem outro, o verbo pode ficar no singular ou ir para o plural, indiferentemente. Um e outro foi embora. Um e outro foram embora. Nem um nem outro entendeu direito. Nem um nem outro entenderam direito. V. Nas construções em que o sujeito é formado pelas expressões parte de, a maioria de, metade de, grande parte de, se elas forem seguidas por uma palavra no singular, o verbo fica no singular; se forem seguidas por uma palavra no plural, o verbo pode ficar no singular ou ir para o plural. A maioria da turma preferiu sair mais cedo. A maioria dos alunos preferiu sair mais cedo. A maioria dos alunos preferiram sair mais cedo. Ve nd e- se ou ve nd em -se ap art am en tos? Há atualmente uma discussão, que envolve tanto gramáticos quanto linguistas, sobre a concordância dos verbos nas orações em voz passiva sintética. Alguns linguistas consideram que, nesses casos, o sujeito é indeterminado e o verbo deveria ficar na 3a pessoa do singular, como acontece com verbos transitivos indiretos e intransitivos. Concordâncias dos verbos impessoais e do verbo ser I. Os verbos impessoais são empregados apenas na 3a pessoa do singular, independentemente do enunciado em que se inserem. São verbos impessoais: • Os que indicam fenômenos da natureza: Choveu todos os dias desse feriado. Relampejou muito e as crianças ficaram assustadas. 116 Língua e linguagem Não escreva no livro. • Haver com sentido de existir, acontecer: Há três casas nessa rua. Houve quatro sessões da peça no fim de semana. • Haver, fazer, estar, ir indicando tempo: Visitei esta cidade há três anos. Faz três anos que visitei esta cidade. Está quente aqui. Já vai para três anos que estive nesta cidade. II. O verbo ser pode concordar com o sujeito ou com o predicativo do sujeito nas frases em que é empregado. Entre os fatores que determinam a concordância, estão os casos em que o sujeito ou o predicativo são: • nome de pessoa ou pronome pessoal – o verbo concorda com a pessoa gramatical: Marcos foi as alegrias da família em sua festa de aniversário de 2 anos. • nome de coisa – o verbo concorda preferencialmente com o que estiver no plural: Os programas de TV são muito variados. APLIQUE O QUE APRENDEU Laerte/Acervo da cartunista Leia a história em quadrinhos a seguir para responder às questões 1 a 7. LAERTE. Mãe – como e quando surgiu. Folhinha, São Paulo, 8 maio 2010. Disponível em: https://tedit.net/1z934o. Acesso em: 20 set. 2024. Língua e linguagem 117 2. b) É importante os estudantes observarem que, na história, a origem de pais e mães é contada de forma inverossímil, ou seja, não é plausível, uma vez que pai e mãe são tratados de forma totalmente apartada, como se não houvesse a necessidade da presença dos dois para que fosse concebida uma criança. 1. Nos quatro primeiros quadrinhos é contada uma história pela voz de um narrador. a) Que expressão é utilizada para marcar o tempo em que se passa essa história? “Há milhares e milhares de anos” b) Que expressão temporal é empregada para marcar uma mudança no cenário inicial da história? “Um dia” 2. O 5o e o 6o quadrinhos revelam uma reviravolta em toda a história, acrescentando um novo sentido a tudo que veio antes. 2. c) Confirma, pois mostra que será contada exatamente a mesma história inverossímil, apenas trocando os personagens, o que reforça a ideia de que se trata de uma história inventada. a) O que o 5o quadrinho sugere sobre a história contada nos quatro primeiros quadrinhos? Explique. Que se trata de uma história inventada, porque mostra que ela é fruto de uma pesquisa de duas crianças em uma consulta à internet b) A origem de pais e mães contada pela história é aceitável? Justifique sua resposta. c) O último quadrinho confirma ou contrasta com a ideia do quadrinho anterior? Por quê? d) Considerando suas respostas aos itens anteriores, conclua: O que esses quadrinhos sugerem sobre a internet em geral? Que na internet há muitas histórias falsas, nas quais não se pode confiar. 3. Reescreva o trecho a seguir no caderno fazendo as substituições propostas em cada um dos itens. Só existia pai e a filharada comia apenas macarrão e ovo frito. a) O verbo existir pelo verbo haver; Só havia pai... b) Pai por pai e avô; Só existiam pai e avô... c) O verbo existir pelo verbo haver e pai por pai e avô; Só havia pai e avô... d) A filharada por os filhos. ...e os filhos comiam apenas macarrão e ovo frito. 4. Observe a frase “E sempre perdia a perua!”, do 2o quadrinho. 4. a) Ao pai. Abra a discussão com a turma: embora, no contexto, quem de fato deixava de pegar a perua para ir à escola fossem as crianças, o texto atribui a responsabilidade ao pai, o que fica evidente porque a forma verbal está no singular, concordando com o sujeito “o coitado”. a) A qual(is) personagem(ns) se refere a forma verbal perdia? Justifique sua resposta. b) Sem mudar o contexto da história, reescreva a frase no caderno alterando o sujeito do verbo perder e fazendo as devidas alterações em sua concordância. Entre outras possibilidades: e as crianças sempre perdiam a perua; a filharada sempre perdia a perua. 5. Justifique o emprego do verbo haver no singular na frase “havia outros milhares e milhares de anos”, no 3o quadrinho. Nesse contexto, o verbo haver é impessoal, por isso está na 3ª pessoa do singular. 6. Reescreva no caderno a frase “Foi assim que surgiu a mãe!”, fazendo as devidas alterações depois de substituir “a mãe” por: a) as mães; Foi assim que surgiram as mães. b) a maioria dos homens; Foi assim que surgiu/surgiram a maioria dos homens. Concordância ideológica ou silepse c) nós, seres humanos. Foi assim que surgimos nós, seres humanos. Leia a seguir uma afirmação de Txana-Bane, indígena Huni Kuin da Amazônia acreana, ao defender que o dia 19 de abril, conhecido como “Dia do índio” no Brasil, deve ser visto como um momento de formação, de estudo e de valorização das culturas indígenas: Os indígenas somos um povo muito plural, com muitas culturas e línguas. ÍNDIO não é peça de museu. Museu do Amanh‹. Disponível em: https://tedit.net/m4x4l0. Acesso em: 20 set. 2024. Em casos como esse, a concordância da forma verbal somos com o sujeito “Os indígenas” não se dá pela forma da pessoa gramatical, mas sim pelo sentido. Ao utilizar essa estratégia, o enunciador se inclui como parte do grupo de indígenas a que se refere, sem necessariamente utilizar a forma pronominal nós. Essa construção caracteriza silepse de pessoa. Também é possível fazer a concordância pela silepse de gênero (como em “Vossa alteza parece cansado”) ou de número (como em “A família se arrumou rápido e logo estavam prontos para sair”). 118 Língua e linguagem Não escreva no livro. Concordância, variação linguística e preconceito Você já sabe que fala e escrita são modalidades diferentes da língua e que cada uma tem regras próprias, as quais podem variar conforme a finalidade e as situações de comunicação em que os textos, orais ou escritos, estão inseridos. Você também já viu que a norma-padrão é uma convenção. Portanto, é importante considerar que, especialmente na fala, existem formas diversas de fazer concordância e nem todas elas correspondem ao que é sinalizado pela norma-padrão. Há, por exemplo, variedades que fazem a concordância com base em uma regra de economia, flexionando apenas o primeiro termo da expressão nominal, ao passo que a norma-padrão preza pela redundância, uma vez que valoriza a flexão de todos os termos. Como vimos, a gramática normativa indica que os determinantes devem concordar em gênero e número com o referente. Há, no entanto, gramáticas que descrevem diferentes variedades linguísticas e mostram que, em algumas delas, especialmente nas mais populares, a concordância pode ter como critério uma lógica um pouco diferente. Observe o quadro a seguir. Destacar que o uso de “popular“ e “culto“ pelo autor pode levar a uma visão preconceituosa e, por isso, atualmente se prefere usar “mais informal“ e “mais formal“. Português brasileiro popular Português brasileiro culto Simplificação da concordância nominal: (I) expressa pelo determinante: as pessoa. (II) simplificação acentuada quando o substantivo e o adjetivo vêm no diminutivo: aqueles cabelim branquim. Manutenção da concordância nominal com a redundância de marcas: (I) as pessoas, aqueles cabelinhos branquinhos. (II) Em algumas regiões do país a simplificação alcançou também os diminutivos. Manutenção da concordância apenas quando há saliência fônica entre a forma do singular e a forma do plural: (I) Concordância nominal: a colher/as colheres. (II) Concordância verbal: as pessoa saíru. Manutenção da morfologia do substantivo e do verbo no plural: as colheres, as pessoas saíram. Em Minas Gerais a redução morfológica se mostra também na fala culta: cantáru, bebêru, fizéru, saíru. Perda progressiva do -s para marcar o plural, que passa a ser expresso pelo artigo: os hómi, as pessoa. Manutenção das regras redundantes da marcação do plural, salvo na fala rápida: os homens, as pessoas. CASTILHO, Ataliba Teixeira de. Gramática do português brasileiro. São Paulo: Contexto, 2010. p. 207-208. Marcar o plural em todos os elementos pode ser considerado redundante, motivo pelo qual algumas variedades populares marcam o plural apenas no primeiro elemento (especialmente quando não há saliência fônica, isto é, quando as formas do plural e do singular são parecidas, geralmente apenas com um s acrescido ao plural). Há alterações incorporadas mesmo por variantes de prestígio, como a redução morfológica em que, na oralidade, o ditongo da desinência verbal -am passa a -u, conforme mostram os exemplos do quadro. Agora observe estes exemplos, transcritos da fala de uma pessoa com formação universitária: [...] o fato de em um segundo morrer duas mil pe/ahn duzentas mil pessoas apavora [...]. [...] então sai as brigas em família [...]. [...] diz que falta elementos técnicos na empresa que eu trabalho que é de eletricidade [...]. CAMACHO, Roberto Gomes. Aspectos funcionais e estruturais da concordância verbal no português falado. Alfa: Revista de Linguística, São Paulo, Unesp, 1993, n. 37, p. 107. Disponível em: https://tedit.net/hjy6uu. Acesso em: 20 set. 2024. [Grifos nossos.] Língua e linguagem 119 4. b) O feminismo é uma construção. É necessário acrescentar o artigo no singular e no masculino, a fim de concordar com o substantivo feminismo. Esses trechos mostram que, mesmo falantes escolarizados, por vezes utilizam em suas falas concordâncias divergentes da norma-padrão, especialmente em casos nos quais o sujeito vem depois da forma verbal e não há grande diferença entre as formas verbais no plural e no singular (morrer – morrerem; sai – saem; falta – faltam). O fato de serem estruturadas por um princípio diferente daquele das regras da gramática normativa não torna essas variedades desorganizadas ou menos complexas. O que ocorre é que algumas delas têm pouco prestígio social, daí serem em geral tratadas de forma preconceituosa. O princípio da concordância está entre os aspectos mais frequentemente vistos de forma preconceituosa quando o falante não segue a norma-padrão, e é certo que a escola pode contribuir para que os falantes conheçam a norma e saibam empregá-la de forma adequada. Vale salientar, entretanto, que, por meio de uma análise atenta e especializada, as pesquisas da Ciência Linguística evidenciam que concordâncias diferentes da norma-padrão podem ocorrer na fala, independentemente de questões socioeconômicas ou nível de escolarização, e que tais construções fazem parte do processo de variação da língua. Em situações sociais mais formais e em exames e avaliações oficiais, é essencial considerar as regras da gramática normativa e, em cada contexto específico, deve-se avaliar qual será a melhor forma de adequar a linguagem à situação comunicativa em questão. Texto e enunciação Leia o texto a seguir e responda às questões 1 a 5. Feminismo é uma construção Desde que nascemos já estamos seguindo os passos escolhidos para nós. Há papéis a serem cumpridos. Meninas vestidas de rosa, meninos de azul. Chegamos ao ponto de uma empresa fabricar perucas para bebês. Para meninas, claro. Durante a infância, os brinquedos seguem o mesmo padrão de cores, e começamos a ver a divisão sexual do trabalho. Enquanto garotas brincam de lavar louça, eles estão construindo coisas e sendo super-heróis. Estes papéis de gênero são opressores para todos nós, mas as mulheres somos levadas a acreditar que não podemos desejar nada além daquilo. Forma-se, então, uma angústia dentro de nós, como se houvesse algo de errado, mas não conseguimos identificar o que é. Muitas de nós, que nos identificamos mais com as “brincadeiras de menino”, passamos a nos considerar menos mulheres. Menos. Incompletas. LAPA, Nádia. Feminismo é uma construção. Desacato, [s. l.], 1o jul. 2014. Disponível em: https://tedit.net/jjf7qo. Acesso em: 18 set. 2024. 1. Em suas experiências pessoais, você acredita que já viveu alguma situação que tenha sido determinada em função da divisão sexual apontada no texto? Explique. Resposta pessoal. 2. Ao longo do 1o parágrafo são utilizados verbos conjugados na 1a pessoa do plural. Nesse contexto, a quem se referem essas formas verbais? Justifique sua resposta com base no texto. 120 Trata-se de um “nós” que diz respeito à sociedade em geral, algo como “nós, sociedade”, “nós, seres humanos que vivemos nesta sociedade”, pois contrapõe genericamente os comportamentos de meninos e meninas. Língua e linguagem Não escreva no livro. 3. No 2o parágrafo, permanece o uso das formas verbais na 1a pessoa do plural, mas há uma mudança no referente. a) Qual trecho explicita essa mudança? “mas as mulheres somos levadas” b) Como se explica gramaticalmente a concordância feita nesse 2o parágrafo? Trata-se de uma silepse de gênero e número, ou uma concordância ideológica. c) Quem passa, portanto, a ser o referente? Um “nós” que inclui o enunciador e as mulheres, deixando o restante das pessoas de fora. 4. Releia o título do texto. a) Com qual termo do título concorda o artigo uma? Justifique sua resposta. Com o substantivo construção, que está no feminino. 4. b) O feminismo é uma construção. É necessário acrescentar o artigo no singular e no masculino, a fim de concordar com o substantivo feminismo. b) Reescreva o título, acrescentando um artigo definido antes do termo feminismo e justificando sua escolha em função do princípio de concordância. 5. Considerando sua reflexão sobre os usos da 1a pessoa do plural feitos no texto, troque ideias com os colegas e o professor: Que efeito de sentido foi provocado pelos diferentes pontos de vista adotados nesse artigo? Qual é a relação deles com a afirmação do título? Abra a discussão com a turma, pois pode haver variação nas respostas. 6. Reescreva no caderno as construções a seguir, extraídas do texto, fazendo as substituições solicitadas e as demais alterações necessárias. papéis a serem a) “Há papéis a serem cumpridos.” (substitua o verbo haver pelo verbo existir) Existem cumpridos. b) “[...] os brinquedos seguem o mesmo padrão de cores [...].” (substitua brinquedos por brincadeira) A brincadeira segue o mesmo padrão de cores... c) “[...] os brinquedos seguem o mesmo padrão de cores [...].” (substitua “os brinquedos” por “a maior parte dos brinquedos”) A maior parte dos brinquedos segue/seguem o mesmo padrão de cores... d) “Enquanto garotas brincam de lavar louça, eles estão construindo coisas e sendo super-heróis.” (substitua garotas por menina, louça por pratos e eles por menino) Enquanto uma menina brinca de lavar os pratos, um menino está construindo coisas e sendo super-herói. Leia a seguir expressões de uso corrente na fala brasileira e responda às questões 7 a 9. I. É nóis! II. Tá ligado? III. Tamo junto! IV. Suas linda! V. Tô de boa. primeira pessoa do plural “nós (es)tamo(s)”; e entre o adjetivo linda, flexionado no singular, e a forma pronominal suas, flexionada plural, indicando 7. Três dessas expressões contêm formas que se originam de um mesmo verbo. no que se está falando de mais de uma pessoa. a) Quais são elas e qual é esse verbo? II, III e V; o verbo é estar. b) Há outro verbo sendo utilizado em uma das expressões: que verbo é esse? O verbo ser, do item I. 8. Algumas dessas expressões subvertem a norma-padrão no que diz respeito à concordância. a) Qual expressão subverte a concordância verbal padrão? Justifique sua afirmação. “É nóis”. Só nessa construção há discordância entre a pessoa do pronome (1a do plural) e a pessoa da forma verbal (3a do singular). b) Quais expressões subvertem a concordância nominal padrão? Justifique sua afirmação. c) Como ficariam essas expressões segundo as regras de concordância nominal e verbal da norma-padrão? Elas teriam o mesmo efeito? Justifique sua resposta. “Somos nós”, ”Estamos juntos” e “Suas lindas!”. Não teriam o mesmo efeito, pois se trata de formas que exprimem identidade de grupo e que se descaracterizam ao ser alteradas. 9. À exceção da frase indicada por você no item a da questão anterior, a subversão à norma-padrão 8 b) “Tamo junto” e “Suas linda”. Há discordância, resa) Justifique essa afirmação com base nas terminações das formas verbais. pectivamente, entre o adjetivo junto, no singular, e a das demais expressões não está relacionada com a concordância verbal. b) Levante hipóteses: Qual é o motivo pelo qual essas formas não correspondem às formas da se aproximam de uma variedade oral, próxima da fala. No caso da expressão IV, “suas linda”, norma-padrão? Porque trata-se de uma expressão nominal, sem verbos, por isso não há concordância verbal. 9. a) Porque as formas verbais está, estamos e estou foram escritas nas formas reduzidas tá, tamo, tô, a fim de se estabelecer uma aproximação com o português falado no Brasil, especialmente em situações informais. Líng ua e linguagem 121 Produção de texto BN CC Competências gerais da Educação Básica: 1, 2, 4, 7, 9, 10 Competências específicas de Linguagens: 1, 3, 4, 7 Habilidades específicas de Linguagens: EM13LGG101, EM13LGG102, EM13LGG103, EM13LGG104, EM13LGG202, EM13LGG301, EM13LGG302, EM13LGG303, EM13LGG304, EM13LGG402 Habilidades específicas de Língua Portuguesa: EM13LP01, EM13LP02, EM13LP05, EM13LP06, EM13LP07, EM13LP11, EM13LP12, EM13LP15, EM13LP27, EM13LP28, EM13LP32, EM13LP34, EM13LP37, EM13LP38, EM13LP39, EM13LP43, EM13LP45 Reprodução/Jornal Nacional/TV Globo Carrossel de imagens Reportagem Na unidade anterior, você estudou a notícia, gênero que é o centro do universo jornalístico. Neste capítulo, você vai estudar outro gênero jornalístico: a reportagem. Foco no gênero Para dar início ao estudo do gênero textual reportagem, leia o texto a seguir. Amazônia Legal tem o maior desmatamento em 15 anos, aponta Imazon Dados do Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD) do Instituto apontam que de agosto de 2021 a julho de 2022, foram derrubados 10.781 km² de floresta, área que equivale a sete vezes a cidade de São Paulo. O Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) anunciou nesta quarta-feira (17) que a área de floresta desmatada da Amazônia Legal em 2022 foi a maior dos últimos 15 anos. De agosto de 2021 a julho de 2022, foram derrubados 10.781 km² de floresta, o que equivale a sete vezes a cidade de São Paulo. Os dados são do Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD) do instituto, que diferem da metodologia do Deter, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que também divulgou números na última sexta-feira (12). Segundo o Imazon, os satélites usados são mais refinados que os dos sistemas do governo e são capazes de detectar áreas devastadas a partir de 1 hectare, enquanto os alertas do Inpe levam em conta áreas maiores que 3 hectares (entenda mais abaixo). Ainda de acordo com os novos dados do Imazon, essa foi a segunda vez consecutiva em que o desmatamento passou dos 10 mil km² no período. Desmatamento na Amazônia Legal. 122 Pr od uç ão de te xt o Somadas, as áreas destruídas nos últimos dois calendários chegaram a 21.257 km², quase o tamanho do estado de Sergipe. Os dados do instituto também apontam que essa foi a quarta vez seguida em que a devastação atingiu o maior patamar desde 2008, quando o Imazon iniciou o monitoramento com o SAD. Alertas de desmatamento na Amazônia, segundo o Imazon (em km²) Taxa de 2022 é a maior em 15 anos 12,5k 10.476 1 47 1 7 1 10.781 10k 7,5k Banco de imagens/Arquivo da editora Não escreva no livro. 6.543 4 7 5.057 5.027 27 5k 4.295 42 3.323 2 2,5k 1.776 1 77 1.620 1 2 1.489 14 3.581 1 2.889 2.889 2.046 4 2 7 2 2.007 1.050 1.050 22 20 21 20 20 20 19 18 20 17 20 20 16 20 15 20 14 20 13 12 20 11 20 20 10 20 09 20 20 08 0 Fonte: Imazon Imazon 3 Inpe O sistema do Imazon detecta áreas desmatadas em imagens de satélites de toda a Amazônia Legal (região que corresponde a 59% do território brasileiro e que engloba a área de 9 estados – Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e uma parte do Maranhão) e leva em conta degradações florestais ou desmatamentos que ocorreram em áreas a partir de 1 hectare, o que equivale a aproximadamente 1 campo de futebol. Assim como o Deter, do Inpe, o calendário de monitoramento do SAD começa em agosto de um ano e termina em julho do ano seguinte por causa da menor frequência de nuvens na Amazônia. Os sistemas também são semelhantes porque servem como um alerta, mas não representam um dado oficial de desmatamento. A medição oficial do desmatamento é feita pelo sistema Prodes (também do Inpe) e costuma superar os alertas sinalizados tanto pelo Deter como pelo Imazon. Segundo o Inpe, o nível de precisão do Prodes é de aproximadamente 95%. Estabilidade das altas taxas de desmate Na última sexta-feira (12), dados do sistema Deter, que produz sinais diários de alteração na cobertura florestal para áreas maiores que 3 hectares (0,03 km²), apontaram também que o acumulado de alertas de desmatamento em 2022 na Amazônia foi de 8.590 km² [...] Embora o índice indique uma queda de cerca de 2% no acumulado de alertas em comparação ao ano passado, segundo especialistas ouvidos pelo g1, o número, porém, continua bastante elevado e não aponta um retrocesso no desmatamento, e sim uma estabilidade das altas taxas de supressão da vegetação nativa. “O aumento do desmatamento ameaça diretamente a vida dos povos e comunidades tradicionais e a manutenção da biodiversidade na Amazônia”, afirma Bianca Santos, pesquisadora do Imazon. “Além de contribuir para a maior emissão de carbono em um período de crise climática. Relatórios da ONU já alertaram que, se não reduzirmos as emissões, fenômenos extremos como ondas de calor, secas e tempestades ficarão ainda mais frequentes e intensos. Isso causará graves perdas tanto no campo, gerando prejuízos para o agronegócio, quanto para as cidades”, diz. Pr od uç ão de te xto 123 4. a) O texto está organizado em quatro partes: a introdução, que revela os dados do Imazon; a segunda parte, “Imazon × Inpe”, em que se comentam as semelhanças e diferenças do Imazon e do Inpe; a terceira parte, “Estabilidade das altas taxas de desmate”, que comenta a manutenção das taxas de desmate altas; e a quarta parte, “Amazonas, Acre e Rondônia lideram”, que destaca os estados brasileiros que mais têm desmatado. Amazonas, Acre e Rondônia lideram Ainda de acordo com os novos dados divulgados pelo Imazon, nos últimos 12 meses, 36% do desmatamento ocorreu na divisa Amazonas-Acre-Rondônia, região conhecida como Amacro, onde grandes áreas desmatadas têm ocupado florestas públicas não destinadas e áreas protegidas. Na área, a alta nos números de desmate em relação ao ano passado foi de 29%, enquanto a devastação cresceu 3% na região amazônica como um todo. “Isso indica que a Amacro precisa de ações urgentes de protegrilagem: prática ção, principalmente para evitar que as florestas públicas ainda não irregular e delituosa destinadas virem alvo de grilagem. E, também, para impedir que a de posse de terras públicas usando destruição avance pelas áreas protegidas da região, como as terras documentos falsos. indígenas e as unidades de conservação”, afirma Bianca. PEIXOTO, Roberto. Amazônia Legal tem o maior desmatamento em 15 anos, aponta Imazon. G1, Rio de Janeiro, 17 ago. 2022. Disponível em: https://tedit.net/zu6mb1. Acesso em: 11 out. 2024. 1. Assim como a notícia, a reportagem também é um gênero jornalístico. a) Em que suportes você observa a ocorrência de reportagens? Em jornais, revistas, TV, sites, podcasts. b) Onde foi publicado o texto lido? Foi publicado no site jornalístico G1. c) Qual é o projeto editorial desse órgão da imprensa, ou seja, é um meio de comunicação privado ou público, é financiado por alguma empresa ou instituição ou é independente? É um meio de comunicação privado, pois pertence a um conglomerado de mídias e comunicação. d) Você costuma ler matérias publicadas em meios de comunicação dessa natureza? Considera a) A reportagem apresenta dados do SAD (cerca de 10.781 quilômeque elas podem ser confiáveis? Explique. 5. tros quadrados de desmatamento), percentuais específicos e depoimenRespostas pessoais. to de especialistas (Bianca Santos, pesquisadora do Imazon). 2. Apesar de publicada originalmente em 2022, a reportagem traz uma discussão ainda atual, que não saiu do foco de atenção da mídia. atualidade do tema e sua importância para o Brasil a) Em sua opinião, o que justificaria essa permanência? A (e o mundo). b) Em que veículos de imprensa (sites de notícias, agências, canais de divulgação de informações, blogues e redes sociais, jornais e revistas de circulação nacional, imprensa falada – rádio, televisão, podcasts jornalísticos –, etc.) você encontra reportagens sobre esse tema? Resposta pessoal. Espera-se que os estudantes indiquem sites noticiosos de jornais e revistas de circulação nacional, além de imprensa especializada em questões científicas e ambientais. Espera-se que o estudante reconheça que sim, pois o título transmia) O título chama a atenção do leitor? Por quê? te uma informação contundente, a de que a Amazônia sofre o maior desmatamento em 15 anos. 3. Observe o título da reportagem. b) Releia o subtítulo da reportagem. Qual é a relação entre as informações do subtítulo, do título e subtítulo fundamenta a afirmação feita no título (o maior índice de desmatamento em 15 anos), apondo corpo do texto? O tando a origem da informação, ou seja, os dados do SAD. O corpo do texto desenvolve essas informações, trazendo também dados do Deter, que pertence ao INPE, e um gráfico comparativo do Imazon. 4. É comum a reportagem ser dividida em partes. Observe a estruturação do texto. a) Quantas e quais são as partes que formam a reportagem em estudo? b) Que efeito essa estruturação traz para a leitura do texto? Espera-se que os estudantes observem que a divisão em partes, com intertítulos, contribui para a organização do texto e torna a leitura mais leve. 5. Os itens que seguem apresentam alguns dos objetivos das reportagens em geral. Identifique, na reportagem lida, trechos e situações correspondentes a cada um. a) Tratar do fato com mais profundidade, apresentando pesquisas, dados estatísticos e pontos de vista de especialistas (vozes de autoridade a respeito do assunto). b) Ampliar o enfoque dado ao fato apresentando conteúdo não verbal complementar, como mapas, gráficos, infográficos, fotografias com legendas, etc. A reportagem apresenta uma fotografia que mostra o desmatamento e um gráfico comparativo que aponta o desmatamento no país entre 2008 e 2022. c) Oferecer aos leitores a possibilidade de se aprofundar mais no tema acessando hiperlinks que Os trechos “que também divulgou números na últilevam a outras matérias jornalísticas do mesmo veículo. ma sexta-feira (12)” e “segundo especialistas ouvidos pelo g1, o número, porém, continua bastante elevado e não aponta um retrocesso no desmatamento”. 6. Embora não seja uma constante, uma reportagem às vezes apresenta o ponto de vista do jornalista sobre o tema tratado. Nos trechos em que isso ocorre, ele pode se dirigir diretamente ao leitor e até emitir algumas opiniões próprias a respeito do assunto. Esses procedimentos ocorrem na reportagem em estudo? Explique. Não. 124 Pr od uç ão de te xt o 7. a) Entre outras possibilidades, contrapondo os índices do Imazon e os do INPE, mostrando as diferenças de metodologia; o gráfico, que permite analisar a evolução do índice de desmatamento ao longo dos anos; o destaque dado aos estados que lideram o desmatamento. Não escreva no livro. 7. Entre os gêneros jornalísticos, há aqueles que priorizam a informação e os que priorizam o comentário. Quanto à reportagem, ela é considerada um gênero que se ocupa desses dois aspectos. a) Localize na reportagem lida trechos nos quais a informação é privilegiada. b) Localize trechos nos quais comentários do autor ou de outras pessoas citadas no texto ganham destaque. O destaque dado à pesquisadora do Imazon, Bianca Santos. 8. Para informar o leitor de maneira mais aprofundada e dar mais credibilidade ao conteúdo, a reportagem costuma trazer a voz de especialistas no assunto abordado. a) Que especialista(s) foi(foram) entrevistado(s) e qual é a relação dele(s) com o assunto abordado? Foi consultada a pesquisadora do Imazon, Bianca Santos, a qual participou da geração dos dados divulgados. b) Que informações relevantes esse(s) pesquisador(es) acrescenta(m)? Consulte a resposta da atividade 7 (item b) nas Orientações específicas do Manual do Professor. c) De que forma a fala dessa(s) pessoa(s) foi(foram) inserida no texto? Por meio do discurso direto, demarcado por aspas e indicado com verbos como afirmar e dizer. 9. Observe o gráfico que acompanha a reportagem em estudo. a) Em que ano houve a menor taxa de alerta de desmatamentos? No ano de 2012. b) Em que anos essa taxa foi maior, segundo o gráfico? 2021 e 2022. c) Deduza: Por que a última barra está em vermelho e as demais em cinza? Justifique sua resposta com base no título e no subtítulo do gráfico. Porque, em meio a todos os “alertas de desmatamento”, conforme indica o título, há um destaque para o alerta do ano de 2022, o da barra vermelha, reforçado pelo subtítulo “taxa de 2022 é a maior em 15 anos”. 10. Além de informar o leitor, uma reportagem também pode apresentar sugestões para solucionar um problema ou enfrentar uma situação. A reportagem em estudo apresenta sugestão? Se sim, qual? 11. Observe a linguagem empregada na reportagem em estudo. a) Entre as opções a seguir, indique, no caderno, a que reúne somente características apresentadas Os estudantes devem indicar o item III. por ela. I. Clara, objetiva, direta e sempre impessoal, dando ênfase à neutralidade jornalística. II. Pessoal e bastante coloquial, com uso de gírias e expressões típicas de certo grupo social, destacando o posicionamento particular da revista. III. Clara, objetiva, direta, com abertura para a presença de diferentes vozes e pontos de vista e acessível à maioria dos leitores. IV. Poética, com uso de alegorias e emprego de palavras pouco usuais na língua, sem um posicionamento claro a respeito do tema abordado. b) Na reportagem, é adotada uma variedade linguística menos ou mais próxima à norma-padrão? Uma variedade próxima à norma-padrão. c) Em que pessoa estão as formas verbais empregadas pelo autor da reportagem? Na 3a pessoa. d) Levante hipóteses: Por que essa pessoa gramatical predominou na reportagem lida? Porque a reportagem tende à impessoalidade; dessa forma, refere-se ao assunto em 3a pessoa, evitando o posicionamento explícito do jornalista. 12. Com a orientação do professor, organize-se em um grupo com alguns colegas para resumir as características básicas de uma reportagem. Para isso, copiem o quadro a seguir no caderno e respondam às questões de acordo com o que perceberam da reportagem em estudo e de outras reportagens que conheçam. Reportagem: construção e recursos expressivos Quem são os interlocutores da reportagem? Qual é o objetivo desse gênero textual? Por onde circula? De que linguagens a reportagem se constitui? Como se caracteriza a linguagem verbal de uma reportagem? Qual é a estrutura básica da reportagem? Jornal/jornalista e o público leitor/espectador/ouvinte de matérias jornalísticas. Informar ao público de modo mais aprofundado fatos e assuntos que interessam ao público do veículo em que a reportagem é publicada. Estabelecer ligações entre o fato principal e fatos paralelos. Geralmente a reportagem é divulgada em órgãos de imprensa (jornais impressos, televisivos e de rádio) e na internet (sites e podcasts). Em meios impressos, ela se estrutura por meio de linguagem verbal e pode ser acompanhada de fotografias, gráficos, infográficos, mapas. Em rádio e podcasts, ela se vale de áudios; e, na TV e em sites de jornais, de vídeos, entrevistas, gráficos, infográficos, mapas. Geralmente a variedade linguística empregada segue a norma-padrão, com certo grau de formalidade e objetividade, mas isso pode variar. Tende à impessoalidade, mas pode apresentar a opinião do jornalista e de pessoas entrevistadas. Título, subtítulo, intertítulos e corpo. Pode ser organizada em partes, apresentar boxes, gráficos, fotografias, infográficos e hiperlinks. 10. Sim, ela apresenta uma sugestão feita pela pesquisadora Bianca Santos, para quem são necessárias ações urgentes na Amacro (região formada pelo Amazonas, Acre e Rondônia), a fim de que as florestas públicas e as áreas protegidas não se tornem alvo de grilagem. Pr od uç ão de te xto 125 13. Ajude os estudantes a analisar as reportagens selecionadas. É importante que eles percebam que há relações significativas entre as características do veículo que publicou a reportagem e o modo como o tema é tratado. Com isso, eles poderão perceber a importância dessa diversidade de publicações e meios, para que as informações circulem por diferentes perfis de públicos leitores, ressaltando o papel que esses veículos têm na divulgação de informações. 13. Em geral, um mesmo fato pode ser noticiado de diferentes maneiras. Essas escolhas dependem do perfil de quem produz a matéria ou do órgão de imprensa que a publica. Por trás dessas diferenças pode haver razões variadas como: conhecimento técnico ou científico do tema, ideologia, interesses econômicos, etc. Por isso, é importante adotar uma postura crítica em relação ao que Podcast é publicado para não se deixar iludir por fake news ou matérias tendenciosas em geral. A fim de exercitar o espírito crítico diante da mídia, reúna-se com alguns colegas e, sob a orientação do professor, pesquisem este tema: Como a imprensa de hoje aborda o desmatamento na Amazônia? Transcrição Sigam os passos indicados: de áudio a) Em grupos, localizem outras reportagens com a mesma temática publicadas em diferentes veículos e meios. b) Analisem essas reportagens, observando: • o veículo que a publicou – impresso ou digital? Falado ou escrito? Público (uma agência de notícias estatal) ou privado?, etc. e sua linha editorial (que vocês podem descobrir consultando informações sobre ele e/ou outras publicações que veicula); • o público-leitor visado; • a abordagem que é feita sobre o tema; • as fontes de informação consultadas e citadas (outros veículos de imprensa, especialistas no assunto, pessoas diretamente implicadas nas ações abordadas, etc.). c) Depois de feitas as análises, reflitam com os outros grupos sobre qual das reportagens selecionadas apresenta uma abordagem do assunto mais próxima e mais distante do texto lido no início desta seção. Qual desses veículos vocês escolheriam para se informar sobre temas relacionados ao meio ambiente? Por quê? Hora de produzir Os problemas ambientais não estão restritos à Amazônia brasileira: certamente, em sua cidade ou em sua comunidade, existe um problema ambiental que precisa ser resolvido ou, ao menos, atenuado. Com a orientação do professor, a turma pode discutir a respeito de quais são os problemas ambientais que afligem mais a comunidade onde vivem. Distribuam essas questões pelos grupos, de modo que cada equipe fique responsável por pesquisar um ou dois desses problemas. O grupo então vai conversar sobre essas questões com moradores da comunidade afetados por elas, consultar entidades do bairro e sites oficiais da prefeitura, entrevistar líderes comunitários, autoridades e especialistas no assunto, a fim de colher o maior número possível de informações sobre o(s) problema(s) e possíveis soluções. Pesquisem em jornais, revistas e livros especializados as soluções técnicas ou científicas encontradas em diferentes partes do mundo para problemas semelhantes. Verifiquem se são confiáveis, comparem os dados de várias fontes e, se possível, use procedimentos de checagem de fatos. Se possível, investiguem se alguma(s) dela(s) seria(m) aplicável(eis) à sua comunidade. Compartilhem, no grupo, as informações colhidas e preparem-se para redigir uma reportagem sobre o tema e, com isso, informar melhor a comunidade sobre a questão: as reportagens de vocês serão publicadas no jornal que a turma vai produzir no final da unidade 2. Planejamento do texto • Pensem na estruturação do texto: Qual será o título e o subtítulo da reportagem? Qual será a relação deles com o tema central do texto? • Em quantas partes será organizado o texto e com quais intertítulos? • O texto terá boxes complementares, tabelas, gráficos, infográficos, etc.? Se sim, em que parte do texto serão inseridos? 126 Pr od uç ão de te xt o Não escreva no livro. • A reportagem fará uso de textos ou depoimentos de terceiros: pesquisadores, autoridades, etc.? • Como vão concluir o texto: haverá uma proposta própria ou de um especialista? • O texto será desenvolvido de forma impessoal ou o grupo pretende explicitar um posicionamento de vocês sobre o tema? Escrita • Escrevam o título e o subtítulo da reportagem. • Apresentem o assunto a ser desenvolvido já no primeiro parágrafo, deixando claro o ponto de vista a ser adotado. • Elaborem um intertítulo para cada parte e desenvolvam essas partes de modo mais ou menos proporcional, cada uma abordando um aspecto do tema. • Desenvolvam o tema contextualizando-o, ou seja, apresentando um pequeno histórico, o posicionamento de diferentes profissionais e, se for o caso, a polêmica que pode haver em relação ao tema, dados objetivos de pesquisa, relações de causa e consequência, exemplos, comentários sobre tabela ou outro complemento inserido no texto, citações de representantes de instituições, etc. • Caso insiram a voz de terceiros, deixem claro quem está falando e demarquem a fala com aspas e verbos dicendi, como falou, disse, etc. • Estejam atentos à decisão tomada sobre o texto – menos ou mais objetivo, menos ou mais impessoal – e mantenham coerência. • Empreguem uma linguagem de acordo com a norma-padrão, com verbos predominantemente no presente do indicativo. • Concluam o texto de modo a organizar as ideias no último parágrafo, fazendo ou não sugestões para eventual solução de problemas abordados. Revisão e reescrita Antes de finalizar a reportagem, releiam-na, observando: • se o título e o subtítulo estão adequados ao que foi desenvolvido; • se ela está organizada em partes, tornando o texto mais acessível e leve; • se ela foi desenvolvida com clareza e objetividade, sendo menos ou mais impessoal, conforme a decisão do grupo; • se a apresentação do tema, no primeiro parágrafo, é compatível com o que foi desenvolvido em todo o texto; • se foram inseridas vozes de terceiros com a devida pontuação e uso de verbos dicendi; • se a linguagem segue a norma-padrão, se está adequada ao suporte e ao perfil do público – a comunidade escolar –, se a maioria dos verbos está no presente do indicativo; • se a conclusão do texto retoma as principais ideias do texto e se aponta algumas soluções ou saídas para o tema discutido, caso tenha sido essa a proposta do grupo. Façam as alterações necessárias e passem o texto a limpo. Hora de compartilhar: Jornal de variedades Guardem as reportagens, pois elas farão parte do jornal a ser produzido pela turma ao final da unidade 2 e compartilhado com a comunidade escolar. Pr od uç ão de te xto 127 A re po rt ag em em di fe re nt es m íd ia s Assim como as notícias, as reportagens podem ter diferentes formatos e ser veiculadas em diferentes mídias. As reportagens multimídia têm se popularizado. Sua estrutura é composta de uma combinação de texto verbal, vídeo, fotografias, infográficos, etc.; elas são disponibilizadas em sites da internet e em plataformas de vídeos. Existem também as reportagens em podcasts: semelhantes às reportagens radiofônicas, são produzidas em áudio e disponibilizadas em aplicativos e plataformas de áudio. Pensamento computacional As etapas propostas na seção Produção de texto desta obra podem servir de exemplo de atividades que se valem da estratégia da decomposição, um dos pilares do pensamento computacional. A decomposição pressupõe dividir um problema em partes menores para facilitar sua resolução. • Para verificar se isso ocorre na seção, sob a orientação do professor, reúnam-se em grupos e, relendo a seção em questão neste capítulo e em algum outro capítulo da obra, respondam: Em que partes menores a seção Produção de texto divide o desafio da produção textual? Cada uma dessas etapas costuma ter subdivisão? Se sim, como ela é organizada? 4. A concordância, em algumas variedades do português brasileiro, funciona com base em uma regra de economia: flexiona-se em número apenas o primeiro elemento que diz respeito ao referente. São casos, por exemplo, de expressões como “essas criança bagunceira”, ou “aqueles menino loirinho”, por exemplo, no caso da concordância nominal, e “eles foi” ou “nós sabia”, por exemplo, no caso da concordância verbal. Ou ainda, frases como “as cadeira chegou com defeito”, na qual o plural é marcado apenas na primeira palavra. Avali an do os es tu do s Você e os colegas vão retomar os objetivos indicados no início do capítulo e avaliar os estudos feitos e o caminho percorrido, considerando questões como: 1. O conflito e o foco narrativo fazem parte da estrutura de romances e contos. Em que consistem esses dois elementos da narrativa de ficção? Consulte as respostas das atividades 1, 2 e 5 nas Orientações específicas do Manual do Professor. 2. Quais são as características do romance indianista de José de Alencar e do romance urbano de Manuel Antônio de Almeida? 3. Qual é o princípio básico das concordâncias nominal e verbal segundo a norma-padrão? Os determinantes concordam em gênero e número com o núcleo nominal e o verbo concorda em número e pessoa com o sujeito. 4. A concordância de determinadas variedades linguísticas, ao divergir das regras da norma-padrão, acaba muitas vezes por ser alvo de preconceito linguístico em nossa sociedade. Cite exemplos de casos que ilustrem essa afirmação e explique como se dá a concordância nessas variedades. 5. Justifique a concordância dos verbos destacados nos trechos de matérias jornalísticas: I. Houve avanços na COP27, mas faltam políticas para os que sentiram na pele catástrofes climáticas PERIFA CONNECTION. Houve avanços na COP27, mas faltam políticas para os que sentiram na pele catástrofes climáticas. Voz das Comunidades, Rio de Janeiro, 12 dez. 2022. Disponível em: https://tedit.net/03nsub. Acesso em: 20 set. 2024. II. Faz duas semanas que a água avança pelas ruas de São Miguel do Tocantins. MAIOR cheia do Rio Tocantins em 20 anos afeta 1,7 mil famílias no estado e no Pará. G1, Rio de Janeiro, 13 jan. 2022. Disponível em: https://tedit.net/h079c5. Acesso em: 20 set. 2024. III. Florianópolis: em 30 dias choveu 3,5 vezes a média de dezembro FLORIANÓPOLIS: em 30 dias choveu 3,5 vezes a média de dezembro. Climatempo, São Paulo, 20 dez. 2022. Disponível em: https://tedit.net/sarwv5. Acesso em: 20 set. 2024. 6. Qual é a finalidade principal de uma reportagem? Em que a reportagem difere da notícia? Fazer uma cobertura mais ampla de um fato ou tema de interesse do público leitor. Enquanto a notícia limita-se ao relato do fato, a reportagem traz um detalhamento de como ele ocorre, apresentando diferentes pontos de vista sobre ele e podendo apresentar opiniões, trechos de entrevista, gráficos e infográficos, etc. 128 Pr od uç ão de te xt o Marina Vishtak/Shutterstock ui st ar : D iv id ir pa ra co nq co m po si çã o a es tr at ég ia da de capítulo 4 Romantismo: prosa (II) Análise sintática: período simples (revisão) Fotorreportagem Neste capítulo você vai: • conhecer a prosa romântica de Álvares de Azevedo e Maria Firmina dos Reis e refletir sobre ela; • rever os termos da oração na composição de períodos simples; • compreender os sentidos que as escolhas dos termos da oração constroem nos textos; • observar as características da fotorreportagem e produzir esse gênero. Justificativa BN CC Competências gerais da Educação Básica: 1, 3, 4, 6, 7, 9 Competências específicas de Linguagens: 1, 2, 4, 6 Habilidades específicas da área de Linguagens: EM13LGG101, EM13LGG102, EM13LGG103, EM13LGG202, EM13LGG403, EM13LGG601, EM13LGG602, EM13LGG604 Habilidades específicas de Língua Portuguesa: EM13LP01, EM13LP06, EM13LP07, EM13LP20, EM13LP21, EM13LP28, EM13LP29, EM13LP30, EM13LP38, EM13LP39, EM13LP46, EM13LP47, EM13LP48, EM13LP49, EM13LP51, EM13LP52, EM13LP53 Para ampliar seu repertório literário, é essencial conhecer e compreender as obras de autores românticos, observando suas peculiaridades estruturais e estilísticas. A leitura desses textos permitirá analisar a múltipla perspectiva da vida humana e social na prosa literária, com base nas concepções estéticas do Romantismo e no contexto de sua produção. A leitura crítica e detalhada das obras românticas proporciona uma compreensão mais ampla das transformações sociais e culturais da época. Ao mergulhar nas narrativas românticas, você poderá identificar temas recorrentes, como o amor idealizado, a natureza exuberante e o heroísmo, que são característicos desse movimento literário. Além disso, observará a construção do foco narrativo e do conflito na prosa, percebendo seus efeitos de sentido. Esse processo inclui refletir sobre os termos que compõem a estrutura do período simples, entendendo como a escolha dessas palavras constrói significado nos textos. Dessa maneira, você se tornará mais consciente sobre suas próprias escolhas ao elaborar seus textos. Tendo em vista o papel relevante da imprensa no Brasil na divulgação da prosa romântica, este capítulo dará continuidade ao estudo de gêneros do campo jornalístico-midiático. Você lerá uma fotorreportagem e produzirá um texto desse gênero, ampliando e aprofundando seus estudos. 129 Literatura Romantismo: prosa (II) A prosa gótica Durante o Romantismo, o desejo de afastamento em relação ao racionalismo e ao materialismo predominante na sociedade capitalista levou ao desenvolvimento de uma literatura baseada na transgressão de valores sociais e na exploração de temas como a loucura, o sonho, o incesto, a morte, o crime e o vício, evocando no leitor sentimentos como o medo, o horror e a repugnância. Com base no romance gótico, surgiram, depois, as histórias de terror, de suspense e de detetives, que foram, ao longo do tempo, exploradas também em outras mídias, como o cinema, os desenhos animados, as histórias em quadrinhos e os videogames. No Romantismo brasileiro, o gótico se encontra em textos de autores como Álvares de Azevedo (1831-1852) e Maria Firmina dos Reis (1825?-1917). O ri ge ns do gó ti co Em termos históricos, o termo gótico foi, inicialmente, associado a um estilo arquitetônico medieval de catedrais, caracterizado por tetos abobadados, torres altas e pontiagudas e muitos adornos esculturais. No século XVIII, o escritor inglês Horace Walpole (1717-1797) estabeleceu um elo entre a arquitetura e a literatura com o romance O castelo de Otranto: uma história gótica (1764), ambientado na Idade Média, que apresentava passagens secretas, calabouços, maldições e quadros fantasmagóricos. Essa obra originou, no século XIX, a tradição da literatura gótica, marcada pelo mistério e a oposição entre o bem e o mal. Quimeras e gárgulas (na parte externa do edifício, primeira e segunda fotografia, respectivamente) e nave (no interior da construção) da Catedral de Notre Dame (Nossa Senhora), em Paris, um exemplo de arquitetura gótica. 130 L ite ra tu ra Kutredrig/Getty Images izanbar/Getty Images starryvoyage/Shutterstock Um exemplo do estilo gótico é a Catedral de Notre Dame, em Paris, erguida entre os séculos XII e XIV, com seu teto abobadado, a verticalidade monumental de seu interior, os grandes pilares e os vitrais ao fundo; as gárgulas, na parte externa da catedral, ornamentos das calhas do telhado na forma de figuras monstruosas, cuja função é escoar a água da chuva longe da parede, e as quimeras, esculturas grotescas e monstruosas inseridas no século XIX com o objetivo de decoração – elas foram inspiradas, entre outras fontes, em ilustrações de uma edição de 1844 de Notre-Dame de Paris (1831), romance histórico e gótico do autor romântico francês Victor Hugo (1802-1885). Não escreva no livro. Álvares de Azevedo Na produção de Álvares de Azevedo, a prosa gótica se apresenta nos contos de Noite na taverna (1855), nos quais se verifica a influência das obras do inglês Lorde Byron (1778-1824) e do alemão Ernest Hoffmann (1776-1822). Noite na taverna é uma obra composta de dois planos narrativos. O primeiro plano corresponde à narração feita por um narrador em 3a pessoa, que apresenta cinco rapazes embriagados reunidos em uma taverna. O segundo se constitui pela narração de cada um desses personagens, que tomam a palavra para contar, em 1a pessoa, histórias surpreendentes de suas vidas. Cada uma dessas histórias corresponde a um conto, que tem como título o nome do narrador-personagem. Nesses contos, Álvares de Azevedo explora o gótico que afronta a moral burguesa e a rigidez dos costumes ao retratar o lado obscuro do ser humano por meio de assassinatos, incestos, vícios, traições e vinganças. Foco no texto Neste conto de Noite na taverna, Gennaro conta que, aos dezoito anos, era um aprendiz de pintura que morava na casa de seu mestre, Godofredo Walsh, um senhor já idoso casado em segundas núpcias com Nauza, uma bela jovem de vinte anos. Gennaro se apaixonou por Nauza, mas envolveu-se com Laura, filha de Godofredo que tinha quinze anos. Gennaro […] Todas as manhãs Laura vinha a meu quarto… Três meses passaram assim. Um dia entrou ela no meu quarto e disse-me: — Gennaro, estou desonrada para sempre… A princípio eu quis-me iludir — já não o posso – estou de esperanças… Um raio que me caísse aos pés não me assustaria Ar tem /Ad ob tanto. eS toc k — E preciso que cases comigo, que me peças a meu pai, ouves, Gennaro? Eu calei-me. — Não me amas então? Eu calei-me. — Oh! Gennaro! Gennaro! E caiu no meu ombro desfeita em soluços. Carreguei-a assim fria e fora de si para seu quarto. Nunca mais tornou a falar-me em casamento. Que havia eu de fazer? Contar tudo ao pai e pedi-la em casamento? Fora uma loucura… Ele me mataria e a ela: ou pelo menos me expulsaria de sua casa… E Nauza? Cada vez eu a amava mais. Era uma luta terrível essa que se travava entre o dever e o amor, e entre o dever e o remorso. Laura não me falara mais. Seu sorriso era frio: cada dia tornava-se mais pálida, mas a gravidez não crescia, antes mais nenhum sinal se lhe notava… […] Li te ra tu ra 131 E as noites que o mestre passava soluçando no leito vazio de sua filha, eu as passava no leito dele, nos braços de Nauza. Uma noite houve um fato pasmoso. O mestre veio ao leito de Nauza. Gemia e chorava aquela voz cavernosa e rouca: tomou-me pelo braço com força, acordou-me e levou-me de rasto ao quarto de Laura… Atirou-me ao chão: fechou a porta. Uma lâmpada estava acesa no quarto defronte de um painel. Ergueu o lençol que o cobria. Era Laura moribunda! E eu macilento como ela tremia como um condenado. A moça com seus lábios pálidos murmurava no meu ouvido… Eu tremi de ver meu semblante tão lívido na tela e lembrei que naquele dia ao sair do quarto da morta, no espelho dela que estava ainda pendurado à janela, eu me horrorizara de ver-me cadavérico… Um tremor, um calafrio se apoderou de mim. Ajoelhei-me, e chorei lágrimas ardentes. Confessei tudo: parecia-me que era ela quem o mandava, que era Laura que se erguia dentre os lençóis do seu leito e me acendia o remorso e no remorso me rasgava o peito. Por Deus! que foi uma agonia! No outro dia o mestre conversou comigo friamente. Lamentou a falta de sua filha, mas sem uma lágrima. Mas sobre o passado na noite, nem palavra. Todas as noites era a mesma tortura, todos os dias a mesma frieza. O mestre era sonâmbulo… E pois eu não me cri perdido… […] AZEVEDO, Álvares de. Gennaro. In: AZEVEDO, Álvares de. Noite na taverna e poemas malditos. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1982. p. 193-202. 132 L ite ra tu ra Artem/Adobe Stock Uma noite… foi horrível… vieram chamar-me: Laura morria. […] Apertou minha mão nas suas mãos frias e murmurou em meus ouvidos: — Gennaro, eu te perdoo: eu te perdoo tudo… Eras um infame… Morrerei… Fui uma louca… Morrerei… por tua causa… teu filho… o meu… vou vê-lo ainda… mas no céu… Meu filho que matei… antes de nascer… […] Era o último suspiro. Um ano todo se passou assim para mim. O velho parecia endoidecido. Todas as noites fechava-se no quarto onde morrera Laura: levava aí a noite toda em solidão. Dormia? ah que não! Longas horas eu o escutei no silêncio arfar com ânsia, outras vezes afogar-se em soluços. […] Uma noite eu disse a Nauza que a amava: ajoelhei-me junto dela, beijei-lhe as mãos, reguei seu colo de lágrimas. Ela voltou a face: eu cri que era desdém, ergui-me. — Então Nauza, tu não me amas, disse eu. Ela permanecia com o rosto voltado. — Adeus, pois: perdoai-me se vos ofendi: meu amor é uma loucura, minha vida é uma desesperança — o que me resta? […] Tomei-lhe a mão e beijei-a. Ela deixou sua mão nos meus lábios. […] Tudo o mais foi um sonho: a lua passava entre os vidros da janela aberta e batia nela: nunca eu a vira tão pura e divina! ............................................................................................................................. Não escreva no livro. A prosa gótica tem outros autores renomados como Mary Shelley (1797-1851), com Frankenstein (1818), Bram Stocker (1847-1912), com Drácula (1897), e Edgar Allan Poe (1809-1849), com contos como “O gato preto”, “A queda da casa de Usher”, “O barril de Amontillado” e “O poço e o pêndulo”. Com a ajuda do professor, reúna-se em grupo para escolher um romance ou um livro de contos góticos. O professor vai definir um prazo para a leitura e uma data de apresentação das obras à turma, a fim de que troquem impressões sobre as obras e tenham sugestões de livros góticos. Para preparar essa apresentação, é importante que cada grupo: FlixPix/Alamy/Fotoarena En tr e liv ro s • pesquise a vida e a obra do autor escolhido; • pense no livro lido, refletindo sobre questões da literatura gótica, como: O comportamento dos personagens afronta os códigos éticos e morais? Por quê? Que fenômenos estranhos, mágicos ou sobrenaturais se manifestam na narrativa?; • identifique outras questões que se refiram a particularidades da obra lida pela equipe e que valham a pena destacar para a turma, como o que foi mais surpreendente. Depois da leitura, reúna-se com o grupo para organizar a apresentação tendo em vista essas questões e outras que considerarem importantes. A partir disso, anotem as informações principais para apoiar a fala de apresentação da obra. O grupo poderá escolher um representante para fazer a apresentação. No momento da apresentação, o grupo deve ouvir com atenção as perguntas e os comentários dos colegas para esclarecer as dúvidas e ampliar as informações sobre a obra. Pôster da série Wandinha (no original, Wednesday), dirigida por Tim Burton em 2022 e inspirada na história em quadrinhos A família Addams, de Charles Addams. A estética e a linguagem góticas são resgatadas por obras como essa. 1. a) Toda a ação do texto em estudo se passa no interior da casa de Godofredo Walsh, e os ambientes são, em sua maioria, noturnos, como o quarto de Nauza, ou também escuros e mórbidos, como o quarto de Laura. 1. Nos contos góticos, o cenário contribui para a criação de uma atmosfera de suspense e de tensão. a) No conto em estudo, que ambientes descritos pelo narrador criam tal atmosfera? b) A presença de determinados objetos também gera uma tensão na narrativa. Que objetos protela que retrata Laura moribunda e Gennaro com o rosto pálido; o espelho que reflete uma imavocam esse efeito? A gem cadavérica do protagonista (ambos, tela e espelho) no quarto de Laura. 2. A partir da morte de Laura, cria-se no conto uma atmosfera de tensão e de incerteza, intensificada com a presença de fatos e acontecimentos que oscilam entre o plano da realidade e o plano da fantasia, entre o natural e o sobrenatural. a) Entre os trechos a seguir, indique no caderno aqueles que comprovam a afirmação anterior. Itens II e III. I. Uma lâmpada estava acesa no quarto defronte um painel. Ergueu o lençol que o cobria. – Era Laura moribunda! II. […] lembrei que naquele dia ao sair do quarto da morta, no espelho dela […] eu me horrorizara de ver-me cadavérico… III. Confessei tudo: parecia-me que era ela quem mandava, que era Laura que se erguia dentre os lençóis de seu leito, e me acendia o remorso […]. b) Nessa atmosfera de tensão, a descoberta da traição de Gennaro por Godofredo Walsh é obscura e incerta ou clara e certa? Justifique sua resposta. Consulte a resposta da atividade 2, item b, nas Orientações específicas do Manual do Professor. Li te ra tu ra 133 O gó ti co e o ro ck Na década de 1970, sons soturnos, psicodélicos e, às vezes, acompanhados de letras com o tema morte apontavam para uma nova tendência do rock, associada ao estilo gótico. Além do som, o visual dos roqueiros, construído por trajes escuros, cabelos desgrenhados e maquiagem pesada, expressava as origens de uma nova subcultura. O músico estadunidense Alice Cooper (1978-) e as bandas britânicas Bauhaus, The Cure e Joy Division são alguns dos nomes surgidos nessa época que dialogavam com a atmosfera gótica. Há ainda bandas internacionais, como Evanescence, Sirenia, Xandria, Virgin Black e Tristania, e nacionais, como Plastique Noir e Elegia, que se inspiram nessa tradição musical. ZUMA Press/Alamy/Fotoarena • Quais são as preferências musicais em sua escola? Com a orientação do professor, você e os colegas vão fazer uma pesquisa de campo para descobrir as preferências musicais de estudantes, funcionários e professores. Registrem os estilos mais populares da comunidade escolar e divulguem no mural da escola. Em seguida, reúnam-se em grupos de acordo com os estilos musicais preferidos da turma. Cada grupo vai produzir uma playlist comentada de seu estilo musical, mostrando por que tal estilo é interessante, e compartilhar essa produção com a turma toda. Para isso, cada grupo vai selecionar três canções mais significativas desse estilo musical e preparar uma gravação em áudio de cada canção acompanhada de um comentário formulado por vocês sobre por que essa canção é especial. Ao final, será importante organizar um momento para a turma ouvir todas essas gravações e conhecer os diferentes estilos que agradam a turma. Os comentários produzidos podem contribuir para compreender os motivos que levaram cada grupo a preferir um estilo a outros e, assim, ajudar a desenvolver o res- A banda The Cure dialoga com a estética gótica por meio das roupas, maquiagens e letras das canções. Foto de 2022. peito e a empatia. 3. b) Primeiramente, diante da gravidez de Laura, sente-se dividido entre “o dever e o amor” e entre “o dever e o remorso”; depois, após a morte da jovem, ele manifesta em mais dois momentos da narrativa o sentimento de remorso (por ter abandonado Laura e pela 3. A narrativa gótica tematiza o lado oculto do ser humano, explorando a loucura, a alucinação, os desejos diabólicos, os crimes e todo tipo de comportamento que afronta os códigos éticos e morais. a) Que desejos e atitudes de Gennaro exemplificam no texto em estudo essa face do ser humano? A total omissão de Gennaro diante da gravidez de Laura e a relação amorosa dele com Nauza, concretizada no leito de seu mestre enquanto este chorava pela filha morta. b) Algumas dessas atitudes provocam, ao longo do conto, sentimentos conflituosos no protatraição contra seu mestre). gonista. Quais são esses sentimentos? c) Discuta com os colegas e o professor a questão a seguir e, depois, registre a resposta no caderno: Que consequências Gennaro, como representante desse lado obscuro do ser humano, provoca na vida daqueles que o cercam? Provoca a ruína, a destruição da vida das pessoas com quem conviveu. d) Pela leitura desse texto, que comportamentos eram esperados das relações entre homens e mulheres na época em que ele foi escrito? 134 Espera-se que os estudantes observem que o texto revela a preocupação com as relações sexuais antes do casamento ou fora dele, como a traição, pois esses são os comportamentos considerados indesejados na sociedade da época da produção do texto, que levam os personagens a serem vistos como desonrados. L ite ra tu ra Não escreva no livro. Maria Firmina dos Reis A obra da autora maranhense está entre as primeiras da literatura afro-brasileira, e seu romance Úrsula (1859), em particular, é considerado um precursor da temática abolicionista na literatura brasileira, antecedendo, por exemplo, o Navio negreiro (1880) de Castro Alves (1847-1871). Assim, embora apresente marcas da segunda geração romântica, como traços góticos, sua obra também contempla características da terceira geração, uma vez que é marcada pela exploração de temas sociais. Além de Úrsula, a abordagem abolicionista é um traço marcante da autora em outros textos, como o conto “A escrava” e o Hino da libertação dos escravos (1888). M ar ia Fi rm in a do s Re is Tony Alves/Acervo do artista Nascida em 1825 (ou 1822), na ilha de São Luís, no Maranhão, Maria Firmina dos Reis era afrodescendente e, acredita-se, filha da escravizada liberta Leonor Felipa dos Reis. Foi uma mulher abolicionista, poeta, romancista, compositora e professora, chegando a abrir uma escola mista e gratuita na cidade de Guimarães (MA). Colaborou de maneira assídua com poemas e contos em jornais e revistas, como Eco da juventude, A revista maranhense, A verdadeira marmota, Porto livre, Jardim dos maranhenses, entre outros. Quando publicou o romance Úrsula assinou-o apenas como “Uma maranhense”, a fim de preservar sua identidade. Essa obra tornou-se, recentemente, um clássico da autora, por representar a subjetividade dos africanos trazidos ao Brasil e de seus descendentes, algo incomum na época de sua publicação. Em prosa, outras obras da autora são o romance Gupeva (1861) e o conto “A escrava” (1887); em versos, publicou Cantos à beira mar (1871). Maria Firmina dos Reis faleceu em Guimarães, em 1917, aos 92 (ou 95) anos. Retrato falado de Maria Firmina dos Reis (2012), desenho de Tony Alves. Outro traço da prosa de Maria Firmina dos Reis é o uso abundante de travessões e de vírgulas bem como a separação entre sujeito e predicado, características que vêm sendo mantidas em determinadas edições contemporâneas de sua obra, com a finalidade de preservar a provável reprodução da fala da escritora. Em Úrsula, alguns traços da estética gótica observados são a presença da morte, do incesto, da loucura e, sobretudo, da violência física e psicológica. As figuras femininas, puras, virtuosas, são retratadas de maneira idealizada, enquanto os homens transgressores são violentos e tirânicos, não medindo esforços para atingir seus desígnios. As pessoas escravizadas e as mulheres livres são as vítimas da perseguição dos vilões. Li te ra tu ra 135 Na trama, a personagem-título é filha da viúva Luísa B., mulher adoentada que necessita de cuidados constantes, e de Paulo B., que fora assassinado pelo cunhado Fernando P. em tempo anterior ao presente da narrativa. O enredo aborda o triângulo amoroso entre Úrsula, seu amado Tancredo e o tio Fernando, apaixonado pela sobrinha. Em torno desses personagens, o romance ganha força com a perspectiva abolicionista, abordada com o retrato dos dramas pessoais das pessoas escravizadas narrados individualmente. Foco no texto No capítulo IX de Úrsula, a africana Susana narra sua história de vida a Túlio, um jovem afrodescendente que fora criado por ela na fazenda dos pais de Úrsula e que fora liberto por Tancredo recentemente. Leia, a seguir, um trecho desse capítulo: A preta Susana […] — Tu! tu livre? ah não me iludas! — exclamou a velha africana abrindo uns grandes olhos. Meu filho, tu és já livre?… — Iludi-la! — respondeu ele, rindo-se de felicidade — e para quê? Mãe Susana, graças à generosa alma deste mancebo sou hoje livre, livre como o pássaro, como as águas; livre como o éreis na vossa pátria. mancebo: rapaz, jovem. ditosa: feliz, afortunada. dariodraws/Adobe Stock Estas últimas palavras despertaram no coração da velha escrava uma recordação dolorosa; soltou um gemido magoado, curvou a fronte para a terra, e com ambas as mãos cobriu os olhos. Túlio olhou-a com interesse; começava a compreender-lhe os pensamentos. — Não se aflija — disse — Para que essas lágrimas? Ah! perdoe-me, eu despertei-lhe uma ideia bem triste! A africana limpou o rosto com as mãos, e um momento depois exclamou: — Sim, para que estas lágrimas?!… Dizes bem! Elas são inúteis, meu Deus; mas é um tributo de saudade, que não posso deixar de render a tudo quanto me foi caro! Liberdade! Liberdade… ah! eu a gozei na minha mocidade! — continuou Susana com amargura — Túlio, meu filho, ninguém a gozou mais ampla, não houve mulher alguma mais ditosa do que eu. Tranquila no seio da felicidade, via despontar o sol rutilante e ardente do meu país, e louca de prazer a essa hora matinal, em que tudo aí respira amor, eu corria às descarnadas e arenosas praias, e aí com minhas jovens companheiras, 136 L ite ra tu ra Não escreva no livro. brincando alegres, com o sorriso nos lábios, a paz no coração, divagávamos em busca das mil conchinhas, que bordam as brancas areias daquelas vastas praias. Ah! meu filho! Mais tarde deram-me em matrimônio a um homem, que amei como a luz dos meus olhos, e como penhor dessa união veio uma filha querida, em quem me revia, em quem tinha depositado todo o amor da minha alma: — uma filha, que era a minha vida, as minhas ambições, a minha suprema ventura, veio selar a nossa tão santa união. E esse país de minhas afeições, e esse esposo querido, essa filha tão extremamente amada, ah Túlio! Tudo me obrigaram os bárbaros a deixar! Oh! tudo, tudo até a própria liberdade! Estava extenuada de aflição, a dor era-lhe viva, e assoberbava-lhe o coração. — Ah! pelo céu! — exclamou o jovem negro enternecido — sim, pelo céu, para que essas recordações!? assoberbava: oprimia, dominava. — Não matam, meu filho. Se matassem, há muito que morrera, pois vivem comigo todas as horas. mendubim: amendoim, do tupi manduw’. Vou contar-te o meu cativeiro. Tinha chegado o tempo da colheita, e o milho e o inhame e o mendubim eram em abundância nas nossas roças. Era um destes dias em que a natureza parece entregar-se toda a brandos folgares, era uma manhã risonha, e bela, como o rosto de um infante, entretanto eu tinha um peso enorme no coração. Sim, eu estava triste, e não sabia a que atribuir minha tristeza. Era a primeira vez que me afligia tão incompreensível pesar. Minha filha sorria-se para mim, era ela gentilzinha, e em sua inocência semelhava um anjo. Desgraçada de mim! Deixei-a nos braços de minha mãe, e fui-me à roça colher milho. Ah! nunca mais devia eu vê-la… folgares: alegrias, regozijos. braças: medida que corresponde a 3,052 metros. embalde: em vão, inutilmente. Bayu/Adobe Stock Ainda não tinha vencido cem braças de caminho, quando um assobio, que repercutiu nas matas, me veio orientar acerca do perigo iminente, que aí me aguardava. E logo dois homens apareceram, e amarraram-me com cordas. Era uma prisioneira — era uma escrava! Foi embalde que supliquei em nome de minha filha, que me restituíssem a liberdade: os bárbaros sorriam-se das minhas lágrimas, e olhavam-me sem compaixão. Julguei enlouquecer, julguei morrer, mas não me foi possível… a sorte me reservava ainda longos combates. Quando me arrancaram daqueles lugares, onde tudo me ficava — pátria, esposo, mãe e filha, e liberdade! Meu Deus! O que se passou no fundo de minha alma, só vós o pudestes avaliar!… Meteram-me a mim e a mais trezentos companheiros de infortúnio e de cativeiro no estreito e infecto porão de um navio. Trinta dias de cruéis tormentos, e de falta absoluta de tudo quanto é mais necessário à vida passamos nessa sepultura até que abordamos as praias Li te ra tu ra 137 brasileiras. Para caber a mercadoria humana no porão fomos amarrados em pé e para que não houvesse receio de revolta, acorrentados como os animais ferozes das nossas matas, que se levam para recreio dos potentados da Europa. Davam-nos a água imunda, podre e dada com mesquinhez, a comida má e ainda mais porca: vimos morrer ao nosso lado muitos companheiros à falta de ar, de alimento e de água. É horrível lembrar que criaturas humanas tratem a seus semelhantes assim e que não lhes doa a consciência de levá-los à sepultura asfixiados e famintos! Muitos não deixavam chegar esse último extremo — davam-se à morte. Nos dois últimos dias não houve mais alimento. Os mais insofridos entraram a vozear. Grande Deus! Da escotilha lançaram sobre nós água e breu fervendo, que escaldou-nos e veio dar a morte aos cabeças do motim. A dor da perda da pátria, dos entes caros, da liberdade foi sufocada nessa viagem pelo horror constante de tamanhas atrocidades. potentados: dotados de grande poder e riqueza. comendador: título honorífico que confere prestígio ao seu detentor, cuja função está associada à defesa e à administração de terras. Não sei ainda como resisti — é que Deus quis poupar-me para provar a paciência de sua serva com novos tormentos que aqui me aguardavam. O comendador P… foi o senhor que me escolheu. Coração de tigre é o seu! Gelei de horror ao aspecto de meus irmãos… os tratos, por que passaram, doeram-me até o fundo do coração! O comendador P… derramava sem se horrorizar o sangue dos desgraçados negros por uma leve negligência, por uma obrigação mais tibiamente cumprida, por falta de inteligência! E eu sofri com resignação todos os tratos que se dava a meus irmãos, e tão rigorosos como os que eles sentiam. E eu também os sofri, como eles, e muitas vezes com a mais cruel injustiça. Pouco depois casou-se a senhora Luísa B…, e ainda a mesma sorte: seu marido era um homem mau, e eu suportei em silêncio o peso do seu rigor. E ela chorava, porque doía-lhe na alma a dureza de seu esposo para com os míseros escravos […] O senhor Paulo B… morreu, e sua esposa, e sua filha procuraram em sua extrema bondade fazer-nos esquecer nossas passadas desditas! Túlio, meu filho, eu as amo de todo o coração, e lhes agradeço: mas a dor, que tenho no coração, só a morte poderá apagar! — Meu marido, minha filha, minha terra… minha liberdade… E depois ela calou-se, e as lágrimas, que lhe banhavam o rosto rugoso, gotejaram na terra. REIS, Maria Firmina dos. Úrsula. Florianópolis: Ed. Mulheres; Belo Horizonte: PUC Minas, 2004. p. 114-119. 138 L ite ra tu ra 1. a) O narrador é onisciente, uma vez que narra em terceira pessoa e conhece tudo o que ocorre na história, inclusive o estado mental e emocional dos personagens, como pode ser observado no trecho: “Estava extenuada de aflição, a dor era-lhe viva, e assoberbava-lhe o coração”. Não escreva no livro. 1. Observe, no texto em estudo, as vozes do narrador e dos personagens. a) Que ponto de vista é adotado na narrativa? Justifique sua resposta com elementos do texto. b) Ao contrário do que ocorria no romance romântico da época, Maria Firmina dos Reis valorizou os personagens africanos e afrodescendentes. Explique essa afirmação considerando a relação entre as vozes do narrador e dos personagens no texto em estudo. O narrador cede sua voz à personagem Susana para que ela narre, em 1a pessoa, a história de captura e posterior escravização. No texto em estudo, a voz de Susana ocupa praticamente toda a narrativa, o que faz com que a personagem e seus dramas ganhem relevância 2. Releia estes trechos do texto em estudo: não apenas no capítulo dedicado a ela, mas também em todo o romance. ● Mãe Susana, graças à generosa alma deste mancebo sou hoje livre, livre como o pássaro, como as águas; livre como o éreis na vossa pátria. ● Liberdade! Liberdade… ah! eu a gozei na minha mocidade! — continuou Susana com amargura — Túlio, meu filho, ninguém a gozou mais ampla, não houve mulher alguma mais ditosa do que eu. Nesses trechos, Túlio e Susana falam a respeito da liberdade e, como você pode observar nas frases em destaque, comparam experiências de liberdade. 5. a) Ele é parte do sistema escravista que oprime e desumaniza, de maneira bárbara e cruel, os africanos a) Ambos os personagens foram escravizados, mas suas origens e suas experiências com o processo de escravização são diferentes. Em que consistem tais diferenças? Susana é uma mulher de origem africana que era livre e foi escravizada, enquanto Túlio é um afrodescendente que nasceu escravizado e foi liberto na juventude. b) Considerando a resposta anterior, troque ideias com a turma e responda no caderno: Por que a percepção de liberdade é diferente para cada um dos personagens? Como Túlio nasceu escravizado, ele pensa que a liberdade que usufrui agora, de um liberto, é semelhante à de uma pessoa que nasceu livre; diferentemente, Susana, que nasceu livre e foi escravizada, percebe que liberdade plena é aquela com a qual você nasce. 3. Susana narra fatos de sua vida na mocidade e os últimos adventos na África, sua terra natal. a) Antes de ser capturada, de que maneira a vida de Susana era social e economicamente estinha uma família, constituída pelo marido, pela filha ainda pequena e pela mãe, e sua subsistência vinha truturada? Susana do trabalho da agricultura, particularmente da cultura do milho, inhame e amendoim. b) O termo bárbaro, que designa rude, selvagem, incivilizado, foi amplamente empregado pelos colonizadores para se referir aos povos colonizados, como os africanos e seus descendentes. Na fala de Susana, a quem ela se refere ao empregar o termo bárbaro? Ela emprega o termo bárbaro para se referir àqueles que sequestraram e escravizaram os africanos. c) O modo de vida na África, retratado por Susana, sugere quem deveria ou não ser chamado de O modo de vida estruturado na África, envolvendo constituição familiar e trabalho para seu sustenbárbaro? Explique. Sim. to, nada tem a ver com a acepção de bárbaro; o mesmo não ocorre com aqueles cujas ações privaram o outro de sua liberdade, de sua terra natal e de sua família. 4. Na sequência da narrativa, Susana narra como foi trazida ao Brasil Colônia. a) Identifique e explique a figura de linguagem utilizada no texto para retratar o navio que a Há o emprego da metáfora sepultura para retratar o navio que a transportou, uma vez que, como uma sepultransportou. tura pelo mar, levou muitos africanos à morte, por assassinato, suicídio, fome e doenças, devido às condições desumanas, cruéis e insalubres a que foram submetidos. b) Suzana se refere aos africanos presos no porão do navio como “mercadoria humana”. Que efeito de sentido o uso dessa metáfora produz no texto? Ela intensifica a desumanização a que os africanos foram submetidos no navio, durante a travessia, sugerindo que foram reduzidos a uma condição de objeto, algo que pode ser comprado, transportado e vendido; assim, a metáfora intensifica e denuncia a crueldade e a exploração inerentes ao sistema escravista. 5. Em seu relato, Susana também retrata sua chegada ao mundo em que passaria a viver. a) Considerando a maneira como comendador P… é retratado por Susana, o que ele representa no processo de escravização dos africanos? Justifique sua resposta com elementos do texto. e seus descendentes: “[…] derramava sem se horrorizar o sangue dos desgraçados negros por uma leve negligência […]”. b) E o que Luísa B… representa no contexto da narrativa de Susana? Justifique sua resposta com elementos do texto. Representa a figura que também é alvo da opressão e da submissão, e que ampara as pessoas escravi- zadas: “[…] casou-se a senhora Luísa B…, e ainda a mesma sorte: seu marido era um homem mau […] E ela chorava, porque doía-lhe na alma a dureza de seu esposo para com os míseros escravos”. 6. A violência, o medo e o horror são traços característicos da prosa gótica. Tendo em vista os poemas abolicionistas de Narcisa Amália e de Castro Alves, estudados anteriormente, troque ideias com a turma e responda no caderno: Pode-se dizer que a violência, o medo e o horror presentes na narrativa de Susana, no romance òrsula, são apenas traços característicos da Não. A violência, o medo e o horror presentes na narrativa de Susana ganham dimensão mais social prosa gótica? Explique. no romance òrsula, uma vez que, assim como os poemas de Narcisa Amália e Castro Alves, dialoga com situações reais que historicamente foram vivenciadas primeiramente pelos africanos e depois pelos seus descendentes. Dessa maneira, a violência e o horror abordados estão profundamente enraizados na experiência histórica. Li te ra tu ra 139 1. a) Na fala de Susana, ela trata Túlio por “meu filho”, sugerindo que é mãe dele. No romance, Túlio foi criado por Susana e, embora não seja filho biológico dela, a trata como “mãe Susana”. Pergunte aos estudantes se conhecem alguém que trata diferentes pessoas pela expressão “meu filho”/”minha filha”, independentemente da relação familiar de mãe/pai – filho/filha, e em quais contextos esse tipo de tratamento pode ocorrer para além do laço familiar. Língua e linguagem BN CC Competências gerais da Educação Básica: 1, 2, 3, 4, 6 Competências específicas de Linguagens: 1, 2, 3, 4, 6 Habilidades específicas da área de Linguagens: EM13LGG101, EM13LGG102, EM13LGG103, EM13LGG201, EM13LGG202, EM13LGG302, EM13LGG401, EM13LGG402, EM13LGG601, EM13LGG604 Habilidades específicas de Língua Portuguesa: EM13LP01, EM13LP02, EM13LP06, EM13LP07, EM13LP08, EM13LP09, EM13LP10, EM13LP46, EM13LP49 Análise sintática: período simples (revisão) Foco no texto Você estudou anteriormente o romance Úrsula, de Maria Firmina dos Reis. Agora, você vai reler algumas partes do texto lido, a fim de analisar as construções linguísticas utilizadas pela autora e alguns dos efeitos de sentido construídos por elas. 1. Releia as falas a seguir: — Ah! pelo céu! — exclamou o jovem negro enternecido — sim, pelo céu, para que essas recordações!? — Não matam, meu filho. Se matassem, há muito que morrera, pois vivem comigo todas as horas. Essas falas compõem uma conversa entre dois personagens. Levante hipóteses: a) Qual é a relação existente entre eles? Justifique sua resposta com uma expressão do trecho. b) Quais indícios o diálogo lido revela sobre os sentimentos dos personagens em relação um ao outro? Justifique sua resposta com termos diálogo revela intimidade e afeição entre os dois personagens, porque Susana do texto. O chama Túlio de “meu filho” e este, por sua vez, lamenta que Susana sofra com lembranças tristes e fica comovido com a situação. Releia este trecho para responder às questões 2 e 3: Quando me arrancaram daqueles lugares, onde tudo me ficava — pátria, esposo, mãe e filha, e liberdade! Meu Deus! O que se passou no fundo de minha alma, só vós o pudestes avaliar!… Meteram-me a mim e a mais trezentos companheiros de infortúnio e de cativeiro no estreito e infecto porão de um navio. […] Nos dois últimos dias não houve mais alimento. Os mais insofridos entraram a vozear. Grande Deus! Da escotilha lançaram sobre nós água e breu fervendo, que escaldou-nos e veio dar a morte aos cabeças do motim. A dor da perda da pátria, dos entes caros, da liberdade foi sufocada nessa viagem pelo horror constante de tamanhas atrocidades. Não sei ainda como resisti — é que Deus quis poupar-me para provar a paciência de sua serva com novos tormentos que aqui me aguardavam. 2. b) As palavras “estreito” e “infecto” são usadas para caracterizar o porão, e as palavras “infortúnio” e “cativeiro” foram usadas para denominar a situação vivida por ela e pelos companheiros. 2. No trecho, a personagem Susana fala sobre o que passou em sua vinda para o Brasil. a) Identifique o trecho no qual ela descreve o que deixou em sua terra natal. O trecho “onde tudo me ficava — pátria, esposo, mãe e filha e liberdade”. b) Quais palavras ela usa para caracterizar o porão do navio no qual foi trazida para o Brasil? E quais palavras ela usa para denominar a situação vivida por ela e os companheiros? c) O que a escolha dessas palavras revela sobre o sentimento de Susana em relação ao episódio? Revela que ela tem uma lembrança viva e extremamente negativa em relação ao episódio. d) Segundo ela, houve uma situação que a fez sufocar a dor da perda da pátria. Essa situação foi ela, essa dor foi sufocada pelo horror das atrocidades vividas na viagem. Trata-se de uma boa ou ruim? Explique. Segundo situação muito ruim, que pela tamanha perversidade a fez esquecer da tristeza de ser tirada de sua terra natal. 140 Língua e linguagem 5. c) Dizem respeito a Susana os termos “a africana” e “eu”. Essa diferença ocorre porque a caracterização “a africana” é feita na voz do narrador, que fala da personagem na 3a pessoa, já o pronome de 1a pessoa, “eu”, é empregado quando a frase compõe a fala da própria personagem, ao rememorar suas vivências. Não escreva no livro. 3. No trecho em estudo são empregados variados termos e expressões da língua portuguesa que costumam ser usados para sinalizar tempo e lugar. As expressões “no estreito e infecto porão de um navio”, “da escotilha” e “aqui” mar- a) Indique em seu caderno quais são eles. cam lugar, e as expressões “nos dois últimos dias” e “nessa viagem” marcam tempo. b) Troque ideias com os colegas e o professor e explique a importância da presença desses termos no contexto do romance. Observe, agora, a estrutura de cada uma das orações do texto em estudo transcritas a seguir. Então responda às atividades 4 e 5. I. A africana limpou o rosto com as mãos […]. II. Eu corria às descarnadas e arenosas praias […]. III. Estava extenuada de aflição. IV. Exclamou o jovem negro enternecido. V. O comendador P… derramava […] o sangue dos desgraçados negros por uma leve negligência, por uma obrigação mais tibiamente cumprida, por falta de inteligência! 4. Considerando os sentidos do texto estudado na seção anterior, identifique: a) Quais dessas orações dizem respeito ao momento em que Susana conversa com Túlio? As frases I, III e IV. b) Quais dessas frases fazem referências a ações que ocorreram antes da conversa de Susana com Túlio? As frases II e V. 5. Todas as orações lidas contêm apenas uma forma verbal. Com base nos estudos que você realizou em sua trajetória escolar: a) Indique em seu caderno a forma verbal que compõe cada uma dessas frases. Respectivamente: limpou, corria, estava, exclamou e derramava. b) Troque ideias com os colegas e o professor: Quais termos das orações correspondem aos sujeitos das formas verbais indicadas no item a? c) Entre os termos indicados por você no item b, identifique aqueles que correspondem à personagem Susana. Em seguida, levante hipóteses: Por que, no contexto, foram utilizadas essas diferentes construções para fazer referência à mesma personagem? d) Proponha uma reescrita para as orações I e III como se a própria Susana fosse a narradora, fazendo as alterações necessárias. “Eu limpei meu/o rosto com as (minhas) mãos.” e “(Eu) estava extenuada de aflição.” 6. Observe as formas verbais em destaque nas quatro orações a seguir, extraídas do mesmo texto estudado: I. Mais tarde deram-me em matrimônio a um homem […]. II. Meteram-me a mim e a mais trezentos companheiros de infortúnio e de cativeiro no estreito e infecto porão de um navio III. Nos dois últimos dias não houve mais alimento. IV. Os mais insofridos entraram a vozear. 6. a) Quanto a tempo e modo, estão todas conjugadas no pretérito perfeito do modo indicativo. Quanto a pessoa e número: I, II e IV. 3a pessoa do plural, III. 3a pessoa do singular. a) Em qual tempo, modo, pessoa e número está conjugada cada uma dessas formas? Se julgar necessário, consulte o quadro dos tempos verbais estudado no capítulo 2. b) Troque ideias com os colegas e o professor e, considerando os sentidos do texto, conclua: Por que as formas verbais estão no tempo e no modo indicados por você no item a? Além disso, é possível definir quem são, no contexto da história, os sujeitos de cada uma dessas formas verbais? Justifique sua resposta, indicando tais sujeitos, se possível. Se necessário, volte ao trecho lido para responder. Consulte a resposta das atividades 3, item b, 5, item b, e 6, item b, nas Orientações específicas do Manual do Professor. Língua e linguagem 141 7. Agora releia as orações a seguir. I. A africana limpou o rosto com as mãos […]. II. Estava extenuada de aflição. III. Mais tarde deram-me em matrimônio a um homem […]. IV. Exclamou o jovem negro enternecido. Analise os termos em destaque em cada oração, troque ideias com os colegas e o professor e identifique: a) Quais deles correspondem a atributos, características dos personagens? “extenuada” e “enternecido”. b) Quais deles complementam o sentido das formas verbais ligando-se diretamente a elas, sem a necessidade de uma preposição? “o rosto” e “me”. c) Qual deles complementa o sentido das formas verbais sem se ligar diretamente a elas, havendo a necessidade do emprego de uma preposição entre a forma verbal e seu complemento? “a um homem” d) Quais deles modificam as formas verbais, especificando o sentido delas ao acrescentar determinadas circunstâncias? “com as mãos” e “em matrimônio”. Reflexões sobre a língua Sujeito, predicado e predicação verbal Conforme você observou ao analisar trechos do romance òrsula, as formas verbais concordam com substantivos e pronomes aos quais se referem no texto, e são modificadas em número e pessoa quando se alteram esses termos, como ocorre em “A africana limpou o rosto” ou “Eu limpei meu rosto”. A parte das orações que, ao ser alterada quanto às flexões de pessoa e número, leva o verbo à mesma alteração, é chamada de sujeito; o restante da oração é chamado de predicado. O sujeito de uma oração pode ser identificado com base em características semânticas ou sintáticas, ou seja, relacionadas ao sentido ou à posição dos termos na oração. De acordo com o critério semântico, sujeito é aquilo de que se fala, ou seja, o assunto ou o agente da ação verbal. De acordo com o critério sintático, o sujeito é o termo da oração que concorda com o verbo. Assim, concluímos: Sujeito é o termo da oração que: • concorda com o verbo; • pode constituir o assunto de que se fala; • pode ser o agente da ação verbal; • normalmente apresenta como núcleo um substantivo, um pronome ou uma palavra substantivada. Predicado é o termo da oração que: • apresenta um verbo; • pode dizer algo a respeito do sujeito. O sujeito nem sempre inicia a oração. Veja: “Exclamou o jovem negro enternecido.” sujeito Na oração sem sujeito (impessoal), o predicado é a citação pura de um fato: “Nos dois últimos dias não houve mais alimento.” 142 Língua e linguagem Não escreva no livro. Identificado o sujeito, o restante da oração constitui o predicado. Observe: Exclamou o jovem negro enternecido. predicado sujeito predicado “O comendador P… derramava o sangue dos desgraçados negros por uma leve negligência, por uma obrigação mais tibiamente cumprida, por falta de inteligência!” sujeito predicado Mais importante do que identificar o sujeito e o predicado de uma oração é analisar como essas categorias sintáticas constituem os enunciados e, dependendo das construções, reconhecer os efeitos de sentido que podem proporcionar. Ao responder às perguntas, você percebeu também que há predicados que informam ações do sujeito, ao passo que outros indicam características e atributos do sujeito. Predicação verbal é o tipo de relação que o verbo mantém com o sujeito da oração. De acordo com essa relação, os verbos podem ser de dois tipos: de estado ou de ligação e significativos ou nocionais. Você viu, no estudo do texto, que há verbos que ligam o sujeito às suas características, ao seu estado ou às suas qualidades: são os chamados verbos de estado ou de ligação. Também analisou verbos que indicam ação: esses verbos, assim como os que indicam fenômenos meteorológicos, são chamados de verbos significativos ou nocionais. Assim: Verbo de ligação é aquele que serve como elemento de ligação entre o sujeito e seu atributo, denominado predicativo. Transitividade verbal é a necessidade que alguns verbos apresentam de ter outras palavras como complemento. A esses verbos que exigem complemento chamamos de transitivos e aos que não exigem complemento chamamos de intransitivos. APLIQUE O QUE APRENDEU Leia este poema, de Mário Quintana: Os degraus Erika Lourenço/Arquivo da editora Não desças os degraus do sonho Para não despertar os monstros. Não subas aos sótãos — onde Os deuses, por trás das suas máscaras, Ocultam o próprio enigma. Não desças, não subas, fica. O mistério está é na tua vida! E é um sonho louco este nosso mundo… QUINTANA, Mário. Os degraus. In: QUINTANA, Mário. Rua dos cataventos e outros poemas. Porto Alegre: L&PM, 2008. p. 95. Língua e linguagem 143 1. b) Foi empregado o modo imperativo negativo (não desças, não subas) e afirmativo (fica) na 2a pessoa do singular (tu), indicando que o eu lírico faz um aconselhamento direto a seu interlocutor. 1. O eu lírico se dirige diretamente a um interlocutor, a quem trata por tu, como se pode verificar pelas formas verbais e pronominais empregadas na 2a pessoa do singular. a) Levante hipóteses: No contexto do poema, quais são os sentidos das expressões “descer os degraus do sonho” e “subir aos sótãos”? b) Observe as formas verbais não desças, não subas e fica. Qual modo verbal foi empregado? Qual é o sentido construído por ele no contexto do poema, bem como o motivo pelo qual se deu a escolha da pessoa e do número dessa conjugação? c) Qual é a justificativa que o eu lírico dá a seu interlocutor para explicar seu ponto de vista? Em quais versos essa justificativa se encontra? Nos dois últimos versos, o eu lírico justifica seu conselho ao afirmar 2. Releia os seguintes versos. I. Não desças os degraus dos sonhos II. Não subas aos sótãos que o mistério está na vida do interlocutor e que, por isso, ele não deve tentar se desviar dela por mais estranha que lhe pareça, uma vez que o mundo é, segundo ele, “um sonho louco”. 1. a) Sugestão: respectivamente, deixar de viver um sonho e se iludir por desejos extremamente grandiosos. 4. b) O sujeito é “o papo brabo”. Na ordem direta, a frase seria “O papo brabo vem lá” e o sentido se perde, porque a expressão “lá IV. E é um sonho louco este nosso mundo… vem”, sozinha ou em início de frase, é frequentemente empregada com um sentido de reprovação, como se o interlocutor fosse dizer algo irrelevante ou equivocado. a) Identifique o sujeito de cada uma das formas verbais em destaque. “Tu”, implícito, em I, II e III, e “este nosso mundo” na IV. III. Não desças, não subas, fica. b) Quais dessas formas verbais se referem a ações do sujeito e não têm complemento? As formas verbais subas, desças, fica, do verso III. c) Deduza: Qual dessas formas verbais não expressa uma ação do sujeito, mas o conecta a um atributo dele? A forma verbal é, do verso IV. 4. d) Vem não exige complemento d) Identifique os termos que completam as demais formas verbais. No verso I, “os degraus dos sonhos”, e no verso II, “aos sótãos”. Clara Gomes/Bichinhos de Jardim Leia a tira a seguir e responda às questões 3 a 6. e tenho é complementada pelas expressões “olhos”, na 1a oração, e “dois tracinhos”, na 2a oração. São, respectivamente, intransitiva, transitiva e transitiva. GOMES, Clara. Bichinhos de Jardim. [S. l.], 13 ago. 2007. Disponível em: https://tedit.net/iwtb3x. Acesso em: 29 set. 2024. 3. Observe as formas verbais revela e exercem nas falas da borboleta nos dois primeiros quadrinhos. a) Qual é o sujeito de cada uma? Justifique sua resposta. Respectivamente, “o movimento dos olhos” e “os olhos”. b) Qual termo complementa cada uma dessas formas verbais no contexto? No contexto, revela tem como complemento “coisas ocultas” e exercem tem como complemento “poderosa influência”. 4. Agora observe a fala da joaninha nos dois primeiros quadrinhos. O de que o assunto da borboleta é complexo ou pesado demais a) Qual é o sentido da fala dela no 1o quadrinho? e aparentemente não lhe interessa. Entre os sentidos do termo brabo estão difícil, ruim. b) Identifique o sujeito da forma verbal vem. Em seguida, reescreva a fala do 1o quadrinho, colocando a frase na ordem direta. Troque ideias com os colegas e o professor: O sentido se mantém? Justifique sua resposta. c) Deduza: Qual forma verbal está implícita na oração “apenas dois tracinhos no meio da cara!”? A forma verbal tenho, empregada na oração imediatamente anterior. d) Quais são os complementos das formas verbais utilizadas pela joaninha nas falas desses dois quadrinhos? Conclua: Trata-se de formas verbais transitivas ou intransitivas? e) Levante hipóteses: As falas da joaninha nesses quadrinhos sugerem que ela tem qual visão sobre as ideias da borboleta? Algum recurso não verbal foi usado que justifique a sua resposta? 144 Sugerem que ela despreza as ideias da borboleta, pois não se aplicariam ao caso dela. Além disso, no segundo quadrinho é possível reconhecer um cenho franzido representado por um traço sobre os “olhos” da joaninha. Língua e linguagem 5. Ao contrário da indiferença que suas falas anteriores sugeriam, no 3o quadrinho a joaninha se mostra diretamente afetada pelo olhar da borboleta, o que se percebe tanto pela sua fala (interjeição e repetidos pontos de exclamação e de interrogação) quanto por sua expressão facial (olhos modificados e boca aberta). Não escreva no livro. 5. Releia o 3o quadrinho e, com base em elementos verbais e não verbais, explique por que a reação da joaninha nesse quadrinho quebra a expectativa que vinha sendo construída na tira. 6. O 4o quadrinho é responsável pelo desfecho do efeito de humor da tira em estudo. a) Qual forma verbal a joaninha utiliza em sua fala? Explique a função dessa forma verbal, assim forma verbal Ž, que tem a função de coneccomo das palavras e expressões que são conectadas por ela. A tar o sujeito a um predicativo que o caracteriza. b) Dê a classificação da forma verbal indicada por você no item a. Trata-se de um verbo de ligação. c) Explique de que forma essa fala da joaninha constrói humor no texto. Essa fala mostra que a joaninha mudou completamente o seu ponto de vista apenas por ter olhado no olho da borboleta e essa ruptura brusca constrói humor no texto. Termos ligados ao verbo: objetos direto e indireto e adjunto adverbial Ao analisar trechos do romance òrsula, você observou que, no contexto, o verbo dar é transitivo, pois é empregado com complementos. Em “veio dar a morte aos cabeças do motim”, a morte liga-se ao verbo diretamente, sem preposição, e “aos cabeças do motim” liga-se ao verbo por meio de uma preposição (a). Nesse caso, dizemos que o verbo é transitivo direto e indireto e seus complementos se chamam, respectivamente, objeto direto e objeto indireto. Objeto direto é o termo que se liga diretamente, isto é, sem preposição, a um verbo transitivo. Objeto indireto é o termo que se liga indiretamente, isto é, por meio de uma preposição, a um verbo transitivo. Há ainda dois outros tipos de verbos transitivos. O verbo transitivo direto (VTD), que é complementado por um objeto direto (OD), e o verbo transitivo indireto (VTI), que é complementado por um objeto indireto (OI). Veja: A africana limpou o rosto. VTD OD Eu agradeço aos meus irmãos. VTI OI Você viu ainda que termos como “nos dois últimos dias” e “aqui” expressam, respectivamente, marcações de tempo e lugar em relação às ações que se desenrolam na narrativa. E percebeu que termos como “com as mãos” e “em matrimônio” acrescentam circunstâncias às formas verbais que acompanham. Cada um desses termos é, sintaticamente, chamado de adjunto adverbial. Adjunto adverbial é o termo que indica as circunstâncias em que se dá a ação verbal. Língua e linguagem 145 APLIQUE O QUE APRENDEU Leia este texto: Reprodução/Museu do Prado, Madri, Espanha. Por que todo mundo usava peruca na Europa dos séculos 17 e 18? Não era todo mundo, apenas os aristocratas. A moda começou com Luís 14 (1638-1715), rei da França. Durante seu governo, o monarca adotou a peruca pelo mesmo motivo que muita gente usa o acessório ainda hoje: esconder a calvície. O resto da nobreza gostou da ideia e o costume pegou. […] […] Mas, por mais elegante que parecesse ao pessoal da época, a moda das perucas também era nojenta. “Proliferava todo tipo de bicho, de baratas a camundongos, nesses cabelos postiços”, afirma o estilista João Braga, professor de História da Moda das Faculdades Senac, em São Paulo. Em 1789, com a Revolução Francesa, veio a guilhotina, que extirpou a maioria das cabeças com perucas. Símbolo de uma nobreza que se desejava exterminar, elas logo caíram em desuso. […] Retrato de Lu’s XIV (1701), do pintor francês Hyacinthe Rigaud (1659-1743). POR QUE todo mundo usava peruca na Europa dos séculos 17 e 18? Mundo Estranho, São Paulo, 22 fev. 2024. Disponível em: https://tedit.net/jgu34s. Acesso em: 13 set. 2024. 1. Releia o título do texto. Usava é a forma verbal e os termos ligados a ela são “peruca” e “na Europa a) Identifique a forma verbal nele contida e os termos ligados a ela. dos séculos 17 e 18”. b) Qual desses termos é um complemento verbal? Classifique-o. Peruca, objeto direto. c) Quais das opções a seguir correspondem às circunstâncias evidenciadas pelo outro termo? Indique no caderno. Lugar e tempo. • negação e dúvida • modo e condição • lugar e tempo d) Troque ideias com os colegas e o professor e levante hipóteses: Por que é relevante inserir essas circunstâncias em um título de curiosidades? Essas expressões adiantam ao leitor informações sobre os tópicos que serão desenvolvidos no texto. 2. No 1 parágrafo foi utilizada a forma verbal adotou. o a) Qual é o sentido desse verbo no contexto? Incorporar um hábito, fazer uso de algo. b) Encontre um sinônimo dessa forma verbal no mesmo parágrafo. usa c) Quais termos complementam o sentido dessas duas formas verbais e como eles são classificados no contexto? Respectivamente, “a peruca” e “o acessório”, ambos objetos diretos. 3. Observe as frases a seguir. I. o costume pegou II. proliferava todo tipo de bicho III. veio a guilhotina a) Como se classificam todas essas formas verbais? Intransitivas. b) Reescreva-as, acrescentando a cada uma delas um adjunto adverbial coerente com o sentido Deixe que os estudantes exponham e comparem suas respostas, pois há diferentes possibilidades. Chame sempre do texto. a atenção deles para o sentido do texto. Sugestões: “O costume pegou rapidamente/vigorosamente/repentinamente”; “Proliferava em alta velocidade todo tipo de bicho”; “Logo veio a guilhotina”. 4. Ao longo de todo o texto foram empregados adjuntos adverbiais com diferentes valores semânticos. Identifique no texto adjuntos adverbiais indicadores de circunstâncias de: • negação; 146 • tempo; • lugar. Negação: “Não”, em “Não era todo mundo”; tempo: “Durante seu governo”, “ainda hoje”, “Em 1789”; lugar: “nesses cabelos postiços”, “em São Paulo”. Língua e linguagem Não escreva no livro. Termos ligados ao nome: adjunto adnominal e complemento nominal Ao analisar a fala de Susana, você observou que as palavras utilizadas por ela caracterizam os episódios vividos e revelam o sentimento da personagem em relação a eles. Isso ocorre em trechos como: Meteram-me a mim e a mais trezentos companheiros de infortúnio e de cativeiro no estreito e infecto porão de um navio. A dor da perda da pátria, dos entes caros, da liberdade foi sufocada nessa viagem pelo horror constante de tamanhas atrocidades. Nesses trechos, é possível observar que: • trezentos é um numeral que precisa a quantidade de companheiros; • estreito e infecto são adjetivos que caracterizam porão. Quando modificam um núcleo (qualquer que seja sua função sintática: sujeito, objeto direto, objeto indireto, adjunto adverbial, etc.), palavras como os artigos, os numerais, os pronomes e os adjetivos exercem a função de adjunto adnominal. Concluindo: Adjunto adnominal é o termo da oração que modifica um substantivo, qualquer que seja sua função sintática, qualificando-o, especificando-o, determinando-o ou indeterminando-o. Nas falas de Susana, é possível observar que, assim como há palavras que complementam verbos, há palavras que complementam nomes. Compare: Meteram-me no porão de um navio. VTD OD A dor da perda foi sufocada pelo horror das atrocidades substantivo CN Na 1a frase, o termo me complementa o verbo meter; como meter é um verbo transitivo direto, o termo me é objeto direto. Na 2a frase, a expressão da perda complementa o substantivo dor, sendo o foco da dor. Como o substantivo é nome, dizemos que a expressão da perda é complemento nominal. O complemento nominal é obrigatoriamente regido de preposição. Complemento nominal é o termo sintático que complementa nomes, isto é, substantivos, adjetivos e advérbios. APLIQUE O QUE APRENDEU Frank & Ernest, Bob Thaves © 2011 Thaves/Dist. by Andrews McMeel Syndication Leia a tira a seguir e responda às questões 1 a 3. THAVES, Bob. Frank & Ernest. O Estado de São Paulo, São Paulo, 2 out. 2011. Caderno 2. Língua e linguagem 147 3. O jogo de palavras consiste na relação entre “vivo dormindo” e “sonhos”; a aparente contradição, no fato de o personagem perder o emprego “dos sonhos” pelo fato de “viver dormindo” na mesa do escritório. É esse uso das palavras que causa o humor na tira. 1. Observe, na frase dita pelo personagem, as expressões “na mesa do escritório” e “o emprego dos meus sonhos”. a) Ambas as expressões estão relacionadas às locuções verbais vivo dormindo e (vivo) perdendo, respectivamente. No entanto, cada uma delas cumpre um papel diferente. Que informação cada uma dessas expressões acrescenta à respectiva locução verbal? A primeira indica a circunstância em que ocorre a ação de dormir; a segunda é complemento da ação de perder. b) Classifique sintaticamente esses termos. Respectivamente, adjunto adverbial de lugar e objeto direto do verbo. c) Como se classificam sintaticamente as palavras a e o, da expressão “na mesa do escritório”, e as palavras o, os e meus, da expressão “o emprego dos meus sonhos”? São adjuntos adnominais. 2. Quais são, na frase dita pelo personagem, os adjuntos adnominais que modificam os substantivos mesa e emprego? a de na (em + a) e do escritório para mesa; o e dos meus sonhos para emprego. 3. Na fala do personagem há, ao mesmo tempo, um jogo de palavras e uma aparente contradição. Em que consistem esse jogo de palavras e essa aparente contradição? Que sentido eles dão ao texto? 4. Transforme em substantivos os verbos transitivos destacados. Veja o exemplo: Gostar dos estudos O gosto pelos estudos Observe que os termos que completam os verbos (os objetos) tornam-se, com a transformação, complementos nominais, porque passam a complementar substantivos. a) Combater contra a tirania O combate à tirania d) Responder pelos atos praticados b) Confiar em Deus A confiança em Deus e) Investir em educação e saúde c) Desagradar aos pais O desagrado aos pais A resposta aos atos praticados O investimento em educação e saúde 5. Reescreva as frases a seguir, transformando o verbo destacado em substantivo. Depois, identifique o complemento nominal. Veja um exemplo: A instituição de caridade necessita de agasalhos para doação. A instituição de caridade tem necessidade de agasalhos para doação. / CN: de agasalhos a) Ele conhece o assunto. Ele tem conhecimento do assunto. / CN: do assunto b) Ela requereu afastamento por motivo de doença. Ela fez/redigiu um requerimento de afastamento por motivo de doença. / CN: de afastamento c) Na reunião, o diretor referiu-se ao relatório anual da empresa. Na reunião, o diretor fez referência ao relatório anual da empresa. / CN: ao relatório anual da empresa d) O advogado expôs seus argumentos ao juiz. O advogado fez a exposição de seus argumentos ao juiz. / CN: de seus argumentos Predicativo do sujeito, predicativo do objeto e tipos de predicado Você aprendeu que o predicado é o termo da oração que afirma alguma coisa sobre o sujeito e apresenta um verbo que normalmente concorda com o sujeito em número e pessoa. Na oração “Susana estava extenuada”, observamos que ao sujeito Susana é atribuída, por meio do verbo de ligação estar, na forma estava, uma característica, qualidade ou estado: extenuada. A esse atributo do sujeito chamamos predicativo do sujeito e a esse predicado chamamos predicado nominal, uma vez que seu núcleo é o predicativo e não o verbo. As orações “A africana limpou o rosto” e “Eu corria às descarnadas e arenosas praias!”, por conterem verbos significativos (respectivamente, transitivo direto e transitivo indireto), são compostas de um tipo de predicado chamado predicado verbal, uma vez que seu núcleo corresponde ao próprio verbo. 148 Língua e linguagem Não escreva no livro. Já na oração “Exclamou o jovem negro enternecido”, o estado emocional enternecido é atribuído ao sujeito “o jovem negro”, desempenhando a função de predicativo do sujeito; entretanto, nesse caso, o verbo não é de ligação, mas significativo (exclamou, intransitivo). Assim, é composta de um tipo de predicado chamado predicado verbo-nominal, uma vez que contém dois núcleos: o verbo e o predicativo. O predicado verbo-nominal também ocorre quando há predicativo do objeto e verbo significativo, por exemplo: Susana considerava sua história triste. VTD objeto direto predicativo do objeto Concluindo: Predicativo do sujeito é o termo que atribui características, qualidade ou estado ao sujeito. Predicativo do objeto é o termo que atribui características, qualidade ou estado ao objeto direto ou ao objeto indireto. Predicado verbal é aquele que apresenta como núcleo um verbo significativo (VI, VTD, VTI ou VTDI). Predicado nominal é aquele que apresenta como núcleo um predicativo do sujeito, que se liga ao sujeito por meio de um verbo de ligação. Predicado verbo-nominal é aquele que apresenta dois núcleos: um verbo significativo e um predicativo (do sujeito ou do objeto). APLIQUE O QUE APRENDEU Fernando Gonsales/Acervo do cartunista Leia esta tira, de Fernando Gonsales: 1. b) Abra a discussão com a classe. Há diferentes possibilidades de resposta, mas, tendo em vista que o sujeito da forma verbal é “todo mundo”, espera-se que os estudantes utilizem um adjetivo coerente com o senso comum sobre baratas: asqueroso, nojento, sujo, repugnante, etc. GONSALES, Fernando. Níquel Náusea. Folha de S.Paulo, São Paulo, 14 nov. 2007. 1. Observe a fala da barata no 1o quadrinho. a) Qual característica da joaninha é mencionada pela barata? De quem é esse ponto de vista, segundo a barata? A simpatia. Esse é o ponto de vista de “todo mundo”, segundo a barata. b) Reescreva essa fala, substituindo a palavra joaninha pela palavra barata e o adjetivo simpático por outro que você julgar mais adequado ao contexto. c) Qual é a função sintática da expressão “um inseto simpático”? Predicativo do objeto. 2. A opinião da barata no 2o quadrinho é explicada pelo comportamento da joaninha no último quadrinho. a) Qual é o sentido da forma verbal extrapolou na fala da barata? Ultrapassou os limites aceitáveis, exagerou. b) Com base em elementos verbais e não verbais do texto, identifique as características da joaninha que justificam o ponto de vista da barata. A joaninha tem um sorriso aparentemente forçado e desenhou carinhas felizes em suas pintas. Além disso, parece exagerar na simpatia quando logo ao ver a barata faz a pergunta “Você já sorriu hoje?”. Língua e linguagem 149 3. Classifique os predicados das falas da barata e da joaninha nos três quadrinhos, justificando sua resposta. 1oo quadrinho: predicado verbo-nominal (verbo e predicativo do objeto como núcleos); 2o quadrinho: predicado verbal; 3 quadrinho: predicado verbal (nos dois últimos casos, verbo intransitivo como núcleo). 4. Com base em suas respostas anteriores, conclua: Por que o fato de a personagem que fala da joaninha ser uma barata contribui para a construção do humor da tira? E que recurso visual reforça essa ideia? Porque a barata é um inseto que, em geral, provoca repulsa nas pessoas, ao contrário da joaninha. Esse contraste sugere certo desdém na fala da barata, contribuindo para a construção do humor da tira. A expressão da barata nos quadrinhos, de olhos e boca mais horizontais, sem muita expressão, colabora com a ideia de que ela não é simpática. Tipos de sujeito Conforme você viu ao responder às questões sobre o romance Úrsula, as orações podem ter ou não um sujeito, e este pode se apresentar de diferentes formas na estrutura da frase. Relembre, na tabela a seguir, os diferentes tipos de sujeito. Sujeito simples Explícito na frase, contém apenas um núcleo: “A africana limpou o rosto.” “Exclamou o jovem negro enternecido.” Sujeito composto Explícito na frase, contém mais de um núcleo: “o milho e o inhame e o mendubim eram em abundância nas nossas roças” Susana e o filho conversavam. Sujeito indeterminado Não é explicitado na oração (verbo na 3a pessoa do plural sem referência determinada; verbos intransitivos, transitivos indiretos ou de ligação com a partícula se): “Da escotilha lançaram sobre nós água e breu fervendo” Morria-se de fome e sede no navio. Oração sem sujeito O predicado constitui uma declaração que não se refere a um ser específico, mas à citação pura de um fato (verbos impessoais: os que indicam fenômenos da natureza; haver com sentido de existir; fazer, haver e ir quando indicam tempo decorrido; ser na indicação de tempo em geral): “Nos dois últimos dias não houve mais alimento.” Choveu durante a viagem. Fazia quatro semanas que estavam no navio. “Era uma manhã risonha” Em frases como “Vou contar-te o meu cativeiro.” e “vimos morrer ao nosso lado muitos companheiros à falta de ar”, o sujeito não aparece explícito no texto, mas está indicado pela desinência do verbo: vou, 1a pessoa do singular, eu; e vimos, 1a pessoa do plural, nós. APLIQUE O QUE APRENDEU Fernando Gonsales/Acervo do cartunista Leia a tira a seguir e responda às questões 1 a 3. GONSALES, Fernando. N’quel N‡usea: a vaca foi pro brejo atrás do carro na frente dos bois. São Paulo: Devir, 2010. p. 38. 1. No 1o quadrinho, uma das falas da personagem consiste em uma oração com sujeito indeterminado. a) Qual é essa oração? “Colocaram uma cesta com gatinhos na minha porta!” 150 Língua e linguagem Não escreva no livro. Na 3a pessoa do plural, sem referência a um sujeito anteriormente b) Em que pessoa está o verbo dessa oração? expresso. c) Levante hipóteses: Caso a personagem quisesse determinar um sujeito, como ficaria a frase? Resposta pessoal. Sugestões: “Os vizinhos colocaram…”, “Estranhos colocaram…”, “Meus amigos colocaram…”. 2. Que outros tipos de sujeito há na tira? Sujeito simples: eles e eu (1o quadrinho); e, no 2o quadrinho, o sujeito eu não está expresso, mas pode ser identificado pela desinência do verbo. 3. O humor das tiras geralmente resulta de uma quebra de expectativa do leitor. Esse procedimento ocorre nessa tira? Por quê? Sim, pois no 1o quadrinho é criada a expectativa de que a personagem gosta de gatinhos. No Aposto e vocativo último quadrinho, entretanto, fica claro que ela gosta mesmo é dos cestos onde são postos os gatinhos. Quando analisou os trechos do romance òrsula, você viu que, ao compartilhar com Túlio sua história, Susana diz “me arrancaram daqueles lugares, onde tudo me ficava — pátria, esposo, mãe e filha, e liberdade!”. Ao enumerar, após o travessão, os elementos “pátria, esposo, mãe e filha, e liberdade”, ela identifica a que se referia com o pronome indefinido “tudo” dito anteriormente, já que ele, por si só, não esclarece o que ela havia deixado em sua terra natal. Quando isso ocorre, temos um aposto. Além disso, você observou que, ao falar com Túlio, Susana diz “Não matam, meu filho”, dirigindo-se diretamente a seu interlocutor. O termo “meu filho”, nesse contexto, é chamado de vocativo. Aposto é o termo da oração que se refere a um substantivo, a um pronome ou a uma oração para explicá-los, ampliá-los, resumi-los ou identificá-los. Vocativo é o termo da oração por meio do qual chamamos ou interpelamos nosso interlocutor, real ou imaginário. APLIQUE O QUE APRENDEU 1. O aposto pode ser empregado para: I. enumerar ou recapitular; pode vir precedido pelas expressões a saber, por exemplo, isto é, ou ser representado por um pronome indefinido, como tudo, nada, ninguém, qualquer, etc.; II. marcar uma distribuição, por meio de um e outro, este e aquele, etc.; III. marcar uma especificação, uma individualização; pode vir ou não preposicionado; IV. explicar, resumir ou identificar. No seu caderno, indique com qual desses casos os apostos destacados a seguir se identificam. a) O poema “Vou-me embora pra Pasárgada” é do grande poeta Manuel Bandeira. III; III b) Só jantava comidas leves: uma salada, uma sopa de legumes, um caldo de carne. I c) Greystoke, a lenda de Tarzã, o rei da selva. IV; IV d) Os rapazes eram dois bons profissionais, um em informática e o outro em engenharia. II 2. Considerando o contexto, compare os termos em destaque nas frases seguintes e explique por que o da 1a é aposto e o da 2a é adjunto adnominal. • O escritor Machado de Assis trabalhou como funcionário público. • Os romances de Machado de Assis aprofundam a análise psicológica dos personagens. 3. Leia o trecho de um texto e a tira a seguir. A manhã rompeu, como uma queda, do cimo pálido da Hora… Acabaram de arder, meu amor, na lareira da nossa vida, as achas dos nossos sonhos… PESSOA, Fernando. Na floresta do alheamento. In: PESSOA, Fernando. Poemas dramáticos; poemas ingleses; poemas franceses; poemas traduzidos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983. p. 28. (Poiesis). 2. Na 1a frase, o termo destacado é aposto porque especifica, individualiza o escritor. Na 2a, o termo destacado equivale a um adjetivo – machadianos – e funciona, portanto, como adjunto adnominal. Língua e linguagem 151 Fernando Gonsales/Acervo do cartunista GONSALES, Fernando. Níquel Náusea: nem tudo que balança cai! São Paulo: Devir, 2003. p. 6. a) Identifique um aposto e um vocativo nesses textos. aposto: “a aranha mais venenosa”; vocativo: “meu amor” b) Levante hipóteses: O que justifica, no 2o quadrinho da tira, o emprego do ponto de exclamação, a intenção de destacar viúva-negra. Com o emem vez de vírgula, depois de “a viúva-negra”? Provavelmente prego da vírgula, como seria segundo a regra gramatical, a expressão poderia não ficar com a ênfase pretendida pelo autor. 4. Leia esta frase: Nosso mais novo funcionário, Fernando, demitiu-se ontem. Dependendo da situação e da entonação dada à frase, ela pode apresentar dois sentidos. O locutor pode estar falando com Fernando sobre a demissão do novo funcionário ou pode a) Quais são esses sentidos? estar falando com outra pessoa, não identificada no texto, sobre a demissão de Fernando, o mais novo funcionário. b) Que função sintática o termo Fernando desempenha em cada um dos sentidos? c) Dê à frase uma redação na qual Fernando só possa ser vocativo. Fernando, nosso mais novo funcionário demitiu-se ontem. d) Dê à frase uma redação na qual Fernando só possa ser aposto. Nosso mais novo funcionário, o Fernando, demitiu-se ontem. 4. b) Se o interlocutor é Fernando, então esse termo é vocativo; se o interlocutor é outra pessoa, então Fernando é aposto de nosso mais novo funcionário. Texto e enunciação Leia a seguir o trecho de uma crônica de Tati Bernardi. Erika Lourenço/Arquivo da editora Coisas ridículas para roteiros Encontrei ontem, fazendo uma limpa no computador, um arquivo com o título: “Coisas ridículas para roteiros”. […] Um dia, na rua da escola, um motoqueiro se acidentou e ficamos todos impressionados com aquele jovem estendido no chão, esperando a ambulância. Parecia descaso. Foi quando o professor Claudio, de biologia, abdicou da lição sobre mitocôndrias para nos explicar a importância de jamais mexer no corpo de um acidentado. Pois bem, no fim de semana seguinte, eu caí da bicicleta e fiquei totalmente imóvel, dura, sem abrir os olhos nem responder à minha mãe que gritava: “Pelo amor de Deus, fala comigo!”. Chamaram uma ambulância, e eu só tinha ralado o joelho. […] “Doce avariado” era sobre um paquera de internet que pegou mais de 14 horas de ônibus vindo do interior do Espírito Santo para me pedir em namoro e me trazer um doce caseiro feito pela avó. Quando me viu, disse que me achou diferente da foto e que agora não sabia o que fazer com a compota da vovó, que estragaria em 12 horas. […] Preferiu jogar a iguaria fora a ter que me dar. BERNARDI, Tati. Coisas ridículas para roteiros. Folha de S.Paulo, São Paulo, 23 ago. 2019. Disponível em: https://tedit.net/ohburw. Acesso em: 13 set. 2024. 152 Língua e linguagem 3. b) São paralelas entre si a primeira oração de cada par e a segunda oração de cada par, porque as primeiras relatam um acidente ocorrido e as segundas descrevem o estado como a narradora se sentiu em cada situação. A identificação dos termos no item a permite estabelecer a relação entre o que a narradora viu acontecer na escola e de que forma, poucos dias depois, ela Não escreva no livro. transferiu essa experiência para uma experiência de sua vida pessoal, fora da escola. 1. No trecho lido, a autora, que também é roteirista, conta duas situações que, em sua opinião, poderiam ser utilizadas em roteiros. Um acidente com motoqueiro que ela presenciou quando criança e que a deixou impres- a) Quais são essas situações? sionada a ponto de fazer pessoas chamarem uma ambulância quando levou um tombo de bicicleta e um encontro malsucedido com um paquera. b) Identifique no trecho termos e expressões que comprovam que a autora é também personaAs formas verbais conjugadas na 1a pessoa do singular e do plural (ficamos, caí, fiquei) a gem das histórias narradas. e as formas pronominais em 1 pessoa do singular e do plural (nos, eu, me) comprovam que a autora é também personagem das histórias que conta. c) Há outros personagens nas histórias contadas por ela. Quem são eles? O motoqueiro, o professor de Biologia, a mãe e o paquera, além de outras pessoas não especificadas, provavelmente estudantes e funcionários da escola e familiares ou vizinhos. 2. Releia a seguinte parte do texto: “ficamos todos impressionados com aquele jovem estendido no chão”. a) Em qual pessoa está conjugada a forma verbal dessa frase? Na 1a pessoa do plural. b) A autora do texto se insere como agente dessa forma verbal? Sim. c) Embora isso não esteja explicitado no texto, é possível inferir a quem ela se refere no contexto. Identifique esse referente. A ela própria e outras pessoas, que provavelmente eram estudantes e funcionários da escola. 3. Releia a seguir dois pares de orações que compõem, respectivamente, o segundo e o terceiro parágrafos. Um dia, na rua da escola, um motoqueiro se acidentou. Ficamos todos impressionados com aquele jovem estendido no chão. No fim de semana seguinte, eu caí da bicicleta. Fiquei totalmente imóvel, dura. a) Identifique os adjuntos adverbiais e predicativos do sujeito presentes nas orações que compõem os pares. Adjuntos adverbiais: “um dia”, “na rua da escola”, “no fim de semana seguinte”, “no chão”, “totalmente”, “da bicicleta”; predicativos do sujeito: “impressionados” e “imóvel”, “dura”. b) Quais orações de cada um desses pares são paralelas entre si? Justifique sua resposta e explique de que forma os termos identificados por você no item a contribuem para a construção desse paralelismo. c) Considerando suas respostas anteriores, explique de que forma o paralelismo entre esses pares constrói humor no texto. O paralelismo constrói humor porque mostra o exagero com o qual a narradora tratou uma simples queda de bicicleta, comparando-a com um acidente de trânsito mais grave. 4. Reescreva os dois trechos do texto indicados a seguir, fazendo o que se pede e efetuando as demais alterações que julgar necessárias. a) A última frase do 2o parágrafo, transformando o nome “Claudio” em aposto e fazendo as alteraquando o professor de biologia, Claudio, abdicou da lição sobre mitocôndrias para nos explicar a ções necessárias. Foi importância de jamais mexer no corpo de um acidentado. b) A fala da mãe no 3o parágrafo, inserindo um vocativo adequado ao contexto. Entre outras possibilidades: pelo amor de Deus, milha filha, fala comigo!; ou Tati, pelo amor de Deus, fala comigo! 5. Agora releia estas orações do texto: I. Chamaram uma ambulância II. Eu só tinha ralado o joelho III. “Doce avariado” era sobre um paquera de internet IV. Me achou diferente da foto I. indeterminado; II. “Eu”; III. “Doce avariado”; IV. o sujeito não está ex- a) Identifique o sujeito de cada uma delas. presso, mas pelo contexto e pela forma verbal na 3 pessoa, pode ser a identificado como “um paquera da internet”/”ele”. b) Em qual dessas frases há um predicativo do objeto? Identifique-o e explique de que forma a escolha por esse predicativo contribui para a construção da situação narrada como uma “coisa termo “diferente” é um predicativo do objeto “me” e indica que o paquera ridícula”, conforme avalia a narradora. O tinha outra expectativa em relação à narradora antes de conhecê-la pessoalmente. A escolha pela palavra “diferente”, nesse contexto, constrói a situação como “ridícula” para a narradora porque, embora “diferente” seja uma palavra que não contém em si um sentido negativo, no contexto é possível compreender que o paquera definitivamente não gostou dela, a ponto de nem tentar ao menos agir Lí ngua e de forma educada naquele primeiro encontro, por exemplo, oferecendo-lhe a compota da avó. linguagem 153 BN CC Produção de texto Competências gerais da Educação Básica: 1, 4, 5, 7, 9, 10 Fotorreportagem Competências específicas de Linguagens: 1, 2, 3, 4, 7 Habilidades específicas de Linguagens: EM13LGG101, EM13LGG103, EM13LGG104, EM13LGG201, EM13LGG301, EM13LGG302, EM13LGG303, EM13LGG304, EM13LGG305, EM13LGG402, EM13LGG701, EM13LGG703 Além de reportagens, alguns jornais e revistas também publicam fotorreportagens, gênero do fotojornalismo que registra os fatos por meio de imagens e poucos textos verbais. Foco no gênero Leia a fotorreportagem a seguir: Texto Em parceria com Pulitzer, A Lente apresenta “A guerra invisível na Amazônia” Texto: Ahmad Jarrah e Juliana Palmo Fotos: Ahmad Jarrah Fotos Aéreas: Caio Mota Esta reportagem é publicada com apoio do Rainforest Journalism Fund, Pulitzer Center. Habilidades específicas de Língua Portuguesa: EM13LP01, EM13LP02, EM13LP04, EM13LP05, EM13LP07, EM13LP12, EM13LP14, EM13LP15, EM13LP16, EM13LP18, EM13LP27, EM13LP30, EM13LP36, EM13LP37, EM13LP38, EM13LP39, EM13LP41, EM13LP42, EM13LP45 Há um suspense que escapa à narrativa jornalística e se esconde por debaixo das árvores da Amazônia, um duelo entre o medo e a bravura. Ao largo dos noticiários policiais que registram eventualmente os grandes massacres na região norte de Mato Grosso, na tríplice fronteira com Amazonas e Rondônia, coberta pelas matas amazônicas, existe a luta para preservar e converter a floresta. O início dessa jornada é Aripuanã, um fértil e rico local, onde já é possível dimensionarmos a vegetação nativa da região amazônica e nos deslumbrarmos com a grandeza de seus recursos naturais. Além das belezas, na cidade é possível percebermos como a cobiça do capitalismo predatório leva a um enredo de mortes e destruição. Ahmad Jarrah/A Lente [...] Cachoeiras Dardanelos e Salto das Andorinhas, onde está instalada uma hidrelétrica em Aripuanã-MT. O local era terra indígena da etnia Cinta Larga. Foto: Ahmad Jarrah 154 Pr od uç ão de te xt o Lente Ahmad Jarrah/A Não escreva no livro. Cachoeira Dardanelos, em Aripuanã-MT. Um dos locais sagrados para a etnia indígena Cinta Larga, expulsa do território para instalação de uma hidrelétrica. Foto: Ahmad Jarrah Depois de anos de embate, uma hidrelétrica e uma pequena central hidrelétrica (PCH) tomou por completo a antiga terra indígena, deslocando o povo Cinta Larga para casas improvisadas na cidade. Desde então, os Cinta Larga não retornam mais para as cachoeiras. Seus antigos cemitérios acabaram dinamitados durante a construção dos projetos de geração de energia e agora sua mitologia sagrada cedeu lugar a uma guarita. Caio Mota/Acervo do fotógrafo [...] Vista aérea da PCH instalada na cachoeira Dardanelos. Foto: Caio Mota Pr od uç ão de te xto 155 Ahmad Jarrah/A Lente Ahmad Jarrah/A Lente Caminhão transporta troncos de árvores pela avenida principal do Distrito de Guariba. A região é dominada por madeireiras e pela retirada e comércio, legal e ilegal, de madeira. Foto: Ahmad Jarrah , no município de em frente à sua casa Criança Cinta Larga ada com a tom e sua terra indígena rah Aripuanã. A etnia tev Jar d ma Ah rdanelos. Foto: instalação da PCH Da As terras sob jurisdição do Estado Brasileiro também estão sob outros ataques. A máquina do desmatamento torna as derrubadas na região duplamente lucrativas. Por um lado os grandes troncos de madeira são vendidos em um mercado bastante valorizado. Já o que sobra na terra é queimado para dar lugar ao pasto ou ao plantio de soja transgênica. Área desmatada recentemente dentro da reserva extrativista Guariba Roosevelt. Foto: Ahmad Jarrah Ahmad Jarrah/A Lente Ahmad Jarrah/A Lente [...] Castanheira solitária sobreviveu ao desmatamento, pela proibição legal. Ao seu redor, apenas soja seca uniformemente com agrotóxico que acelera a colheita, próximo à Colniza-MT. Foto: Ahmad Jarrah JARRAH, Ahmad; PALMO, Juliana. Em parceria com Pulitzer, A Lente apresenta: “A guerra invisível na Amazônia”. A Lente, [s. l.], 23 mar. 2020. Disponível em: https://tedit.net/rfwwc1. Acesso em: 29 ago. 2024. 156 Pr od uç ão de te xt o 4. a) A fotografia é composta de troncos, em primeiro plano, que estão na carroceria de um caminhão. É possível perceber que ele anda em uma estrada de terra, pois o leitor pode ver a poeira no ambiente; vemos também o céu, o que mostra se tratar de um local aberto. O enfoque principal é dado aos troncos na traseira de um caminhão. O veículo é pouco mostrado, somenNão escreva no livro. te o necessário para reconhecermos onde os troncos estão. 1. As fotorreportagens, assim como as reportagens, apresentam um tema principal e um título que introduz esse tema. a) Qual é o tema da fotorreportagem? A devastação da Floresta Amazônica. b) A Lente é o nome de um site que reúne produções de fotógrafos e documentaristas do Brasil, privilegiando as imagens como linguagem. Pulitzer é uma instituição estadunidense relacionada ao jornalismo. Com base nessas informações, explique o título escolhido para essa fotorreportagem. O título é antecedido de uma explicação sobre a produção conjunta da fotorreportagem: “Em parceria com Pulitzer, A Lente apresenta”. A informação central do título é, portanto, “A guerra invisível na Amazônia”. 2. Observe os nomes e as funções dos autores da fotorreportagem. a) Qual é a função de cada um deles na produção do texto? Ahmad Jarrah e Juliana Palmo são autores dos textos verbais; Ahmad Jarrah fez as fotografias terrestres, e Caio Mota fez as fotografias aéreas. b) Levante hipóteses: Por que a função de cada um é explicitada na fotorreportagem? Porque, como as fotografias são de grande importância em uma fotorreportagem, é necessário indicar o nome do profissional responsável por cada uma das partes que compõem o texto. 3. Como você estudou, reportagens retratam, de maneira mais detalhada, os desdobramentos de fatos de interesse público. A história da devastação de uma região da Floresta Amazônica – a tríplice fronteira entre Mato Grosso, Amazonas e a) Qual história real é contada na fotorreportagem? Rondônia –, suas principais causas, e como grupos humanos sofrem com isso, em especial o povo indígena Cinta Larga. b) A ordem em que as fotografias foram publicadas contribui para contar a história ou a ordem é aleaA ordem contribui para contar a história. A “guerra invisível” não é vista nas fotografias tória? Justifique sua resposta. panorâmicas, em que se vê uma natureza ainda viva, do começo do texto. Ao “entrar” na floresta, as fotografias revelam a expulsão do povo indígena, o comércio de madeira, o desmatamento e o plantio de soja. c) Compare as duas primeiras fotografias com as demais. O que é possível afirmar sobre elas? As duas primeiras fotografias mostram o esplendor da floresta, muito verde, aparentando bom estado de conservação, mas essa impressão é contradita pelas demais fotografias. 4. A opção por registrar um assunto por meio de fotografias não é aleatória. Observe a fotografia do caminhão levando troncos de árvores. a) Descreva a fotografia, detalhando o que aparece na imagem, o que é enfocado e de que maneira. b) Qual é o efeito de sentido da composição descrita? Sugestão: A composição, ao enfocar os troncos e mostrar apenas uma parte do caminhão, constrói uma proporção na qual o tamanho dos troncos ganha destaque e chama a atenção do leitor, fazendo com que ele se sinta próximo dessa realidade de cortadas, e sensibilizando-o para o problema do 5. Observe a fotografia da menina em frente à sua casa. árvores desmatamento. a) O fotógrafo optou por mostrar uma parte da frente da casa e a menina (e não somente a menina, ou somente a casa). Que sentido é construído pela composição mostrada? b) Levante hipóteses: A menina é registrada sozinha, encolhida, tapando o próprio rosto. Por que é essa posição da menina constrói o sentido de abandono e de tristeza, sentifeita essa escolha de registro? Porque mentos relacionados à história de expulsão que se conta na fotorreportagem, reforçando a ideia de que os indígenas são subjugados e desprezados. O fato de não revelar o rosto também pode ser uma estratégia para preservar a identidade da criança. 6. Algumas informações estão em texto verbal, em parágrafos e legendas. O primeiro parágrafo justifica a importância do tema a) Releia o primeiro parágrafo. O que ele informa ao leitor? abordado pela fotorreportagem e situa o leitor na região em que os fatos a serem tratados acontecem: na tríplice fronteira entre Mato Grosso, Amazonas e Rondônia. b) Que tipo de informação é fornecida pelos parágrafos escritos? 6. b) Explicações sobre o local em que as c) Qual é o papel das legendas na fotorreportagem? São descrições das fotografias, com informações que as complementam. fotografias foram feitas, sobre a história da região e de sua população e sobre as causas de tal situação e os problemas relacionados ao desmatamento. 7. Em cada uma das duas últimas fotografias, podemos observar duas paisagens diferentes em contato. A penúltima fotografia mostra a mata nativa ao fundo e parte da mata destruída, cuja área a) Quais são essas paisagens? vai ser usada para pasto ou plantação; e a última fotografia mostra uma castanheira da antiga floresta em meio à plantação de soja em uma área já desmatada. b) Qual é o sentido construído pelas fotografias ao registrarem as duas paisagens juntas e nesses planos? As fotografias constroem o sentido de evolução do desmatamento, como se ele estivesse avançando para o que resta da mata nativa ao fundo. O plano geral dá uma ideia de que o leitor vê o todo e, especialmente na última fotografia, destaca o isolamento da única castanheira que sobreviveu ao desmatamento. 8. A fotorreportagem apresenta um posicionamento em relação ao desmatamento e à expulsão do povo Cinta Larga de seu local de origem, ou apresenta os fatos de maneira neutra e imparcial? Consulte a resposta da atividade 8 nas Orientações Justifique sua resposta com termos e expressões do texto. específicas do Manual do Professor. 5. a) A composição mostra as condições precárias da casa em que a menina do povo indígena Cinta Larga vive, o que revela que a expulsão desse povo de suas terras para a construção da hidrelétrica não foi acompanhada de nenhum apoio que garantisse boas condições de vida à menina e aos seus familiares. Pr od uç ão de te xto 157 10. Resposta pessoal. Verifique se os estudantes percebem que nem sempre é possível assegurar “neutralidade”, especialmente em temas que envolvem violação de direitos, preconceito, bullying, entre outros. A tomada de posição do veículo de imprensa pode ser um meio de denunciar essas violações. No caso em questão, a expulsão dos indígenas de sua terra, há uma clara violação de direitos. 9. Com a orientação do professor, organizem-se em grupos para sintetizar as características básicas de uma fotorreportagem. Para isso, copiem o quadro a seguir no caderno e respondam às questões considerando a análise feita no estudo, bem como as experiências de vocês como produtores e leitores de fotorreportagens. Fotorreportagem: construção e recursos expressivos Quem são os interlocutores da fotorreportagem? O locutor é o fotojornalista e o destinatário são leitores de jornais, revistas, sites. Qual é o objetivo de uma fotorreportagem? Fornecer informações mais aprofundadas sobre o tema abordado, enfocando diferentes aspectos e fazendo uso, principalmente, de fotografias, legendas e pequenos textos. Circula em jornais, revistas e em sites. Por onde ela circula? Como se caracteriza a linguagem de uma fotorreportagem? A linguagem é majoritariamente não verbal; as imagens são feitas de diferentes ângulos e com diferentes planos, pois o objetivo é contar uma história real. Qual é a estrutura básica da fotorreportagem? Sua estrutura é formada por título (e subtítulo às vezes), fotografias com legenda, podendo haver textos verbais explicativos, geralmente curtos. 10. Você considera possível tratar o tema da fotorreportagem de forma “neutra e imparcial”? Converse com os colegas e o professor e tentem, juntos, chegar a um consenso sobre isso. 11. Formule hipóteses e compartilhe-as com a turma, respeitando a vez de cada um falar: Ao tomar partido sobre o tema reportado, o que o veículo que o publica sinaliza para os leitores? Resposta pessoal. O veículo sinaliza que não compactua com o desenvolvimento e as consequências dos fatos apresentados. 12. Consulte outras publicações sobre o tema e verifique como ele foi abordado. a) Compare com a fotorreportagem. Você percebe um enfoque diferente? Explique. b) Com a variedade de pontos de vista sobre o mesmo tema, como você, leitor dessas publicações, poderia certificar-se quanto à validade das informações publicadas? c) Conforme combinado com o professor, experimente algumas dessas formas de certificação aplicando-as às publicações pesquisadas por você anteriormente, no item a, e registre suas c) Os critérios apresentados devem permitir que os estudantes perconclusões sobre a confiabilidade delas. 12. cebam que, se esses critérios de verificabilidade não puderem ser aplicados ou revelarem dubiedade, é possível que a publicação analisada não seja confiável. Nesses casos, a consulta aos mecanismos de verificação Hora de produzir Podcast Transcrição de áudio de notícias pode ser necessária. Além de reportagens, o jornal da turma também pode conter fotorreportagens. Para produzi-las, retorne ao grupo formado anteriormente na escrita das reportagens. Vocês podem abordar o mesmo tema ou outro tema de interesse do grupo. Essa pode ser uma oportunidade de engajar seus leitores a compreender e discutir problemas que envolvem a coletividade. 12. a) Resposta pessoal. Cada publicação poderá ter um enfoque próprio, mais ou menos próximo do Planejamento do texto que se observa na fotorreportagem. O importante dessa pesquisa será que os estudantes observem se esses diferentes enfoques sinalizam claramente a violação dos direitos dos indígenas à sua terra. • Delimitem o tema, escolhendo os aspectos que querem desenvolver. • Pensem em locais, pessoas, objetos, etc. relacionados ao tema e que poderiam ser regis- b) Espera-se que os estudantes identifiquem que há várias maneiras de certificar-se quanto trados nas fotografias. 12. à validade das informações publicadas. Algumas delas: checar os autores, suas especialidades e • Planejem os locais e horários em que farão as fotografias, porque a iluminação é importante. • Chequem os recursos disponíveis para a realização das fotografias. • Procurem pensar na relação das imagens com o tema e na relação das imagens entre si, para que cada uma mostre um aspecto relevante do fato ou da história retratada. • Procurem tirar mais de uma fotografia de cada cena planejada para selecionar a melhor. Pensem no melhor tipo de plano e de ângulo para cada situação. 158 qualificações, e instituições que representam ou às quais estão ligados; conferir a veracidade dos dados por meio de checagem de links, sites citados; consultar outras fontes de informação, especialmente veículos sabidamente confiáveis, além de mecanismos o de verificação de notícias, como agências de verificação de notícias. Esses exemplos podem Pr od uç ão de te xt ajudar os estudantes a desenvolver o item c desta atividade. Não escreva no livro. Escrita • Tenham em mente o leitor da fotorreportagem. • Se possível, para a organização da fotorreportagem, escolham um editor de textos e de imagens. Montem a fotorreportagem, decidindo a ordem mais adequada em que as fotografias devem aparecer para contar a história em foco. • Escrevam as legendas de maneira clara, objetiva e breve, complementando a imagem com informações essenciais para a compreensão do leitor. • Deem um título atraente à fotorreportagem. Se necessário, criem também subtítulos. Revisão e reescrita Concluída a produção da fotorreportagem, releiam-na, observando: • se ela apresenta imagens que mostram diferentes aspectos do tema e se essas imagens correspondem à finalidade principal da fotorreportagem; • se há conexão entre as imagens e os textos verbais, entre as próprias imagens entre si e entre esse conjunto e o tema; • se os planos escolhidos para cada imagem mostram elementos suficientes para a compreensão da ação ou da cena retratada; • se as legendas e os subtítulos estabelecem uma relação de complementação com as imagens e se estão escritos de maneira clara e objetiva; • se o título é atraente. Hora de compartilhar: Jornal de variedades Guardem as fotorreportagens, pois elas serão publicadas no jornal a ser produzido pela turma ao final da unidade e compartilhado com a comunidade escolar. Avali an do os es tu do s Você e os colegas vão retomar os objetivos indicados no início do capítulo e avaliar os estudos feitos e o caminho percorrido, considerando questões como: 1. Quais são as características da prosa gótica do conto de Álvares de Azevedo? 2. Quais são as características principais da obra de Maria Firmina dos Reis? 3. De que forma a análise dos termos de uma oração pode contribuir para uma compreensão mais aprofundada dos textos? 4. Em orações tais como “A comida passou do ponto” ou “A escada leva aos andares superiores”, claramente o sujeito não executa a ação referida pela forma verbal. Identifique os sujeitos dessas orações e explique qual critério devemos assumir para identificá-los. 5. A fotorreportagem é um gênero que, assim como a reportagem, pode expressar o ponto de vista do fotógrafo que a cria, ou do jornal, a respeito de um tema. De que forma esse ponto de vista é construído? 6. Nas fotorreportagens, qual é o papel das legendas? É diferente do papel das legendas nas reportagens? Consulte a resposta das atividades 1 a 6 nas Orientações específicas do Manual do Professor. Pr od uç ão de te xto 159 : R A H L I T R A P RA DE COM HO JORNAL DE VARIEDADES BN CC Competências gerais da Educação Básica: 1, 3, 4, 5, 8, 9, 10 Competências específicas da área de Linguagens: 1, 2, 3, 4, 6, 7 Habilidades específicas da área de Linguagens: EM13LGG101, EM13LGG103, EM13LGG104, EM13LGG201, EM13LGG301, EM13LGG304, EM13LGG305, EM13LGG402, EM13LGG601, EM13LGG602, EM13LGG603, EM13LGG701, EM13LGG703, EM13LGG704 Nas unidades 1 e 2, você produziu textos do campo das práticas de estudo e pesquisa e do campo jornalístico-midiático. Discutiu temas sobre diferentes assuntos, como o jovem brasileiro, o meio ambiente, os problemas da comunidade, etc. Ao longo dos capítulos, produziu notícias, entrevistas, reportagens e fotorreportagens. Agora, você vai participar com a turma da produção de um jornal de variedades, impresso ou digital, no qual será apresentada à comunidade a produção realizada por vocês ao longo do semestre. O jornal será divulgado em um evento escolar no qual haverá a exibição das reportagens e das fotorreportagens, assim como dos podcasts e das demais produções da turma. Master1305/Shutterstock Habilidades específicas de Língua Portuguesa: EM13LP09, EM13LP19, EM13LP20, EM13LP21, EM13LP33, EM13LP45, EM13LP46, EM13LP47, EM13LP51, M13LP53 160 Decisões coletivas Não escreva no livro. Converse com os colegas e o professor a respeito de como gostariam que fosse o jornal e de como organizar as diversas atividades, para que seja o mais proveitoso para todos os envolvidos. Será importante que todos apresentem ideias, ajudem a pensar nas possibilidades de organização do evento e auxiliem a definir o que é melhor fazer considerando a realidade da turma. Por exemplo, definam questões como: • O jornal será impresso ou digital? • Quem ficará responsável pela produção do jornal, caso ele seja impresso? • E quem fará o design do jornal, caso ele seja digital? • Haverá um evento à parte para a exibição das fotorreportagens? • Algum estudante vai fazer uma apresentação ao público sobre as etapas e os desafios enfrentados pelo grupo na produção do jornal? Que tal convidarem uma pessoa conhecida da comunidade para falar sobre os temas abordados nas unidades? Por exemplo, convidar um especialista sobre meio ambiente para tratar de energias renováveis ou como a educação ambiental pode colaborar para a mitigação dos problemas que a comunidade enfrenta; ou convidar uma psicóloga para explicar os dilemas de ser jovem na sociedade contemporânea e as dificuldades do diálogo entre diferentes gerações. É possível abrir uma conversa com a comunidade ao final, para que possam dialogar, contribuir com ideias e esclarecer possíveis dúvidas. Para acomodar as palestras e o público-alvo do evento, será necessário planejar, em conjunto com o professor e com a direção escolar, um espaço para que esse evento aconteça. Por exemplo, se a palestra for realizada na quadra de esportes, haverá lugares para acomodar o público? Os convidados se sentarão na arquibancada, se houver, ou em cadeiras previamente organizadas na quadra? Há equipamentos disponíveis, como microfones, telão para a exibição das apresentações e caixas de som? Além de planejar os detalhes técnicos, para que haja um certo controle sobre o tempo da palestra e para direcionar as dúvidas, organizem um roteiro para a apresentação e escolham um mediador, que pode ser o professor ou algum membro da direção escolar. A ideia é que a turma se organize em equipes de trabalho, pois preparar o lançamento de um jornal exige a participação de todos e muito planejamento. Na sequência, há uma sugestão de distribuição de ações, que poderá ser adaptada de acordo com as possibilidades e os interesses de vocês. 161 O que faremos ProStockStudio/Shutterstock AÇÃO: CRONOGRAMA | RESPONSÁVEL: EQUIPE 1 O que fazer: Planejar o prazo para a execução de cada tarefa, considerando as particularidades das diferentes atividades envolvidas, a realidade da escola e as datas combinadas com o professor e com a direção escolar para finalizar o trabalho. AÇÃO: PRODUÇÃO DO JORNAL | RESPONSÁVEL: EQUIPE 2 Vasyl Yurlov/Shutterstock O que fazer: A turma prefere fazer um jornal de toda a classe ou cada grupo prefere fazer o seu jornal? O jornal será impresso, digital, em formato de radiojornalismo, televisivo (ou seja, um telejornal) ou será um podcast? É possível que toda a turma prefira a produção de um jornal impresso, por exemplo, ou que cada grupo escolha o formato e o suporte em que pretende criar o jornal. Tomem essa decisão juntamente com o professor. Definir critérios para a produção do jornal, por exemplo: Como ele vai ser organizado internamente? Os textos serão dispostos em reunião de gêneros, ou de temas, ou por grupos e autores? Definir quem serão os responsáveis pela parte editorial do jornal: diagramação, inserção de imagem, revisão. RoseRodionova/Shutterstock AÇÃO: PLANO DE DIVUL GAÇÃO | RESPONSÁVE L: EQ 162 UIPE 3 O que fazer: Decidir como vai ser feita a divulgação do jornal — se ele será enviado digita lmente ao público ou se ser á feito o lançamento de uma versão impressa em evento a ser co mbinado. Para ambas as situações, pro duzir cartazes (impresso s e dig itais) para a divulgação do lançamen to do jornal e das matér ias que ele vai trazer. Uma possibilidade é faz er um cartaz ou banner dig ita l e enviá-lo por e-mail ao público convida do, ou publicá-lo nas red es sociais da escola. Também poderá ser afixado em certos ponto s da escola. Para produzir o cartaz, selec ionar um programa de ed duzir o texto verbal ind içã o de textos; proicando o local do evento , o dia e o horário e o co bem como o tempo pre nju nto das atividades, visto para cada uma de las. Não escreva no livro. AÇÃO: ORGANIZAÇÃO DE ESPAÇOS E EQUIPAMENTOS | RESPONSÁVEL: EQUIPE 4 Sumon_ Designer42/Shutterstock O que fazer: Se for feito o lançamento do jornal impresso na escola, definam o dia e o horário, bem como a organização do evento. Além disso, em alinhamento com a gestão escolar, definir o local da escola apropriado para abrigar os visitantes, tendo em vista alguns critérios: espaço coberto e de maior circulação de pessoas, com ponto de apoio (mesa, suporte, computador, aparelho de som) onde o jornal possa ser exposto ou distribuído, ou um computador por meio do qual seja apresentada a versal digital. Organizar a mostra de reportagens: Preparar os equipamentos necessários e escolher como elas serão exibidas, por exemplo, em sessões com horário definido; preparar o local, que precisa ser equipado para receber apresentações multimídia e, de preferência, coberto. Organizar a conversa com a comunidade: Definir quais equipamentos serão usados e o local em que a palestra acontecerá, e prepará-los previamente no dia e horário combinado com o professor e a direção escolar. Liana Nagieva/Shutterstock AÇÃO: ORGANIZAÇÃO DO EVE NTO | RESPONSÁVEL: EQUIP E5 á No caso da versão digital, ser ado o lançamento do jornal? al? jorn O que fazer: Como será organiz prio pró lico juntamente com o ntação para ser enviado ao púb produzido um texto de aprese e sas, cadeiras, computadores Preparar um ambiente com me ts tantes possam ouvir os podcas monitores a fim de que os visi io, bem como assistir aos tenoticiosos e os jornais de rád a. Se julgarem conveniente, lejornais produzidos pela turm a hora. poderão organizar sessões a cad convite ao especialista, Organizar a palestra: Enviar o ntação, preparar previadefinir dia e horário da aprese mente o roteiro da conversa. Drawlab19/Shutterstock AÇÃO: EXPOSIÇÃO DE JORNAIS E DE FOTORREPORTAGENS | RESPONSÁVEL: EQUIPE 6 O que fazer: No dia do lançamento, a turma poderá expor o jornal em painéis nos espaços do evento para que os visitantes possam ler os vários textos produzidos. Reservar um painel específico para expor as fotorreportagens. Organizar também um momento para compartilhar com os visitantes nesse espaço, por meio de uma apresentação, os temas debatidos durante o semestre, como a questão do meio ambiente, os problemas da comunidade retratados nas fotorreportagens, o papel do jovem brasileiro, etc. 163 DE S E Õ T S QUE S A D A T N E M O C S E M A EX 1. (Uema, 2022) A Escrava, de Maria Firmina dos Reis, é um exemplar de conto do movimento abolicionista brasileiro, que projeta, no contexto de 1887, uma autora negra, pobre, maranhense, em texto publicado na Revista Maranhense no 3. Você vai ler a primeira cena dessa narrativa curta. Em um salão onde se achavam reunidas muitas pessoas distintas, e bem colocadas na sociedade, e depois de versar a conversação sobre diversos assuntos mais ou menos interessantes, recaiu sobre o elemento servil. O assunto era por sem dúvida de alta importância. A conversação era geral; as opiniões, porém, divergiam. Começou a discussão. — Admira-me, — disse uma senhora, de sentimentos sinceramente abolicionistas; faz-me até pasmar como se possa sentir, e expressar sentimentos escravocratas, no presente século, no século dezenove! A moral religiosa e a moral cívica aí se erguem, e falam bem alto esmagando a hidra que envenena a família no mais sagrado santuário seu, e desmoraliza, e avilta a nação inteira! Levantai os olhos ao Gólgota, ou percorrei-os em torno da sociedade, e dizei-me: — Para que se deu em sacrifício o Homem Deus, que ali exalou seu derradeiro atento? Ah! Então não era verdade que seu sangue era o resgate do homem! É então uma mentira abominável ter esse sangue comprado a liberdade!? E depois, olhai a sociedade... Não verdes o abutre que a corrói constantemente!... Não sentis a desmoralização que a enerva, o cancro que a destrói? Reis, Maria Firmina dos, 1825-1917. Úrsula e outras obras [recurso eletrônico] / Maria Firmina dos Reis. – Brasília: Câmara dos Deputados, Edições Câmara, 2018. – (Série prazer de ler; n. 11 e-book). A fala da senhora, ao se contrapor aos escravocratas, apresenta argumentação, ancorada na perspectiva da (do) C om en t‡ ri o a) respeito à pátria. d) cerceamento à liberdade. b) religiosidade cristã. e) moralidade social. c) comunhão familiar. Alternativa b. No trecho em destaque, a personagem se contrapõe aos escravocratas com argumentos claramente cristãos, ao mencionar que Jesus Cristo (“Homem Deus”) se deu ao “sacrifício” no “Gólgota” para o “resgate do homem”, para que a humanidade fosse livre (“É então uma mentira abominável ter esse sangue comprado a liberdade!?”). Para responder a essa questão, é fundamental observar na fala da senhora as palavras-chave em torno das quais ela desenvolve seus argumentos. Na alternativa a, há informações a mais, pois, embora ela mencione expressões como “moral cívica”, “avilta a nação inteira”, o discurso não apresenta viés nacionalista. A alternativa c, tal como a alternativa a, aborda informações a mais, uma vez que a senhora menciona a família, mas a discussão não foca a comunhão familiar. Na alternativa d, não há elementos na fala da senhora que abordem diretamente o cerceamento da liberdade dos escravizados de maneira prática ou política. Na alternativa e, embora a moralidade social seja um tema abordado, as palavras-chave do seu discurso não se concentram nesse aspecto. 164 Não escreva no livro. 2. (Uema, 2022) Leia o seguinte fragmento para responder à questão. Custou a ir à cidade: quando foi demorou-se algumas semanas, e quando chegou, entregou a meu pai uma folha de papel escrita, dizendo-lhe: — Toma, e guarda, com cuidado, é a carta de liberdade de Joana. Meu pai não sabia ler, de agradecido beijou as mãos daquela fera. Abraçou-me, chorou de alegria, e guardou a suposta carta de liberdade. Então furtivamente eu comecei a aprender a ler, com um escravo mulato, e a viver com alguma liberdade. Isso durou dois anos. Meu pai morreu de repente, e, no dia imediato, meu senhor disse a minha mãe: — Joana que vá para o serviço, tem já sete anos, e eu não admito escrava vadia. Minha mãe, surpresa e confundida, cumpriu a ordem sem articular uma palavra. Nunca a meu pai passou pela ideia, que aquela suposta carta de liberdade era uma fraude; nunca deu a ler a ninguém; mas, minha mãe, à vista do rigor de semelhante ordem, tomou o papel, e deu-o a ler, àquele que me dava as lições. Ah! Eram umas quatro palavras sem nexo, sem assinatura, sem data! Eu também a li, quando caiu das mãos do mulato. Minha pobre mãe deu um grito, e caiu estrebuchando. Reis, Maria Firmina dos, 1825-1917. Úrsula e outras obras [recurso eletrônico] / Maria Firmina dos Reis. – Brasília: Câmara dos Deputados, Edições Câmara, 2018. – (Série prazer de ler; n. 11 e-book). Os discursos sexista e escravocrata, manifestações da sociedade patriarcal, denunciadas por Maria Firmina, em A Escrava, se fazem representados no trecho a) “Então furtivamente eu comecei a aprender a ler, com um escravo mulato”. b) “Nunca a meu pai passou pela ideia, que aquela suposta carta de liberdade era uma fraude”. c) “Meu pai não sabia ler, de agradecido beijou as mãos daquela fera.” d) “Minha pobre mãe deu um grito, e caiu estrebuchando.” e) “— Joana que vá para o serviço, tem já sete anos, e eu não admito escrava vadia.” C om en t‡ ri o Alternativa e. A alternativa e explicita o discurso sexista e escravocrata por expressar um tipo de visão que desumaniza Joana ao julgá-la apenas como uma força de trabalho (“vá para o serviço”, escrava); além disso, ao usar o termo vadia para se referir à personagem, há uma imposição específica ao sexo feminino, destacando a opressão baseada no gênero. A questão pede que dois elementos sejam levados em consideração: o discurso sexista e escravocrata. Na alternativa a, há apenas elementos discordantes, por não abordar nem a questão do sexismo nem a do escravismo; da mesma maneira, a alternativa b não foca a demanda da questão, uma vez que aborda a ingenuidade e a falta de acesso à educação do personagem. Na alternativa c, a frase não aborda a questão do sexismo, nem apresenta de maneira direta o discurso escravocrata, colocando em evidência apenas a deferência a um opressor imposta pelo sistema escravocrata. Na alternativa d, a frase apenas focaliza a reação emocional de uma personagem, não abordando, portanto, nenhum tipo de discurso. 165 3. (Unemat-MT, 2019) C om en t‡ ri o Alternativa c. As expressões “travessuras [...] malignas”, “menino malcriado” e “velhacaria”, presentes apenas na alternativa c, são todas típicas de um comportamento negativo, que não apresenta as virtudes e a nobreza típicas do caráter de um herói; trata-se de traços moralmente questionáveis que, portanto, caracterizam Leonardo como um anti-herói. Nas demais alternativas, as características atribuídas ao personagem não são apenas negativas. Nas alternativas a e d, o trecho “portou-se com toda sisudez e gravidade” indica que ele se comportou com prudência e seriedade, o que, por si só, não é negativo; da mesma forma, não há indícios de característica negativa no trecho “não havia para ele em todo o bairro rapazinho mais bonito” citado nas alternativas b e e. 166 “[...] O Leonardo abandonara de uma vez para sempre a casa fatal onde tinha sofrido tamanha infelicidade; nem mesmo passara mais por aquelas alturas; de maneira que o compadre por muito tempo não lhe pôde pôr a vista em cima. O pequeno, enquanto se achou novato em casa do padrinho, portou-se com toda a sisudez e gravidade; apenas porém foi tomando mais familiaridade, começou a pôr as manguinhas de fora. Apesar disto porém captou do padrinho maior afeição, que se foi aumentando de dia em dia, e que em breve chegou ao extremo da amizade cega e apaixonada. Até nas próprias travessuras do menino, as mais das vezes malignas, achava o bom do homem muita graça; não havia para ele em todo o bairro rapazinho mais bonito, e não se fartava de contar à vizinhança tudo o que ele dizia e fazia; às vezes eram verdadeiras ações de menino malcriado, que ele achava cheio de espírito e de viveza; outras vezes eram ditos que denotavam já muita velhacaria para aquela idade, e que ele julgava os mais ingênuos do mundo. Era isto natural em um homem de uma vida como a sua; tinha já 50 e tantos anos, nunca tinha tido afeições; passara sempre só, isolado; era verdadeiro partidário do mais decidido celibato. Assim à primeira afeição que fora levado a contrair sua alma expandiu-se toda inteira, e seu amor pelo pequeno subiu ao grau de rematada cegueira. Este, aproveitando-se da imunidade em que se achava por tal motivo, fazia tudo quanto lhe vinha à cabeça. [...]. ALMEIDA, Manuel Antônio de. Memórias de um sargento de milícias. Brasília: Ministério da Educação/Fundação Biblioteca Nacional/ Departamento Nacional do Livro, s/d. Disponível em: http://noticias.universia.com.br/net/files/2017/2/10/memoriasdeumsargento-de-milicias-manuel-antonio-de-almeida.pdf. Acesso em: abr. 2019. Memórias de um sargento de milícias é um romance de transição, uma vez que se localiza, temporalmente, entre o fim do romantismo e o início do realismo, tornando-se precursor deste último. A narrativa apresenta como protagonista um anti-herói, que, de acordo com os estudos literários, é uma categoria de personagens que não está dotada das virtudes tradicionalmente atribuídas ao herói, uma vez que seus atos tornam-se moralmente questionáveis. Porém, eles recebem a aprovação dos leitores, pela simpatia e carisma que acabam justificando os atos de malandragem. Considerando-se o fragmento que constitui o texto base, assinale a alternativa cujas expressões caracterizam o protagonista na sua condição de anti-herói. a) “Travessuras do menino, as mais das vezes malignas”; “não se fartava de contar à vizinhança tudo o que ele dizia e fazia”; “portou-se com toda a sisudez e gravidade”. b) “Em breve chegou ao extremo da amizade cega e apaixonada”; “pôr as manguinhas de fora”; “não havia para ele em todo o bairro rapazinho mais bonito”. c) “Travessuras do menino, as mais das vezes malignas”; “menino malcriado”; “velhacaria para aquela idade”. d) “Portou-se com toda a sisudez e gravidade”; “pôr as manguinhas de fora”; “não havia para ele em todo o bairro rapazinho mais bonito”. e) “Menino malcriado”; “velhacaria para aquela idade”; “não havia para ele em todo o bairro rapazinho mais bonito”. Não escreva no livro. 4. (IFPI-PI, 2024) Conheça o povo Yanomami No Espaço do Conhecimento UFMG, são contadas muitas histórias sobre o surgimento do mundo e da humanidade. Muitas mesmo! Afinal, cada povo tem a sua. Com os Yanomami, não é diferente. Eles explicam sua origem e morte por meio de narrativas em que figuram divindades como Omama e Yoasi. Legal descobrir coisas sobre o povo Yanomami, né? Mas olha só: para conhecer a fundo as histórias desse povo, só mesmo atentando para o que eles têm a dizer! Por isso, o Espaço do Conhecimento da Universidade Federal de Minas Gerais lançou, em dezembro de 2019, a exposição “Mundos Indígenas”, que tem o patrocínio do Instituto Unimed-BH e Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais - BDGM Cultural e conta com uma curadoria indígena, onde o protagonismo é de quem realmente entende do assunto. Adaptado de: Espaço do Conhecimento UFMG. Disponível em: https://www.ufmg.br/espacodoconhecimento/pelos-mundos-indigenas-yanomami/ No segmento “Legal descobrir coisas sobre o povo Yanomami, né?”, a expressão “né?” é um exemplo de uma construção linguística que não faz parte da variedade padrão da língua portuguesa, mas que está comumente associada à linguagem oral. Qual das alternativas a seguir melhor descreve o efeito da linguagem não padrão no texto? a) Torna o texto mais acessível ao público em geral. b) Indica falta de conhecimento sobre a língua portuguesa. c) Reduz a importância da exposição “Mundos Indígenas”. d) Enfatiza a necessidade do uso técnico e formal da língua. e) Demonstra a preferência do autor por linguagem regional. C om en tá ri o Alternativa a. A expressão né?, derivada da contração não + é, é um marcador conversacional muito presente na fala brasileira e, assim como outros termos e expressões empregados no texto, como legal e “olha só”, típicos de contextos mais descontraídos, deixa o texto menos formal e, por isso, torna-o mais acessível ao público em geral. A alternativa b é incorreta porque relaciona o uso de uma expressão que não faz parte da norma-padrão à falta de conhecimento sobre a língua portuguesa, incorrendo em preconceito linguístico, uma vez que é preciso considerar que a língua portuguesa é muito mais do que a norma-padrão, embora também a inclua. A alternativa c, de forma simplista, relaciona o uso fora da norma-padrão a uma redução de importância, incorrendo em preconceito linguístico. A alternativa d, por sua vez, sugere que o uso da expressão né enfatiza um “uso técnico e formal”, informação desmentida pelo próprio enunciado, ao afirmar que a mesma expressão “não faz parte da variedade padrão” e “está comumente associada à linguagem oral”. Por fim, a alternativa e associa o uso da expressão né a uma linguagem “regional”, o que também não é verdadeiro, uma vez que se trata de uma expressão utilizada na linguagem oral de qualquer região do país. 5. (Fuvest-SP, 2022 – 1a Fase) A taxação de livros tem um efeito cascata que acaba custando caro não apenas ao leitor, como também ao mercado editorial – que há anos não anda bem das pernas – e, em última instância, ao desenvolvimento econômico do país. A gente explica. Taxar um produto significa, quase sempre, um aumento no valor do produto final. Isso porque ao menos uma parte desse imposto será repassada ao consumidor, especialmente se considerarmos que as editoras e livrarias enfrentam há anos uma crise que agora está 167 Alternativa c. A questão explora o papel do pronome relativo como elemento anafórico, já que em todas as ocorrências a palavra que é um pronome relativo. O candidato deve identificar o referente da oração anterior ao qual o pronome se refere. Na primeira ocorrência, o pronome relativo refere-se a “efeito cascata”, ou seja, é ele que acaba custando caro; na segunda ocorrência, o pronome se refere ao “mercado editorial”, que não anda bem das pernas (está em crise); na terceira ocorrência, o pronome relativo refere-se a “crise”, que se acentuou com a pandemia; e na quarta ocorrência, o pronome refere-se à “queda de vendas”, que é consequência de livros mais caros e acaba por motivar o enfraquecimento das editoras e o investimento em novas publicações. C om en tá ri o intensificada pela pandemia e não poderiam retirar o valor desse imposto de seu já apertado lucro. Livros mais caros também resultam em queda de vendas, que, por sua vez, enfraquece ainda mais editoras e as impede de investir em novas publicações – especialmente aquelas de menor apelo comercial, mas igualmente importantes para a pluralidade de ideias. Já deu para perceber a confusão, não é? Mas, além disso, qual seria o custo de uma sociedade com menos leitores e menos livros? Taís Ilhéu. “Por que taxar os livros pode gerar retrocesso social e econômico no país”. Guia do Estudante. Setembro/2020. Adaptado. No texto, os pronomes em negrito referem-se, respectivamente, a: a) taxação de livros, mercado editorial, crise, queda de vendas. b) taxação de livros, leitor, crise, queda de vendas. c) efeito cascata, mercado editorial, crise, queda de vendas. d) efeito cascata, mercado editorial, livrarias, livros. 6. (Fuvest-SP, 2024 – 2a Fase) Considere o anúncio jornalístico e os comentários do X (antigo Twitter) para responder à questão. Reprodução/Fuvest, 2024. C om en tá ri o a) O anúncio da abertura de um café no Museu da Língua Portuguesa causou muita agitação nas redes sociais. Considerando os comentários retirados do antigo Twitter, como se caracteriza a postura dos usuários em relação à reportagem e ao próprio idioma? b) Os comentários apresentados revelam o registro informal da língua. Identifique dois exemplos de registros informais e explique de que maneira colaboram para a construção de sentido do texto. Resposta para o item a: Para responder a essa pergunta, é preciso relacionar o conteúdo dos comentários feitos na rede social ao conteúdo do anúncio da abertura veiculado pelo jornal: assim, devemos perceber que a relação entre os conteúdos desses textos se dá por meio das expressões traduzir, “a língua portuguesa é a oficial”, “pode ser terraço, laje, cobertura?” e “tão falando com anglicismo”, utilizadas nos comentários, e a palavra rooftop, do inglês, utilizada pelo jornal. Por meio dessa relação, é possível identificar que a “agitação” a que se refere o enunciado da questão, portanto, diz respeito a um certo incômodo causado pela escolha de uma palavra estrangeira, um estrangeirismo, para nomear um espaço dedicado à língua portuguesa, o “Museu da Língua Portuguesa”. Resposta para o item b: O registro informal da língua é aquele utilizado em interações mais descontraídas, nas quais as pessoas envolvidas, em geral, estabelecem entre si uma relação de maior intimidade, como é o caso dos comentários da rede social reproduzidos na questão, nos quais é possível observar o uso termos típicos de interações orais informais, como pra, né, meu, tão (reduções de para e estão, contração de não é e gíria típica da variedade paulistana, cidade onde o museu se situa). Tais usos contribuem para construir maior proximidade entre os enunciadores e seus leitores, como se fosse uma conversa íntima, e essa proximidade pode, por sua vez, favorecer o estabelecimento de uma identificação, aumentando a possibilidade de que os leitores concordem com o conteúdo dos comentários. 168 Não Nãoescreva escrevano nolivro. livro. 7. (Urca-CE, 2020) Leia o trecho a seguir e assinale a alternativa que contém uma assertiva ERRADA sobre o texto: “O prédio de onde Miguel caiu é uma das “torres gêmeas”, encravadas em local de patrimônio histórico, entre diversas construções tombadas, e que foram levantadas debaixo de disputa judicial. Os dois espigões de alto luxo de 41 andares foram alvo de protesto e apagados do filme Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, que tinha como um de seus temas justamente a especulação imobiliária promovida pela elite. A historiadora Larissa Ibúmi, mestranda em história social da diáspora centro-africana, usou seu Instagram para chamar a atenção do componente racista da trágica morte de Miguel. “A história desse país de herança escravista (e esta história) mostra que, para essa patroa branca, uma criança negra não vale mais que seus cachorros. Hoje eu novamente tenho dificuldade de respirar pensando na mãe de Miguel e em todas as mães de crianças pretas nesse país”, escreveu.” (VASCONCELLOS, Caê. EL PAIS, “Enquanto as redes falavam ‘blacklivesmatter’, perdemos outra criança negra para o racismo”, 04 Jun. 2020. Disponível em <https://brasil.elpais.com/brasil/2020-06-05/enquanto-as-redes-falavam-blacklivesmatter-perdemos-outra-crianca-negra-para-o-racismo-enraizado.html>) a) É característico do gênero discursivo “notícia de jornal” o recurso a informações que permitem ao leitor contextualizar aspectos da notícia. A referência ao prédio de “alto luxo” funciona segundo este princípio, sublinhando a riqueza dos moradores. b) A citação da manifestação da historiadora Larissa Ibúmi ajuda o texto a defender uma linha argumentativa que associa o racismo ao problema da desigualdade econômica. c) A descrição da qualificação da pesquisadora citada no texto confere ao trecho citado um reforço de autoridade, por se tratar de uma declaração proferida por uma estudiosa que desenvolve pesquisa aprofundada sobre um tema. d) A referência ao filme Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, evidencia que o texto busca expressar pontos de vista divergentes, o que se compreende pelo fato de o gênero “notícia de jornal” pautar-se pela imparcialidade. e) A ocorrência dos termos “criança negra” e “crianças pretas” demonstra que o emprego dos dois adjetivos é legítimo, sendo errôneo deduzir que todo emprego do adjetivo preto/preta implica uma conotação racista. C om en t‡ ri o Alternativa d. Na alternativa a, a menção ao prédio de “alto luxo” cumpre esse papel ao destacar a desigualdade socioeconômica e a relação entre o local onde ocorreu a tragédia e o contexto de especulação imobiliária. Esse detalhe ajuda o leitor a compreender o pano de fundo do incidente e a situação dos moradores, enfatizando as disparidades sociais. Na b e na c, a fala da historiadora Larissa Ibúmi, que no texto tem o papel de voz de autoridade, reforça a conexão entre racismo e desigualdade econômica. Ao mencionar a herança escravista do país e fazer uma comparação entre o valor que a patroa dava a uma criança negra em relação a seus cachorros, a historiadora destaca a marginalização social e econômica das pessoas negras. A alternativa d é incorreta, uma vez que a referência ao filme Aquarius corrobora a linha de raciocínio do texto ao lembrar que os prédios onde ocorreu a morte da criança chegaram até a fazer parte dessa obra cinematográfica como exemplo da especulação imobiliária e força do dinheiro, uma vez que foram construídos em local de patrimônio histórico. Em relação à alternativa e, a distinção entre os adjetivos negra e preta não implica necessariamente uma conotação racista, uma vez que ambos os termos são amplamente usados nas discussões identitárias sobre o racismo estrutural no país. 169 3 unidade E M B U S CA DA VE RDAD E Competências gerais da Educação Básica: 1, 3, 7 Competências específicas da área de Linguagens: 2, 4, 6 Habilidades específicas da área de Linguagens: EM13LGG204, EM13LGG401, EM13LGG601, EM13LGG602, EM13LGG604 Habilidades de Língua Portuguesa: EM13LP03, EM13LP05, EM13LP14, EM13LP50 Murundu (2019), de Luiz Escañuela (1993-). 170 Reprodu•‹o/Cole •‹o particular BN CC Para os gregos antigos, a arte era a expressão do belo, e o belo, com equilíbrio e harmonia, era a representação da realidade. Mas até que ponto pode a arte representar a realidade? De que maneira os artistas do século XIX entendiam seu papel na sociedade? E os do século XX? Como se veem os artistas de hoje em dia? ole mpo Composto/C ção particular 1. Espera-se que o estudante reconheça que sim. O cenário e os personagens são retratados com muita fidelidade. Peça aos estudantes que levantem hipóteses sobre que tipo de relação existe entre os personagens e sobre o lugar onde eles estão. Romulo Fialdini/Te Pescando (1894), de Almeida Júnior (1850-1899). 2. Porque ela retrata com muita perfeição os pés dos personagens, a ponto de não se saber se a imagem é uma fotografia ou uma pintura. Incentive o estudante a descrever como são os pés dos personagens e o que representa o entrelaçamento dos pés. IV. Discurso do Capibaribe [...] O que vive é espesso como um cão, um homem, como aquele rio. Como todo o real é espesso. Aquele rio é espesso e real. Como uma maçã é espessa. Como um cachorro é mais espesso do que uma maçã. Como é mais espesso o sangue do cachorro do que o próprio cachorro. Como é mais espesso um homem do que o sangue de um cachorro. Como é muito mais espesso o sangue de um homem do que o sonho de um homem. [...] MELO NETO, João Cabral de. “O cão sem plumas”. In: Poesias completas. São Paulo: Alfaguara, 2020. Converse com a turma 1. A pintura de Almeida Júnior é associada ao Realismo, isto é, uma corrente estética do final do século XIX que tinha como compromisso retratar a realidade de modo fiel. A pintura Pescando pode ser considerada realista? Por quê? 2. Murundu, de Luiz Escañuela, é uma obra contemporânea, ou seja, de nosso tempo. Ela é considerada hiper-realista. “Hiper” é um prefixo grego que significa muito, acima. Por que essa obra é associada ao Hiper-realismo? 3. Os versos de João Cabral de Melo Neto, poeta brasileiro do século XX, ao tentar definir ou descrever as coisas, usa uma linguagem objetiva, quase coisa. Que pontos de contato você identifica entre as pinturas de Almeida Júnior e Escañuela e os versos de João Cabral? 3. Os três textos primam pela objetividade. Incentive os estudantes a comentar o que compreenderam do poema, chamando a atenção deles para a técnica do poeta de empregar comparações como meio de, cada vez mais, ampliar, em camadas, o sentido do verso inicial “o que vive é espesso”. 171 C O N E CT E - S E ! Livros • O ateneu, de Raul Pompeia. São Paulo: Ática, 2019. • Melhores poemas de Olavo Bilac, organizado por Marisa Lajolo. São Paulo: Global, 2003. Obras que dialogam com textos e personagens de Machado de Assis, Aluísio Azevedo e Raul Pompeia: • Um homem célebre: Machado recriado, de vários autores. São Paulo: Publifolha, 2016. • Capitu mandou flores, organizado por Rinaldo de Fernandes. São Paulo: Geração Editorial, 2008. • Quem é Capitu?, de Albert Schprejer. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008. • Capitu, de Lygia Fagundes Telles e Paulo Emílio Salles Gomes. São Paulo: Cosac & Naify, 2008. • O amor de Capitu, de Fernando Sabino. São Paulo: Ática, 2019. Filmes • Quincas Borba, de Roberto Santos. Brasil, 1987 (116 min). • Brás Cubas, de Júlio Bressane. Brasil, 1985 (93 min). • Dom, de Moacyr Góes. Brasil, 2003 (91 min). Pinturas History & Art Collection/Alamy/Fotoarena/Musée d’Orsay, Paris, França. Conheça a obra dos pintores realistas franceses Honoré Daumier (1808-1879), Jean-Baptiste Corot (1796-1875) e Jean-François Millet (1814-1875). Sites As obras dos principais escritores realistas, naturalistas e parnasianos brasileiros, como Machado de Assis, Aluísio Azevedo e Olavo Bilac, são de domínio público e podem ser encontradas na internet. Mœsicas Na época do Realismo literário, destacaram-se na música os compositores impressionistas, entre os quais se tornaram mais conhecidos os franceses Claude Debussy (1862-1918) e Maurice Ravel (1875-1937); o britânico Ralph Vaughan Williams (1872-1958); e o italiano Ottorino Respighi (1879-1936). Pastora com seu rebanho (1864), de Jean-François Millet (1814-1875). ar : H ora de co m pa rt ilh Jorn al de ciênc ia e cultu ra Ao final da unidade 4, você e os colegas vão produzir um jornal de ciência e cultura e organizar um evento de lançamento para compartilhá-lo com a comunidade escolar. O jornal contará com artigos de divulgação científica, artigos de opinião, crônicas e resenhas produzidas pela turma. 172 capítulo 5 e o m s li ra tu a N , o m s li a Re Pa rn a sia n is m o (I) Variação linguística: tipos de variação, norma e usos da língua Artigo de divulgação científica Neste capítulo você vai: • refletir sobre a prosa realista de Machado de Assis e sobre a prosa naturalista de Aluísio Azevedo; • conhecer o trabalho de alguns linguistas brasileiros, bem como tipos de variação linguística; • analisar usos do português brasileiro sob a perspectiva da variação linguística; BN CC Competências gerais da Educação Básica: 1, 2, 3, 4, 6, 7 Competências específicas da área de Linguagens: 1, 2, 3, 6 Habilidades específicas da área Linguagens: EM13LGG101, EM13LGG102, EM13LGG202, EM13LGG302, EM13LGG601, EM13LGG602, EM13LGG604 Habilidades específicas de Língua Portuguesa: EM13LP01, EM13LP03, EM13LP06, EM13LP46, EM13LP48, EM13LP49, EM13LP50, EM13LP52 • ler um artigo de divulgação científica a respeito das relações entre saúde mental e meio ambiente; • estudar o gênero artigo de divulgação científica, compreender sua função social e conhecer sua organização; • produzir um artigo de divulgação científica, levando em conta suas leituras e reflexões ao longo do capítulo. Justificativa Para aprimorar suas práticas de leitura literária, neste capítulo é proposta a você a leitura de obras significativas da literatura brasileira de expressão realista-naturalista, com base no conhecimento das concepções estéticas da época de sua produção. Partindo do texto literário e expandindo a análise para textos variados, você vai ser convidado a conhecer o trabalho de alguns linguistas brasileiros e a colocar-se no lugar deles, analisando, à luz da perspectiva da variação linguística, determinados usos do português comuns no Brasil. Você se debruçará também sobre o universo da ciência e seus diversos gêneros, particularmente os artigos de divulgação científica, gênero comprometido com a transmissão de saberes de natureza científica para um público leigo. 173 Literatura Realismo, Naturalismo, Parnasianismo (I) Contexto de produção e recepção do Realismo, do Naturalismo e do Parnasianismo Reprodução/Arquivo da editora O Realismo, o Naturalismo e o Parnasianismo são movimentos literários que se iniciaram na França e se difundiram pela Europa e outros continentes na segunda metade do século XIX. Quem produzia literatura realista, naturalista e parnasiana no Brasil? Quem era o público consumidor dessas obras? Os quebradores de pedras (1849), de Gustave Courbet (1819-1877). Iniciador do Realismo na pintura, o artista francês Courbet retratou trabalhadores e camponeses, pessoas que não eram, na época, consideradas dignas de representação em obras artísticas. A ca de m ia B ra si le • A dama das camélias, de Alexandre Dumas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2022. A Academia Brasileira de Letras (ABL) foi oficializada em 1897, e seu primeiro presidente, escolhido por aclamação, foi Machado de Assis, cargo que o escritor ocupou até sua morte, ocorrida em 1908. Também foram membros fundadores da ABL Visconde de Taunay, Aluísio Azevedo, Olavo Bilac e Ruy Barbosa, entre outros. • A besta humana, de Émile Zola. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. Filmes • O enfermeiro, de Mauro Frias. Brasil, 1999 (43 min). • Memórias póstumas, de André Klotzel. Brasil, 2001 (101 min). L ite ra tu ra A instituição, cuja finalidade é o cultivo da língua portuguesa e da literatura brasileira, tem atualmente entre seus membros escritores, artistas, professores e pesquisadores, entre os quais figuram Ana Maria Machado, Gilberto Gil, Lilia Schwarcz e Ailton Krenak, primeiro indígena a ocupar uma cadeira na ABL. Rubens Chaves/Pulsar Imagens Livros Desde meados do século XIX, havia a ideia de se criar no Brasil uma academia literária, nos moldes da Academia Francesa. A ideia ganhou força no final daquele século, por meio da atuação de um grupo de escritores ligados à Revista Brasileira. CO NE CT E-S E! 174 ir a de Le tr as Sede da Academia Brasileira de Letras (ABL), situada na cidade do Rio de Janeiro (RJ), 2011. Não escreva no livro. Meios de circulação CO NE CT E-S E! Na segunda metade do século XIX, o público leitor no Brasil era formado principalmente pelas camadas médias e altas da sociedade e se concentrava nas maiores cidades brasileiras. Além das faculdades, dos salões literários e das livrarias, as obras literárias passaram a circular nos gabinetes de leitura, um sistema de empréstimo remunerado de livros a preços baixos. Nesse período, revistas e jornais em que eram publicados os folhetins continuaram a ser um meio importante de divulgação da literatura. Pinturas • Obras do pintor português João Marques de Oliveira (1853-1927) podem ser encontradas no Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado. Disponível em: https: //tedit.net/9uhut6. Acesso em: 22 out. 2024. Com a modernização das cidades e a consolidação da consciência nacional após a Independência, a vida cultural se dinamizou e os escritores passaram a ser prestigiados e considerados parte integrante da vida social. A criação da Academia Brasileira de Letras (1897) é um símbolo desse processo de consagração da literatura e da figura do escritor na sociedade brasileira. Na segunda metade do século XIX, a sociedade europeia conheceu inovações tecnológicas e científicas que influenciaram tanto os hábitos diários como as ideias a respeito do ser humano, da arte e da vida. No plano cotidiano, essa sociedade viu surgir objetos como a máquina de escrever (1870), o telefone (1876), a lâmpada incandescente (1879) e o automóvel (1886). No plano das ideias, os princípios e métodos das ciências naturais, baseados na razão, na observação e na experimentação passaram a ser referências também para outros campos do saber, como a Filosofia, a História e a Literatura. Nesse contexto, no qual a objetividade e o racionalismo ganhavam destaque, os princípios românticos passaram a ser progressivamente combatidos. Na prosa, esse movimento de reação foi chamado Realismo, e seus adeptos preconizavam que a representação do ser humano, da sociedade e dos costumes fosse o mais possível fiel à realidade. Como uma derivação do Realismo, surgiu o Naturalismo, que, orientado por novas teorias científicas e filosóficas, buscava explicar o comportamento dos personagens pela influência de fatores como o meio social e a hereditariedade. Na poesia, desenvolveu-se o estilo de época conhecido como Parnasianismo, que repudiou o subjetivismo romântico e buscou, diferentemente de seus antecessores, o culto à forma. Essa última corrente será estudada no capítulo 6. Foco no texto Recomendamos que seja feita a leitura compartilhada do texto. Você vai ler, a seguir, trechos de Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Nessa obra, o personagem Brás Cubas narra, depois de morto, fatos de sua vida. Reprodução/Fundação Bienal de São Paulo, SP. Realismo, Naturalismo e Parnasianismo em contexto Os descobridores (1899), de Belmiro de Almeida (1858-1935). Na tela, o pintor brasileiro retrata os colonizadores de maneira não heroica, procurando dar a impressão de reproduzir a realidade: em trajes simples, dois homens descansam ao pé de uma árvore desfolhada. Li te ra tu ra 175 Memórias póstumas de Brás Cubas campa: sepultura. Moisés: segundo a tradição judaico-cristã, em nome de Deus, Moisés, entre outros feitos, libertou os hebreus do cativeiro e recebeu a Tábua das Leis de Deus, com os Dez Mandamentos ou as regras de comportamento essenciais dessa tradição. Informado previamente de sua morte, Moisés entregou a seu povo uma mensagem de despedida, que faz parte do final de um dos livros do Antigo Testamento, o Deuteronômio. introito: início. Pentateuco: os cinco primeiros livros do Antigo Testamento, na Bíblia (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio). bracejar: agitar os braços com violência. pernear: movimentar as pernas com violência. cabriolas: saltos, piruetas. volatim: equilibrista. “decifra-me ou devoro-te”: frase com a qual a esfinge, monstro fabuloso, híbrido de leão e humano, iniciava a proposição de seus enigmas. emplasto: medicamento sólido de uso externo que amolece com o calor e adere ao corpo. hipocondríaco: indivíduo afetado por transtorno psicológico caracterizado pela preocupação constante com o próprio estado de saúde. 176 L ite ra tu ra Capítulo I — Óbito do autor Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo. Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no introito, mas no cabo: diferença radical entre este livro e o Pentateuco. [...] Morri de uma pneumonia; mas se lhe disser que foi menos a pneumonia, do que uma ideia grandiosa e útil, a causa da minha morte, é possível que o leitor me não creia, e todavia é verdade. Vou expor-lhe sumariamente o caso. Julgue-o por si mesmo. Capítulo II — O emplasto Com efeito, um dia de manhã, estando a passear na chácara, pendurou-se-me uma ideia no trapézio que eu tinha no cérebro. Uma vez pendurada, entrou a bracejar, a pernear, a fazer as mais arrojadas cabriolas de volatim, que é possível crer. Eu deixei-me estar a contemplá-la. Súbito, deu um grande salto, estendeu os braços e as pernas, até tomar a forma de um x: decifra-me ou devoro-te. Essa ideia era nada menos que a invenção de um medicamento sublime, um emplasto anti-hipocondríaco, destinado a aliviar a nossa melancólica humanidade. Na petição de privilégio que então redigi, chamei a atenção do governo para esse resultado, verdadeiramente cristão. Todavia, não neguei aos amigos as vantagens pecuniárias que deviam resultar da distribuição de um produto de tamanhos e tão profundos efeitos. Agora, porém, que estou cá do outro lado da vida, posso confessar tudo: o que me influiu principalmente foi o gosto de ver impressas nos jornais, mostradores, folhetos, esquinas, e enfim nas caixinhas do remédio, estas três palavras: Emplasto Brás Cubas. Para que negá-lo? Eu tinha a paixão do arruído, do cartaz, do foguete de lágrimas. Talvez os modestos me arguam esse defeito; fio, porém, que esse talento me hão de reconhecer os hábeis. Assim, a minha ideia trazia duas faces, como as medalhas, uma virada para o público, outra para mim. De um lado, filantropia e lucro; de outro lado, sede de nomeada. Digamos: — amor da glória. Um tio meu, cônego de prebenda inteira, costumava dizer que o amor da glória temporal era a perdição das almas, que só devem cobiçar a glória eterna. Ao que retorquia outro tio, oficial de um dos antigos terços de infantaria, que o amor da glória era a coisa mais verdadeiramente humana que há no homem, e, conseguintemente, a sua mais genuína feição. Decida o leitor entre o militar e o cônego; eu volto ao emplasto. ASSIS, Joaquim Maria Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Globo, 2008. p. 40-44. 1. a) O narrador diz que não é um “autor defunto”, isto é, um autor falecido, mas um “defunto autor”, “para quem a campa foi outro berço”, ou seja, um autor que nasceu justamente no momento em que morreu. 1. b) Ao fazer esse jogo, o narrador propõe ao leitor um horizonte de significação menos realista, uma vez Não escreva no livro. que, do ponto de vista mais racional, mortos não escrevem memórias ou qualquer outro texto. 1. No primeiro parágrafo do capítulo I, o narrador joga com a posição das palavras autor e defunto em uma de suas frases. a) Explique como se dá esse jogo. b) Ao fazer esse jogo, o narrador propõe ao leitor um horizonte de significação menos ou mais realista? Explique. 2. No parágrafo final do capítulo I, o narrador convida o leitor a julgar determinado caso por si mesmo. Explique essa afirmação. Consulte a resposta da atividade 2 nas Orientações específicas do Manual do Professor. 3. A alegoria é um modo de expressão que utiliza imagens, figuras, objetos e animais para representar uma ideia. No início do capítulo II, Brás Cubas emprega uma alegoria para descrever a maneira como se deu a ideia do 3. a) Essa alegoria consiste na representação do processo de emplasto anti-hipocondríaco. cogitação, de formulação da ideia do emplasto pelos movia) Em que consiste essa alegoria? mentos de um equilibrista em um trapézio, agitando braços e pernas e dando piruetas no ar. b) Que efeito de sentido o emprego dessa alegoria cria no texto? Explique. Cria humor, pois a imagem de um equilibrista em um trapézio bracejando e fazendo piruetas contrasta com a seriedade do resultado do processo da cogitação: a invenção de um “medi- 4. A prosa realista retrata com profundidade os traços psicológicos dos personagens, explorando o caráter, os anseios, as contradições, os desejos e 4. a) Brás Cubas desejava obter fama, glória e sucesso (“sede de nomeaas reflexões deles. da”). Esse desejo revela que ele não era nem altruísta nem propriamente ganancioso, mas, sim, vaidoso (“tinha a paixão do arruído, do cartaz”). a) O que Brás Cubas desejava, verdadeiramente, obter com o emplasto? Esse desejo revela quais traços de caráter do personagem? Justifique sublime” voltado ao alívio da sua resposta com elementos do texto. camento melancolia. petição de privilégio: solicitação dirigida a uma autoridade com a finalidade de impedir o uso de um invento por outra pessoa sem a licença formal. pecuniárias: relativas a dinheiro. arguam: argumentam, alegam. fio: acredito. filantropia: ação ou prática de contribuir para o bem-estar alheio. nomeada: prestígio, fama. cônego: padre secular. prebenda: rendimento de cônego. temporal: mundano, profano. b) Para Brás Cubas, a ideia do emplasto tinha duas faces. Quais eram elas? c) Brás Cubas reflete a respeito da “sede de nomeada” sob diferentes 4. c) Para os modestos, a “sede de nomeada” é um perspectivas. Quais são elas? “defeito”; para os astutos (“hábeis”), um talento; para os religiosos, a “perdição das almas”; para os militares, “a coisa mais verdadeiramente humana”. d) A prosa realista se empenha em tratar dos valores humanos com objetividade e imparcialidade. Essa característica do Realismo se apresenta no texto em estudo? Por quê? Sim, porque o protagonista, ao refletir sobre o desejo de fama e prestígio, expõe objetivamente diferentes pontos de vista e não faz julgamentos, deixando para o leitor essa tarefa. 5. Em reação ao Romantismo, o Realismo procurou fazer retratos não idealizados dos protagonistas e dos personagens em geral, aproximando-os do ser humano comum. As características de Brás Cubas confirmam esse traço da prosa realista? Justifique sua resposta. Sim, pois Brás Cubas não é um modelo de herói, alguém perfeito e dotado somente de virtudes. Ele é retratado com fraquezas e, como um ser humano comum, é vaidoso e deseja prestígio e fama. gens são tratados de forma particular, subjetiva e centrada no próprio indivíduo. Já no Realismo, as questões vivenciadas pelos personagens partem do particular e procuram alcançar o âmbito universal, a fim de sinalizar que tais questões dizem respeito aos seres humanos em geral. Converse com os colegas e registre sua resposta no caderno: No texto de Machado de Assis, as reflexões de Brás Cubas buscam levar em conta os seres humanos em geral ou não? Justifique sua resposta com elementos do texto. Sim. Brás Cubas parte da reflexão sobre ele mesmo, ou seja, sobre a “sede de nomeada” que tinha 7. O escritor francês Gustave Flaubert (1821-1880), um dos expoentes do Reprodução/Europa Filmes 6. No Romantismo, as reflexões, os sentimentos e os desejos dos persona- Pôster do filme Memórias póstumas, adaptação para o cinema do romance de Machado de Assis, dirigida por André Klotzel, lançada em 2001. Na foto, o ator Reginaldo Faria, que interpreta Brás Cubas. Realismo francês, considerava que o romance devia ter um narrador impessoal, em 3a pessoa, a fim de criar a impressão de que o texto se desenvolve por si mesmo. Machado de Assis, sem seguir essa convenção, em Memórias póstumas de Brás Cubas utilizou um narrador em 1a pessoa que dialoga frequentemente com o leitor. Discuta com os colegas e registre sua resposta no caderno: No texto em estudo, que efeito resulta da leitor se sente mais próximo do que está sendo narrado, pois é convidado a refletir sobre presença desse tipo de narrador? O questões apresentadas pelo narrador. 4. b) Uma face da invenção de Brás Cubas era a filantropia e o lucro e todos podiam vê-la. A outra face era o desejo de glória, que ele guardava para si mesmo. Portanto, outras pessoas não tomavam conhecimento de sua vaidade. e conclui que o “amor da glória” é a “coisa mais verdadeiramente humana que há no homem”, sugerindo que Li te ra tu ra ter tal sentimento é próprio da condição humana. 177 RES E B A S E R T N E nas e Ciências raça: no século XIX, de acordo com certos cientistas e pensadores, a humanidade seria constituída de raças que, conforme seus traços físicos e suas qualidades psicológicas, intelectuais, culturais e morais, eram consideradas inferiores ou superiores. Desde a década de 1950, porém, a ciência, por meio de análises genéticas cada vez mais precisas, reconhece que todos os seres humanos, em suas múltiplas diferenças, pertencem a uma única espécie, Homo sapiens, e que sua constituição genética não justifica a ideia de raças nem de inferioridade ou de superioridade de uma em relação às demais. tábula rasa: expressão originária do latim que significa “tábua apagada” e tem o sentido de “lousa em branco”; foi empregada por certos filósofos para indicar a ausência total de conhecimento de uma pessoa quando ela nasce. Hum a plicadas Sociais A Teorias influentes no século XIX Na segunda metade do século XIX, novas teorias filosóficas e científicas influenciaram muitos pensadores e escritores da época. Para ter uma ideia de algumas dessas teorias, leia os textos a seguir. O determinismo de Hippolyte Taine Três fontes diferentes contribuem para produzir este estado moral elementar, a raça, o meio e o momento. O que se chama a raça são as disposições inatas e hereditárias que o homem traz com ele ao nascer [...]. [...] Quando se constata a estrutura interior de uma raça, é preciso considerar o meio no qual ela vive. Porque o homem não está sozinho no mundo; a natureza o envolve e os outros homens o circundam; [...] e as circunstâncias físicas ou sociais modificam ou complementam o natural que lhes foi dado. E logo o clima faz seu efeito. [...] Quando o caráter nacional e as circunstâncias ambientais operam, eles não operam na verdade sobre uma tábula rasa, mas sobre uma tábula onde impressões já foram deixadas. Dependendo do momento em que se toma essa tábula, a impressão é diferente; e isto basta para que o efeito total seja diferente. AINE, Hippolyte. Introdução. In: AINE, Hippolyte. Histoire de la littérature anglaise. 7. ed. Paris: Hachette, 1891. p. XXII, XXV e XVIII apud PEIXOTO, Sérgio Alves. A consciência criadora na poesia brasileira: do Barroco ao Simbolismo. São Paulo: Annablume, 1999. p. 147. O positivismo de Auguste Comte Além de ser uma reação contra o idealismo, o positivismo é ainda devido ao grande progresso das ciências naturais, particularmente das biológicas e fisiológicas, do século XIX. Tenta-se aplicar os princípios e os métodos daquelas ciências à filosofia, como resolvedora do problema do mundo e da vida, com a esperança de conseguir os mesmos fecundos resultados. [...] [...] o positivismo admite, como fonte única de conhecimento e critério de verdade, a experiência, os fatos positivos, os dados sensíveis. [...] A filosofia é reduzida à metodologia e à sistematização das ciências. [...] PADOVANI, Umberto; CASTAGNOLA, Luís. História da filosofia. São Paulo: Melhoramentos, 1993. p. 429-430. 178 O evolucionismo de Charles Darwin Darwin afirma que as espécies não são imutáveis. Elas mudam, ou evoluem, e o principal mecanismo para essa mudança é a seleção natural. O processo se baseia em dois fatores. Primeiro, nascem mais progênies do que o número que consegue sobreviver a desafios do clima, predadores e doenças; isso conduz a uma luta pela existência. Segundo, há uma variação, ocasionalmente pequenina, ainda assim presente, entre a progênie de uma espécie. Para a evolução, essas variações precisam atender dois critérios. Um: devem ter algum efeito na luta pela sobrevivência e procriação, ou seja, precisam ajudar a conferir o sucesso reprodutivo. Dois: devem ser herdadas e repassadas à progênie, em que passariam a mesma vantagem evolutiva. Darwin descreve a evolução como um processo lento e gradual. Enquanto uma população de organismos se adapta a novos ambientes, ela se torna uma nova espécie, diferente de seus ancestrais. Não escreva no livro. idealismo: concepção filosófica que postula a primazia da interioridade do sujeito sobre o mundo exterior; o realismo, ao contrário, postula a primazia do mundo exterior sobre a interioridade do sujeito. progênies: descendências, proles. HART-DAVIS, Adam et al. O livro da ci•ncia. São Paulo: Globo, 2014. p. 148-149. Agora, discuta com os colegas sobre as questões a seguir. 1. A teoria do crítico e historiador francês Hippolyte Taine (1828-1893) foi uma importante referência para os autores do Naturalismo. Para esse pensador, o estado moral do ser humano é influenciado por fatores inatos e circunstanciais. De acordo com Taine, quais fatores determinam o comportamento humano? Explique. A raça (herança genética); o meio, entendido como as circunstâncias sociais e ambientais (lugar e clima); e o momento histórico. 2. O positivismo exerceu grande influência no Realismo e no Naturalismo. Que circunstâncias motivaram a criação dessa teoria do filósofo francês Auguste Comte (1798-1857)? Qual é o princípio filosófico dela? Consulte a resposta da atividade 2 nas Orientações específicas do Manual do Professor. 3. Segundo Darwin, como se dá a evolução das espécies? Consulte a resposta da atividade 3 nas Orientações específicas do Manual do Professor. 4. O escritor brasileiro Aluísio Azevedo (1857-1913) se baseou nas teorias científicas e filosóficas de seu tempo para compor a obra naturalista O cortiço (1890). Leia, a seguir, trechos dessa obra tendo em vista a teoria do determinismo de Hippolyte Taine e responda às questões. O cortiço Daí a pouco, em volta das bicas era um zunzum crescente; uma aglomeração tumultuosa de machos e fêmeas. Uns, após outros, lavavam a cara, incomodamente, debaixo do fio de água que escorria da altura de uns cinco palmos. O chão inundava-se. As mulheres precisavam já prender as saias entre as coxas para não as molhar; via-se-lhes a tostada nudez dos braços e do pescoço, que elas despiam, suspendendo o cabelo todo para o alto do casco; os homens, esses não se preocupavam em não molhar o pelo, ao contrário metiam a 179 ventas: nariz ou focinho. fossando: assoando. despachavam-se: aliviavam-se. ensarilhavam-se: confundiam-se, enredavam-se. rezingas: brigas, bate-bocas. ofício: no caso, a prostituição. Léonie: personagem do romance; trata-se de uma prostituta que vivia no cortiço. medrou: progrediu, desenvolveu-se. ébria: quem se embriaga frequentemente, alcoólatra. cabeça bem debaixo da água e esfregavam com força as ventas e as barbas, fossando e fungando contra as palmas da mão. As portas das latrinas não descansavam, era um abrir e fechar de cada instante, um entrar e sair sem tréguas. Não se demoravam lá dentro e vinham ainda amarrando as calças ou as saias; as crianças não se davam ao trabalho de lá ir, despachavam-se ali mesmo, no capinzal dos fundos, por detrás da estalagem ou no recanto das hortas. O rumor crescia, condensando-se; o zunzum de todos os dias acentuava-se; já se não destacavam vozes dispersas, mas um só ruído compacto que enchia todo o cortiço. Começavam a fazer compras na venda; ensarilhavam-se discussões e rezingas; ouviam-se gargalhadas e pragas; já se não falava, gritava-se. Sentia-se naquela fermentação sanguínea, naquela gula viçosa de plantas rasteiras que mergulham os pés vigorosos na lama preta e nutriente da vida, o prazer animal de existir, a triunfante satisfação de respirar sobre a terra. a) Esse trecho descreve, no início da obra, as primeiras horas do dia dos moradores do cortiço. Pela descrição, que aspectos dessa comunidade o narrador ressalta? Pombinha, só com três meses de cama franca, fizera-se tão perita no ofício como a outra [Léonie]; a sua infeliz inteligência, nascida e criada no modesto lodo da estalagem, medrou logo admiravelmente na lama forte dos vícios de largo fôlego; fez maravilhas na arte; parecia adivinhar todos os segredos daquela vida; seus lábios não tocavam em ninguém sem tirar sangue; sabia beber, gota a gota, pela boca do homem mais avarento, todo o dinheiro que a vítima pudesse dar de si. [...] Pombinha abria muito a bolsa, principalmente com a mulher de Jerônimo, a cuja filha, sua protegida predileta, votava agora, por sua vez, uma simpatia toda especial, idêntica à que noutro tempo inspirara ela própria à Léonie. A cadeia continuava e continuaria interminavelmente; o cortiço estava preparando uma nova prostituta naquela pobre menina desamparada, que se fazia mulher ao lado de uma infeliz mãe ébria. AZEVEDO, Aluísio. O cortiço. 25. ed. São Paulo: Ática, 1992. p. 35-36, 201. (Bom Livro). b) Que aspecto do determinismo se apresenta nesse segundo trecho? Justifique sua resposta. Consulte a resposta da atividade 4, itens a e b, nas Orientações específicas do Manual do Professor. 5. Leia agora este comentário sobre um dos resultados obtidos pelo Projeto Genoma Humano, desenvolvido entre o final do século XX e o início do século XXI: Recentemente, [...] alguns cientistas rastrearam o sequenciamento genético de 94% do DNA humano, no chamado Projeto Genoma. Comprovou-se, então, a não existência de raças humanas [...]. 180 Não escreva no livro. [...] a ciência comprovou, através do Projeto Genoma, que mesmo com as diferenças físicas entre as pessoas, a espécie humana é única. [...] todos fazemos parte da mesma espécie. CARVALHO, Leandro. Projeto Genoma e a espécie humana. História do mundo, [2023]. Disponível em: https://tedit.net/sevzgx. Acesso em: 10 set. 2024. Pr oj et o G en om a H um an o Iniciado em 1990 nos Estados Unidos, o projeto Genoma Humano teve como meta compreender o padrão genético dos seres humanos, que contém aproximadamente 3 bilhões de pares de bases químicas. Com essa base inicial, buscou-se também compreender os milhares de genes que compõem o DNA humano, inclusive o de doenças, para que fosse possível aplicar tecnologia para alterar certas instruções com o intuito de garantir uma melhoria na qualidade de vida do organismo. a) De acordo com o que você leu nesta seção, que teoria embasou parte das ideias expressas pela literatura do século XIX e teve uma de suas bases descartada por essa descoberta científica? Explique. b) Constatar que a ciência pode levantar certas hipóteses, comprovar algumas e descartar outras mostra que ela é um conhecimento em construção? Que outra hipótese ou teoria você conhece que foi descartada ao longo do tempo pela pesquisa científica? Compartilhe com a turma. Espera-se que os estudantes respondam afirmativamente à questão. 5. a) A teoria do determinismo, que tem como uma de suas bases o conceito de raça. Como considera o Projeto Genoma Humano, o padrão genético apontou para a não existência de raças humanas, o que existe é a espécie humana e ela é única, as diferenças são apenas físicas. Realismo e Naturalismo Os autores realistas preconizavam que a representação do ser humano e da sociedade fosse o mais possível fiel à realidade, por isso rejeitaram a idealização feita nas narrativas românticas, mas conservaram alguns de seus traços, como a descrição da vida social. Assim, com base na razão, na objetividade e na observação minuciosa dos fatos e do comportamento humano, o Realismo aprofundou de modo singular nos romances a descrição do ambiente e dos costumes, e a análise do caráter e dos conflitos psicológicos. Como você verá no próximo capítulo, com o estudo do autor português Eça de Queirós, o Naturalismo se distingue do Realismo por se aproximar mais estreitamente de certas teorias da época, como o positivismo e o determinismo, procurando explicar as condutas humanas como resultado de fatores biológicos, climáticos e sociais. No Brasil, o Realismo e o Naturalismo tiveram repercussão entre 1870 e 1900, por influência de escritores franceses, como Gustave Flaubert (1821-1880) e Émile Zola (1840-1902); e de escritores portugueses, como Eça de Queirós (1845-1900). As obras que marcam o início dessas tendências estéticas no Brasil são, respectivamente, Memórias póstumas de Brás Cubas (1880), de Machado de Assis; e O mulato (1881), de Aluísio Azevedo. Produziram, também, prosa realista os autores Júlia Lopes de Almeida (1862-1934) e Raul Pompeia (1863-1895); na prosa naturalista brasileira, destacam-se Inglês de Sousa (1853-1918) e Adolfo Caminha (1867-1897). Li te ra tu ra 181 Realismo: Machado de Assis Reprodução/Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, RJ. Infográfico clicável Machado de Assis Filho de um pintor negro e de uma lavadeira de roupas açoriana, Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) nasceu no Rio de Janeiro. Com uma vasta cultura literária, adquirida principalmente como autodidata, o escritor também foi crítico teatral em jornais e revistas e alcançou altos cargos na administração pública. Na longa carreira literária que teve, produziu uma obra vasta e variada, em que se incluem peças teatrais, poemas, crônicas, contos e romances. Foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras e seu primeiro presidente. Foto de 1893. 182 L ite ra tu ra Além de ser o expoente do Realismo brasileiro, Machado de Assis é também um de nossos principais escritores. Na vasta obra que produziu, o autor se notabilizou como um ficcionista que, em linguagem concisa e permeada por ironia e ambiguidade, fez uma profunda reflexão em torno dos conflitos psicológicos e dos dramas experimentados pelo ser humano. Sua prosa equilibrada, sem excessos descritivos, retrata a paisagem urbana e o indivíduo em seu cotidiano, envolto em contradições, incertezas, esperanças e fraquezas. A fase de maturidade do escritor se inicia com Memórias póstumas de Brás Cubas, obra da qual você estudou um trecho no começo deste capítulo. São dessa fase também os romances Quincas Borba (1891), Dom Casmurro (1899), Esaú e Jacó (1904) e Memorial de Aires (1908). Dom Casmurro Bento Santiago (Bentinho/Dom Casmurro) é o protagonista e narrador da história no romance Dom Casmurro. Com o propósito de “atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência”, o protagonista se propõe a escrever a história de sua vida, centrada na relação entre ele e Capitu (Capitolina). Quando adolescentes, Bentinho e Capitu se descobrem apaixonados; porém, havia um impedimento para a concretização desse amor: a promessa da mãe de Bentinho de torná-lo padre. Enquanto frequenta o seminário, ele conhece Escobar, que se torna seu melhor amigo. Depois de um tempo, Bentinho consegue se livrar do compromisso clerical e vai cursar faculdade. Forma-se em Direito, casa-se com Capitu, tem um filho, Ezequiel, e mantém estreita amizade com o casal Escobar e Sancha. Escobar morre afogado no mar e Bentinho, ao observar o sofrimento de Capitu no velório, começa a suspeitar que sua mulher o traíra com o amigo. A semelhança de Ezequiel com Escobar aumenta sua desconfiança, provoca conflitos com Capitu e o fim do casamento. Em Dom Casmurro, não há nenhuma prova decisiva a respeito do adultério. Bentinho, um ciumento obsessivo e confesso, apresenta os fatos sob seu ponto de vista, não havendo no romance outra testemunha que confirme ou negue a possível traição da mulher e do amigo. Por isso, a narrativa, toda permeada de ambiguidades, não possibilita que se tenha certeza da traição de Capitu. Dom Casmurro e os demais romances de Machado de Assis retratam a paisagem e o ambiente social do Rio de Janeiro da segunda metade do século XIX, porém, pela genialidade com que o autor analisa a alma humana, superam as limitações do tempo e do lugar e alcançam uma projeção atemporal. Não escreva no livro. Foco no texto Você vai ler, a seguir, um capítulo de Dom Casmurro. Nele, o narrador-protagonista conta como foi, aos poucos, percebendo as semelhanças entre o pequeno Ezequiel e Escobar. CXXXII O debuxo e o colorido Nem só os olhos, mas as restantes feições, a cara, o corpo, a pessoa inteira, iam-se apurando com o tempo. Eram como um debuxo primitivo que o artista vai enchendo e colorindo aos poucos, e a figura entra a ver, sorrir, palpitar, falar quase, até que a família pendura o quadro na parede, em memória do que foi e já não pode ser. Aqui podia ser e era. O costume valeu muito contra o efeito da mudança; mas a mudança fez-se, não à maneira de teatro, fez-se como a manhã que aponta vagarosa, primeiro que se possa ler uma carta, depois lê-se a carta na rua, em casa, no gabinete, sem abrir as janelas; e a luz coada pelas persianas basta a distinguir as letras. Li a carta, mal a princípio e não toda, depois fui lendo melhor. Fugia-lhe, é certo, metia o papel no bolso, corria a casa, fechava-me, não abria as vidraças, chegava a fechar os olhos. Quando novamente abria os olhos e a carta, a letra era clara e a notícia claríssima. debuxo: desenho, de algo ou alguém, desprovido de traços precisos; esboço. gabinete: escritório. diferia: transferia para outra data, adiar. postos à capa: proteção da embarcação contra o mau tempo. dúbia: incerta, imprecisa. Escobar vinha assim surgindo da sepultura, do seminário e do Flamengo para se sentar comigo à mesa, receber-me na escada, beijar-me no gabinete de manhã, ou pedir-me à noite a bênção do costume. Todas essas ações eram repulsivas; eu tolerava-as e praticava-as, para me não descobrir a mim mesmo e ao mundo. Mas o que pudesse dissimular ao mundo, não podia fazê-lo a mim, que vivia mais perto de mim que ninguém. Quando nem mãe nem filho estavam comigo o meu desespero era grande, e eu jurava matá-los a ambos, ora de golpe, ora devagar, para dividir pelo tempo da morte todos os minutos da vida embaraçada e agoniada. Quando, porém, tornava a casa e via no alto da escada a criaturinha que me queria e esperava, ficava desarmado e diferia o castigo de um dia para outro. O que se passava entre mim e Capitu naqueles dias sombrios, não se notará aqui, por ser tão miúdo e repetido, e já tão tarde que não se poderá dizê-lo sem falha nem canseira. Mas o principal irá. E o principal é que os nossos temporais eram agora contínuos e terríveis. Antes de descoberta aquela má terra da verdade, tivemos outros de pouca dura; não tardava que o céu se fizesse azul, o sol claro e o mar chão, por onde abríamos novamente as velas que nos levavam às ilhas e costas mais belas do universo, até que outro pé de vento desbaratava tudo, e nós, postos à capa, esperávamos outra bonança, que não era tardia nem dúbia, antes total, próxima e firme. Li te ra tu ra 183 comborço: amante de mulher casada. ressaca: recuo das águas do mar após a rebentação de uma onda. ataúde: caixão. atenuar: tornar mais suave. autos: documentos jurídicos. Releva-me estas metáforas; cheiram ao mar e à maré que deram morte ao meu amigo e comborço Escobar. Cheiram também aos olhos de ressaca de Capitu. Assim, posto sempre fosse homem de terra, conto aquela parte da minha vida, como um marujo contaria o seu naufrágio. Já entre nós só faltava dizer a palavra última; nós a líamos, porém, nos olhos um do outro, vibrante e decisiva, e sempre que Ezequiel vinha para nós não fazia mais que separar-nos. Capitu propôs metê-lo em um colégio, donde só viesse aos sábados; custou muito ao menino aceitar esta situação. — Quero ir com papai! Papai há de ir comigo! bradava ele. Fui eu mesmo que o levei um dia de manhã, uma segunda-feira. Era no antigo Largo da Lapa, perto da nossa casa. Levei-o a pé, pela mão, como levara o ataúde do outro. O pequeno ia chorando e fazendo perguntas a cada passo, se voltaria para casa, e quando, e se eu iria vê-lo... — Vou. — Papai não vai! — Vou sim. — Jura, papai! — Pois sim. — Papai não diz que jura. — Pois juro. Reprodu•‹o/Cole•‹o particular E lá o levei e deixei. A ausência temporária não atalhou o mal, e toda a arte fina de Capitu para fazê-lo atenuar, ao menos, foi como se não fosse; eu sentia-me cada vez pior. A mesma situação nova agravou a minha paixão. Ezequiel vivia agora mais fora da minha vista; mas a volta dele, ao fim das semanas, ou pelo descostume em que eu ficava, ou porque o tempo fosse andando e completando a semelhança, era a volta de Escobar mais vivo e ruidoso. Até a voz; dentro de pouco, já me parecia a mesma. Aos sábados, buscava não jantar em casa e só entrar quando ele estivesse dormindo; mas não escapava ao domingo, no gabinete, quando eu me achava entre jornais e autos. Ezequiel entrava turbulento, expansivo, cheio de riso e de amor, porque o demo do pequeno cada vez morria mais por mim. Eu, a falar verdade, sentia agora uma aversão que mal podia disfarçar, tanto a ela como aos outros. Não podendo encobrir inteiramente esta disposição moral, cuidava de me não fazer encontradiço com ele, ou só o menos que pudesse; ora tinha trabalho que me obrigava a fechar o gabinete, ora saía ao domingo para ir passear pela cidade e arrabaldes o meu mal secreto. Capitu (1936), de Joaquim da Rocha Ferreira (1900-1965). 184 L ite ra tu ra ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. Cotia: Ateliê, 2008. p. 340-343. 1. a) O rosto e o corpo todo de Ezequiel eram vistos inicialmente como um esboço de Escobar, ou seja, mostravam traços que, com o passar do tempo, foram ganhando mais forma e mais cor, compondo uma Não escreva no livro. figura clara e nítida, que não deixava dúvida da semelhança entre Ezequiel e Escobar. 1. No início do capítulo, o narrador-protagonista, Bento Santiago, emprega 1. c) Sugestões: “Escobar vinha assim surgindo da sepultura, do uma linguagem figurada para descrever o modo como chegou à conclu- seminário e do Flamengo para se sentar comigo à mesa [...]”; são de que Capitu o traíra. “descoberta aquela má terra da verdade”; “comborço Escobar”; a) Ele relaciona o filho Ezequiel a um debuxo. Em que consiste essa ima- “Levei-o [...] como levara o ataúde do outro”. 1. b) Primeiramente, os traços de Ezequiel levantaram no narrador gem, no texto? suspeitas de traição (“Li a carta, mal a princípio”); depois, ele procurou fugir das desconfianças (“chegava a fechar os olhos”); por fim, b) Releia este trecho: enxergou no filho uma clara evidência de traição (“a letra era clara e a notícia claríssima”). Li a carta, mal a princípio e não toda, depois fui lendo melhor. Fugia-lhe, é certo, metia o papel no bolso, corria a casa, fechava-me, não abria as vidraças, chegava a fechar os olhos. Quando novamente abria os olhos e a carta, a letra era clara e notícia claríssima. Bento Santiago emprega a imagem da carta para retratar a maneira como a traição se revelou aos seus olhos. De acordo com esse trecho e o contexto da narração, como isso ocorreu? Justifique sua resposta com elementos do trecho. c) Além das imagens do debuxo e da carta, o narrador-protagonista utiliza também frases e expressões que reforçam, ao longo do texto, a ideia de traição de Capitu e de Escobar. Identifique no texto dois exemplos de frases ou expressões que confirmam essa ideia. 2. Leia, a seguir, um trecho do capítulo que antecede o capítulo lido. Capitu estava mais bela, Ezequiel ia crescendo. Começava o ano de 1872. — Você já reparou que Ezequiel tem nos olhos uma expressão esquisita? Perguntou-me Capitu. Só vi duas pessoas assim, um amigo de papai e o defunto Escobar. Olha, Ezequiel; olhe firme, assim, vira para o lado de papai, não precisa revirar os olhos assim, assim... [...] Aproximei-me de Ezequiel, achei que Capitu tinha razão; eram os olhos de Escobar, mas não me pareciam estranhos por isso. ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. Cotia: Ateliê, 2008. p. 338. 2. b) Sim, pois, o fato de ser Capitu quem primeiro chama a atenção para a semelhança De acordo com esse trecho: entre Ezequiel e Escobar opera como um indício da inocência dela. Tal fato se contrapõe à visão de Bento Santigo e gera uma ambiguidade na trama. a) Quem primeiro chama atenção para a semelhança entre Escobar e Ezequiel? Capitu. b) Pode-se dizer que esse fato cria uma ambiguidade na trama? Justifique sua resposta. 3. A convicção do adultério gera conflitos, tanto internos quanto externos. a) Que conflitos psicológicos o protagonista vivencia logo que se convence do adultério? Justifique sua resposta com elementos do texto. b) Naquele momento, os conflitos com Capitu tornam-se diferentes dos que até então tinham vivenciado. Em que consiste essa diferença? Justifique sua resposta com elementos do texto. c) Diante dos conflitos vivenciados pelo casal, o que Capitu propõe a Bento Santiago para amenizar a situação? Propõe afastar Ezequiel de casa, 3. a) Embora sentindo repulsa pelo filho, Bentinho retribui os carinhos dele e tenta dissimular, para si e para os outros, os verdadeiros sentimentos que tem (“para me não descobrir a mim mesmo e ao mundo”); chega a fantasiar que mata mãe e filho para se vingar, mas desiste diante das manifestações amorosas de Ezequiel. 3. b) Antes da “descoberta”, os conflitos com Capitu eram breves (“não tardava que o céu se fizesse azul”), ao passo que, depois dela, os conflitos (“temporais”) se tornam “contínuos e terríveis”. colocando-o em um colégio interno de onde só voltaria aos sábados. Li te ra tu ra 185 4. É pelo ponto de vista de Bento Santiago que os leitores conhecem as características e o perfil psicológico dos personagens. a) Segundo o narrador-protagonista, Capitu tem “olhos de ressaca”. Leia o trecho em que ele descreve o olhar de Capitu enquanto ela fitava o defunto Escobar, que havia morrido afogado pela manhã, tragado pela ressaca do mar: Momento houve em que os olhos de Capitu fitaram o defunto, quais os da viúva, sem o pranto nem as palavras desta, mas grandes e abertos, como a vaga do mar lá fora, como se quisesse tragar também o nadador da manhã. ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. Cotia: Ateliê, 2008. p. 328-329. Considerando o significado da palavra ressaca e o trecho lido, responda: Quais seriam as características do “olhar de ressaca” de Capitu? Um olhar forte, penetrante, que parecia tragar o que via. b) No capítulo lido, o narrador-protagonista afirma: A ausência temporária não atalhou o mal, e toda a arte fina de Capitu para fazê-lo atenuar, ao menos, foi como se não fosse. Com o emprego da expressão “arte fina”, o narrador-protagonista sugere um traço de caráter de Capitu. Qual é esse traço? Astúcia, sagacidade, esperteza. 5. Releia esta frase: “A mesma situação nova agravou a minha paixão”. a) No trecho em que a frase aparece, que sentido a palavra paix‹o tem? Sentimento intenso em que se associam sofrimento e ódio. b) O paradoxo é uma figura de linguagem que consiste em fundir elementos opostos em uma única ideia, constituindo uma afirmação aparentemente contraditória. Identifique o paradoxo na frase em destaque e explique-o, considerando o contexto em que ela foi empregada. Embora o afastamento de Ezequiel fosse uma situação nova, a sua volta, aos sábados, provocava a habitual situação de conflito. Por isso, embora a situação fosse nova, ela era, no fundo, a mesma: “foi como se não fosse”. 6. Um indivíduo casmurro é alguém que vive fechado em si mesmo. Por ser calado e reservado, Bento Santiago era chamado pelas pessoas de “Dom Casmurro”, alcunha que o protagonista escolheu como título do seu livro. No último parágrafo do capítulo lido, ele revela esse traço de caráter. Por quê? Justifique sua resposta com elementos do texto. Diante de seu “mal secreto” e do que considerou um “naufrágio” em sua vida, Bento Santiago se isola, por sentir aversão por todos (“sentia agora uma aversão que mal podia disfarçar, tanto a ela como aos outros”). 7. A obra machadiana explora com profundidade a vida interior dos personagens e seus conflitos psicológicos. Ao fazer isso, ela desnuda as fraquezas e os tormentos da alma humana e, assim, alcança a atemporalidade. Com base nas reflexões realizadas, conclua: Dom Casmurro é uma obra o narrador-protagonista descreve as primeiras cogitações psicológica e atemporal? Justifique sua resposta. Sim; que faz a respeito da traição e, depois de se considerar traído, retrata os conflitos interiores e a progressiva mudança de comportamento que experimentou. Portanto, a narrativa se desenrola a partir da introspecção psicológica, que possibilita a revelação de fraquezas e dilemas da alma humana que são atemporais. Li te ra tu ra em le tr as de ca nç ão os Brasil Reprodução/Dabliu Disc A enigmática personagem Capitu, da obra Dom Casmurro, de Machado de Assis, serviu de inspiração para o cantor e compositor Luiz Tatit, em canção homônima: Capitu Feminino com arte A traição atraente Um capítulo à parte Quase vírus ardente Imperando no site CAPITU. Intérprete e compositor: Luiz Tatit. In: O MEIO. Intérprete: Luiz Tatit. São Paulo: Dabliú, 2000. 1 CD, faixa 4. 186 L ite ra tu ra Capa do álbum O meio, de Luiz Tatit, 2000. E NTRE TEX TO S Você vai ler, a seguir, dois textos: o primeiro é um trecho do capítulo “A mão de Sancha”, de Dom Casmurro, de Machado de Assis; o segundo, um trecho de A aud‡cia dessa mulher, romance de Ana Maria Machado publicado em 1999. Nesta obra, a autora cria uma Capitu que teria existido na realidade. Essa personagem, perto do final da vida, envia a Sancha um caderno de receitas com registros pessoais e uma carta que, depois de muitos anos, no final do século XX, vão parar nas mãos de Bia, uma jornalista. No romance de Ana Maria Machado, Capitu é também chamada de Lina, forma abreviada de Capitulina. Texto 1 CXVIII A mão de Sancha [...] Na véspera tínhamos passado a noite no Flamengo, não só os dous casais inseparáveis, como ainda o agregado e prima Justina. Foi então que Escobar, falando-me à janela, disse-me que fôssemos lá jantar no dia seguinte; precisávamos falar de um projeto em família, um projeto para os quatro. — Para os quatro? Uma contradança. — Não. Não és capaz de adivinhar o que seja, nem eu digo. Vem amanhã. Sancha não tirava os olhos de nós durante a conversa, ao canto da janela. Quando o marido saiu, veio ter comigo. Perguntou-me de que é que faláramos; disse-lhe que de um projeto que eu não sabia qual fosse; ela pediu-me segredo e revelou-me o que era: uma viagem à Europa dali a dous anos. Disse isto de costas para dentro, quase suspirando. O mar batia com grande força na praia; havia ressaca. — Vamos todos? perguntei por fim. — Vamos. Sancha ergueu a cabeça e olhou para mim com tanto prazer que eu, graças às relações dela e Capitu, não se me daria beijá-la na testa. Entretanto, os olhos de Sancha não convidavam a expansões fraternais, pareciam quentes e intimativos, diziam outra cousa, e não tardou que se afastassem da janela, onde eu fiquei olhando para o mar, pensativo. A noite era clara. Dali mesmo busquei os olhos de Sancha, ao pé do piano; encontrei-os em caminho. Pararam os quatro e ficaram diante uns dos outros, uns esperando que os outros passassem, mas nenhuns passavam. Tal se dá na rua entre dous teimosos. A cautela desligou-nos; eu tornei a voltar-me para fora. [...] ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. Cotia: Ateliê, 2008. p. 320-321. 187 Texto 2 Capítulo 16 Os livros continuam uns aos outros, apesar de nosso hábito de julgá-los separadamente. Não fui eu quem disse isso, foi Virginia Woolf. Limito-me a lembrar e concordar. E não apenas porque existe uma tradição literária onde esses livros se inserem, fazendo com que nenhuma obra possa ser um fato isolado e solitário, mas tenha sempre que ser o resultado de muitos séculos de se pensar em conjunto, de tal forma que a experiência coletiva está sempre por trás da voz individual. Mais que isso, porém: a leitura aproxima livros diversos. O que o autor leu está embebido nele e passa para sua escrita. Acontece o mesmo com aquilo que cada leitor já leu antes e vai fazer dialogar com o que está lendo agora. Ou ainda com o que guardará do que está lendo neste momento e, em algum ponto futuro, acionará para incorporar a sua vida ou a outras leituras. Livros que continuam uns aos outros. [...] [...] Venham comigo ler a carta de Lina e mergulhar com Bia no que ela encontrar, nessas águas moventes onde se cruzam ficção e realidade, no contínuo fluxo de livros que se esparramaram por nossa vida e a fecundam. Vevey, 28 de março de 1911. Minha querida amiga Sancha, Bem imagino tua incredulidade ao receber esta carta. Seguramente me tens por morta e enterrada há mais de vinte anos. E subitamente te escrevo, da Europa, sem nem ao menos saber se está viva ou se esta carta, afinal, te chega às mãos, visto que o único endereço que tenho é o de teus parentes no Paraná. Haveria tanto a dizer-te, sobre todas as cousas que se passaram nestes quarenta anos, contados dia a dia, desde a trágica manhã em que a catástrofe te trouxe a viuvez e deixou tua filhinha na orfandade. Inúmeras vezes compus este relato mentalmente, mas outras tantas o deixei de lado sem saber por onde começar, nem que palavras usar para dar conta das razões que me moveram. Sei agora que tenho pouco tempo e não me cabe mais adiar. Deixo ordens expressas para que este envelope te seja enviado após meu falecimento, que segundo o médico não deve tardar muito. Sei, assim, que teu olhar só estará percorrendo estas linhas quando não haverá mais resposta possível neste mundo. As lembranças e emoções que deito ao papel não têm mais o poder de mudar o curso dos acontecimentos. Meu gesto serve apenas para trazer-me, a mim, um pouco de paz. E talvez também a ti, garantindo-te a certeza de que não guardei ressentimentos de ti (sim, eu sabia, vi os olhares entre ti e meu marido). [...] Acompanha esta carta um caderno de receitas que mamãe me deu pouco depois de sairmos do colégio, e no qual nunca mais escrevi desde a manhã em que ficaste viúva, quando nele fizera as últimas anotações, antes de saber da tragédia. Verás que ao longo do tempo, além de nele copiar receitas de cozinha e maneiras de fazer modelos de tricot e crochet, de quando em quando depositei em suas páginas registros de meu estado de espírito. [...] Com a leitura, poderás acompanhar o que me ia na alma. Confirmarás quanto eu sempre amei meu marido e como entre nós duas nunca houvera antes daquela fatídica noite cousa alguma que maculasse nossas simpatias, nossa amizade começada no colégio, continuada e nunca interrompida até que um lance da fortuna fez separar para sempre duas criaturas que prometiam ficar por muito tempo unidas. 188 Não escreva no livro. O que se seguiu à descoberta daquela noite, e que nem imaginas, tratarei de contar-te resumidamente. Na manhã seguinte, aturdida e abatida, escrevi aquelas notas em meu caderno e depois fui à missa com prima Justina. Ao regressar, soube que Santiago fora chamado às pressas à tua casa, porque teu marido se afogara. Não pude deixar de recordar, imediatamente, que ainda na véspera eu pensara em sua morte, e na minha também. Igualmente pensara na tua morte e na de meu marido, cheguei a pedir aos céus que elas se abatessem, tão ferida e dilacerada me encontrava eu com a descoberta da traição. Devido à lembrança dessas orações recentes, sentia-me como se meus pensamentos houvessem provocado a tragédia, como se a morte dele, tua viuvez e a orfandade de minha afilhada tivessem como causa única meus desejos secretos. Ao chegar a hora da encomendação e da partida do corpo, teu desespero foi muito além do que eu podia suportar. Vevey: cidade da Suíça. maculasse: manchasse, conspurcasse. bramia: fazia grande estrondo (o mar, trovão, etc.). A olhar fixamente o cadáver, supliquei com todas as minhas forças que ele me levasse consigo, pensei em lançar-me ao mesmo mar que o levara e que agora me atraía, como se a única maneira de findar meu sofrimento fosse ser tragada pela mesma ressaca que o arrebatara e ainda bramia diante da casa. Nos dias e semanas seguintes, ajudei-te como pude a arrumar tuas cousas e preparar tua mudança para o Paraná. Por vezes desejava falar-te, contar que eu vira os olhares trocados por ti e Santiago. Outras vezes, desejava confessar-te que a morte que te atingiu fora invocada por mim. Não ousei. E depois de tua partida, continuamos nos escrevendo como se nada houvesse mudado em nossa amizade. De minha parte, essa correspondência constituiu uma mentira e uma falsidade que sempre me molestaram muito e só agora clareio. [...] Tércio Teixeira/Folhapress MACHADO, Ana Maria. A audácia dessa mulher. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999. p. 185-190. Ana Maria Machado A escritora Ana Maria Machado nasceu no Rio de Janeiro, em 1941. Formada em Letras, dedicou-se ao magistério, lecionando em universidades brasileiras e estrangeiras, e ao jornalismo, que abandonou em 1980, quando passou a se envolver principalmente com as atividades de escritora. Seus livros, voltados tanto para o público adulto quanto para o público infantil, receberam vários prêmios, nacionais e internacionais. O romance A aud‡cia dessa mulher foi vencedor do Prêmio Machado de Assis, da Biblioteca Nacional, em 1999. Ana Maria Machado é membro da Academia Brasileira de Letras desde 2003. Foto de 2023. 189 1. a) Bentinho sente os olhares de Sancha como “quentes e intimativos” e considera que “não convidavam a expansões fraternais”, o que indica a suposição dele de que Sancha desejava ter com ele uma relação amorosa. 1. De acordo com o texto 1, Bentinho e Capitu fazem uma visita noturna 1. b) Os olhares ocorrem no contexto em que Escobar e depois Sancha falam com Bentinho a respeito do “projeto em família” (projeto de viagem à Europa). Em tal contexto, é possível pensar que os olhares de Sancha buscassem o apoio de Bentinho para o projeto do marido. a Sancha e Escobar. Nessa noite, que antecede o dia da morte de Escobar, Sancha dirige certos olhares para Bentinho. a) Qual é a impressão que o protagonista tem desses olhares? Justifique sua resposta com elementos do texto. b) Em que contexto tais olhares ocorrem? Nesse contexto, qual seria outra possível interpretação para os olhares de Sancha? 2. No texto 2, a Capitu recriada por Ana Maria Machado ganha voz e conta os Reprodução/Paramount Pictures fatos pelo seu ponto de vista. Na carta, Capitu faz referência a alguns confli- Virginia Woolf Ficcionista, crítica literária e ensaísta, a britânica Virginia Woolf (1882-1941) foi um dos principais nomes da literatura modernista. Entre os romances da autora, caracterizados sobretudo pela introspecção psicológica, destacam-se Mrs. Dalloway (1925) e Orlando (1928), que foram adaptados para o cinema na década de 1990, com títulos homônimos. O filme As horas, de 2002, dirigido por Stephen Daldry e estrelado por Meryl Streep, Julianne Moore e Nicole Kidman, mostra três pontos de vista diferentes sobre a história contada em Mrs. Dalloway: o da personagem, o de uma leitora e o da escritora. tos vivenciados por ela na noite da visita e no dia seguinte, quando Escobar 2. b) Porque, ao se julgar traída, Capitu desejou a morte de Escobar, assim morre afogado. como a dela própria, de Sancha e de Bentinho (“sentia-me como se meus pensamentos houvessem provocado a tragédia”). a) De acordo com esse texto, de que maneira Capitu interpretou a troca de olhares entre Bentinho e Sancha? Justifique sua resposta com elemenA troca de olhares entre Bentinho e Sancha foi interpretada por Capitu como tos do texto. uma evidência de traição: “sim, eu sabia, vi os olhares entre ti e meu marido”; “tão ferida e dilacerada me encontrava eu com a descoberta da traição”. b) Por que Capitu se sente responsável pela morte de Escobar? Justifique sua resposta com elementos do texto. c) Segundo Capitu, que motivo a levou a olhar fixamente o cadáver de Escobar? Que sentimentos a afligiam naquele momento? Ela olhou fixamente o cadáver porque estava suplicando que Escobar a levasse consigo, pois via a morte como a única maneira de acabar com o seu sofrimento. 3. O texto 2 se inicia com uma metaficção, ou seja, o narrador do texto ficcional reflete sobre o próprio ato de produzir ficção. Para iniciar essa reflexão, o narrador lembra o que afirma ter sido dito por Virginia 3. a) Além de os livros se inserirem em uma tradição literária, sendo o resultado de séculos Woolf: de reflexão e de experiência coletiva, há também a experiência individual de leitura. O que um autor lê fica gravado nele e, quando ele escreve, tais leituras são incorporadas em seu texto. Os livros continuam uns aos outros, apesar de nosso hábito de julgá-los separadamente. a) Quais argumentos do narrador fundamentam essa ideia? b) A audácia dessa mulher tem como proposta dar continuidade à obra de Machado de Assis. Tendo em vista que, em Dom Casmurro, com a separação do casal, Capitu passa a morar na Suíça e não aparece mais na história, responda: Que fatos do texto em estudo evidenciam essa O fato de Capitu escrever uma carta destinada a Sancha, proposta de continuidade? dando notícias suas depois de mais de vinte anos de silêncio, e o de enviar o livro de receitas que continha registros de como se sentia nos tempos antigos. 4. Em Dom Casmurro, todos os fatos são narrados pela perspectiva de Bento Santiago, o Bentinho. No diálogo que faz com a obra, Ana Maria Machado modifica esse traço fundamental de Dom Casmurro. autora dá voz à personagem Capitu, que aprea) Em que consiste essa mudança? A senta os fatos a partir de seu ponto de vista. b) Essa mudança acarreta diferenças entre as histórias. Quais são essas Na obra de Ana Maria Machado, Capitu pensa ter sido traída pelo marido e por diferenças? sua melhor amiga. Assim, o modo como Capitu olha o cadáver de Escobar, em vez de ser um indício de traição, como Bentinho sugere em Dom Casmurro, tem relação com o seu desejo de morrer. 5. Tendo em vista o texto de Ana Maria Machado e as reflexões realizadas ao longo do estudo feito, discuta com os colegas: Em A audácia dessa mulher, há uma abordagem que valoriza a figura feminina? Por quê? 190 Espera-se que os estudantes concluam que sim, pois, Ana Maria Machado, além de dar voz a Capitu, possibilitando que ela conte uma versão dos fatos diferente da apresentada pelo narrador de Dom Casmurro (que é o próprio Bentinho), inocenta a personagem da suposta traição a Bentinho. Não escreva no livro. Língua e linguagem Variação linguística: tipos de variação, norma e usos da língua Foco no texto Na seção Entre Saberes deste capítulo, você leu trechos do romance O cortiço. A seguir, você vai ler uma cena da qual participam três outros personagens: Jerônimo, um imigrante português que veio tentar a vida no Brasil; sua mulher, Piedade, também portuguesa, e Rita Baiana, todos moradores do cortiço. Nessa cena, Jerônimo está em casa acamado e Rita aparece para cuidar dele, mas Piedade não está muito satisfeita com essa situação. — ‘Stá bem, filha, não vais tratar do teu serviço?... [diz Jerônimo a Piedade] — Não te dê isso cuidado! Não parou o trabalho! Pedi à Leocádia que me esfregasse a roupa. Ela hoje tinha pouco que fazer e... […] não há transtorno!... [responde Piedade] — Transtorno já é estar eu parado; e o pior será pararem os dois! — Eu queria ficar a teu lado, Jeromo! BN CC Competências gerais da Educação Básica: 1, 3, 4, 7, 9 Competências específicas da área de Linguagens: 1, 2, 3, 4, 6 Habilidades específicas da área de Linguagens: EM13LGG101, EM13LGG102, EM13LGG103, EM13LGG201, EM13LGG202, EM13LGG203, EM13LGG301, EM13LGG302, EM13LGG401, EM13LGG402, EM13LGG601, EM13LGG604 Habilidades específicas de Língua Portuguesa: EM13LP01, EM13LP02, EM13LP06, EM13LP08, EM13LP09, EM13LP10, EM13LP46, EM13LP52 — E eu acho que isso é tolice! Vai! anda! Ela ia retirar-se, como um animal enxotado, quando deu com a Rita, que entrava muito ligeira e sacudida, trazendo na mão a fumegante palangana de café com parati e no ombro um cobertor grosso para dar um suadouro ao doente. — Ah! fez Piedade, sem encontrar uma palavra para a mulata. E deixou-se ficar. Rita, despreocupadamente, alegre e benfazeja como sempre, pousou a vasilha sobre a cômoda do oratório e abriu o cobertor. — Isso é que o vai pôr fino! disse. Vocês também, seus portugueses, por qualquer coisinha ficam logo pra morrer, com uma cara da última hora! E ai, ai, Jesus, meu Deus! Ora esperte-se! Não me seja maricas! Ele riu-se assentando-se na cama. — Pois não é assim mesmo? perguntou ela a Piedade, apontando para o carão barbado de Jerônimo. Olhe só pr’aquela cara e diga-me se não está a pedir que o enterrem! A portuguesa não dizia nada, sorria contrafeita, no íntimo, ressentida contra aquela invasão de uma estranha nos cuidados pelo seu homem. Não era a inteligência nem a razão o que lhe apontava o perigo, mas o instinto, o faro sutil e desconfiado de toda fêmea pelas outras, quando sente o seu ninho exposto. palangana: regionalismo das regiões Norte e Nordeste do Brasil para se referir a uma xícara grande. parati: aguardente, cachaça. suadouro: medicação para provocar transpiração. benfazeja: afetuosa, generosa. vai pôr fino: curar. esperte-se: anime-se. AZEVEDO, Aluísio. O cortiço. 30. ed. São Paulo: Ática, 1997. p. 59-60. (Bom Livro). Língua e linguagem 191 1. Explique brevemente com suas palavras o que se passa na cena lida. Jerônimo se sente mal e Piedade se preocupa com o marido. Ele dispensa a companhia da esposa, mas rende-se aos cuidados de Rita Baiana, provocando uma situação de ciúme. 2. Nos romances naturalistas, os autores têm uma perspectiva particular na caracterização dos personagens e nas ações a eles atribuídas, como é o caso da aproximação do comportamento humano ao de outros animais. No trecho em estudo, verifica-se o recurso da animalização de personagens? Justifique sua resposta com termos e expressões do trecho em estudo. Consulte a resposta da atividade 2 nas Orientações específicas do Reprodução/Editora Max i Manual do Professor. 3. Embora nos romances naturalistas de Aluísio Azevedo prevaleça em geral uma escrita regida pela norma-padrão, é possível verificar o fenômeno da variação linguística sob diferentes aspectos na leitura do texto em estudo. Identifique nele os seguintes aspectos da variação: a) Aspecto histórico, com termos e expressões que não são mais usados atualmente. Consulte a resposta da atividade 3, item a nas Orientações específicas do Manual do Professor. b) Aspecto geográfico, com termos e expressões que remetem à fala de um lugar específico, no caso, Portugal ou determinadas regiões do Brasil. Consulte a resposta da atividade 3, item b nas Orientações específicas do Manual do Professor. Capa da edição em quadrinhos da obra O Cortiço, ilustrada por Rodrigo Rosa e roteirizada por Ivan Jaf e publicada pela editora Maxi. c) Aspecto das diferenças entre a fala e a escrita, com termos escritos de forma a tentar representar a fala. d) Aspecto social, com termos e expressões típicos de uma fala mais popular. Jeromo (em vez de Jerônimo), “Vocês também, seus portugueses, por qualquer coisinha ficam logo pra morrer”, “cara da última hora!”, “carão barbado”. 4. Analise os termos e expressões indicados por você na questão 3 e troque ideias com os colegas e o professor: Algum deles faz parte dos usos que você faz da língua? Quais e em que situações? Respostas pessoais. 5. Releia esta fala do português Jerônimo: — Transtorno já é estar eu parado; e o pior será pararem os dois! a) Você falaria estas frases organizando as palavras nessa mesma ordem? Se não, como falaria? Consulte a resposta da atividade 5, item a nas Orientações específicas do Manual do Professor. b) Troque ideias com os colegas e o professor e, com base no que você já estudou sobre concordância, explique por que em frases com essa estrutura é comum haver desvios em relação à concordância da Quando o sujeito está posposto à forma verbal é mais comum haver norma-padrão. desvios de concordância, pois se perde o referente. São relativamente comuns, por exemplo, construções como “pior será parar os dois”, tanto na fala como na escrita do português brasileiro. Reflexões sobre a língua Ao responder às questões anteriores, você revisitou o conceito de variação linguística e lembrou que a variação em uma língua pode se manifestar em diferentes aspectos. Veja a seguir alguns deles: Variação diacrônica 3. c) ’stá, que busca reproduzir a fala lusitana de está; pra, “pr’aquela”, com reduções e aglutinações da oralidade; “pois não é”, expressão também típica do processo interativo da fala. 192 Língua e linguagem No trecho do romance O Cortiço estudado, conseguimos reconhecer algumas palavras e expressões que eram corriqueiras à época da escrita do livro, mas que praticamente não mais utilizamos hoje em dia na fala cotidiana, tais como palangana, benfazeja e pôr fino. Não escreva no livro. Essa variação na língua, que ocorre através do tempo, é chamada de diacrônica. Diferenças no uso da língua entre gerações que convivem em uma mesma época também constituem a variação diacrônica, da qual são exemplos expressões e gírias usadas apenas por nossos pais ou avós. Variação diatópica Ao analisar as falas dos personagens da cena de O cortiço, você viu que os personagens portugueses usam o pronome tu para se dirigir a seus interlocutores, ao passo que a personagem brasileira usa o pronome você. Essa variação relacionada ao lugar de origem do falante inclui não apenas o uso de determinadas palavras ou expressões, mas também a pronúncia e a estrutura das construções linguísticas, independentemente de outros fatores, como idade ou escolarização. Você já se observou, por exemplo, tentando adivinhar a região do Brasil da qual uma pessoa é, apenas por ouvi-la dizer algumas palavras? Isso se deve à percepção de que a pronúncia, a entonação, bem como determinadas escolhas lexicais, dependem do lugar de origem do falante. Esse tipo de variação é chamada diatópica. Variação diastrática Há uma variação diretamente relacionada à escolarização dos falantes, chamada diastrática. Pesquisas da área da linguística mostram que pessoas que frequentam a escola por mais tempo tendem a fazer usos da língua que se aproximam mais das regras da norma-padrão. Vale lembrar que, em nosso país, o número de anos que uma pessoa frequenta a escola tem, em geral, relação com classe social. Quase sempre, pessoas de classe social mais elevada têm maior escolaridade, o que gera uma retroalimentação entre a variedade linguística à qual se atribui maior prestígio (porque seus falantes têm maior prestígio social) e as variedades mais valorizadas na escola, mais próximas à norma-padrão. Variação diamésica Outra das variações, chamada diamésica, diz respeito ao meio ou veículo em que o texto circula. Fala e escrita, por exemplo, se distinguem em certos aspectos; assim, ocorrências como ’Stá e pr’aquela, na escrita, fogem à norma-padrão porque buscam representar a forma como as pessoas falam. Variação de registro A escolha por um registro menos ou mais formal tem relação com a situação social na qual os textos circulam. Uma mesma pessoa pode ser menos ou mais formal em sua linguagem, dependendo dos objetivos que tem, das situações de comunicação em que se encontra e das diferentes esferas da sociedade nas quais circula. O nível de formalidade pode variar independentemente de os textos produzidos serem orais ou escritos. Assim, pode haver textos orais extremamente formais, como uma conferência proferida em um grande evento, e textos escritos pouco formais, como um bilhete deixado na porta da geladeira de casa para alguém da família. O quadro a seguir mostra que Língua e linguagem 193 as relações entre formal e informal e entre oral e escrito apresentam uma gradação e que os diversos textos que produzimos em nossa vida social variam desde o mais informal e oral, como o bate-papo e a fofoca, até o mais formal e escrito, como o relatório científico e a tese. INFORMAL ORAL ESCRITO Bate-papo, fofoca Caso, conversa fiada Bilhete, carta pessoal Diário Entrevista médica Relato de vivências Reclamação FORMAL Biografia Entrevista jornalística Notícias Carta de reivindicação Debate Palestra Conferência Carta de leitor Editorial, ensaio Relatório científico, artigo científico, tese KLEIMAN, Angela B. Preciso ensinar o letramento? Não basta ensinar a ler e a escrever? Campinas: Cefiel/IEL/Unicamp, 2005. p. 46. APLIQUE O QUE APRENDEU Leia a seguir o trecho de uma fala de Ataliba Castilho, um dos mais renomados linguistas brasileiros, para responder às questões 1 a 3. Uma estudante de doutorado que estou orientando na Unicamp, Flávia Orci Fernandes, percorreu as redes sociais e pegou marcas de plural no pronome que, que não é mais invariável. Hoje já se fala ou se escreve: ques pessoas? Como explicamos esse dinamismo da língua? Temos de documentar e explicar. […] Nossos estudos estão indicando que o plural não será mais expresso pelo morfema s no final do substantivo, mas apenas pelo s no artigo, como em os menino, por causa de um mecanismo fonológico de abertura da sílaba. Parece que as consoantes estão se transformando mais do que as vogais. Fazer não está virando fazê? Outras consoantes no fim da palavra estão caindo, como duas vez em vez de duas vezes. O plural está marcado nas duas palavras, é redundante, pode ser mais econômico marcar só o primeiro elemento e deixar o outro sem nada. O francês ainda guarda as consoantes finais na escrita, mas não mais na fala, como em l’enfant, les enfants, o s não aparece na língua falada. Acreditamos que teremos outra língua, diferente do português de Portugal. Os dois idiomas ainda são o mesmo, mas já mostram muitas diferenças. [...] FIORAVANTI, Carlos. Ataliba Teixeira de Castilho: o linguista libertário. Entrevistado: Ataliba Teixeira de Castilho. Pesquisa Fapesp, São Paulo, n. 259, set. 2017. Disponível em: https://tedit.net/rnt1fu. Acesso em: 11 out. 2024. 1. Ataliba Castilho aborda a questão da variação linguística. a) Segundo a fala de Castilho, qual é o papel do linguista como um cientista que estuda a língua? O papel de documentar e explicar os fenômenos de mudança linguística. b) Identifique um trecho que comprova que a variação linguística é um fenômeno presente tamtrecho “O francês ainda guarda as consoantes finais na escrita, mas não mais na fala, como bém em outras línguas. O em l’ enfant, les enfants, o s não aparece na língua falada.” 2. Em sua fala, o linguista dá alguns exemplos de mudança linguística no português brasileiro. nova marca de plural no pronome que, formando ques; a queda do s do substantivo em expressões a) Quais são elas? Uma nas quais o plural já é marcado no artigo; a queda do r das formas do infinitivo. b) Troque ideias com os colegas e o professor: Você já tinha percebido alguma dessas mudanças? Em qual(is) situações? Respostas pessoais. Promova uma conversa franca com os estudantes, incentivando-os a co- 194 mentar, por exemplo, se já repararam nas mudanças mencionadas no texto por Ataliba de Castilho. Língua e linguagem Não escreva no livro. 3. Releia esta fala do linguista: “O plural está marcado nas duas palavras, é redundante, pode ser mais econômico marcar só o primeiro elemento e deixar o outro sem nada.” a) Quais adjetivos ele utiliza para caracterizar cada uma das duas formas de fazer concordância por ele descritas? Os adjetivos redundante e econômico. b) Troque ideias com os colegas e o professor: Cada um desses adjetivos contêm em si quais juízos de valor; qual deles pode ser visto como uma característica positiva e qual pode ser visto como uma característica negativa? Justifique sua resposta. Consulte a resposta da atividade 3, item b nas Orientações específicas do Manual do Professor. c) Conclua: De que forma a visão de Ataliba Castilho se contrapõe ao preconceito linguístico? Consulte a resposta da atividade 3, item c nas Orientações específicas do Manual do Professor. Agora observe esta afirmação do linguista Marcos Bagno sobre o gênero de alguns substantivos e o número da palavra óculos para responder às questões 4 a 7. 5.3.1. Gênero dos substantivos Sabemos que, assim como diversas palavras trocaram de gênero gramatical no decorrer da história, outras tantas passam pelo mesmo processo no PB [português brasileiro] contemporâneo. É preciso conviver tranquilamente, então, com o emprego igualmente válido dessas palavras nos dois gêneros. Substantivo Norma culta brasileira Norma-padrão tradicional AGUARDENTE o aguardente a água ardente ALFACE o alface a alface BACANAL o bacanal a bacanal DÓ a dó [sentimento] o dó [sentimento] FERRUGEM a ferrugem/o ferrugem a ferrugem FRUTA-PÃO a fruta-pão/o fruta-pão a fruta-pão GRAMA a grama/medida o grama/medida TOMATE o tomate a tomate MODOS ALTERNATIVOS DE DIZER A MESMA COISA E IGUALMENTE VÁLIDOS E CORRETOS, INCLUSIVE EM GÊNEROS TEXTUAIS + MONITORADOS 5.3.2. Número da palavra óculos Quanto ao número gramatical da palavra óculos, é perfeitamente lícito empregar tanto o singular – uso mais frequente no PB – quanto o plural. BAGNO, Marcos. Gramática de bolso do português brasileiro. São Paulo: Parábola Editorial, 2013. p. 221- 222. 4. Qual é a visão de Marcos Bagno sobre a variação no gênero ou no número das palavras mencionadas? O linguista considera que essas palavras são empregadas com os dois gêneros e que não haveria uma forma mais correta do que a outra. 5. Entre as opções a seguir, indique em seu caderno aquela que melhor descreve a perspectiva do linguista no texto em estudo. Os estudantes devem indicar o item c no caderno. a) Trata-se de uma perspectiva normativa, que observa os fatos do mundo e os julga com base nos parâmetros de certo e errado, pré-determinados pela gramática e pela norma-padrão. b) Trata-se de uma visão de senso-comum, que não se preocupa em observar e analisar os fatos do mundo e apenas age de forma intuitiva, de acordo com suas próprias experiências. c) Trata-se de uma abordagem científica, que observa os fatos do mundo e os analisa, a fim de observar regularidades e chegar a conclusões sobre os usos feitos pelos falantes em situações variadas. Língua e linguagem 195 6. Façam uma breve pesquisa na turma sobre como cada um costuma empregar as palavras listadas pelo linguista. Organizem os dados e concluam: Há variações? Qual palavra mais varia? Há alguma que é usada da mesma forma por todos? Respostas pessoais. Se julgar conveniente, divida os estudantes em grupos e, em seguida, organize as informações de toda a turma. 7. Leia esta postagem de rede social: como nunca sei se o certo é “duzentas” ou “duzentos” gramas de presunto, eu peço cem gramas, dou uma voltinha e depois peço mais cem MARCELO. [s.l.], 2018. Tumblr Blog: seu-bobo-da-corte.tumblr.com. Disponível em: https://tedit.net/h1cbli. Acesso em: 23 out. 2024. Troque ideias com os colegas e o professor e conclua: Uma visão normativa, de que há uma forma a) Qual perspectiva de língua está na base da postagem lida? que é certa e outra, errada. b) De que forma o autor da postagem utiliza essa visão para construir humor? Consulte a resposta da atividade 7, item b nas Orientações específicas do Manual do Professor. Texto e enunciação Reprodução/Museu da Língua Portuguesa, São Paulo, SP. Há alguns anos o Museu da Língua Portuguesa realizou uma exposição denominada “Menas, O Certo do Errado, O Errado do Certo”. Corredor Janelas Abertas da exposição “Menas, O Certo do Errado, O Errado do Certo”, no Museu da Língua Portuguesa, São Paulo (SP), 2017. Agora leia a seguir o trecho de uma reportagem de divulgação da exposição para responder às questões 1 a 3. Menas. O próprio título da exposição é uma provocação. Mesmo sabendo que “menos” é um advérbio, portanto, invariável, quantas vezes já não ouvimos a “concordância” com o gênero feminino por pessoas das mais diferentes classes e idades. MUSEU da Língua Portuguesa promove exposição Menas: o certo do errado, o errado do certo. Secretaria da Cultura de São Paulo, São Paulo, 1 mar. 2010. Disponível em: https://tedit.net/stdxbb. Acesso em: 11 set. 2024. 1. Explique a afirmação “O próprio título da exposição é uma provocação”. É uma provocação porque usa uma concordância comum na fala não monitorada, mas considerada incorreta pela gramática normativa. 2. Indique no caderno em qual dos critérios a seguir se pauta a justificativa “’menos’ é um advérbio, portanto, invariável”: Os estudantes devem indicar o item c no caderno. 196 Língua e linguagem 3. b) Abra a discussão com a turma: o uso das aspas constrói um sentido de afastamento do enunciador, sugerindo que ele considera incabível que se denomine a ocorrência de “menas” como concordância, uma vez que esta seria uma classificação normativa e a flexão do advérbio foge da norma. Não escreva no livro. a) Nos usos da língua por pessoas das mais diferentes classes e idades. b) Nas pesquisas da Linguística que descrevem os usos da língua. c) Na morfologia da gramática tradicional. d) Na semântica da gramática tradicional. 3. Sobre a afirmação “quantas vezes já não ouvimos a ‘concordância’ com o gênero feminino”: a) Indique em seu caderno qual das frases a seguir ilustra essa afirmação. A segunda frase ilustra a afirmação. • Quantas pessoas vieram ontem? • Ontem tinha menas pessoas do que hoje na escola. • Ontem tinha menos pessoas do que hoje na escola. b) Troque ideias com os colegas e o professor e levante hipóteses: Qual efeito de sentido é construído no texto pelo uso de aspas na palavra concord‰ncia? c) Com base nessa afirmação, explique por que não se vê na fala brasileira uma ocorrência como “Ontem tinha menas alunos do que hoje na escola”. Porque o substantivo alunos é masculino e, portanto, não haveria razão para seguir a regra implícita na concordância, que, embora esteja em desacordo com a norma-padrão, só valeria quando acompanhasse termos no feminino. 4. Leia as manchetes e os trechos de notícias a seguir. Os avanços do Projeto de Santa Vita Anda rápida a obra de construção do maior centro médico do sul do Estado e um dos mais importantes do sul do país. OS AVANÇOS do Projeto de Santa Vita. Rádio Eldorado AM, São Paulo, 14 ago. 2021. Disponível em: https://tedit.net/j2zvsd. Acesso em: 11 set. 2024. Não dá para depender apenas de cursos oficiais em instituições sobre novas tecnologias, é preciso estar constantemente atualizado das novidades, leis, regulamentações. As novas tecnologias andam muito mais rápidas que a criação de novos cursos e capacitações em instituições, por exemplo, e é exatamente por isso que é exigido essa constante atualização dos profissionais de TI de maneira autodidata. KAROLCZAK, Priscilla. O novo perfil do profissional de TI. IP News, São Paulo, 18 ago. 2021. Disponível em: https://tedit.net/13qhzb. Acesso em: 11 set. 2024. Quando as células andam rápido, o câncer ganha um impulso HATHAWAY, Bill. Quando as células andam rápido, o câncer ganha um impulso. MaisConhecer, [s.l.], 18 dez. 2019. Disponível em: https://tedit.net/gpx2v5. Acesso em: 11 set. 2024. Turistas enfrentam longas filas para visitar o Corcovado RIO - O turista que aproveitou o dia para visitar o monumento do Cristo Redentor teve que ter paciência. [...] Pela manhã, quem tentou comprar o bilhete para o trem que leva até o Cristo Redentor pela internet só conseguia passagens para às 18h. Só mesmo quem adquiriu no dia anterior, conseguiu o acesso mais cedo, como a curitibana Amanda Viana. — Comprar nem foi o problema e a fila dentro da estação do bondinho também anda rápido, o pior mesmo é esperar a van, porque tem muitas pessoas e elas enchem rápido, seria preciso muitas delas para agilizar — reclamou. TURISTAS enfrentam longas filas para visitar o Corcovado. O Globo, Rio de Janeiro, 13 out. 2018. Disponível em: https://tedit.net/vh7n5f. Acesso em: 16 out. 2024. Língua e linguagem 197 4. c) Não. Nos dois primeiros casos o verbo andar é verbo de ligação e significa “apresentar uma condição não permanente”; já no último caso, é verbo intransitivo e significa, respectivamente, “mover-se” e “dar seguimento, progredir”. Observe as ocorrências destas frases, em cada contexto: ● Anda rápida a obra de construção. ● As novas tecnologias andam muito mais rápidas que a criação de novos cursos e capacitações. ● As células andam rápido. ● A fila dentro da estação do bondinho também anda rápido. Reúna-se em dupla com um colega e analise as concordâncias dos termos destacados. Para tanto, julgar conveniente, sugira aos estudantes copiar as frasiga estes passos e registre as respostas no caderno: Se ses no caderno, para analisar os termos em cada caso, sua) Identifique a forma verbal de cada frase. Respectivamente, anda, andam, andam e anda. blinhando e indicando as relações entre eles por meio de setas e traços. b) Identifique o sujeito de cada frase. Respectivamente, “a obra de construção”, “as novas tecnologias”, “as células” e “a fila”. c) Troque ideias e conclua: o sentido do verbo “andar” é o mesmo em todas as frases? Explique. Se julgar conveniente, consulte um dicionário. d) As formas rápida, rápidas, rápido e rápido das frases modificam quais outros termos em cada uma das frases? Respectivamente, “a obra”, “as novas tecnologias”, “andam” e “anda”. e) Por que houve variação de gênero e número nas formas rápida/rápidas nas duas primeiras fraa discussão com a turma: nas duas primeises e na última foi igualmente empregada a forma rápido? Abra ras frases, os termos rápida e rápidas, tal como empregados nos títulos, exercem a função de predicativos do sujeito e, portanto, concordando com o sujeito da frase. Já nas duas últimas, o termo rápido foi empregado como advérbio, como sinônimo de “rapidamente”, “velozmente” e, portanto, é invariável, modificando as formas verbais. É possível, ainda, comentar com os estudantes que, o primeiro título, seria também possível o uso de rápido: Conjunto I: “Anda rápido a obra de construção...”. Nesse caso, o termo rápido estaria sendo usado como advérbio, modificando o sentido do verbo andar, e por isso seria empregado no masculino, sem concordar com a obra. 5. Observe a concordância entre sujeito e verbo nos dados a seguir. (71) então o pessoal que mand/ entrava com mandado de segurança...dizendo que foi contados pontos errados... (D2 SP 360) (72) no outro mês vai pagar um pouquinho menos, porque diminuiu as UPCs. (D2 RJ 355) (73) se na mulher se retira os ovários...retirando portanto a fonte a fonte pro/da/ eh:... elaboradora de hormônios (EF SSA 49) (74) nos interessa...aqui: são justamente as regras jurídicas (EF RE 337) (75) eu acho que vai mais mais estudantes mais molecadinha rapazes sei lá (DID SP 234) (76) falta-me condições (DID RE 131) (77) então então coexiste hoje depois do milagre o que? relações (EF RJ 379) Conjunto II: (80) então os quinze que você ganha corresponde a trinta mil... (D2 RJ 355) (81) todas aquelas questões...diz respeito (DID REC 131) (82) outros meios de transporte não é conhecido (D2 SSA 8) (83) todas as medidas a serem tomadas é por conta da mãe (SP D2 360) (84) que eles...parece com leite americano (DID RJ 328) RODRIGUES, Angela. Flexão e sintaxe: a concordância verbal. In: CASTILHO, Ataliba T. de (coord.); RODRIGUES, Angela; ALVES, Ieda Maria (org.). Gramática do português culto falado no Brasil: a construção morfológica da palavra. São Paulo: Contexto, 2015. a) Identifique sujeito e forma verbal correspondente em cada um dos enunciados. Os sujeitos são os termos que estão em itálico no original, e as formas verbais são as que estão em negrito nos originais. b) Observe a marcação que você fez no item a: sujeitos e formas verbais concordam em número? Não. c) Troque ideias com os colegas e o professor e conclua: Por que a concordância foi feita dessa forma: • Nos dados do conjunto I: Porque o sujeito plural está posposto, isto é, vem depois do verbo na frase. há outras palavras no singular que separam o núcleo plural do sujeito (“outros • Nos dados do conjunto II: Quando meios de transporte não é”), ou quando o falante hesita para completar a frase (hesitação representada pelo sinal de reticências). 198 Língua e linguagem Não escreva no livro. Produção de texto Artigo de divulgação científica O que você faz quando tem interesse em um assunto de cunho científico – por exemplo, as razões pelas quais herdamos ou não determinada predisposição para uma doença, ou por que a puberdade é uma fase tão desafiadora? Uma das possibilidades é fazer uma busca por artigos de divulgação científica sobre a questão que nos está interessando. Neste capítulo, você vai se debruçar sobre esse gênero textual. Foco no gênero Poluição e demência A relação entre poluição e demência fica cada vez mais bem estabelecida. Quanto mais velhos ficamos, maior o risco de declínio cognitivo. A perda progressiva de memória pode chegar ao ponto de não reconhecermos pessoas queridas, a casa em que vivemos e o mundo que nos cerca, e de perdermos a noção de quem somos, incapacidades que nos roubam a condição humana. Como a faixa etária que mais cresce na população do Brasil e de muitos países é a que está acima dos sessenta anos, o número de pessoas com demência aumenta sem parar. Começa a ficar difícil encontrar uma família que não tenha um caso. BN CC Competências gerais da Educação Básica: 1, 2, 4, 7, 8 Competências específicas da área de Linguagens: 1, 2, 3, 7 Habilidades específicas da área de Linguagens: EM13LGG101, EM13LGG102, EM13LGG104, EM13LGG202, EM13LGG204, EM13LGG302, EM13LGG304, EM13LGG305, EM13LGG704 Habilidades específicas de Língua Portuguesa: EM13LP01, EM13LP02, EM13LP04, EM13LP05, EM13LP07, EM13LP09, EM13LP10, EM13LP11, EM13LP13, EM13LP15, EM13LP26, EM13LP28, EM13LP29, EM13LP30, EM13LP31, EM13LP32, EM13LP34, EM13LP40, EM13LP45 Os fatores que aumentam o risco de demência têm sido muito estudados. Embora sobrem dúvidas e detalhes obscuros, os mais importantes parecem ser as propensões genéticas, a falta de escolaridade, os traumatismos, os acidentes vasculares cerebrais, a vida sedentária e o fumo. Há farta literatura a demonstrar que a inalação de partículas finas e ultrafinas aumentam a incidência de asma, câncer de pulmão e doenças cardiovasculares. Estudos recentes, no entanto, levantam a suspeita de que possam também acelerar o declínio cognitivo. Com os equipamentos modernos conseguimos detectar no ambiente até partículas ultrafinas, 200 vezes menores do que um fio de cabelo. Com eles, é possível calcular as concentrações de sulfato, nitrato, amônia, carbono e metais pesados no ar das cidades. Esse particulado ultrafino cai na categoria dos poluentes classificados como PM2,5. Pr od uç ão de te xto 199 Níveis altos de partículas PM2,5 nos tecidos humanos provocam estresse oxidativo, caracterizado pela produção de substâncias quimicamente ativas – como os peróxidos – que podem danificar o DNA e outras estruturas celulares. A primeira suspeita de que a poluição seria fator de risco para demência, veio quando Lilian Garcidueñas mostrou que cachorros idosos das áreas mais poluídas da Cidade do México apresentavam perda de memória, desorientação e dificuldade para reconhecer seus donos. Nas autópsias, a neurocientista encontrou no tecido cerebral placas da proteína beta-amiloide, as mesmas da doença de Alzheimer. Achados semelhantes foram documentados em cérebros de ratos mantidos em ambientes poluídos: maior número de placas, atrofia de neurônios e perda de sinapses. Um grupo da Universidade da Carolina do Sul acaba de publicar uma pesquisa em que os participantes foram acompanhados durante 11 anos. As mulheres mais velhas que moravam em lugares nos quais os índices de poluição eram mais altos do que o limite máximo estabelecido pela EPA – a agência de proteção ambiental – apresentaram o dobro do número de casos de demência. Se esses dados puderem ser extrapolados para o restante da população americana, a poluição seria responsável por 21% dos diagnósticos da doença. Em artigo publicado na revista “The Lancet”, pesquisadores da Universidade de Toronto acompanharam 6,6 milhões de habitantes da província de Ontário. Os que viviam a menos de 50 metros de grandes rodovias apresentaram risco de demência 21% mais elevado do que aqueles com casas a mais de 200 metros. Os dados mostraram que residências a menos de 50 metros de uma rodovia expõem os moradores a concentrações de poluentes 10 vezes maiores do que aquelas a 150 metros de distância. didiaCC/Shutterstock Um inquérito realizado entre 19 mil enfermeiras americanas aposentadas, confirmou que quanto maior a concentração de partículas PM2,5 na vizinhança, mais rápido o declínio cognitivo. Para cada aumento de 10 microgramas dessas partículas por metro cúbico de ar, a performance nos testes de atenção e memória declinou como se as participantes fossem dois anos mais velhas. 200 Fatores genéticos podem proteger ou aumentar o risco de demência. Portadores do gene APOE4 – ligado ao risco de Alzheimer – são especialmente sensíveis aos ambientes poluídos. Pr od uç ão de te xt o Não escreva no livro. Segundo a Organização Mundial da Saúde, o fumo é responsável por cerca de 14% dos casos de Alzheimer. Vários especialistas têm se dedicado a estudar de que forma a poluição potencializa os efeitos das partículas ultrafinas suspensas na fumaça do cigarro. Um dos pesquisadores com mais experiência nesse campo, Caleb Finch, afirma: “A poluição do ar deve ser entendida como a fumaça do cigarro: não existe limite de segurança”. Drauzio Varella é médico cancerologista e escritor. Foi um dos pioneiros no tratamento da aids no Brasil. Entre seus livros de maior sucesso estão Estação Carandiru, Por um fio e O médico doente. Bruno Santos/Folhapress VARELLA, Drauzio. Poluição e demência. Drauzio Varella Uol, São Paulo, 21 fev. 2017. Disponível em: https://tedit.net/xsfnab. Acesso em: 3 set. 2024. Drauzio Varella Drauzio Varella (1943-) é médico cancerologista, escritor e comunicador. Destaca-se nacionalmente como comunicador médico em jornais e programas de TV. Foto de 2023. 1. O texto lido é um artigo de divulgação científica. Releia o título e o subtítulo e responda: a) Qual é o assunto tratado no texto? A relação entre poluição e demência. b) A relação abordada no artigo é um consenso científico antigo ou é uma descoberta recente? Que expressão comprova sua resposta? É uma descoberta recente. A expressão que comprova a resposta é “fica cada vez mais bem estabelecida”. 2. Sobre o artigo de divulgação científica lido, responda: a) Qual é a principal finalidade do texto: expor um conteúdo científico de forma clara e objetiva ou persuadir o leitor, levando-o a adotar o ponto de vista do autor? Expor um conteúdo de natureza científica de forma clara e objetiva. b) Quem é o autor? Qual é a sua área de atuação? O autor é Drauzio Varella, médico e divulgador de informações sobre Medicina na TV, nos jornais e na internet. c) Por que, ao final do artigo, há detalhamentos sobre a vida profissional o fato de ser médico, escritor e pioneiro em tratamento de uma doença do autor? Porque complexa, como a aids, o autoriza e o legitima a tratar de assuntos relacionados à saúde. 3. No 1 parágrafo, o autor explica o que é demência. o a) Qual expressão é usada como sinônimo de demência? Declínio cognitivo. b) Como o autor explica no segundo período do 1o parágrafo o que é usa a expressão “perda progressiva de memória” e explica que a pessoa demência? Ele pode chegar a não reconhecer pessoas queridas ou a própria casa. 4. Qual é a estratégia utilizada pelo autor, no 2o parágrafo, para mostrar a relevância do tema tratado no texto? Ele apresenta o dado de que a faixa etária que mais cresce na população do Brasil e de muitos países é a que está acima dos 60 anos e comenta que, hoje em dia, é muito comum haver casos de demência na maioria das famílias. 5. No 3o e no 4o parágrafo, o autor aborda as causas da demência e doenças relacionadas à poluição do ar. Como ele aproxima os dois elementos da relação proposta no artigo? Primeiro, o autor trata de causas comuns da demência para, então, afirmar que recentemente estudos mostram a possibilidade de a poluição e o fumo também acelerarem o declínio cognitivo. Pr od uç ão de te xto 201 6. Releia as seguintes expressões usadas no texto: DNA/Alzheimer/sinapses/PM2,5/estresse oxidativo/ proteína beta-amiloide/EPA/gene APOE4 a) Os termos empregados são especializados ou são utilizados cotidianamente em conversas comuns? São termos especializados. b) De que área(s) do conhecimento são os termos destacados? Da área médica, da Biologia e da Genética. c) Alguns desses termos são definidos no próprio texto e outros, não. Troque ideias com os colegas e o professor e levante hipóteses: Por que isso ocorre? Consulte a resposta da atividade 6, item c nas Orientações específicas do Manual do Professor. d) Considerando suas respostas às questões anteriores, responda: Quem é o público leitor previsto para o texto, especialistas da área de saúde ou leitores em geral? Leitores em geral. 7. A estrutura de um artigo de divulgação científica não é rígida, pois depende do assunto e de outros fatores da situação comunicativa, como: quem produz o texto, para quem, com que finalidade. Apesar disso, normalmente o autor apresenta uma ideia principal, isto é, um conceito ou um ponto de vista sobre um conceito, e procura fundamentá-lo com provas ou evidências, isto é, exemplos, comparações, resultados de experiências, dados estatísticos, relações de causa e efeito, etc. No artigo “Poluição e demência”: Qual é a frase do 4o parágrafo que explicita a ideia principal do texto? “Estudos recentes, no entanto, levantam a suspeita de que ‘a inalação de partículas finas e superfinas’, possa também acelerar o declínio cognitivo.” 8. Para sustentar o ponto de vista de que a poluição pode provocar prejuízos cognitivos, como a perda da memória, o autor introduz vozes de outros autores e instituições como estratégia argumentativa. a) Identifique trechos em que o autor cita: • • • “Lilian Garcidueñas mostrou que cavozes de cientistas; chorros idosos das áreas mais poluídas [...]”; “a neurocientista encontrou “Um grupo da Universidade da vozes de instituições renomadas na área; Carolina do Sul”, “Segundo a Orno tecido cerebral placas da proteína beta-amiloide”, “pesquisadores da Uniganização Mundial da Saúde”, versidade de Toronto acompanharam”, nomes de publicações científicas. “pesquisadores da Universidade “Um dos pesquisadores com mais de Toronto acompanharam”. “Em artigo publicado na revista ‘The Lancet’”. experiência nesse campo, Caleb Finch, b) Identifique verbos e expressões que diferenciam a voz do autor do afirma: ‘A poluição do ar deve ser entendida como a fumaça do cigarro: não texto das vozes citadas. Em seguida, indique qual sinal gráfico é usado existe limite de segurança’”. para citar diretamente vozes diferentes da do autor do texto. c) Levante hipóteses: Quais são os outros textos que Drauzio Varella leu e resumiu para produzir seu texto? Artigo científico de autoria de Lilian Garcidueñas, artigo científico dos pesquisadores da Universidade da Carolina do Sul, artigo científico publicado na revista The Lancet, relatório da Organização Mundial da Saúde e algum texto de autoria de Caleb Finch. 9. O autor também utiliza como estratégia argumentativa a citação de dados numéricos para provar a relação entre poluição e demência. Identifique em que parágrafos esses dados são utilizados e responda: Qual é o efeito de sentido construído pelo emprego desses dados? No 11o, 12o e 13o parágrafos. Os dados numéricos dão exatidão sobre a relação entre poluição e demência, tornando a explicação mais precisa, clara e convincente, além de construir o efeito de verdade incontestável. 10. Observe a linguagem empregada no texto e responda: a) Que tempo e modo verbais predominam quando a voz é do autor do artigo? Presente do indicativo. 202 8. b) Mostrou, encontrou, afirma, “em artigo publicado”, segundo. As aspas são o sinal utilizado para marcar trechos em que o discurso direto é empregado. Pr od uç ão de te xt o Não escreva no livro. b) Que tempo e modo verbais predominam quando o autor relata estudos e pesquisas? Pretérito perfeito e pretérito imperfeito do indicativo. c) Em que pessoa estão os verbos empregados no artigo? Na 3a pessoa. d) A linguagem revela preocupação com a expressividade e a emotividade ou é clara, objetiva e tende à impessoalidade? É clara, objetiva e tende à impessoalidade. e) Que variedade linguística é adotada no texto? Uma variedade linguística de acordo com a norma-padrão. 11. Releia este trecho do texto: Um grupo da Universidade da Carolina do Sul acaba de publicar uma pesquisa em que os participantes foram acompanhados durante 11 anos. As mulheres mais velhas que moravam em lugares nos quais os índices de poluição eram mais altos do que o limite máximo estabelecido pela EPA — a agência de proteção ambiental — apresentaram o dobro do número de casos de demência. Se esses dados puderem ser extrapolados para o restante da população americana, a poluição seria responsável por 21% dos diagnósticos da doença. Compare os dois parágrafos do excerto. a) Qual deles expressa uma certeza do enunciador em relação às informações que estão sendo apresentadas? O 1o parágrafo. 11. c) O 1o parágrafo apresenta formas verbais no presente e no pretérito perfeito do indicativo (“acaba de publicar”, apresentaram), transmitindo um posicionamento seguro, de que essas informações são verdadeiras. Já no 2o parágrafo, ao empregar o verbo no futuro do subjuntivo (puder) e no futuro do pretérito (seria), o enunciador evidencia que, partindo dos dados da pesquisa, é possível tirar a conclusão de que a poluição seja responsável por 21% dos casos de demência, mas o enunciador ainda não expressa absoluta certeza de que se possa transferir esses resultados para considerar toda a população. b) E qual deles expressa incerteza ou possibilidade de acontecer o que está sendo apresentado? O 2o parágrafo. c) Troque ideias com o professor e com a turma: Que marcas linguísticas são responsáveis por essa diferença de sentido? 12. Com a orientação do professor, junte-se a alguns colegas para sintetizar as características básicas de um artigo de divulgação científica. Para isso, copiem o quadro a seguir no caderno e respondam às questões considerando a análise feita no estudo, bem como as experiências de vocês como produtores e leitores de artigos de divulgação científica. Artigo de divulgação científica: Construção e recursos expressivos Quem são os interlocutores do artigo de divulgação científica? O autor é especialista em uma área científica e os destinatários são leitores de revistas, sites e jornais com ao menos uma seção de assuntos científicos. Qual é o objetivo de um artigo de divulgação científica? Transmitir conhecimentos de natureza científica a um público não especializado. Por onde circula? Revistas, jornais, sites e blogues. Como se caracteriza a linguagem verbal de um artigo de divulgação científica? Linguagem de acordo com a norma-padrão da língua, com a presença de termos e expressões científicos e formas verbais principalmente no presente do indicativo. Linguagem clara, objetiva, impessoal. Qual é a estrutura básica de um artigo de divulgação científica? Inicialmente, apresenta uma ideia central ou uma explicação sobre o objeto de estudo, desenvolvida por meio de provas (exemplos, comparações, citações de autoridade, relações de causa e efeito, resultados de testes, dados estatísticos, etc.) e apresenta também, facultativamente, uma conclusão. Pr od uç ão de te xto 203 RES E B A S E R T N E tureza e Ciências da Na nologias suas Tec Ciência e informação Nos últimos anos, a ciência tem sido questionada por grupos sociais sobre o papel dela e sua capacidade de compreender e analisar a realidade. Outros grupos sociais, que veem valor nas pesquisas científicas e nas teorias formuladas com base em estudos dessa natureza, consideram que uma das consequências da desvalorização da ciência tem sido o baixo interesse pela vacinação de crianças e adultos. Leia, a seguir, um artigo de divulgação científica do Fundo das Nações Unidas para Infância (Unicef) a respeito do assunto. Vacinação e Fake News O que diz o Estatuto da Criança e do Adolescente sobre vacinação 04 maio 2023 A vacinação é um dos meios mais importantes para prevenir doenças e garantir a saúde das crianças e dos adolescentes. Mas você sabia que a adesão à imunização infantil, no Brasil, caiu drasticamente nas últimas décadas? Isso mesmo, segundo a ministra da Saúde do Brasil, Nísia Trindade, atualmente, o País conta com uma cobertura vacinal das mais baixas da sua história desde a criação do Programa Nacional de Imunizações. “Já tivemos 95% de cobertura em relação a vacinas como a da poliomielite, e agora não chegamos a 60% de crianças vacinadas”, afirma a ministra. Vale ressaltar que a vacinação é um direito fundamental das crianças e dos adolescentes assegurado pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. De acordo com essa legislação, tanto o poder público quanto os pais ou responsáveis, e a comunidade em geral, têm o dever de garantir que a criança receba todas as vacinas recomendadas pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI) do Ministério da Saúde. Caso haja recusa injustificada, essa pode ser caracterizada como negligência e violação do direito à saúde da criança e do adolescente, sendo passível a aplicação de medidas legais para responsabilização. Apesar de a vacinação infantil ser uma garantia legal e o Sistema Único de Saúde (SUS) disponibilizar cronogramas vacinais completos para esse público, inúmeras crianças e jovens não estão sendo vacinados regularmente, contribuindo para o aumento da proliferação de doenças, ressurgimento de doenças erradicadas e o desenvolvimento de novas variantes de vírus. Mas por que essa situação ocorre? Além da dificuldade de acesso a vacinas em certas localidades do País, ela acontece devido ao processo de globalização e ao rápido acesso ao meio digital, em que notícias começaram a ser espalhadas sem a devida verificação. Dessa forma, surgiram as fake news, que são informações enganosas que alcançam uma ampla audiência na mídia. Com a vacinação infantil não foi diferente. Embora 90% da população acredite na eficácia das vacinas, conforme pesquisa do Ibope Inteligência, realizada em agosto de 2020, três em cada dez crianças não haviam sido vacinadas. Acreditar nessas informações enganosas pode gerar consequências catastróficas, visto que, sem a vacinação infantil adequada, doenças erradicadas podem retornar e os casos de doenças podem aumentar exponencialmente, considerando que as crianças estarão mais 204 Não escreva no livro. expostas aos agentes causadores por não possuir proteção apropriada. Desse modo, é crucial que as explicações verdadeiras e precisas sobre as vacinas e seus processos sejam reafirmadas. Em conformidade com o manual informativo do corpo de pesquisadores da Unimed Campo Mourão, a vacina estimula o corpo a se defender contra os vírus e as bactérias, logo, é necessário incentivar a divulgação de informações verídicas e positivas para combater as fake news e para que pais ou responsáveis não se deixem levar por conteúdos falsos sobre a vacinação em crianças e adolescentes. Dessa forma, é importante buscar sempre notícias assertivas, com o máximo de informações explicativas sobre o assunto [...]. Todos devem compreender a importância da vacinação infantil e se empenhar em combater as fake news e a desinformação. Portanto, a vacinação é um direito e também uma responsabilidade de todos. E não se esqueçam: Vacinas salvam vidas! VACINAÇÃO e Fake News. UNICEF Brasil, [s.l.], 4 maio 2023. Disponível em: https://tedit.net/y6dp1o. Acesso em: 4 set. de 2024. 1. Qual é o principal problema apontado pelo texto em relação à vacinação infantil no Brasil? O principal problema é a drástica queda na adesão à vacinação infantil no Brasil nas últimas décadas, resultando em uma das menores coberturas vacinais da história do país. 2. O que o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) estabelece em relação à vacinação infantil? Consulte a resposta da atividade 2 nas Orientações específicas do Manual do Professor. 3. De acordo com o texto, quais são as principais causas da queda na cobertura vacinal infantil no Brasil? As principais causas são a dificuldade de acesso a vacinas em certas localidades do país e a disseminação de fake news, que geram desinformação e desconfiança em relação à vacinação. 4. Quais as consequências da desinformação sobre vacinas mencionadas no texto? As consequências incluem o possível ressurgimento de doenças já erradicadas, aumento de casos de doenças preveníveis e maior exposição das crianças a agentes causadores de doenças devido à falta de proteção adequada. 5. Segundo o texto, que medidas são necessárias para garantir o direito de crianças e adolescentes divulgação de informações e explicações verídicas e positivas, combade se imunizarem por meio das vacinas? A tendo as fake news e a desinformação. Hora de produzir Ao final da unidade 4, você participará com seus colegas da produção de um Jornal de ciência e cultura, no qual serão publicados os textos produzidos pela turma, que serão divulgados para outros estudantes, para seus familiares, para professores e para funcionários da escola. Para compor o jornal, serão necessários diversos textos, como artigos de divulgação científica, artigos de opinião, crônica e resenha crítica. Neste capítulo, vocês irão produzir artigos de divulgação científica. No artigo do Unicef estudado na seção Entre saberes, afirmava-se: “é necessário incentivar a divulgação de informações verídicas e positivas para combater as fake news e para que pais ou responsáveis não se deixem levar por conteúdos falsos sobre a vacinação em crianças e adolescentes”. Considerando a importância das vacinas como meio de prevenção a diversas doenças, participe da produção de um artigo de divulgação científica cujo objetivo seja levar informações sobre as vacinas e sobre a importância delas para a saúde da população em geral. Forme grupos com alguns colegas e pesquisem em sites e livros especializados os seguintes aspectos do tema. 1. O que são as vacinas? 2. Quais são os tipos de vacinas que existem e como elas são produzidas? 3. Quais são os eventuais riscos que as vacinas podem trazer para os seres humanos? 4. O Brasil produz vacinas e está preparado para atender às demandas necessárias? Eis algumas sugestões para pesquisa: Pr od uç ão de te xto 205 Sites: • Cartilha sobre vacinação. Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Disponível em: https://tedit.net/saolkv. • Vacinas. Perguntas e respostas. UNICEF Brasil. Disponível em: https://tedit.net/a7oxtb. • Imunização. Organização Pan-Americana da Saúde. Disponível em: https://tedit.net/wgtcyb. • Quais são as vacinas disponíveis? Ministério da Saúde. Disponível em: https://tedit.net/q7ri4z. • Vacinas virais. Portal Fiocruz. Disponível em: https://tedit.net/el73oi. • Entenda como funciona a produção de uma vacina em 5 passos. Portal PUC-RS. Disponível em: https://tedit.net/7617f6. • Vacinas de RNA são seguras! Ministério da Saúde. Disponível em: https://tedit.net/8bvdnz. Acesso em: 12 set. 2024. Livros • HOTEZ, Peter J. Prevenindo a próxima pandemia: diplomacia das vacinas em tempos de anticiência. Porto Alegre: Artmed, 2021. • PASTERNAK, Natalia; Orsi, Carlos. Contra a realidade: a negação da ciência, suas causas e consequências. Campinas: Papirus, 2021. Vídeos • “Quais são os tipos de vacinas? - Inativadas e Atenuadas (Parte 1)”. Disponível em: https://tedit.net/ixq2j8. • “Quais são os tipos de vacinas? - Vacinas de Subunidades (Parte 2)”. Disponível em: https://tedit.net/pqusfz. • “Quais são os tipos de vacinas? - Vacinas de DNA, RNA e Vetores Virais (Parte 3)”. Disponível em: https://tedit.net/4dv5hn. Acesso em: 4 set. 2024. Comparem as informações que obtiveram dessas fontes, avaliem o grau de confiabilidade delas usando checadores de fatos e procurem identificar erros, coincidências, contradições e imprecisões nos dados apresentados. Posicionem-se criticamente a respeito das informações e, se necessário, consultem o professor de Ciências da Natureza para auxiliá-los. Planejamento do texto • Decidam se vão incluir um ponto de vista do grupo sobre o tema abordado no texto ou se vão procurar dar a ele um tratamento impessoal. • A partir da pesquisa realizada pelo grupo, selecionem os conceitos, os métodos, os exemplos e os dados estatísticos que pretendem utilizar no desenvolvimento do texto. Caso tenham optado por expressar também um ponto de vista do grupo sobre o tema, apresentem argumentos que o sustentem. • Planejem as partes do texto, dispondo-as em uma sequência lógica. Por exemplo: apresentação de conceitos e métodos, vozes de autoridade e especialistas no assunto para fundamentar as afirmações, dados objetivos, o contexto brasileiro, etc. • Pesquisem ou criem imagens relacionadas ao assunto que chamem a atenção do leitor e facilitem a compreensão do leitor. Escrita • Redijam a ideia principal do texto, contextualizando-a, ou seja, comentando a importância do assunto no momento atual. 206 Pr od uç ão de te xt o Não escreva no livro. • Comecem a apresentar os conceitos e argumentos que vão fundamentar a ideia principal: exemplos, citações de autoridade, dados estatísticos, resultados de pesquisa, etc. Se for conveniente, recorram a analogias, comparações e metáforas, a fim de facilitar a compreensão de conceitos científicos. • Se utilizarem trechos de textos ou falas de personalidades científicas, identifiquem a autoria do trecho, fazendo uso de aspas ou de outros sinais de pontuação adequados. • Procurem empregar uma linguagem de acordo com a norma-padrão e adequada ao público leitor do jornal: outros estudantes, seus familiares, professores e funcionários da escola. Se houver termos técnicos, procurem explicá-los em linguagem acessível. • Se houver imagens, criem para elas legendas sucintas e interessantes. Revisão e reescrita Antes de finalizar o texto, releiam-no, observando: • se ele está redigido e estruturado de acordo com a situação de comunicação; • se a linguagem é acessível a um público leigo e se está empregada de acordo com a norma-padrão; • se o assunto está exposto com clareza e as ideias são apoiadas em conceitos, exemplos, comparações, relações de causa e efeito, dados estatísticos, etc.; • se há vozes de autoridades e especialistas no assunto e se elas estão devidamente delimitadas no texto; • se o texto ficou leve e atraente para leitura e se as imagens escolhidas despertam o interesse do leitor; • se a estruturação do texto em partes e parágrafos está bem-feita; • se a linguagem apresenta terminologia científica acessível, mas sem erros conceituais. Hora de compartilhar: Jornal de ciência e cultura Guarde seu artigo de opinião para que possa participar do jornal a ser organizado pela turma e compartilhado com a comunidade escolar ao final da unidade 4. 1. Com base na razão, na objetividade e na observação dos fatos, os romances realistas abordam de maneira aprofundada os costumes e a vida social, bem como a análise do caráter do ser humano e de seus conflitos psicológicos. Avali an do os es tu do s Você e os colegas vão retomar os objetivos indicados no início do capítulo e avaliar os estudos feitos e o percurso, considerando questões como: 1. Quais são os traços característicos do romance realista? 2. Quais são as características da prosa realista de Machado de Assis? Consulte a resposta da atividade 2 nas Orientações específicas do Manual do Professor. 3. Indique três tipos de variação que podem ocorrer em uma língua, explicando como se dá cada uma delas. Consulte a resposta da atividade 3 nas Orientações específicas do Manual do Professor. 4. Qual é a importância do trabalho dos linguistas no contexto dos estudos sobre variação linguistas registram e analisam os usos da língua de diferentes grupos sociais, encontrando recorrências e linguística? Os regras que regem tais usos. Esse registro é importante porque organiza, explica e legitima formas de falar e escrever para além do que diz a gramática tradicional. 5. Cite algumas das ações necessárias para a escrita de um texto de divulgação científica e, considerando a função desse texto, explique por que há necessidade de uma preparação prévia. Consulte a resposta da atividade 5 nas Orientações específicas do Manual do Professor. Pr od uç ão de te xto 207 capítulo 6 e Realismo, Naturalismo Parnasianismo (II) Modalização e impessoalização da linguagem Artigo de opinião Neste capítulo você vai: • refletir sobre a prosa realista de Júlia Lopes de Almeida, sobre a prosa realista-naturalista de Eça de Queirós, sobre a poesia parnasiana de Olavo Bilac e sobre a prosa contemporânea de Gabriel García Márquez; • identificar e experimentar estratégias e recursos linguísticos de modalização e impessoalização da linguagem; BN CC Competências gerais da Educação Básica: 1, 2, 3, 9 Competências específicas da área de Linguagens: 1, 2, 6 Habilidades específicas de Linguagens: EM13LGG101, EM13LGG103, EM13LGG202, EM13LGG601, EM13LGG602, EM13LGG604 Habilidades específicas de Língua Portuguesa: EM13LP01, EM13LP03, EM13LP04, EM13LP05, EM13LP06, EM13LP46, EM13LP48, EM13LP49, EM13LP50, EM13LP52 208 • identificar características composicionais de um artigo de opinião e produzir esse gênero. Justificativa Para aprimorar suas práticas de leitura literária, neste capítulo é proposta a você a leitura de obras significativas das literaturas brasileira, portuguesa e latino-americana, com base no conhecimento das concepções estéticas da época de sua produção, observando os diálogos que se estabelecem entre textos de diferentes épocas e culturas. Partindo do texto literário e expandindo a análise para textos variados, você vai ser convidado a observar as marcas que expressam a posição do enunciador frente àquilo que é dito e observar o uso de estratégias de impessoalização, de modo que vai aperfeiçoar sua compreensão e seu olhar crítico, assim como o uso desses recursos. Por meio do trabalho com o artigo de opinião, você poderá ter mais consciência dos mecanismos de produção desse gênero e reconhecerá a importância dos argumentos como meio de persuasão, refletindo sobre a forma mais adequada de argumentar, refutar ou negociar ideias e pontos de vista, respeitando o outro e colaborando para a criação de uma cultura da paz. Não escreva no livro. Literatura Realismo e Naturalismo: Júlia Lopes de Almeida e Eça de Queirós Realismo: Júlia Lopes de Almeida Reprodução/Arquivo Nacional, Rio de Janeiro, RJ. Em seu tempo, Júlia Lopes de Almeida era considerada a escritora mais importante da virada do século XIX para o XX, tendo como interlocutores autores consagrados, como Machado de Assis. O reconhecimento de sua produção literária se deu com a publicação em folhetim dos romances Memórias de Martha (1888), A família Medeiros (1891) e A viúva Simões (1895). A falência (1901), obra mais conhecida da autora, foi o primeiro romance a ser publicado em formato de livro, seguido de outros, como A intrusa (1905) e Cruel amor (1908). Júlia Lopes de Almeida Nascida no Rio de Janeiro em 1862, Júlia Valentina da Silveira Lopes de Almeida dedicou-se à escrita de contos, romances, novelas, crônicas e peças de teatro. Foi defensora da abolição da escravatura e do direito das mulheres ao voto e à educação formal. Colaborou com publicações em revistas e jornais, entre os quais a prestigiada Gazeta de Notícias, no Rio de Janeiro. Foi a única mulher a integrar o grupo de escritores e intelectuais que planejou a criação da Academia Brasileira de Letras (ABL). Porém, em razão de a ABL optar, na época, por ser exclusivamente masculina, seu nome foi excluído da lista dos “imortais”. Foi uma escritora aclamada em seu tempo, tendo sido reconhecida pela intelectualidade e pelo teor de suas obras, tanto no Brasil quanto no exterior. Faleceu no Rio de Janeiro, em 1934. Em geral, as obras de Júlia Lopes de Almeida têm como pano de fundo o ambiente urbano, dialogam com as transformações sociais e econômicas por que o Brasil passava na virada do século XIX para o século XX e retrata a situação da mulher, que exerce em suas narrativas um notável protagonismo. A falência, romance que você vai conhecer neste capítulo, se passa entre 1891 e 1893, na cidade do Rio de Janeiro. O enredo gira em torno da família de Francisco Teodoro, um português que fez fortuna no Brasil com o comércio de café. Sua família é composta da esposa Camila, mulher de origem humilde que viu no casamento a saída para a situação em que se encontrava, e dos quatro filhos: o primogênito Mário, a adolescente Ruth e as crianças Rachel e Lia. Camila, a protagonista, tem como amante o amigo da família, Gervásio, um médico rico e apreciador das artes. A situação confortável da família é abalada quando Francisco Teodoro, seduzido a investir na bolsa de valores, perde todo seu capital e suas propriedades. A tragédia culmina com o suicídio de Francisco, e a falência da família provoca em Camila mudanças de vida que a levarão a transformar sua concepção de mundo. Li te ra tu ra 209 Foco no texto Francisco Teodoro, Camila e Gervásio passam o domingo no barco Netuno, comandado pelo capitão João Rino. Nesse passeio, Rino apresenta Catarina, sua irmã, aos seus convidados. Com base nessas informações, leia, a seguir, um trecho de A falência. Capítulo VI [...] Veio o peru à brasileira provocar elogios ao cozinheiro do Netuno. Magnífico! Francisco Teodoro afirmou logo que aquele prato parecia feito, de saboroso que estava, por uma mulher. A brasileira tem um jeitinho especial para temperar panelas, dizia ele; e verdade, verdade, assim como ela não devia ser chamada para os cargos exercidos por homens, também os homens não lhes deviam usurpar os seus. A cozinha devia ser trancada ao sexo feio. Ele dizia isto como pilhéria, por alegria. Catarina, fazendo estalar uma côdea de pão entre os dedos magros, perguntou sorrindo, com ar de curiosidade maldosa: — O senhor é contra a emancipação da mulher, está claro. — Minha senhora, eu sou da opinião de que a mulher nasceu para mãe de família. Crie os seus filhos, seja fiel ao seu marido, dirija bem a sua casa, e terá cumprido a sua missão. Este foi sempre o meu juízo, e não me dei mal com ele, não quis casar com mulher sabichona. É nas medíocres que se encontram as esposas. O dr. Gervásio e o capitão Rino trocaram um olhar, de relance. — E que são as outras? Mulheres que um homem honrado não deve consentir perto das suas filhas. Camila fez um sinal afirmativo. Ela era da mesma opinião. pilhéria: dito engraçado, espirituoso. — Lá por isso, replicou Catarina, de quantas mulheres se fala na sociedade e que mal sabem ler? côdea: casca, crosta. — De poucas... medíocres: comuns, medianos, modestos. — De muitas. Sr. Teodoro, faz favor de me dar o vinho? Mefistófeles: personagem associado a Lúcifer, também entendido como sinônimo de demônio. Em Fausto, do autor alemão Goethe (1749-1832), dr. Fausto, em troca de sabedoria, juventude e amor, entrega sua alma a Mefistófeles. 210 — Não são sérias, concluiu. L ite ra tu ra — Ora, as senhoras não conhecem o mundo! Exclamou Teodoro, passando a garrafa ao médico, que encheu o copo de Catarina e disse rindo: — Elas não conhecerão o mundo e nós, meu amigo, não as conhecemos a elas! A mulher mais doce e mais honesta, dizem que dissimula e engana com uma arte capaz de endoidecer o próprio Mefistófeles... — Homem, que ideia faz você da honestidade das mulheres! — Faço ideia de que deve ser bem mais difícil de manter do que a nossa. — Bom; eu quando disse honestidade das mulheres, não foi com o pensamento de que houvesse duas honestidades. Não escreva no livro. — Pois se tivesse tido tal pensamento, tê-lo-ia com muito acerto. Há duas. — Temos outra! Se está de maré, explique-nos a diferença. — Não estou de maré, mas explicarei: é pequena. Materializemos as comparações, para as tornarmos bem claras. Suponhamos, por exemplo, que a nossa honestidade é um casaco preto e que a das senhoras é um vestido branco. Tudo é roupa, têm ambos o mesmo destino, mas que aspectos e que responsabilidades diferentes! Assim, o nosso casaco, ora o vestimos de um lado, ora de outro, disfarçando as nodoazinhas. O pano é grosso, com uma escovadela voa para longe toda a poeira da imundície; e ficamos decentes. A honestidade das senhoras é um vestido de cetim branco, sem forro. Um pouco de suor, se faz calor, macula-o; o simples roçar por uma parede, à procura da sombra amável, macula-o; uma picadela de alfinete, que só teve a intenção de segurar uma violeta cheirosa, toma naquela vasta candidez proporções desagradáveis... Realmente, deve ser bem difícil saber defender um vestido de cetim branco que nunca se tire do corpo. Eu não sei como elas fazem, e, francamente, não me parece que a vida mereça tamanho luxo. está de maré: está com boa disposição de ânimo, está a fim. vulgares: comuns. esquadrinhamos: examinamos com atenção e minúcia. nos lançamos na carreira: nos apressamos. Andrey Solovev/A dobe Stock — Você é o homem das divagações; tratava-se de uma questão positiva. Dizia eu que as mulheres vulgares são mais sérias do que as outras... pelo menos parecem... — Porque não lhes esquadrinhamos as nódoas de cetim... Passam despercebidas... [...] Catarina serviu o café; quando passava a última canequinha, disse: — As mulheres são mal compreendidas. Vejam aquela gravura. Está ali um homem desafiando o perigo, avançando na treva com a espada em punho, e a mulher mal o alumia com a luz da vela, cosendo-se amedrontada às suas costas! — O que prova que a mulher é medrosa! Exclamou Teodoro com modo triunfante. — Mas, não é verdade; pelo menos no Brasil. Nós não nos escondemos atrás do homem que procura defender-nos. Se ele avança para o inimigo, sentimos não ter asas, e é sempre com ímpeto que nos lançamos na carreira querendo ajudá-lo a vencer ou evitar-lhe a derrota. Este é que é o nosso caráter; que me desminta quem puder! O dr. Gervásio observou Catarina com atenção. Ela estava de pé, com as narinas arfantes, as faces abrasadas. Sim; agora era o sangue caboclo que lhe saltava nas veias: era uma brasileira. A tal avó dinamarquesa dava todo o lugar à outra avó indígena, descendente de alguma tribo selvagem. Duas horas depois, os visitantes deixavam o Netuno; o capitão Rino e a irmã conduziram-nos até o cais, onde se separaram. [...] ALMEIDA, Júlia Lopes de. A falência. Campinas: Ed. da Unicamp, 2018. p. 144-147. Li te ra tu ra 211 1. No texto em estudo, nem sempre o narrador indica qual personagem toma a palavra. a) Como base no contexto em que ocorrem os diálogos, faça, no caderno, a associação das falas, indicadas por números, aos seus respectivos personagens, identificados por letras: • A. Catarina; I. • B. Camila; • C. Francisco. E que são as outras? Mulheres que um homem honrado não deve consentir perto das suas filhas. II. Não são sérias, concluiu. III. Homem, que ideia faz você da honestidade das mulheres! IV. Bom; eu quando disse honestidade das mulheres, não foi com o pensamento de que houvesse duas honestidades. V. Você é o homem das divagações; tratava-se de uma questão positiva. Dizia eu que as mulheres vulgares são mais sérias do que as outras... C-I; B-II e V; A-III e IV. b) Na fala V, levante hipóteses: Que sentidos as expressões em negrito apresentam no contexto em que aparecem? “Questão positiva”: questão objetiva, de ordem prática; “mulheres vulgares”: mulheres banais, comuns, que não se destacam. 2. Durante o almoço, Francisco Teodoro comenta a respeito dos papéis que mulheres e homens devem desempenhar na sociedade. Para Francisco, o papel das mulheres é o de ser mãe a) Segundo ele, que papel as mulheres devem cumprir? de família: criar os filhos, ser fiel ao marido e dirigir bem a casa. b) Para Francisco, a “cozinha devia ser trancada ao sexo feio”. Que sentido esse trecho constrói no trecho reforça o discurso conservador do personagem, para quem a cozinha discurso desse personagem? Esse não é função dos homens (“trancada ao sexo feio”), apenas das mulheres. c) Troque ideias com a turma e responda no caderno: De acordo com o texto em estudo, que sentido tem a expressão “mulher sabichona”? Por que Francisco se mostra favorável às mulheres “medíocres”? Consulte a resposta da atividade 2, item c, nas Orientações específicas do Manual do Professor. 3. A opinião de Francisco Teodoro acerca da função da mulher na sociedade gera diferentes reações entre os personagens. a) Qual é a reação de Catarina? Justifique sua resposta com elementos do texto. Catarina expressa discordância, pois observa, “com ar de curiosidade maldosa”, que ele é contra a emancipação da mulher. b) Camila concorda ou discorda do marido? O que a opinião dela revela a respeito do próprio caráter? Justifique sua resposta com elementos do texto. Camila concorda com o marido, pois, para ela, as mulheres sabichonas “não são sérias”, isto é, não cumprem com as obrigações do casamento. Essa opinião revela hipocrisia, uma vez que, sem ser “sabichona”, não cumpre à risca o compromisso do casamento, pois não é fiel ao marido. 4. A seguir, os personagens envolvem-se em uma discussão sobre a honestidade das mulheres. a) Que opinião o médico Gervásio tem a respeito da honestidade feminina? Pode-se considerar Consulte a resposta da atividade 4, que a opinião dele é uma provocação a Camila? Justifique sua resposta. item a, nas Orientações específicas do Manual do Professor. b) Francisco usa a imagem do casaco com tecido preto e grosso e do vestido branco de cetim sem forro para ilustrar a visão que a sociedade tem acerca da honestidade dos homens e da honestidade das mulheres, respectivamente. Troque ideias com a turma e responda no caderno: Que sentido essa imagem produz no texto em estudo? Justifique sua resposta com elementos dessa imagem. Consulte a resposta da atividade 4, item b, nas Orientações específicas do Manual do Professor. c) Com base nas respostas anteriores, compartilhe sua opinião com a turma e ouça a de seus colegas: Para você, os pontos de vista expressos por Francisco e por Gervásio acerca das mulheres ainda se apresentam na sociedade de hoje? Por quê? Resposta pessoal. 5. A diferença entre homens e mulheres é também marcada no texto em estudo por meio da menção a) O homem avança corajosamente na escuridão empunhando uma espada, enquanto a mulher, amedrona uma gravura. 5. tada, segue atrás dele, tentando iluminar o caminho. a) De que maneira a mulher e o homem são representados nessa gravura? Ele concorda com o ponto de vista expresso pela b) Qual é a opinião de Francisco a respeito dessa imagem? imagem, pois tal qual na gravura, ele pensa que as mulheres são medrosas. c) Em relação à maneira como a mulher é representada na gravura, Catarina concorda ou discora resposta da atividade 5, item c, nas Orientada? Justifique sua resposta com elementos do texto. Consulte ções específicas do Manual do Professor. 212 L ite ra tu ra Não escreva no livro. 6. Releia o trecho a seguir: O dr. Gervásio observou Catarina com atenção. Ela estava de pé, com as narinas arfantes, as faces abrasadas. Sim; agora era o sangue caboclo que lhe saltava nas veias: era uma brasileira. A tal avó dinamarquesa dava todo o lugar à outra avó indígena, descendente de alguma tribo selvagem. Duas horas depois, os visitantes deixavam o Netuno; o capitão Rino e a irmã conduziram-nos até o cais, onde se separaram. [...] Di sc urs o ind ire to liv re O Realismo fez amplo uso do discurso indireto livre, técnica narrativa que resulta da mistura dos discursos direto e indireto. Observe um trecho do romance Os Maias, de Eça de Queirós: Queixou-se então do Castro Gomes. Em resumo era um telhudo. E a vida daquele homem era misteriosa... Que diabo estava ele a fazer em Lisboa? QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. Cotia: Ateliê Editorial, 2001. p. 200. Na primeira frase, há apenas a voz do narrador, enquanto nas seguintes a voz do narrador se une à voz da personagem de modo quase imperceptível, uma vez que não há utilização de verbos de elocução (dizer, responder, etc.) nem de sinais como aspas, travessão e dois-pontos. Com essa técnica, as frases em destaque podem ser um comentário tanto da personagem como do próprio narrador. a) Leia o boxe “Discurso indireto livre”. Em seguida, identifique no trecho em destaque o(s) parágrafo(s) em que há o uso de discurso indireto livre e responda: Que efeito o emprego dessa técnica produz na narrativa? Consulte a resposta da atividade 6, item a, nas Orientações específicas do Manual do Professor. b) A falência é um romance realista, os personagens agem motivados por suas próprias escolhas, não sendo, portanto, determinados por fatores como meio, momento e raça, como ocorre em romances naturalistas. Tendo em vista essas informações e as concepções estéticas realistas, levante hipóteses com a turma: Que sentido a presença da ideologia determinista no trecho em destaque produz no texto? Consulte a resposta da atividade 6, item b, nas Orientações específicas do Manual do Professor. c) Levante hipóteses com os colegas e, depois, registre a resposta no caderno: De acordo com o trecho em destaque, que relação se pode estabelecer entre as teorias deterministas do século XIX e o racismo em relação aos povos indígenas? Justifique sua resposta com elementos do texto. Consulte a resposta da atividade 6, item c, nas Orientações específicas do Manual do Professor. 7. Em A falência, Júlia Lopes de Almeida representou de maneira crítica a sociedade de seu tempo e manifestou seu posicionamento acerca da necessidade de emancipação das mulheres. No trecho lido, Francisco e Catarina representam diferentes vozes acerca da posição da mulher na sociedade do final do século XIX. 7. a) Catarina representa as vozes que reivindicam a emancipação feminina, entre as quais a própria autora de A fal•ncia, e que, em particular, valorizam a mulher brasileira pela força e coragem com que enfrentam os desafios da vida. a) De acordo com o texto lido, que vozes Catarina representa no romance? a resposta da atividade 7, item b, nas Orientações b) E quanto a Francisco, que vozes ele representa? Consulte específicas do Manual do Professor. c) Considerando as diferentes vozes representadas por Catarina e por Francisco, dê sua opinião e ouça a dos colegas: Na sociedade atual, como você vê a valorização das mulheres? Qual é o papel da educação no processo da emancipação feminina? Quais são os maiores desafios enfrentados pelas mulheres no seu bairro ou na sua cidade? Resposta pessoal. Realismo-Naturalismo: Eça de Queirós Em Portugal, Eça de Queirós é o principal romancista do Realismo e do Naturalismo e um dos escritores mais importantes da literatura portuguesa. O autor conquistou em seu país e no Brasil um grande público leitor, sobretudo por meio das obras realistas-naturalistas O primo Basílio e Os Maias. Além disso, no Rio de Janeiro, centro cultural e político durante o Império e a República, a presença do autor português também foi marcante no jornalismo, em razão dos textos que publicou na Gazeta de Notícias por dezesseis anos. Li te ra tu ra 213 Reprodução/Biblioteca Nacional de Portugal, Lisboa. Eça de Queirós José Maria Eça de Queirós (1845-1900) nasceu em Póvoa de Varzim, em Portugal. Cursou Direito na Universidade de Coimbra e, além de advogado e escritor, também foi diplomata. Em 1875, publicou O crime do padre Amaro, sua primeira obra de destaque. Alguns anos depois, influenciado por Madame Bovary (1856), do autor francês Gustave Flaubert, escreveu o romance O primo Basílio (1878). Mantendo o espírito crítico e irreverente que lhe era habitual, publicou Os Maias (1888), considerado um de seus mais importantes romances. Entre suas últimas obras publicadas, estão A ilustre casa de Ramires (1900) e A cidade e as serras (1901). Foto de 1886. Meia-Idade: o mesmo que Idade Média. concubinagem: união de um casal que não é legalmente casado. 214 L ite ra tu ra O traço naturalista de sua prosa caracteriza-se pelo diálogo com o positivismo, o determinismo e o evolucionismo. Em razão disso, o comportamento dos personagens é explicado com base em tais teorias científico-filosóficas, seus aspectos físicos e psicológicos são descritos de modo detalhado e objetivo e, em algumas circunstâncias, os traços do ser humano são animalizados. São características marcantes de suas obras realistas-naturalistas, publicadas entre 1875 e 1888, a ironia e a crítica mordaz à sociedade portuguesa, decorrentes da postura, então assumida pelo autor, de que era preciso criticar para reformar os hábitos, os costumes e os valores. Nos romances publicados em 1900 e 1901, há um afastamento da estética naturalista, o que faz com que, no enredo dessas obras, as soluções dos conflitos dependam mais de aspectos subjetivos do que da situação social dos personagens. Com Os Maias, obra que você vai conhecer a seguir, o autor encerrou sua fase acentuadamente realista-naturalista. Nesse romance, a trama central é o amor entre Carlos da Maia e Maria Eduarda Monforte. No entanto, existe um secreto e incontornável impedimento para essa relação amorosa, conhecido apenas por um personagem: Guimarães. Foco no texto No seguinte fragmento de Os Maias, é narrado o episódio em que João da Ega, amigo e confidente de Carlos da Maia, se vê às voltas com o terrível segredo que acaba de lhe ser revelado. Capítulo XVI [...] Guimarães não descia. No segundo andar surgira uma luz viva, numa janela aberta. Ega recomeçou a passear lentamente pelo meio do largo. E agora, pouco a pouco, subiu nele uma incredulidade contra esta catástrofe de dramalhão. Era acaso verosímil que tal se passasse, com um amigo seu, numa rua de Lisboa, numa casa alugada à mãe Cruges?... Não podia ser! Esses horrores só se produziam na confusão social, no tumulto da Meia-Idade! Mas numa sociedade burguesa, bem policiada, bem escriturada, garantida por tantas leis, documentada por tantos papéis, com tanto registro de baptismo, com tanta certidão de casamento, não podia ser! Não! Não estava no feitio da vida contemporânea que duas crianças separadas por uma loucura da mãe, depois de dormirem um instante no mesmo berço, cresçam em terras distantes, se eduquem, descrevam as parábolas remotas dos seus destinos — para quê? Para virem tornar a dormir juntas no mesmo ponto, num leito de concubinagem! Não era possível. Tais coisas pertencem só aos livros, onde vêm, como invenções sutis da arte, para dar à alma humana um terror novo... Depois levantava os olhos para a janela Não escreva no livro. alumiada, onde o Sr. Guimarães, decerto, rebuscava os papéis na mala. Ali estava porém esse homem com a sua história — em que não havia uma discordância por onde ela pudesse ser abalada!... E pouco a pouco aquela luz viva, saída do alto, parecia ao Ega penetrar nessa intrincada desgraça, aclará-la toda, mostrar-lhe bem a lenta evolução. Sim, tudo isso era provável no fundo! Essa criança, filha de uma senhora que a levara consigo, cresce, e amante de um brasileiro, vem a Lisboa, habita Lisboa. Num bairro vizinho vive outro filho dessa mulher, por ela deixado, que cresceu, é um homem. Pela sua figura, o seu luxo, ele se destaca nesta cidade provinciana e pelintra. Ela, por seu lado, loura, alta, esplêndida, vestida pela Laferrière, flor de uma civilização superior, faz relevo nesta multidão de mulheres miudinhas e morenas. Na pequenez da Baixa e do Aterro, onde todos se acotovelavam, os dois fatalmente se cruzam: e com o seu brilho pessoal, muito fatalmente se atraem! Há nada mais natural? Se ela fosse feia e trouxesse aos ombros uma confecção barata da loja da América, se ele fosse um mocinho encolhido de chapéu-coco, nunca se notariam e seguiriam diversamente nos seus destinos diversos. Assim, o conhecerem-se era certo, o amarem-se era provável... E um dia o Sr. Guimarães passa, a verdade terrível estala! A porta do hotel rangeu no escuro, o Sr. Guimarães adiantou-se, de boné de seda na cabeça, com o embrulho na mão. — Não podia dar com a chave da mala, desculpe V. Exa. É sempre assim quando há pressa... E aqui temos o famoso cofre! — Perfeitamente, perfeitamente... Era uma caixa que parecia de charutos e que o democrata embrulhara num velho número do Rappel. Ega meteu-a no bolso largo do seu paletó: e imediatamente, como se qualquer outra palavra entre eles fosse vã, estendeu a mão ao Sr. Guimarães. [...] [...] pelintra: pessoa que procura aparentar uma condição social mais elevada que a real. Na carruagem, através do Aterro, a ansiosa interrogação do Ega a si mesmo foi — “Que hei de fazer?”. Que faria, santo Deus, com aquele segredo terrível que possuía, de que só ele era senhor, agora que o Guimarães partia, desaparecia para sempre? E antevendo com terror todas as angústias em que essa revelação ia lançar o homem que mais estimava no mundo — a sua instintiva ideia foi guardar para sempre o segredo, deixá-lo morrer dentro em si. Não diria nada; o Guimarães sumia-se em Paris; e quem se amava continuava a amar-se!... Não criaria assim uma crise atroz na vida de Carlos — nem sofreria ele, como companheiro, a sua parte dessas aflições. Que coisa mais impiedosa, de resto, que estragar a vida de duas inocentes e adoráveis criaturas, atirando-lhes à face uma prova de incesto!... Laferrière: casa de alta-costura situada em Paris, no século XIX. Mas, a esta ideia de incesto, todas as consequências desse silêncio lhe apareceram, como coisas vivas e pavorosas, flamejando no escuro diante dos seus olhos. Poderia ele tranquilamente testemunhar a vida dos dois — desde que a sabia incestuosa? Ir à rua de S. Francisco, sentar-se-lhes alegremente à mesa, entrever, através do reposteiro, a cama em que ambos dormiam — e saber que esta sordidez de pecado era obra do seu silêncio? Não podia ser... Mas teria também coragem de entrar, ao outro dia, no quarto de Carlos, e dizer-lhe em face — “Olha que tu és amante de tua irmã?” rua de S. Francisco: rua onde morava a personagem Maria Eduarda. Baixa: bairro de Lisboa. Aterro: bairro de Lisboa. Rappel: jornal francês que teve entre seus fundadores o escritor romântico Victor Hugo (1802-1885). reposteiro: cortina que cobre portas do interior de casas. Li te ra tu ra 215 Ramalhete: casarão da família Maia. palmatória: castiçal baixo. alcova: quarto de dormir. 2. Retrata a alta sociedade lisboeta, conforme atestam a figura do personagem Carlos (“pela sua figura, seu luxo, ele se destaca nesta cidade”), o quarto do rapaz (“cortinados de seda”) e a figura de Maria Eduarda (“vestida pela Lafferière”). A carruagem parara no Ramalhete. Ega subiu, como costumava, pela escada particular de Carlos. Tudo estava apagado e mudo. Acendeu a sua palmatória; entreabriu o reposteiro dos aposentos de Carlos; deu alguns passos tímidos no tapete, que pareceram já soar tristemente. Um reflexo de espelho alvejou ao fundo na sombra da alcova. E a luz caiu sobre o leito intacto, com a sua longa colcha lisa, entre os cortinados de seda. Então a ideia que Carlos estava àquela hora na rua de S. Francisco, dormindo com uma mulher que era sua irmã, atravessou-o com uma cruel nitidez, numa imagem material, tão viva e real, que ele viu-os claramente, de braços enlaçados, e em camisa... Toda a beleza de Maria, todo o requinte de Carlos desapareciam. Ficavam só dois animais, nascidos do mesmo ventre, juntando-se a um canto como cães, sob o impulso bruto do cio! QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. Porto Alegre: L&PM, 2001. p. 398-400. 1. Que segredo impedia Carlos e Maria Eduarda de seguirem vivendo um romance? Eles eram irmãos, embora não soubessem disso. 2. Como adepto do Realismo-Naturalismo, Eça de Queirós se ocupou do Reprodução/Ateliê Editorial retrato da sociedade de sua época. Que classe social o texto em estudo retrata? Justifique sua resposta com elementos do texto. 3. No Realismo, era bastante utilizado o monólogo interior, técnica narrativa que explora a mente dos personagens e mostra o fluxo ininterrupto de pensamentos, lembranças, imagens, ideias e intuições. No primeiro parágrafo do texto lido, o monólogo interior reproduz o fluxo de pensamentos de Ega no momento em que ele aguarda Guimarães. a) Qual é o estado de espírito de Ega? Por que ele se sente assim? b) O fluxo de pensamentos de Ega apresenta clareza e lógica ou parece obscuro e ilógico? Apresenta clareza e lógica. Capa do livro Os Maias, que chegou a ser adaptado para o cinema em uma produção de 2014, dirigida por João Botelho. 3. a) Ele está muito apreensivo, pois cabe a ele revelar a seu melhor amigo que este não pode continuar o romance com Maria Eduarda, o que lhe causa grande tristeza. 4. a) Na perspectiva de Ega, uma sociedade em que tudo era verificado, registrado e analisado (“bem policiada, bem escriturada, garantida por tantas leis”) a organização teria de ser suficiente para evitar a ocorrência daquela situação. c) Observe o emprego de reticências, de interrogações e de exclamações no monólogo interior de Ega. Que efeito de sentido essas pontuações constroem no texto? Justifique sua resposta com exemplos dão ideia da tensão emocional de Ega, da incredulidade observados no texto. Elas e surpresa dele com a notícia de que Carlos da Maia e Maria Eduarda eram irmãos (“Era acaso verosímil que tal se passasse numa casa alugada da mãe de Cruges?...”, “Não podia ser!”, “Não era possível!”). 4. Em Os Maias, João da Ega é um defensor da literatura naturalista e dos ideais racionalistas, positivistas e deterministas que embasavam esse estilo. Tendo em vista essas informações e o primeiro parágrafo do texto: a) Explique por que, na perspectiva de Ega, a situação ocorrida entre Carlos e Maria Eduarda parecia algo impossível de acontecer. Comprove sua resposta com elementos do texto. b) Discuta com os colegas e depois registre sua resposta no caderno: Por que a situação incestuosa envolvendo os jovens afrontava as conPorque a ocorrência da situação incestuosa era uma demonstração de vicções de Ega? que a razão, a organização e o progresso material não garantem o controle e o conhecimento do que acontece no mundo. c) Em meio à surpresa, Ega busca uma explicação racional e material para o fato de Carlos e Maria Eduarda terem se aproximado um do outro em “brilho pessoal”, a beleza física e a elegância Lisboa. Qual é essa explicação? O de Carlos e de Maria Eduarda teriam provocado a 216 atração entre eles. L ite ra tu ra 5. a) Primeiro, temendo destruir a felicidade de Carlos, Ega pensa em não revelar a origem de Maria Eduarda, mas a ideia de incesto o atordoa e o faz sentir-se obrigado a revelar ao amigo aquilo de que ficara sabendo. Em seguida, ele passa a se interrogar sobre como daria a terrível notícia a Carlos. Não escreva no livro. Éd ipo rei A temática do incesto, presente em Os Maias, é explorada desde a Antiguidade. Na tragédia grega Édipo rei, de Sófocles (século V a.C.), Édipo não conseguiu escapar do que já havia sido previsto antes mesmo de seu nascimento: matar o pai e se casar com a mãe. Inspirado nessa tragédia, o austríaco Sigmund Freud (1856-1939), elaborador das teorias da Psicanálise, criou o conceito de “complexo de Édipo”, presente em obras como Totem e tabu (1913). 5. Depois de se despedir de Guimarães, Ega é tomado por novos pensamentos, que o atordoam. a) Quais conflitos o monólogo interior do personagem revela? b) A perspectiva naturalista de Ega pode ser observada com clareza nesse novo monólogo interior. Que trecho do texto comprova essa afirmação? “Toda a beleza de Maria, todo o requinte de Carlos, desapareciam. Ficavam só dois animais, nascidos do mesmo ventre, juntando-se a um canto como cães, sob o impulso bruto do cio!”. 6. Em Os Maias, a paixão entre Carlos e Maria Eduarda é mostrada ao longo do romance como resultado da ação implacável do destino, tal como ocorre em Édipo rei. No monólogo interior de Ega, a ideia de destino aparece de forma implícita. Explique essa afirmação, tendo em vista as respostas aos itens da questão anterior. Ega tem dificuldade para explicar racionalmente a aproximação entre Maria Eduarda e Carlos em Lisboa, uma vez que eles cresceram em países diferentes e, ainda assim, se encontraram. 7. Troque ideias com os colegas e o professor, depois registre a resposta no caderno: O surgimento de Os Maias se deu em uma época de declínio da literatura naturalista em Portugal. Com base nos fundamentos dessa estética literária, explique por que a presença do destino nesse romance esa ideia de destino dá sustentação a uma explicação de caráter transcendental e incontrolável que pelha tal declínio. Porque foge à perspectiva da literatura do Naturalismo, baseada na razão e fundamentada no positivismo e no determinismo, que vê o ser humano como produto do meio, da “raça” e do momento histórico. Parnasianismo: Olavo Bilac Reprodução/Museus e Galerias do Vaticano, Cidade do Vaticano. Na segunda metade do século XIX, como reação à poesia romântica, marcada pelo sentimentalismo, pela idealização e pela subjetividade, surgiu o Parnasianismo. Originalmente, Parnaso designa a montanha da Grécia consagrada a Apolo, deus da música e da poesia, e às nove musas. O nome do movimento sugere, portanto, a revalorização da cultura clássica greco-romana, defendida principalmente por Leconte de Lisle (1818-1894), um dos mestres do Parnasianismo francês. O Parnaso (1509-1511), detalhe do afresco do pintor renascentista Rafael Sanzio (1483-1520). A obra faz parte do acervo do Palácio Apostólico, localizado no Vaticano. Li te ra tu ra 217 A estética parnasiana caracteriza-se sobretudo pela presença de temas mitológicos greco-romanos, pela recusa dos excessos do lirismo romântico, pelo retrato objetivo e detalhado dos objetos, pelo vocabulário sofisticado e preciso e pelo culto à forma. Do esforço pelo aprimoramento formal, surgiu no Parnasianismo o conceito de “arte pela arte”, segundo o qual a arte não tem outra finalidade a não ser a criação da beleza. Os ideais estéticos cultivados pelos poetas franceses influenciaram o Parnasianismo brasileiro, que teve início, formalmente, com a publicação de Fanfarras (1882), de Teófilo Dias. Além de Olavo Bilac, destacam-se Raimundo Correia (1859-1911), Alberto de Oliveira (1857-1937) e Francisca Júlia (1871-1920). Olavo Bilac Considerado o mais popular dos poetas parnasianos brasileiros, Olavo Bilac destacou-se pela fluidez de seus versos e pela sofisticação da linguagem de seus poemas. Em conformidade com os preceitos dos parnasianos franceses, Bilac primou pelo rigor formal e defendeu o princípio de que a beleza do poema resulta do esforço empreendido em sua composição, e não da inspiração do autor. Tal princípio, bem como o de que a finalidade da poesia é a beleza, foi expresso em “Profissão de fé”, poema-manifesto que inicia o livro Poesias (1888), principal obra do autor. Combinando o exemplo dos parnasianos franceses e a tradição clássica portuguesa, Bilac deu preferência às formas fixas, especialmente o soneto, tipo de composição amplamente cultivado por Camões, no Classicismo, e por Bocage, no Arcadismo português. Em seus poemas, as cores, as formas, as texturas, os movimentos e os sons constroem imagens primorosas, dando concretude ao mundo criado. Arquivo Correio Braziliense/D.A. Press Em poemas das séries intituladas “Via láctea” e “Sarças de fogo”, que integram a obra Poesias, a objetividade parnasiana não é categórica. Em alguns poemas de “Via láctea”, o sentimento amoroso é expresso de modo fervoroso, desdobrando-se em um lirismo espiritualizado, enquanto em outros de “Sarças de fogo”, há a presença de forte sensualidade. Olavo Bilac Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (1865-1918) nasceu no Rio de Janeiro. Estudou Medicina e Direito, mas não concluiu nenhum desses cursos, que abandonou para atuar no jornalismo e na literatura. Dedicou-se também ao ensino, produziu poemas infantis e livros didáticos. Nacionalista, escreveu a letra do Hino à Bandeira e poemas de exaltação ao Brasil. Em seu tempo, Bilac foi um dos poetas mais lidos e mais populares, tendo sido eleito “príncipe dos poetas brasileiros” em um concurso da revista Fon-Fon!. Foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras e um dos poetas mais lidos e mais populares de seu tempo. Entre as obras poéticas do autor, estão também Poesias infantis (1904) e Tarde (1919), esta publicada postumamente. 218 L ite ra tu ra Não escreva no livro. Foco no texto Você vai ler, a seguir, dois poemas de Olavo Bilac: “Rio abaixo”, da série “Sarças de fogo”, e o poema XXXI, da série “Via láctea”. Texto 1 Rio abaixo Treme o rio, a rolar, de vaga em vaga… Quase noite. Ao sabor do curso lento Da água, que as margens em redor alaga, Seguimos. Curva os bambuais o vento. Reprodução/Museu Jeni sch de Vevey, Suíça. Vivo há pouco, de púrpura, sangrento, Desmaia agora o ocaso. A noite apaga A derradeira luz do firmamento... Rola o rio, a tremer, de vaga em vaga. Um silêncio tristíssimo por tudo Se espalha. Mas a Lua lentamente Surge na fímbria do horizonte mudo: E o seu reflexo pálido, embebido Como um gládio de prata na corrente, Rasga o seio do rio adormecido. Pôr do sol sobre o lago Leman (1874), de Gustave Courbet (1819-1877). BILAC, Olavo. Rio abaixo. In: BILAC, Olavo. Os melhores poemas de Olavo Bilac. Seleção de Marisa Lajolo. São Paulo: Global, 1985. p. 71. Texto 2 XXXI Longe de ti, se escuto, porventura, Teu nome, que uma boca indiferente Entre outros nomes de mulher murmura, Sobe-me o pranto aos olhos, de repente... Tal aquele, que, mísero, a tortura Sofre de amargo exílio, e tristemente A linguagem natal, maviosa e pura, Ouve falada por estranha gente... vaga: onda de grande altura. desmaia: nesse contexto, perde a cor. ocaso: pôr do sol. fímbria: linha, traço. gládio: espada. porventura: por acaso. maviosa: melodiosa, agradável ao ouvido. Porque teu nome é para mim o nome De uma pátria distante e idolatrada, Cuja saudade ardente me consome: E ouvi-lo é ver a eterna primavera E a eterna luz da terra abençoada, Onde, entre flores, teu amor me espera. BILAC, Olavo. XXXI. In: BILAC, Olavo. Os melhores poemas de Olavo Bilac. Seleção de Marisa Lajolo. São Paulo: Global, 1985. p. 54. Li te ra tu ra 219 1. b) Sugestões: texto 1: “Curva os bambuais o vento”; “Treme o rio”; “Da água, que as margens em redor alaga”; texto 2: “Teu nome, que uma boca indiferente / Entre outros nomes de mulher murmura”. 1. Diferentemente do Romantismo, o Parnasianismo se distinguiu pelo aprimoramento formal e pelo emprego de uma linguagem sofisticada. a) Nos poemas em estudo, Bilac utilizou um tipo refinado de composição poética amplamente cultivado pelos poetas parnasianos. Observe a organização dos versos nas estrofes, faça a escansão dos primeiros versos do poema e responda: Qual é o nome desse tipo de composição? Qual é a métrica empregada? Ambos os poemas são sonetos, e os versos são decassílabos (10 sílabas métricas). b) A fim de garantir a métrica, o ritmo e a rima, o poeta realizou inversões na ordem direta das palavras nas frases. Identifique um exemplo desse procedimento em cada um dos poemas em estudo. c) Identifique em cada poema uma palavra que exemplifique o requinte vocabular cultivado pelo poeta parnasiano. Sugestões: texto 1: gládio, fímbria, ocaso; texto 2: mavioso. 2. No texto 1, o eu lírico descreve uma cena da natureza. a) Qual é o tema da cena descrita? Que elementos da natureza comO tema é o entardecer e o nascer da noite. Compõem a cena o rio e põem tal cena? suas margens, o céu e sua luminosidade, a vegetação (“bambuais”), o vento e a Lua. b) O eu lírico está ausente ou presente na cena descrita? Justifique sua resposta com elementos do texto. O eu lírico está presente na cena, talvez em um barco: “[...] Ao sabor do curso lento [...]” / “Da água [...]” / “Seguimos [...]”. c) O título do poema confirma a resposta do item anterior? Sim, pois o título tem relação com o movimento feito pelo eu lírico ao seguir a correnteza do rio. 3. No texto 1, cores, movimentos e sons revelam os detalhes da paisagem natural. 3. a) Sugestão: cor: “Vivo há pouco, de púrpura, sangrento, / Desmaia agora o ocaso”; movimento: “Treme o rio, a rolar, de vaga em vaga...”, “[...] Curva os bambuais o vento”; som: “Um silêncio tristíssimo por tudo / Se espalha [...]”. a) Nas três primeiras estrofes do poema, identifique um exemplo de cada um desses elementos. b) Qual é a imagem construída pelo eu lírico na última estrofe do poema? O reflexo da Lua na correnteza é associado a uma espada de prata cortando o rio. c) Converse com os colegas e o professor e, depois, registre a resposta no caderno: Na descrição feita no poema, o retrato da paisagem é puramente objetivo ou há também nele a manifestação subjetiva do eu lírico? Justifique sua resposta com elementos do texto. Consulte a resposta da atividade 3, item c, nas Orientações específicas do Manual do Professor. 4. Em relação ao texto 2, responda: a) Que sentimentos afligem o eu lírico? Justifique sua resposta com elementos do texto. Ele sofre porque está distante da amada e sente saudades dela: “Cuja saudade ardente me consome”. 4. b) Ouvir o nome da amada na boca de uma pessoa qualquer (“indiferente”) quando ele está longe dela é, para o eu lírico, tão doloroso quanto ouvir, no exílio, a língua natal falada por desconhecidos. 4. c) É espiritualizado, pois o nome da amada evoca no eu lírico sentimentos puros e nobres como os que ele nutre pela pátria: “teu nome é... o nome / De uma pátria... idolatrada”; “E ouvi-lo é ver a eterna primavera / E a eterna luz da terra abençoada”. 220 b) Para expressar seus sentimentos, qual é a comparação que o eu lírico faz nas duas primeiras estrofes do poema? c) Nas duas últimas estrofes, o amor a que o eu lírico faz alusão é sensual ou espiritualizado? Justifique sua resposta com elementos do texto. d) É possível afirmar que a amada corresponde ao amor do eu lírico? Justifique sua resposta com elementos do texto. Sim, pois, no último verso, o eu lírico sugere que ela o espera (“teu amor me espera”). 5. Os poetas parnasianos, na tentativa de se afastar do sentimentalismo dos poetas românticos, buscaram um lirismo moderado, sem excessos. Nesse poema, Bilac segue à risca essa proposta do Parnasianismo? O eu lírico demonstra total equilíbrio de suas emoções? Justifique sua resposta com elementos do texto. O lirismo expresso no poema não é moderado. O eu lírico, ao revelar que a “saudade ardente” o “consome”, foge à moderação e ao equilíbrio pretendidos pelos parnasianos. L ite ra tu ra E NTRE TEX TO S Você vai ler, a seguir, um fragmento de Cem anos de solid‹o, do escritor colombiano Gabriel García Márquez. Esse romance acompanha sete gerações da família Buendía, cuja história se passa em Macondo, uma aldeia fictícia e remota da América Latina. O trecho em destaque apresenta as origens de José Arcadio Buendía e Úrsula Iguarán, casal que funda Macondo e dá início à saga dessa família. Cem anos de solidão Quando o pirata Francis Drake assaltou Riohacha, no século XVI, a bisavó de Úrsula Iguarán se assustou tanto com o toque de alarma e o estampido dos canhões que perdeu o controle dos nervos e se sentou num fogão aceso. As queimaduras converteram-na numa esposa inútil para toda a vida. Não podia sentar-se a não ser de lado, acomodada em almofadas, e seu andar deve ter ficado muito estranho, porque nunca voltou a caminhar em público. Renunciou a todo tipo de hábitos sociais, obcecada pela ideia de que seu corpo desprendia um cheiro de coisa chamuscada. A aurora a surpreendia no quintal, sem se atrever a dormir, porque sonhava que os ingleses, com seus ferozes cães de fila, entravam pela janela do quarto e a submetiam a vergonhosas torturas com ferros em brasa. Seu marido, um comerciante aragonês com quem tinha dois filhos, gastou metade da loja em remédios e divertimentos, procurando a maneira de aliviar os seus terrores. Por fim, liquidou o negócio e levou a família Francis Drake: Sir Francis Drake (1540-1596), cavaleiro e almirante inglês. Envolvido em práticas de pirataria, atacou Riohacha em 1596 em busca de ouro e pérolas. Riohacha: uma das cidades mais antigas da Colômbia, localizada na costa do mar do Caribe, foi fundada em 1545. Hoje Riohacha é capital do departamento de La Guajira. Anamaria Mejia/Shutterstock aragon•s: nascido em Aragão, na Espanha. Estátua em homenagem ao autor Gabriel García Márquez, localizada na praça central de sua cidade natal, Aracataca, Colômbia, 2024. 221 para viver longe do mar, numa aldeia de índios pacíficos na encosta da serra, onde construiu para a mulher um quarto sem janelas, para que os piratas dos seus pesadelos não tivessem por onde entrar. Na escondida encosta vivia há muito tempo um nativo plantador de tabaco, o sr. José Arcadio Buendía, com quem o bisavô de Úrsula fez uma sociedade tão produtiva que em poucos anos os dois juntaram uma fortuna. Vários séculos depois, o tataraneto do nativo se casou com a tataraneta do aragonês. Por isso, cada vez que Úrsula subia pelas paredes com as loucuras do marido, pulava por cima de trezentos anos de coincidências e maldizia a hora em que Francis Drake assaltou Riohacha. Era um mero recurso de desabafo, porque na verdade estavam ligados até a morte por um vínculo mais sólido que o amor: uma dor comum de consciência. Eram primos entre si. Tinham crescido juntos na antiga encosta que os antepassados de ambos haviam transformado com o trabalho e os bons costumes num dos melhores povoados da província. Apesar de o casamento deles ser previsível desde que vieram ao mundo, quando expressaram a vontade de se casar os próprios parentes tentaram impedir. Tinham medo de que aqueles saudáveis fins de duas raças secularmente entrecruzadas passassem pela vergonha de engendrar iguanas. Já existia um precedente tremendo. Uma tia de Úrsula, casada com um tio de José Arcadio Buendía, teve um filho que passou toda a vida de calças larguíssimas e frouxas, e que morreu de hemorragia depois de ter vivido quarenta e dois anos no mais puro estado de virgindade, porque nascera e crescera com uma cauda cartilaginosa em forma de saca-rolhas e com uma escova de pelos na ponta. Um rabo de porco que nunca deixou ser visto por nenhuma mulher, e que lhe custou a vida quando um açougueiro amigo lhe fez o favor de cortá-lo com a machadinha de retalhar. José Arcadio Buendía, com a leviandade de seus dezenove anos, resolveu o problema com uma só frase: “Não me importa ter leitõezinhos, desde que possam falar.” Assim casaram-se com uma festa de banda e foguetes que durou três dias. [...] engendrar: dar origem a; gerar. iguanas: lagartos. Ulf Andersen/Hulton Archive/Getty Images MÁRQUEZ, Gabriel García. Cem anos de solid‹o. Rio de Janeiro: Record, 2003. p. 24-26. Gabriel García Márquez Escritor e jornalista, Gabriel García Márquez (1927-2014) nasceu em Aracataca, na Colômbia. Em 1967, publicou Cem anos de solid‹o, uma das obras mais importantes da literatura latino-americana. O romance, cujo sucesso foi imediato, está até hoje entre os livros mais lidos e traduzidos no mundo. Considerado um dos maiores escritores do século XX, foi homenageado com o prêmio Nobel de Literatura em 1982. Foto de 1991. 222 1. A histórica destruição de Riohacha pelo corsário inglês Francis Drake desencadeia, na narrativa ficcional, o desequilíbrio mental da bisavó de Úrsula Iguarán e o consequente deslocamento da família para uma aldeia na encosta da serra, onde se estabelecerão, primeiro, as relações comerciais e, depois, os laços de parentesco entre os Iguarán e os Buendía. Não escreva no livro. 1. Em Cem anos de solidão, é possível observar uma ideia de mundo em suas mais diversas dimensões: histórica, política, social e psicológica. Os dramas vividos pelos diferentes personagens não se restringem ao universo ficcional, eles se ligam à própria história da América Latina. Releia os verbetes do glossário e responda: No trecho lido, que relação se estabelece entre a história latino-americana e as experiências vivenciadas pelos personagens? 2. Na literatura, o realismo mágico é uma forma de ficção em que a interferência de acontecimentos extraordinários, sobrenaturais e mágicos é apresentada de modo realista, como se não contradissesse a razão. Cem anos de solidão é um dos grandes exemplos dessa forma de ficção. No fragmento em estudo, que fato ou acontecimento na narrativa atesta a existência de um ser humano com presença do realismo mágico no romance? A um rabo de porco. 3. Tal como em Os Maias, o incesto é um tema central em Cem anos de solidão. As sucessivas gerações partem de um casamento consanguíneo (de Úrsula e José Arcádio, primos entre si), enredando uma trama que, muitos anos depois, é finalizada com o nascimento de um menino que tem rabo de porco, fruto da união amorosa entre tia e sobrinho. a) No fragmento em estudo, o incesto ocorre em uma circunstância diferente da que se dá em Os Maias. Em que consiste essa diferença? b) Discuta com os colegas e o professor e, depois, registre a resposta no caderno: O incesto é um tabu, ou seja, uma interdição de comportamento social presente há milênios em muitas culturas. Em Os Maias e em Cem anos de solidão, que sentimentos e imagens expressam esse tabu? Consulte a resposta da atividade 3, item b, nas Orientações específicas do Anamaria Mejia/Shutterstock Manual do Professor. 3. a) Enquanto Úrsula e José Arcadio, que são primos, sabem de suas relações de sangue, Maria Eduarda e Carlos, que são irmãos, ignoram seu parentesco. Fachada do Museu Gabriel García Márquez, Aracataca, Colômbia, 2024. 223 Língua e linguagem BN CC Modalização e impessoalização da linguagem Competências gerais da Educação Básica: 1, 2, 7 Competências específicas da área de Linguagens: 1, 4, 6 Habilidades específicas da área de Linguagens: EM13LGG103, EM13LGG202, EM13LGG401, EM13LGG601, EM13LGG604 Foco no texto Podcast Transcrição de áudio Neste capítulo, você estudou o romance Os Maias, de Eça de Queirós. Releia o trecho a seguir para responder às questões 1 a 3: Habilidades específicas de Língua Portuguesa: EM13LP01, EM13LP02, EM13LP03, EM13LP04, EM13LP06, EM13LP07, EM13LP38, EM13LP46, EM13LP49 1. b) Esses horrores se produziam na confusão social. A diferença é que a palavra só delimita a ocorrência dos “horrores” apenas a outros tempos (na Idade Média), ao passo que a frase sem essa palavra não dá a entender que os problemas seriam exclusivos, podendo ocorrer também em outras situações e momentos históricos. Esses horrores só se produziam na confusão social, no tumulto da Meia-Idade! Mas numa sociedade burguesa, bem policiada, bem escriturada, garantida por tantas leis, documentada por tantos papéis, com tanto registro de baptismo, com tanta certidão de casamento, não podia ser! […] E pouco a pouco aquela luz viva, saída do alto, parecia ao Ega penetrar nessa intrincada desgraça, aclará-la toda, mostrar-lhe bem a lenta evolução. Sim, tudo isso era provável no fundo! Essa criança, filha de uma senhora que a levara consigo, cresce, e amante de um brasileiro, vem a Lisboa, habita Lisboa. Num bairro vizinho vive outro filho dessa mulher, por ela deixado, que cresceu, é um homem. […] Na pequenez da Baixa e do Aterro, onde todos se acotovelavam, os dois fatalmente se cruzam: e com o seu brilho pessoal, muito fatalmente se atraem! […] Assim, o conhecerem-se era certo, o amarem-se era provável... […] 1. a) A expressão “esses horrores”, que desde o início reforça a visão negativa do personagem em relação à situação que testemunhava. 1. O início do trecho revela a visão do personagem João da Ega diante da situação que testemunhava. a) Qual expressão é utilizada na primeira frase do texto para nomear diretamente a situação analisada por João da Ega? Qual sentido é construído no texto pela escolha dessa expressão? b) Reescreva a primeira frase, eliminando a palavra só. Em seguida, compare as duas versões e deduza: Qual é a diferença de sentido entre elas? Que sentido a presença da palavra só constrói no trecho? 2. A última frase do trecho lido contém uma conclusão de João da Ega. a) Quais ações verbais aparecem nominalizadas, isto é, transformadas em substantivos nessa frase? 2. d) O fato de estarem morando em uma região pequena, onde todos se encontravam, e também o fato de ambos os personagens terem um “brilho pessoal”. 2. a) As ações de “conhecerem-se” e de “amarem-se”. Comente com os estudantes que a presença do artigo o antes das formas verbais é o que permite a leitura delas como substantivos no contexto. 224 Língua e linguagem b) Qual das ações indicadas por você no item a é tomada por ele como uma possibilidade, uma perspectiva favorável? Identifique a palavra da ação de “amarem-se”, tomada como possibifrase que justifica a sua resposta. A lidade pela palavra provável. c) Qual das ações indicadas por você no item a é tomada por ele como um acontecimento que não poderia ser evitado? Identifique a palavra da frase que justifica a sua resposta. d) Explique quais fatos permitem a João da Ega chegar a essa conclusão. 3. Foram usadas nesse trecho algumas formas verbais conjugadas no presente do indicativo. 2. c) A ação de “conhecerem-se” é tomada como um acontecimento que não poderia ser evitado: tal sentido é expresso pela palavra certo. Não escreva no livro. a) Indique quais são essas formas verbais e deduza: Elas se referem a acontecimentos do presente ou do passado em relação à reflexão de João da Ega? Cresce, vem, habita, vive, é, “se cruzam”, “se atraem”. Elas se referem a acontecimentos passados em relação à reflexão do personagem. b) Troque ideias com os colegas e o professor: Qual efeito de sentido o emprego desse tempo e desse modo verbal constrói no contexto? Em que medida esse efeito de sentido contribui para a conclusão final de João da Ega? Consulte a resposta da atividade 3, item b, nas Orientações específicas do Manual do Professor. Agora releia este outro trecho para responder às questões 4 a 6. Na carruagem, através do Aterro, a ansiosa interrogação do Ega a si mesmo foi — “que hei de fazer?” […] E antevendo com terror todas as angústias em que essa revelação ia lançar o homem que mais estimava no mundo — a sua instintiva ideia foi guardar para sempre o segredo, deixá-lo morrer dentro em si. Não diria nada; o Guimarães sumia-se em Paris; e quem se amava continuava a amar-se!... Não criaria assim uma crise atroz na vida de Carlos — nem sofreria ele, como companheiro, a sua parte dessas aflições. […] 4. A pergunta em destaque, além de revelar uma dúvida que aflige o personagem, permite inferir outro sentimento dele. Identifique esse sentimento, bem como a palavra que o sugere. A presença da forma verbal hei, do verbo haver, permite inferir um sentimento de dever, de obrigação, como se o personagem quisesse saber não apenas o que fazer, mas o que deveria fazer, isto é, qual atitude seria esperada dele, considerando sua relação com os envolvidos. 5. Compare a reescrita da frase a seguir com a frase do texto original: E antevendo as angústias em que essa revelação ia lançar o homem que estimava — a sua ideia foi guardar o segredo, deixá-lo morrer. Foram suprimidos os termos e expressões a) Quais termos e expressões foram suprimidos na reescrita? “com terror”, “todas”, “mais”, “no mundo”, “instintiva”, “para sempre”, “dentro de si”. b) Troque ideias com os colegas e o professor e explique a diferença de sentido entre o texto original e a reescrita. Os termos extraídos do texto na reescrita conferem ao texto original um maior detalhamento da percepção do personagem em relação à situação na qual se encontra, acentuando seu conflito interior. 6. Observe as formas verbais empregadas nos dois últimos períodos do trecho. a) Identifique-as e dê os tempos do modo indicativo nos quais elas foram conjugadas. Diria, criaria, sofreria: futuro do pretérito; sumia-se, se amava, continuava: pretérito imperfeito; amar-se: infinitivo. b) Qual dos tempos verbais identificados por você no item a sobressai no contexto? Explique o efeito de sentido construído com essa escolha. Sobressai o futuro do pretérito, indicando que o enunciador não se compromete totalmente com o conteúdo enunciado, pois se trata de uma possibilidade imaginada pelo personagem. Reflexões sobre a língua Sempre que produzimos um texto, oral ou escrito, menos ou mais formal, manifestamos, de forma explícita ou não, nosso ponto de vista em relação ao tópico sobre o qual falamos. Até mesmo a seleção das palavras e a combinação delas dão indícios de nossa avaliação pessoal sobre os assuntos abordados e do quanto entendemos deles ou desejamos construí-los como certos e verdadeiros, mesmo que todas essas escolhas não sejam conscientes ou propositais. O uso de recursos linguísticos para construir o grau de comprometimento do falante com aquilo que diz, bem como sua avaliação sobre o conteúdo do que diz, é chamado modalização. Língua e linguagem 225 Modalização é um conjunto de procedimentos enunciativos por meio dos quais o enunciador evidencia o ponto de vista assumido sobre o conteúdo enunciado, seu grau de comprometimento com o que diz e sua relação com os interlocutores. O grau de comprometimento está associado ao valor de verdade e ao grau de certeza que o enunciador mostra ter diante do conteúdo do texto produzido. No trecho do texto estudado de Eça de Queirós, a escolha das palavras e estruturas textuais empregadas no desenvolvimento da reflexão de João da Ega contribui para construir a imagem do personagem, bem como a avaliação que este faz dos fatos narrados. Ao afirmar, por exemplo, que “esses horrores só se produziam na confusão social”, é revelado um pensamento inicial do personagem em relação ao funcionamento da sociedade e, logo em seguida, após um momento de reflexão, o mesmo personagem refuta sua ideia inicial ao concluir que “Sim, tudo isso era provável no fundo”. Além disso, ao contrapor supostas certezas (“Não podia ser”, “era certo”) a possibilidades que já se mostravam realidade (“era provável”), são reforçados os equívocos e a negação do personagem em relação aos fatos testemunhados. Ao empregar formas verbais no presente do indicativo, como cresce, vem, habita, vive, o narrador constrói afirmações categóricas, delimitando e definindo de forma contundente as ações dos personagens e dando maior dinamismo a elas. Em contrapartida, ao utilizar formas verbais como diria, criaria e sofreria, em vez de dirá, criará e sofrerá, o narrador constrói, no pensamento do personagem, o sentido de hipóteses, de possibilidades que não necessariamente vão se realizar. Já o emprego de expressões adverbiais e adjetivas, tais como “com terror”, “mais [estimava] no mundo”, “instintiva” e “para sempre”, entre outras, dão indícios da avaliação do personagem sobre a situação vivida. No trecho em estudo, é possível, portanto, perceber efeitos de modalização no discurso do narrador, os quais nos permitem apreender diversas nuances do texto. A modalização apreciativa refere-se ao uso, principalmente, de adjetivos, locuções adjetivas, advérbios, locuções adverbiais e orações adjetivas e adverbiais, que caracterizam e especificam objetos do discurso e mostram a avaliação do falante a seu respeito, como as expressões “ansiosa interrogação”, “crise atroz” e “homem que mais estimava no mundo”. Já a modalização epistêmica refere-se à construção do valor de verdade e às condições de verdade de uma proposição, como se pode verificar na contraposição de frases como “no bairro vizinho vive o outro filho dessa mulher” e “não diria […], não criaria”: enquanto o uso da forma verbal vive, no tempo presente do modo indicativo, constrói um efeito de verdade e certeza para o fato narrado, o uso do tempo futuro do pretérito do modo indicativo nas formas verbais diria e criaria constrói um valor de hipótese, suposição, para o fato narrado. Na modalização deôntica, por sua vez, o enunciador indica o conteúdo do seu discurso como algo que tem (ou não) obrigatoriedade de ocorrer. Observe: Tudo isso era provável. [probabilidade] O conhecerem-se era certo [...]. [certeza] [...] que hei de fazer? [obrigatoriedade] Além das estratégias de modalização, você pôde observar, ao comparar as visões do personagem e do narrador no emprego do discurso indireto livre, que há determinadas construções linguísticas e escolhas lexicais que contribuem para a impessoalização da lin- 226 Língua e linguagem Não escreva no livro. guagem de um texto. Quando um texto não contém marcas da 1a pessoa ou termos que denotam opinião ou ponto de vista, consideramos que se trata de uma linguagem que tende à impessoalidade. Já o emprego da 1a pessoa, por sua vez, indica uma visão mais subjetiva do referido fato, tal como se vê na pergunta do personagem no trecho lido: “que hei de fazer?”. Estratégias de impessoalização da linguagem são recursos linguísticos que contribuem para minimizar, no texto, o envolvimento do enunciador com o conteúdo que ele enuncia. APLIQUE O QUE APRENDEU Leia os títulos de matérias jornalísticas a seguir e os respectivos subtítulos. Depois, responda às questões 1 a 4. Título 1 Prêmio Jabuti anuncia mudanças e homenagem a Conceição Evaristo Categorias Infantil e Juvenil foram separadas e de formação de novos leitores foi ampliada VEJA. São Paulo, 16 maio 2019. Disponível em: https://tedit.net/zhnje3. Acesso em: 16 set. 2024. Título 2 Conceição Evaristo e Fernanda Young estão entre os destaques do prêmio Jabuti Confira a lista com os ganhadores da 61a edição ESTADO de Minas. Belo Horizonte, 29 nov. 2019. Disponível em: https://tedit.net/l5u88e. Acesso em: 16 set. 2024. Título 3 Escritora Conceição Evaristo será homenageada no prêmio Jabuti A mineira Conceição Evaristo é um ícone do movimento negro brasileiro CORREIO Braziliense. Diversão e arte. Brasília, DF, 2 nov. 2019. Disponível em: https://tedit.net/ha829f. Acesso em: 16 set. 2024. Título 4 “Fico feliz que minha visibilidade sirva como um momento de pensar a visibilidade para a autoria negra” Conceição Evaristo é a grande homenageada do prêmio Jabuti, no próximo dia 28 de novembro O ESTADO de S. Paulo. São Paulo, 22 nov. 2019. Disponível em: https://tedit.net/pvo432. Acesso em: 22 out. 2024. Língua e linguagem 227 1. b) O título 2 é posterior, pois seu subtítulo informa que a notícia contém a lista dos ganhadores; os demais são anteriores, o que se comprova pelos trechos que indicam uma projeção futura, como “anuncia mudanças”, “será homenageada” e “no próximo dia 28”. 1. Todos os títulos se referem a um mesmo fato. a) Qual é esse fato? A homenagem feita pelo prêmio Jabuti à escritora Conceição Evaristo. b) Deduza: Quais dos títulos são de notícias anteriores ao fato e qual é de uma notícia posterior? Justifique sua resposta com termos dos textos. 2. Observe as formas verbais em destaque nos títulos e subtítulos das notícias. a) Identifique aquelas que constroem um efeito de sentido de certeza, de verdade incontestável. Em seguida, levante hipóteses: Qual é a importância desse efeito para um título de notícia? Consulte a resposta da atividade 2, item a, nas Orientações específicas do Manual do Professor. b) Qual delas foi empregada no tempo presente, mas faz referência a um fato passado? Justifique sua resposta. A forma verbal estão, pois ela faz referência aos destaques do evento depois que ele já havia ocorrido. c) Qual delas evidencia explicitamente o ponto de vista do enunciador? a Justifique sua resposta. A forma verbal fico, empregada na 1 pessoa do singular e, portanto, inserindo no texto o eu que enuncia. d) Qual delas interpela diretamente o leitor? Justifique sua resposta. A forma verbal confira, que, no modo imperativo, faz uma sugestão direta ao interlocutor. 3. Observe a estrutura de cada um dos títulos. a) Explique o emprego de aspas no título 4. As aspas indicam que o título é parte de uma fala da pessoa homenageada: Conceição Evaristo. b) Qual dos títulos está na voz passiva? Troque ideias com os colegas e o professor: O agente da ação verbal está explicitado? Justifique sua resposta. c) No caderno, estabeleça a correspondência entre os títulos das notícias e os itens que melhor descrevem cada um deles. 3. b) O título 3. Abra a discussão com os estudantes: como a preposição utilizada foi em (“no prêmio Jabuti”), o agente da ação verbal não está explicitado nessa manchete, embora seja possível inferir, com base no conteúdo das outras manchetes, que se trata do próprio prêmio, isto é, das pessoas responsáveis pela premiação. I. Dá destaque à premiação e às suas categorias Título 1. II. Dá destaque ao ponto de vista da pessoa homenageada. Título 4. III. Dá destaque ao nome da pessoa homenageada. Título 3. IV. Dá destaque ao que ocorreu na premiação. Título 2. Zanone Fraissat/Folhapress 4. Há algumas palavras utilizadas nos títulos e subtítulos das notícias que evidenciam um posicionamento de seus autores em relação ao fato mencionado. a) Os títulos 1 e 2 explicitam quem é Conceição Evaristo? Troque ideias com os colegas e o professor: É possível inferir, pelo contexto, quem seja ela? Não. Abra a discussão com a turma: para quem conhece o prêmio Jabuti, seria possível inferir apenas que se trata de uma escritora. b) Que expressões são utilizadas nos subtítulos 3 e 4 para descrever Conceição Evaristo? Elas indicam que o enunciador tem uma visão positiva ou negativa da homenageada? Justifique sua resposta. A escritora Conceição Evaristo na Bienal do Livro de São Paulo, em 2024. c) Os títulos e subtítulos 3 e 4 fornecem uma informação sobre a homenageada que não pode ser identificada nos títulos e subtítulos 1 e 2. Identifique essa informação e explique a relevância dela no contexto. Os títulos e subtítulos 3 e 4 revelam que Conceição Evaristo é uma autora negra atuante no movimento negro brasileiro e que se preocupa em dar mais visibilidade a ele. Trata-se de 5. Leia os títulos imaginários a seguir. uma informação relevante porque dá destaque a esse movimento, como pretende a autora. 4. b) As expressões “Escritora mineira”, “ícoI. Prêmio Jabuti anuncia duas mudanças nas categorias de premiação e ne do movimento negro brasileiro” e “grande homenageada do prêmio Jabuti”. As duas últiuma homenagem a Conceição Evaristo mas indicam que o enunciador tem uma visão positiva da homenageada e do prêmio espe- II. Prêmio Jabuti anuncia que vai mudar duas categorias de premiação e cial por ela recebido, pois considera que ela seja uma figura importante e emblemática. homenagear Conceição Evaristo 228 Língua e linguagem 5. b) Em ambas as reescritas, o acréscimo do termo duas especifica melhor as mudanças. Além disso, na primeira, a palavra uma também contribui para detalhar mais a homenagem, ao passo que, na segunda, a referência às ações por meio das formas verbais em “que vai mudar [...] e homenagear” explicita que o responsável pelas mudanças e pela homenagem é o prêmio Jabuti. Não escreva no livro. Troque ideias com os colegas e o professor: a) Esses títulos são propostas de reescrita de qual dos títulos em estudo? Do título 1. b) Que diferença de sentido as substituições geram no título original em cada um dos casos? 6. Releia as construções a seguir. 6. b) Na segunda construção, o adjetivo grande expressa um ponto de vista do enunciador, pois evidencia uma percepção pessoal sobre a importância da homenagem ou do prêmio especial recebido e, por extensão, da homenageada. Categorias Infantil e Juvenil foram separadas [...] Conceição Evaristo é a grande homenageada [...] [...] um momento de pensar a visibilidade para autoria negra b) Compare a função dos adjetivos identificados por você em cada uma das construções e conclua: Qual deles evidencia um ponto de vista do enunciador em relação à palavra a que o adjetivo se refere? Lawrey/Shutterstock a) Identifique os adjetivos empregados em cada uma dessas construções. Infantil, Juvenil, grande, negra. c) Qual é a função dos adjetivos nas demais ocorrências? 7. Alguns dos títulos que você leu são mais impessoais, enquanto outros são mais pessoais. Considerando suas respostas às questões anteriores, troque ideias com os colegas e o professor e, no caderno, estabeleça uma relação entre os títulos lidos, do mais pessoal para o mais impessoal. Justifique sua resposta. Consulte a resposta da atividade 7 nas Orientações específicas do Manual do Professor. Estratégias de impessoalização 6. c) Nas demais ocorrências, os adjetivos modificam o nome a que se referem de forma mais objetiva, indicando particularidades que independem do enunciador, como categoria relativa a livros escritos para crianças e para jovens e autoria atribuída a pessoas negras. Você pôde observar que, quando um texto não contém marcas da 1a pessoa e, aparentemente, descreve fatos e situações de forma mais objetiva, sem imprimir de forma explícita o envolvimento pessoal do autor do texto e sem estabelecer um diálogo direto com o leitor, consideramos que nele prevalece uma linguagem que tende à impessoalidade. Na maioria dos títulos de notícias analisados anteriormente, há essa tendência, em construções como “Categorias Infantil e Juvenil foram separadas” e “Conceição Evaristo e Fernanda Young estão entre os destaques”. Construções na voz passiva, como “Escritora Conceição Evaristo será homenageada no prêmio Jabuti”, também imprimem um caráter impessoal ao texto, uma vez que omitem o responsável pela ação verbal. Isso também ocorre por meio do emprego de nominalizações e da ausência de artigos definidos ou de palavras determinantes, como em “Prêmio Jabuti anuncia mudanças e homenagem a Conceição Evaristo”. Já o emprego da 1a pessoa denota uma visão mais subjetiva dos acontecimentos narrados, como você pôde ver ao analisar, neste capítulo, trechos do romance Os Maias. É o que também ocorre na construção “Fico feliz”, presente em uma das manchetes estudadas. Assim, entre os possíveis recursos que podem ser empregados como estratégias de impessoalização da linguagem, podemos citar: • o emprego da voz passiva, de verbos no infinitivo e de construções com sujeito indeterminado, que possibilitam a omissão do responsável pela ação verbal; • a nominalização e a ausência de artigos definidos, que permitem maior generalização; Língua e linguagem 229 • o uso do presente do indicativo, que constrói a ideia de verdade atemporal, sem que o autor precise explicitamente se comprometer com as informações do texto; • a referência a vozes de autoridade, que dão credibilidade ao que é dito. Essas estratégias, ao construir a ideia de impessoalização e generalização, contribuem para que o texto se destine a um público leitor mais amplo e para que seu conteúdo seja interpretado como uma verdade permanente ou como um conhecimento compartilhado por todos. Texto e enunciação Will Leite/Acervo do Cartunista Os quadrinhos a seguir constroem o efeito de humor com base na relação entre as partes verbal e não verbal. Leia-os para responder às questões 1 a 3. LEITE, Will. Will tirando, [s. l.], 23 jul. 2016. Disponível em: https://tedit.net/tlmz7z. Acesso em: 11 out. 2024. 1. Observe as frases da parte superior dos quadrinhos. a) Deduza: Que tipo de situação social elas simulam? Um diálogo entre duas pessoas que estão fazendo as pazes após uma briga. b) Por que as frases estão entre aspas? Porque não se trata da voz de um narrador na tira, mas sim de dois personagens conversando. 230 Língua e linguagem Não escreva no livro. c) Considerando apenas as frases dessa parte superior do 2o e do 4o quadrinhos, isoladamente, que tipo de relação o enunciador parece construir com o próprio discurso? Copie os itens corretos no caderno. I. Dúvida. III. Afirmação. V. Negação. II. Projeção futura. IV. Possibilidade. VI. Certeza. III (afirmação) e VI (certeza). 2. As partes verbal e não verbal no fundo branco dos quadrinhos podem ser consideradas uma representação metafórica do sentimento de uma das pessoas que participam do diálogo. Com base em qual ação, de qual área do conhecimento, essa representação foi construída? Com base na área da informática, por meio da ação de se criar uma pasta no computador para salvar novos arquivos. 3. No último quadrinho foram empregadas expressões informais. As expressões “jogar na cara” e vacilo, que no a) Identifique-as e comente o sentido delas no contexto. contexto têm o sentido de “acusar”/“achacar” e “erro”/“deslize”, respectivamente. b) Que sentido é construído no texto com o uso dessa variedade? O uso de termos informais pode fazer com que os leitores se sintam mais próximos do texto. Além disso, por se referirem a uma situação cotidiana e passional vivida por muitas pessoas, essas expressões informais tornam o texto mais verossímil. 4. Identifique a relação entre o conteúdo do fundo amarelo e o conteúdo do fundo branco em cada quadrinho. a) Qual das opções a seguir descreve melhor a relação entre eles? I. Acordo e conciliação. III. Complementaridade e concordância. II. Contradição e oposição. IV. Fragmentação e discordância. Os estudantes devem assinalar a opção II. b) Conclua: Que relação do enunciador com suas falas da parte amarela no 2o e no 4o quadrinhos é evidenciada pela combinação de todos os elementos que compõem o texto? A combinação desses elementos mostra que, embora esteja afirmando enfática e categoricamente que, “sim”, “com certeza”, que tudo está bem, não é de fato assim que ele pensa, pois ainda guarda mágoas e planeja se vingar futuramente caso algo 5. Leia os avisos a seguir. que considera um “vacilo” ocorra. Aviso III Reprodução/Arquivo da editora Aviso II Reprodução/Loja Viária Reprodução/Arquivo da editora Aviso I Reprodução/Arquivo da editora 5. a) No acesso a locais que tenham piscinas (para que os usuários os vejam antes de nelas entrar). Os avisos têm a finalidade de estimular os banhistas a tomar uma ducha antes de entrar na água. Aviso V Reprodução/Arquivo da editora Aviso IV a) Deduza: Onde esses avisos devem ter sido colocados e qual é a sua finalidade? b) Quais deles interpelam diretamente o interlocutor? Justifique sua resposta com termos do aviso. Os avisos I e IV, que utilizam as formas imperativas de 3a pessoa “não esqueça” e use, em referência direta ao interlocutor, você. c) Qual deles utiliza uma forma infinitiva com valor de imperativo? Justifique sua resposta. O aviso V, que utiliza a expressão “Favor tomar” no lugar de “Tome”. d) Troque ideias com os colegas e o professor e sugiram uma ordenação dessas placas, começando por aquela que dá a ordem mais direta e imperativa e terminando com a que modaliza mais a ordem, isto é, que o faz de forma mais indireta e polida. Consulte a resposta da atividade 5, item d, nas Orientações específicas do Manual do Professor. Língua e linguagem 231 Produção de texto BN CC Artigo de opinião Competências gerais da Educação Básica: 1, 4, 5, 7, 9, 10 Foco no gênero Competências específicas da área de Linguagens: 1, 2, 3 No mundo em que vivemos, com frequência temos de nos posicionar sobre certos temas polêmicos que circulam socialmente. Por exemplo: Os médicos têm o direito de interromper o tratamento de um paciente em estado terminal? Os conteúdos dos programas de televisão e de rádio, de sites e blogues devem ser submetidos a algum tipo de controle? Os governos têm o direito de invadir a privacidade dos internautas com o pretexto de fazer investigações policiais? As redes sociais devem ser controladas? Habilidades específicas da área de Linguagens: EM13LGG101, EM13LGG102, EM13LGG104, EM13LGG201, EM13LGG202, EM13LGG203, EM13LGG204, EM13LGG301, EM13LGG302, EM13LGG303, EM13LGG304, EM13LGG401, EM13LGG402, EM13LGG701, EM13LGG702 Habilidades específicas de Língua Portuguesa: EM13LP01, EM13LP02, EM13LP06, EM13LP15, EM13LP27, EM13LP36, EM13LP40, EM13LP41, EM13LP43, EM13LP45 Para responder a essas e a outras questões, são publicados em jornais, revistas, sites, blogues e redes sociais artigos de opinião, nos quais os autores expressam seu ponto de vista sobre certos temas. Leia este artigo de opinião. Quantos likes vale a revolta? Prender-se somente ao que agrada fragiliza e esvazia o discurso Nos últimos anos temos nos deparado com um esvaziamento de conceitos transformadores. Há uma tentativa de tornar superficial para que se retire o potencial revolucionário de lutas importantes. Por exemplo, em vez de se dizer que empoderamento é organização coletiva para transformação social, vemos propagandas vendendo empoderamento ligando-o ao consumo. Não quero ser aquela pessoa que dita as coisas, nem a chata nostálgica. Entendo que é preciso, para muitos, ganhar dinheiro com as redes. Porém é preciso conhecer o caminho percorrido por aquelas que nos antecederam. Aprender com mulheres que desafiaram seu tempo e construíram um legado e chão batido para que outras pudessem caminhar. Com as redes sociais, muitas pessoas querem falar sobre tudo, sem necessariamente ter compromisso ou base para isso. Daí vemos o movimento feminista ser uma espécie de “lifestyle”: ativistas comprando seguidores, temas importantes sendo tratados de forma superficial. Do mesmo modo, não há espaço para o diálogo e a criticidade, mas para frases feitas, concordância absoluta sob o risco de “cancelamento”, ofensas e hostilidade. Com isso, podemos cair num discurso raso que tende somente a agradar, mesmo quando pretendíamos falar sobre assuntos espinhosos. A preocupação com curtidas se torna maior do que o compromisso com a verdade. Em “Erguer a Voz” [ed. Elefante, 376 págs.], 232 Pr od uç ão de te xt o Não escreva no livro. a feminista negra Bell Hooks traz um alerta muito importante sobre a necessidade de estabelecer diálogos com o público com o qual se fala — falar com, e não falar para. Ao ouvir as respostas, segundo Hooks, é possível compreender se nossas palavras agem para resistir, transformar e realmente mudar. “Em uma cultura consumista na qual somos todos levados a acreditar que o valor de nossa voz não é determinado pela sua capacidade de desafiar ou possibilitar uma reflexão crítica, mas pelo nível em que é apreciada [às vezes até por nós], é difícil manter uma mensagem libertadora. É difícil manter um senso de direção, uma estratégia para a fala libertadora, se não desafiamos constantemente esses padrões de valorização”, afirma Hooks. Prender-se somente ao que agrada, para não perder seguidores, fragiliza e esvazia o discurso. Há também aqueles que falam de temas pretensamente transformadores, mas que em nada incomodam o status quo. Geralmente, essas pessoas usam muitos pontos de exclamação na frase, falam com muita ênfase pseudorrevoltada, mas o conteúdo em si não desafia; ao contrário, só serve para inflar o ego. É uma espécie de firula, uma revolta enganadora que pode impressionar os desatentos. [...] O movimento feminista [...] é um movimento político por libertação. Como afirma Amelinha Teles, ser feminista é assumir uma postura incômoda. Lembro de ter sido agredida verbalmente muitas vezes por apresentar pontos discordantes de uma questão e provocar o dissenso. Já me irritei muito com isso, até internalizar que “é preciso entender que a voz libertadora irá necessariamente status quo: condição confrontar, incomodar, exigir que ouvintes até modifiquem as ma(de alguém ou de neiras de ouvir e de ser”. algo) aos olhos do “É importante para aqueles que permanecem em solidariedade conosco compreender que encontrar uma voz é parte essencial da luta libertadora — um ponto de partida necessário para o oprimido, o explorado —, uma mudança em direção à liberdade. Aquela conversa que nos identifica como descompromissados, sem consciência crítica — que significa uma condição de opressão e exploração —, é absolutamente transformada quando nos engajamos em uma reflexão crítica e quando agimos para enfrentar a dominação. Só estamos preparados para lutar pela liberdade quando essa base está estabelecida.” grupo humano em que vive. firula: rebuscamento da fala para enunciar algo simples. Rawpixel.com/Shutterstock Só a partir de uma reflexão crítica honesta e profunda sobre a sociedade, a relação entre dominados e subalternizados e as estruturas de opressão, é que podemos avançar para uma prática transformadora. Por mais que precisemos pagar nossas contas, não podemos perder a coerência política. Djamila Ribeiro Mestre em filosofia política pela Unifesp e coordenadora da coleção de livros Feminismos Plurais. RIBEIRO, Djamila. Quantos likes vale a revolta? Folha de S.Paulo, São Paulo, 6 mar. 2020. Disponível em: https://tedit.net/kfilsa. Acesso em: 16 set. 2024. Pr od uç ão de te xto 233 4. b) A de que é preciso estabelecer “diálogos com o público com o qual se fala — falar com, e não falar para” — e encontrar sua própria voz, seu posicionamento, para não se abalar quando alguém divergir de sua opinião. Isabella De Maddalena/Agence Opale/ Alamy/Fotoarena 1. Após o texto do artigo de opinião, há informações a respeito da autora. a) Qual é a relação entre essas informações e o tema abordado no A autora discute como conceitos sociais e ideológicos, principalmente ligados ao artigo? feminismo, são tratados em redes sociais, o que está relacionado ao fato de ela ser mestre em Filosofia e coordenadora de uma coleção de livros sobre feminismo. b) Troque ideias com os colegas e o professor: Qual é a relevância de termos informações pessoais e profissionais do autor de um texto de opinião? Consulte a resposta da atividade 1, item b, nas Orientações específicas do Manual do Professor. 2. A autora introduz o tema e seu ponto de vista sobre ele por meio de uma Djamila Ribeiro apresentação breve e direta. A autora nasceu em Santos em 1980. É professora de Filosofia, escritora e coordenadora da iniciativa Feminismos Plurais. É professora da PUC-SP, membro da Academia Paulista de Letras e colunista do jornal Folha de S. Paulo. É autora de Lugar de fala (2017), Quem tem medo do Feminismo Negro? (2018), Pequeno manual antirracista (2019) e Cartas para minha av— (2021). Foto de 2023. a) Qual é o tema do artigo de opinião lido? O esvaziamento de conceitos e seu tratamento superficial hoje em dia nas redes sociais. b) Qual é o ponto de vista da autora sobre o tema? Ela defende que há uma tentativa de tornar esses conceitos superficiais para retirar o potencial revolucionário de lutas que ela considera importantes. 3. Para defender seu ponto de vista e iniciar sua argumentação, a autora apresenta um exemplo no segundo parágrafo e, no terceiro parágrafo, refuta um possível contra-argumento ao exemplo dado. exemplifica com o conceito de empoderamento, usado em proa) Qual é o exemplo? Ela pagandas para vender produtos. b) Qual é o contra-argumento que a própria autora levanta a respeito de contra-argumento de que algumas pessoas precisam ganhar seu posicionamento? O dinheiro com as redes sociais. c) Como a autora refuta esse contra-argumento?Ela afirma que, com as redes sociais, muitas pessoas querem falar sobre tudo, sem necessariamente ter compromisso ou base para isso, e que o movimento feminista, por exemplo, pode passar a ser usado para comprar seguidores. 4. A articulista, para desenvolver sua argumentação, apoia-se nas ideias de uma obra específica. a) Qual é a obra e quem é a autora? Erguer a voz, de Bell Hooks. b) Qual é a principal tese da obra citada, segundo a articulista? c) Qual é a importância, para a construção do texto, de citar as ideias dessa autora? As ideias dessa autora servem como argumentos de autoridade para desenvolver o tema tratado. 5. Num texto de opinião, o autor geralmente fundamenta seu ponto de vista em verdades e opiniões (leia o boxe “Fato, verdade e opinião”). Identifique no texto: “vemos propagandas vendendo empode- a) exemplos de fatos que podem ser facilmente comprovados; ramento ligando-o ao consumo”; “Com as redes sociais, muitas pessoas querem falar sobre tudo, sem necessariamente ter compromisso ou base para isso”. b) opiniões da autora. Entre outras possibilidades: “podemos cair num discurso raso que tende somente a agradar”, “Prender-se somente ao que agrada, para não perder seguidores, fragiliza e esvazia o discurso”. 6. Releia estes trechos do texto: • Daí vemos o movimento feminista ser uma espécie de “lifestyle”: ativistas comprando seguidores, temas importantes sendo tratados de forma superficial. • Com isso, podemos cair num discurso raso que tende somente a agradar, mesmo quando pretendíamos falar sobre assuntos espinhosos. A preocupação com curtidas se torna maior do que o compromisso com a verdade. • Prender-se somente ao que agrada, para não perder seguidores, fragiliza e esvazia o discurso. Há também aqueles que falam de temas pretensamente transformadores, mas que em nada incomodam o 6. a) Nesses trechos, a autora não emprega a 1a pessoa do singular (eu), mas, sim, a 1a pessoa do plural (nós), status quo. a 3a pessoa do singular e formas verbais mais impessoais (como o verbo haver e o infinitivo prender-se no terceiro trecho). a) Identifique as estratégias de impessoalização utilizadas pela autora nesses trechos. b) Que efeito esses recursos têm sobre o texto e sobre o seu propósito de ser convincente? 234 Eles contribuem para construir o efeito de verdade, transmitindo a ideia de que são verdades já aceitas e, assim, tornam o texto mais persuasivo. Pr od uç ão de te xt o 10. a) Grosso modo, web 2.0 designa o momento de desenvolvimento da internet em que plataformas de compartilhamento passaram a dominar o que é publicado. Entre os recursos das plataformas, está a possibilidade de interação e produção Não escreva no livro. compartilhada de conteúdo, o que tornou possível, por exemplo, as redes sociais e os fóruns de discussão. Fa to, ve rd ad e e op ini ão Nos gêneros argumentativos em geral, o autor sempre tem a intenção de convencer seus interlocutores a adotar determinado ponto de vista sobre um tema. Para isso, precisa apresentar bons argumentos: fatos relevantes que estão acontecendo ou já tenham acontecido, exemplos particulares que sejam passíveis de alguma generalização, afirmações que sejam consensualmente consideradas verdades irrefutáveis e opiniões de pessoas que sejam referência no assunto (pesquisadores, estudiosos, cientistas, profissionais da área, etc.). Consideram-se fatos situações que estão ocorrendo ou sendo noticiadas pela grande imprensa (por exemplo, um grande evento esportivo como as Olimpíadas, uma pandemia que leva milhares de pessoas à morte). Verdades irrefutáveis são afirmações universalmente aceitas porque já foram comprovadas ao longo da história (por exemplo: a Terra gira em torno do Sol, a poluição prejudica o meio ambiente e a saúde humana) e dados científicos em geral (como estatísticas, resultados de pesquisas sociais ou de laboratório). Já as opiniões são fundamentadas em impressões pessoais do autor do texto e, por isso, são mais fáceis de contestar. Os bons textos argumentativos geralmente fazem um uso equilibrado dos três tipos de argumento. 7. a) Ela argumenta que, nas redes sociais, em busca de seguidores e likes, não há espaço para o diálogo e a criticidade, o que resulta num discurso raso que tende somente a agradar, mesmo ao falar sobre assuntos complexos. 7. Num texto de opinião, a ideia principal defendida pelo autor precisa ser fundamentada com bons argumentos, isto é, com razões ou explicações. a) Que argumento de causa e consequência a autora usa para convencer o leitor de seu posicionamento a respeito do tratamento de alguns conceitos nas redes sociais? b) Um dos argumentos contrasta noções de diálogo. Explique as duas noções e a conclusão a que A autora, com base em Bell Hooks, diferencia “falar com” de “falar para”, senchega a autora com esse argumento. do que o verdadeiro diálogo seria “falar com” e escutar as respostas para entender se nossas palavras agem para resistir, transformar e realmente mudar. c) A articulista usa sua experiência pessoal como argumento. Qual é essa experiência? Ela afirma que se lembra de ter sido agredida verbalmente muitas vezes por apresentar pontos discordantes de uma questão e provocar o dissenso. 8. a) A vontade de só agradar seguidores nas redes sociais e o uso de um tom revoltado para inflar 8. Releia o seguinte trecho: o próprio ego, ou seja, gerar uma admiração por si mesmo, sem realmente tratar os conteúdos de maneira crítica. Há também aqueles que falam de temas pretensamente transformadores, mas que em nada incomodam o status quo. Geralmente, essas pessoas usam muitos pontos de exclamação na frase, falam com muita ênfase pseudorrevoltada, mas o conteúdo em si não desafia; ao contrário, só serve para inflar o ego. É uma espécie de firula, uma revolta enganadora que pode impressionar os desatentos. a) Quais são os motivos, apontados pela autora, que esvaziam discursos transformadores? b) Justifique o título do artigo de opinião com base nesse trecho. Nesse trecho, a autora fala em “ênfase pseudorrevoltada”, o que dialoga com o título do artigo, “Quantos likes vale a revolta?”, ou seja, a revolta praticada nas redes sociais não seria verdadeira, pois só serviria como meio de conquistar popularidade. 9. A conclusão é apresentada nos dois últimos parágrafos do texto. a) De quem é a voz em cada um desses parágrafos? No penúltimo, é da própria autora; no último, de Bell Hooks. b) Qual é o argumento que fecha o penúltimo parágrafo? Qual é a origem desse argumento: fato, verdade ou opinião? Mesmo precisando pagar contas, ou seja, gerar renda com a internet, é preciso ter coerência política. Esse argumento toma por base uma opinião da autora. c) Que estratégia a autora utiliza na construção do último parágrafo do texto? A autora cita novamente a obra de Bell Hooks como uma maneira de reforçar a conclusão a que chega em seu artigo. 10. O artigo de Djamila Ribeiro trata de questões e práticas de comunicação que só se tornaram possíveis graças aos recursos existentes na internet como temos atualmente: a chamada web 2.0. a) Você sabe o que é a web 2.0? Se não souber, pesquise e converse com a turma. b) De que forma Djamila problematiza os recursos da web 2.0 em seu artigo? Ela menciona o fato de que, em busca de aceitação por outros membros das redes e comunidades virtuais, as pessoas deixaram de abordar temas espinhosos e difíceis, que geram pouco engajamento e garantem poucos likes. Também menciona o processo de mercantilização da informação e o enfraquecimento do debate público. Pr od uç ão de te xto 235 13. Os estudantes deveriam perceber que o fato de a notícia e os demais conteúdos jornalísticos serem submetidos à lógica do like e do engajamento, e terem-se tornado mercadorias, impacta o que se publica: privilegia-se a publicação de conteúdos que gerem maior engajamento, em detrimento de outros que poderiam trazer importantes contribuições para o debate público e a compreensão de questões de nosso tempo. 11. Textos como artigos de opinião despertam, em geral, nos leitores o desejo de opinar publicamente sobre o tema abordado. Nos mais variados sites e ambientes virtuais midiáticos, essa interação é possível graças a recursos como o próprio like, mencionado por Djamila Ribeiro em seu artigo, ou espaços como fóruns e redes sociais diversas. O próprio artigo de opinião da escritora recebeu comentários. a) Você tem hábito de usar recursos de interação na internet para fazer comentários, curtir e compartilhar conteúdos? Costuma dar e receber muitos likes? Em que circunstâncias? Comente com os colegas. Resposta pessoal. b) Se pudesse, que comentário você postaria sobre o artigo de Djamila Ribeiro? Acesse o site em que foi publicado, localize a área de comentários e elabore um comentário sobre o texto. Responda, se desejar, a algum comentário que já lá esteja. Resposta pessoal. 12. É muito provável que você seja um utilizador ativo da internet, e que até mesmo mantenha perfis em determinados sites e redes sociais que permitem a troca de informações. a) Que tipo de conteúdo costuma comentar, curtir e compartilhar nesses ambientes? b) Com que critérios seleciona o que será curtido, comentado e compartilhado? c) Qual é a sua reação quando uma postagem que faz nesses ambientes rende muitos likes, comentários e outras reações? Como você recebe esses comentários? 12. Respostas pessoais. É importante que os estudantes percebam que os critérios de seleção deveriam levar em conta questões éticas como não disseminação de notícias falsas, de conteúdos que possam ferir direitos de outras pessoas, que atentem contra a privacidade alheia, etc. 13. Considerando suas reflexões a partir das atividades anteriores, discuta com a turma: De que forma os recursos da internet impactam a produção e a recepção de conteúdos jornalísticos atualmente? 14. Observe a linguagem do texto. a) Que variedade linguística foi empregada? Uma variedade próxima à norma-padrão. 14. b) Sim, pois o artigo foi publicado em um jornal de grande circulação nacional e seu público leitor são jovens e adultos escolarizados. Além disso, nesse gênero geralmente se emprega uma variedade de acordo com a norma-padrão formal. b) Considerando-se o tema, o veículo em que o texto foi publicado e o perfil do público leitor, pode-se considerar que a escolha dessa variedade linguística foi adequada? Por quê? c) No artigo de opinião, o autor pode se posicionar diretamente, fazendo uso de expressões como “Na minha opinião”, “Do meu ponto de vista”, etc. A autora usa desse procedimento no texto lido? Embora não faça uso de expressões desse tipo, ela se posiciona explicitamente com afirmações como “Não quero ser aquela pessoa que dita as coisas” e “Entendo que...”. 15. Com a orientação do professor, junte-se a alguns colegas para resumir as características básicas do artigo de opinião. Para isso, copiem o quadro a seguir no caderno e respondam às questões de acordo com o que perceberam do artigo de opinião em estudo ou de outros textos conhecidos. Artigo de opinião: construção e recursos expressivos Quem são os interlocutores do artigo de opinião? O autor geralmente é uma pessoa especializada no assunto abordado, e o público são os leitores em geral de jornais, revistas, sites, etc. Qual é o objetivo desse gênero textual? Defender o ponto de vista do autor sobre um assunto geralmente polêmico e de interesse da sociedade. Por onde circula? Qual é a estrutura básica do artigo de opinião? A estrutura convencional é constituída pela apresentação da ideia principal, desenvolvimento (com a exploração de argumentos) e conclusão, mas pode variar. Como são os argumentos que sustentam o ponto de vista defendido pelo autor no artigo de opinião? Eles consistem em dados concretos e afirmações consideradas verdadeiras (como consensos científicos, pesquisas, dados estatísticos e dados numéricos) e argumentos baseados na observação, no raciocínio e na lógica, entre os quais comparações, exemplos, relatos pessoais. A linguagem pode ser impessoal, utilizando-se a 3a pessoa; ou relativamente impessoal, utilizando-se a 1a pessoa do plural; ou ser pessoal, utilizando-se a 1a pessoa do singular e expressões como “na minha opinião”, “do meu ponto de vista”, etc. A linguagem é Como se caracteriza a linguagem de um artigo de opinião? 236 Em revistas, jornais, sites, blogues, podcasts e redes sociais. direta e clara, geralmente em uma variedade próxima da norma-padrão, e menos ou mais formal, dependendo do veículo em que o texto é publicado e do público-alvo. Pr od uç ão de te xt o Não escreva no livro. Hora de produzir Ao final da unidade 4, você participará com seus colegas da produção de um jornal de ciência e cultura. Nele, serão publicados e divulgados os textos produzidos pela turma. Que tal aprofundar a discussão sobre o comportamento das pessoas nas redes sociais e produzir um artigo de opinião sobre o assunto? Leia, a seguir, um texto sobre a chamada cultura do cancelamento e os dois infográficos que contêm resultados de uma pesquisa sobre o assunto. Confronte as informações e opiniões expressas nesses textos com o artigo de opinião de Djamila Ribeiro quanto às ideias e use todo esse material como referências para aguçar sua reflexão sobre o tema e, assim, ter condições de escrever seu próprio artigo com maior segurança. Antes disso, porém, faça as atividades propostas na sequência dos textos. Texto 1 Cultura do cancelamento e suas consequências jurídicas [...] Atualmente, vivemos um momento em que, caso determinada pessoa, seja ela física ou jurídica, efetue um posicionamento contrário ao que parte dos consumidores ou usuários da rede acredita ser o correto, eles passarão a promover ações para que determinado conteúdo seja retirado da Internet e a pessoa deixe de ter o seu espaço de fala ou, no caso de empresas, perca a sua lucratividade. Referida prática em alguns momentos buscou promover a diversidade, tentando conter ações que poderiam ser classificadas como preconceituosas, buscando de algum modo tornar realidade as normas de natureza programática da Constituição Federal que prevê a igualdade e o fim da discriminação. [...] A ideia original desta atividade, também chamada de “cultura do cancelamento”, era dar voz às questões sociais e ambientais. […] Contudo, cada vez mais vemos esse fenômeno se prolongando sem que exista qualquer análise acerca da possibilidade ou não deste procedimento, sem uma devida análise do conteúdo ou uma curadoria. Pessoas e contas são “canceladas” a todo momento por existir uma análise superficial de determinado fato, o qual é interpretado como ofensivo por parte da sociedade, ainda que seja visto de forma descontextualizada ou mesmo em um momento distinto do atual. Uma análise de conteúdo deveria ser realizada com um amplo entendimento do que é vivido e falado, sob pena de se classificar como uma ofensa aos direitos da personalidade e até mesmo um crime contra a honra de cada um. Inclusive da pessoa jurídica, a qual também pode ser objeto de crimes como calúnia e difamação. Para tanto, existem inúmeros exemplos. Se a história e a arte nos relembram o histórico e emblemático caso das “Bruxas de Salem”, mais atual e nacional temos o caso da Escola Base. Trata-se de um episódio em que nos anos 90 os proprietários e funcionários da referida instituição foram considerados pedófilos pela mídia e pela população após informações desencontradas e tendenciosas serem publicadas. Pr od uç ão de te xto 237 Infelizmente, essa divulgação antecipada e sem uma ampla análise do caso acabou por destruir a escola, a carreira e mudar totalmente o rumo dos acusados, que foram julgados inocentes pela justiça posteriormente. Como consequência desses casos, não apenas há o dever de reparação do Estado por seus erros na condenação e na aplicação de penalidades sem a finalização do devido processo legal, mas também devemos lembrar do dever de reparação, oriundo da responsabilidade civil, que recai sobre todo aquele que publica esse tipo de conteúdo sem se atentar para esses fatos. No caso da cultura do cancelamento, todos aqueles que presenciam o fato que acreditam que deve ser cancelado, ainda que na busca por uma “justiça social”, acabam por ofender a honra ou a imagem de alguém, colocando um conteúdo de certo modo vexatório, sem uma devida análise do caso, podem ser alvo de uma ação de reparação e serem condenados a realizar uma indenização. [...] Nos processos oriundos de tais casos quem efetuará a análise do conteúdo e da sua repercussão será um juiz, que funcionará como um curador do que está sendo difundido. Muitas vezes um processo judicial como esses poderia ser evitado se as partes realizassem a devida busca de informações, uma verdadeira curadoria do conteúdo e até mesmo o ato de empatia de entender o que ocorreu de fato. Isto porque uma busca por igualdade e dignidade da pessoa humana não pode passar dos limites e realizar uma nova violação à lei, com o intuito de se macular o direito de outrem por essa pessoa ter cometido um ilícito. Se houver uma violação de direitos para concretizar outro, não teríamos a justiça ou o Direito, mas sim uma busca por vingança. [...] SOLER, Fernanda Galera. Cultura do cancelamento e suas consequências jurídicas. Migalhas, Ribeirão Preto, 15 set. 2020. Disponível em: https://tedit.net/8qu3xp. Acesso em: 17 set. 2024. Reprodu•‹o/Globo Gente Texto 2 GLOBO Gente, São Paulo, 5 maio 2021. Disponível em: https://tedit.net/g3imd2. Acesso em: 4 set. 2024. 238 Pr od uç ão de te xt o 1. b) Ao se espalhar no mundo digital, muitas condutas são apressadamente julgadas e condenadas, sem que se leve em consideração fatores como o contexto da suposta agressão ou ato discriminatório Não escreva no livro. ou mesmo sem que as pessoas que cancelam outras tenham se informado mais profundamente sobre Texto 3 a questão ou ajam com empatia. Assim, pessoas físicas e jurídicas, mesmo inocentes, podem sofrer danos por vezes irreversíveis, e o que era um desejo de justiça se transforma em um ato de justiçamento ou mesmo de vingança. Grande parte tem noção do que essa prática pode representar – e das suas consequências. % dos que concordam totalmente ou em parte com as afirmações: 76% 76% 65% O cancelamento é um problema que pode impactar a vida das pessoas fora do ambiente digital. O cancelamento pode fazer com que as pessoas tenham medo de se expressar ou opinar sobre assuntos controversos. Cancelar pessoas é uma forma pouco eficaz para apontar erros e criticar. 65% 65% 62% A partir do momento que alguém é cancelado, é muito difícil recuperar a sua reputação. A cultura do cancelamento promove isolamento e falta de honestidade nas redes sociais. Cancelamento é uma forma socialmente aceita de bullying digital. Fonte: Tracking Sintonia com a Sociedade – Painel Online – 1500 entrevistas – População Internauta 16 anos ou mais das classes A, B e C – campo entre 9 a 12 de março de 2021 GLOBO Gente, São Paulo, 5 maio 2021. Disponível em: https://tedit.net/g3imd2. Acesso em: 4 set. 2024. 1. a) Segundo o texto, a chamada cultura do cancelamento teria nascido como um “reflexo do avanço da proteção dos direitos fundamentais, previstos na Constituição Federal”, dando voz “às questões sociais e ambientais”. 1. Sobre o texto de Fernanda Galera Soler (texto 1), responda no caderno: a) Qual é a relação entre a cultura do cancelamento e a defesa dos direitos humanos? b) Quais seriam as consequências indesejadas que a cultura do cancelamento pode ensejar, apesar de ela ter se originado na defesa dos direitos humanos? 2. O artigo de Djamila Ribeiro que você leu anteriormente também menciona os cancelamentos virtuais. Na sua opinião, a filósofa usa argumentos parecidos aos apresentados no texto 1 para se pois, segundo Djamila, como, frequentemente, “não há espaço para o diposicionar sobre a questão? Explique. Sim, álogo e a criticidade”, na ausência de “concordância absoluta” em relação a determinado tema, fica-se “sob o risco de ‘cancelamento’, ofensas e hostilidade”. 3. Em relação aos textos 2 e 3, troque ideias com os colegas e com o professor sobre as questões a seguir. a) O que você responderia se tivesse de apontar algum comportamento “merecedor” de cancelamento mencionado no texto 2? Há outro comportamento, não listado, que você acrescentaria? Se sim, qual? Resposta pessoal. b) E quanto às afirmações propostas no texto 3: Com qual ou quais delas você mais se identifica? Resposta pessoal. A seguir, apresentamos algumas ideias relacionadas aos textos lidos anteriormente. Leia-as e escolha uma delas como tema para desenvolver seu artigo de opinião. • O que você pensa sobre o comportamento das pessoas nas redes sociais? Elas podem produzir diálogos construtivos ou tudo se resume apenas a ganhar ou perder seguidores? • As redes sociais têm aumentado ou diminuído as possibilidades de diálogo? Pr od uç ão de te xto 239 • Nas redes sociais, convivemos com a diversidade ou criamos bolhas de opinião? • A busca por likes e por seguidores é uma maneira de criar vínculos, fornecer informações e gerar renda ou uma redução do diálogo e uma busca inconsequente por lucro? • É possível encontrar, em redes sociais, informações confiáveis e perfis que buscam a verdade? • O “cancelamento” é uma maneira de chamar as pessoas a suas responsabilidades sobre o que postam ou é uma nova maneira de realizar linchamentos? • O “cancelamento” é uma nova modalidade de bullying e cyberbullying nas redes sociais? • As leis e a Justiça têm um papel importante a cumprir em relação aos casos em que o “cancelamento” chega a comprometer a vida dos “acusados”, sejam eles inocentes ou culpados? • A prática do “cancelamento” supostamente é uma forma legítima e pública de punir uma pessoa por seus comentários ou suas posições. Mas quem avalia as razões do punidor? Além disso, o “cancelamento” não impediria o livre debate de ideias, como propõe Djamila Ribeiro? Planejamento do texto • Pense no perfil do seu leitor: você vai escrever para jovens como você e para adultos da comunidade escolar, que terão acesso à revista da turma. A linguagem deve estar, portanto, adequada ao gênero e ao perfil desse público leitor. • Anote as ideias e os argumentos dos textos lidos que podem ser úteis para fundamentar o ponto de vista que você pretende desenvolver. • Pense em um enunciado (uma ou mais frases) que possa cumprir o papel de introduzir o texto e, ao mesmo tempo, expressar a ideia principal que pretende defender (a síntese de seu ponto de vista) e anote-o. • Entre os argumentos que anotou, escolha aqueles que podem fundamentar de modo mais consistente a ideia principal do seu texto. Prefira qualidade e profundidade à quantidade de argumentos. Se achar conveniente, acrescente novos argumentos. • Pense na melhor forma de concluir seu texto: retomando o que foi exposto, confirmando a ideia principal ou fazendo uma citação de algum pesquisador ou de alguém relevante na área do tema em debate. Se quiser apresentar uma proposta de solução para o problema enfocado, planeje-a. Escrita • Apresente o tema e expresse a ideia principal no início do texto. • Desenvolva o texto com base nos argumentos que anotou, buscando apresentar tanto argumentos concretos — por exemplo, baseados nos infográficos lidos — quanto comparações, relatos, citações, argumentos de autoridade, etc. • De um parágrafo para outro, empregue determinadas palavras ou expressões de ordenação, combinação e contraposição de palavras de modo a garantir ao texto coesão e coerência e assegurar a continuidade das ideias. Podem ser, por exemplo, operadores como “Primeiramente”, “Em segundo lugar”, “No entanto”, “Por outro lado”, “Por último”, “Por fim”, “Finalmente”, etc. 240 Pr od uç ão de te xt o Não escreva no livro. • Pense na melhor forma de concluir seu texto: ou retomando o que foi exposto, ou confirmando a ideia principal, ou fazendo uma citação de algum escritor ou de um especialista reconhecido na área relativa ao tema, ou fazendo uma sugestão, ou apresentando uma proposta. • Considere que o artigo de opinião tem geralmente uma estrutura convencional e é escrito em uma linguagem direta e clara e em uma variedade próxima da norma-padrão. • Dê ao texto um título que desperte a curiosidade do leitor e que explicite o tema tratado. Revisão e reescrita Antes de fazer a versão final do seu artigo de opinião, releia-o, observando: • se, no início do texto, você se posiciona claramente sobre o tema; • se o texto apresenta uma ideia principal que resume o seu ponto de vista; • se a ideia principal é fundamentada com argumentos claros e consistentes; • se os argumentos são bem-desenvolvidos e aprofundados; • se a conclusão retoma e confirma o ponto de vista defendido; • se o texto como um todo é persuasivo, ou seja, mostra empenho em convencer o leitor; • se a linguagem é clara e objetiva e está em uma variedade próxima da norma-padrão da língua e com um grau de formalidade adequado ao público-alvo; • se o título dado ao texto é, além de atraente, também coerente com as ideias desenvolvidas. Hora de compartilhar: Jornal de ciência e cultura Guarde seu artigo de opinião para que possa participar do jornal a ser organizado pela turma e compartilhado com a comunidade escolar ao final da unidade 4. Avali an do os es tu do s Consulte as respostas das atividades 1 a 5 nas Orientações específicas do Manual do Professor. Você e os colegas vão retomar os objetivos indicados no início do capítulo e avaliar os estudos feitos e a trajetória percorrida, considerando questões como: 1. Édipo rei, Os Maias e Cem anos de solidão são obras que, apesar de pertencerem a lugares, tempos, autores e culturas diferentes, dialogam entre si. Explique. 2. Quais são os principais traços do romance realista de Júlia Lopes de Almeida? 3. Quais efeitos de sentido a opção por uma linguagem mais impessoal constrói em um texto? 4. Cite alguns recursos linguísticos que podem ser empregados como estratégias de impessoalização da linguagem. 5. Considerando a função social do artigo de opinião — persuadir o destinatário a respeito do ponto de vista do autor sobre determinado assunto —, o que é fundamental nesse gênero textual? Pr od uç ão de te xto 241 4 unidade PA L AV R A E M ÚS ICA Competências específicas da área de Linguagens: 1, 2, 3, 6 Habilidades da área de Linguagens: EM13LGG202, EM13LGG203, EM13LGG204, EM13LGG302, EM13LGG601, EM13LGG602 Observe as imagens e leia o texto para refletir sobre essas questões. Reprodução/M useu Van Gogh Habilidades de Língua Portuguesa: EM13LP03, EM13LP14, EM13LP46, EM13LP50, EM13LP52 íses Baixos. Competências gerais da Educação Básica: 1, 3, 7 Imagens, cores, formas, texturas e sons são elementos amplamente experimentados pelos poetas simbolistas. Que atmosfera esses elementos evocam nos poemas? Que sensações eles despertam no interlocutor? De que forma esses elementos são explorados hoje em dia e em outros movimentos artísticos? , Amsterdã, Pa BN CC O Buda (1904), de Odilon Redon (1840-1916). 242 do artista Edu Monteiro/Acervo Série Autorretrato sensorial (2009-2014), de Edu Monteiro (1972-). lembra o tempo que você sentia e sentir era a forma mais sábia de saber e você nem sabia? RUIZ, Alice. Dois em um. São Paulo: Iluminuras, 2008. 1. Sugestão de resposta: As flores coloridas, a figura de Buda, em dourado, e o fundo, em tons claros e translúcidos, evocam a espiritualidade, o sublime, o transcendente, o intemporal, sugerindo correspondências entre o material e o imaterial, o mundo físico e o espiritual. Converse com a turma 1. Buda foi um príncipe que renunciou ao trono para dedicar-se à espiritualidade. Na pintura O Buda, do artista simbolista francês Odilon Redon, que correspondências você percebe entre os elementos que compõem a imagem e a experiência que transcende a materialidade da vivência humana? Que sensações essa imagem desperta em você? 2. Em Autorretrato sensorial, que texturas a imagem evoca? Por que você acha que a figura humana tem o rosto incógnito? Que relações você vê entre O Buda e Autorretrato sensorial? 3. O poema de Alice Ruiz coloca em relevo as sensações humanas. Para você, sentir é “a forma mais sábia de saber”? Resposta pessoal. 2. Sugestão de resposta: As penas brancas evocam a sensação de maciez, suavidade. O rosto incógnito sugere que não se trata de alguém em particular, embora a imagem, intitulada autorretrato, aponte para a complexidade e a multiplicidade da identidade humana. Professor, pergunte aos estudantes: Como vocês veem as penas que formam a máscara? Qual é o significado delas? Elas fazem uma crítica à relação do ser humano com a natureza ou sugerem a ideia de voo, de transcendência? 243 C O N E CT E - S E ! Livros • A consciência do impacto nas obras de Cruz e Sousa e de Lima Barreto, de Cuti. São Paulo: Autêntica, 2009. • Melhores poemas de Alphonsus de Guimaraens, organizado por Alphonsus de Guimaraens Filho. São Paulo: Global, 2015. • Cruz e Sousa – Dante negro do Brasil, de Uelinton Farias Alves. Rio de Janeiro: Pallas, 2008. • O Simbolismo de Cruz e Sousa – Negritude, dor e satanismo, de Cristiano Lima de Reis. São Paulo: In House, 2013. • Cruz e Sousa, de Paola Prandini. Coleção Retratos do Brasil Negro. São Paulo: Selo Negro, 2011. Filmes e séries • No portal da eternidade, de Julian Schnabel. Estados Unidos, 2018 (110 min). 12 anos. • Com amor, Van Gogh, de Dorota Kobiela e Hugh Welchman. Reino Unido e Polônia, 2017 (95 min). 12 anos. • Moulin Rouge, de Baz Luhrmann. Austrália e Estados Unidos, 2001 (126 min). 12 anos. Músicas Sites As obras de Cruz e Sousa, que são de domínio público, podem ser encontradas na internet. Pinturas Entre os pintores que passaram pelo Simbolismo estão o francês Paul Gauguin (1848-1903), o norueguês Edvard Munch (1863-1944), o austríaco Gustav Klimt (1862-1918) e a mexicana Frida Kahlo (1907- 1954). Já entre os impressionistas estão os franceses Édouard Manet (1832-1883), Claude Monet (1840-1926), Pierre-Auguste Renoir (1841-1919) e o pós-impressionista holandês Vincent van Gogh (1853-1890). Esculturas O principal escultor do final do século XIX foi o francês Auguste Rodin (1840-1917), que recebeu influência do Realismo, do Simbolismo e do Impressionismo. Reprodução/Museu de Arte Moderna, Cidade do México, México. Na época do Simbolismo literário, o destaque na música foram os compositores impressionistas de música clássica. Em um navegador de sua preferência, pesquise canções dos franceses Claude Debussy (1862-1918) e Maurice Ravel (1875-1937), do inglês Ralph Vaughan Williams (1872-1958) e do italiano Ottorino Respighi (1879-1936). As duas Fridas (1939), de Frida Kahlo (1907-1954). ar : H ora de co m pa rt ilh Jorn al de ciênc ia e cultu ra Ao final desta unidade, você e os colegas vão produzir um jornal de ciência e cultura e organizar um evento de lançamento para compartilhá-lo com a comunidade escolar. O jornal contará com artigos de divulgação científica, artigos de opinião, crônicas e resenhas produzidas pela turma. 244 capítulo 7 Simbolismo (I) Regência verbal e regência nominal Crônica Neste capítulo você vai: • refletir sobre a poesia simbolista de Cruz e Sousa; • conhecer a sintaxe de regência verbal e nominal conforme a norma-padrão; • comparar usos do português brasileiro corrente aos usos da norma-padrão no que diz respeito às possibilidades de regência verbal e regência nominal; • refletir sobre a influência da regência verbal e da regência nominal na construção de sentidos dos textos; • identificar as características básicas da crônica e produzir esse gênero. Justificativa BN CC Competências gerais da Educação Básica: 1, 2, 3, 4, 7 Competências específicas da área de Linguagens: 1, 2, 3, 6 Habilidades específicas da área de Linguagens: EM13LGG101, EM13LGG104, EM13LGG202, EM13LGG302, EM13LGG601, EM13LGG602, EM13LGG604 Habilidades específicas de Língua Portuguesa: EM13LP01, EM13LP06, EM13LP20, EM13LP28, EM13LP32, EM13LP46, EM13LP48, EM13LP49 A fim de dar continuidade ao desenvolvimento da fruição estética, ao aprimoramento da leitura e à aprendizagem do processo de constituição da literatura no Brasil, é importante analisar textos significativos da literatura brasileira, com foco na literatura afro-brasileira, baseando-se no contexto social, histórico e estético de sua produção. Partindo também de textos literários, analisar a sintaxe de regência e comparar as regras da norma-padrão aos usos correntes no português brasileiro potencializa o processo de compreensão desses textos. Tal processo também propicia escolhas mais conscientes e adequadas às diversas situações comunicativas. Aprofundar suas vivências nas práticas do campo artístico-literário, conhecendo as características básicas do gênero crônica, produzindo crônica e construindo um acervo coletivo de crônicas brasileiras, vai ajudá-lo a ampliar seu repertório literário e a apropriar-se do patrimônio artístico nacional. Literatura Simbolismo (I) Contexto de produção e recepção do Simbolismo O Simbolismo surgiu como movimento artístico na década de 1880, na França. Suas primeiras manifestações na esfera literária são, porém, anteriores a esse momento, conforme atestam criações 245 de seus iniciadores, os poetas Paul Verlaine (1844-1896), Stéphane Mallarmé (1854-1891), e Charles Baudelaire (1821-1867), precursor do movimento com a publicação do livro de poemas As flores do mal (1857). O nome Simbolismo tem relação com as aspirações da nova poesia que surgia: sugerir, como um símbolo, ideias abstratas por meio de imagens evocativas, cores, sons, formas, em virtude de uma analogia particular entre si. O Simbolismo se manifestou no Brasil no final do século XIX. Quem produzia poesia simbolista no Brasil nesse período? Quem era o público consumidor? Sim bo lis mo e art es vis ua is Em 1902, no Palácio de Secessão em Viena, na Áustria, foi montada uma exposição consagrada à música do compositor alemão Ludwig van Beethoven (1770-1827). Em uma das salas laterais do palácio, Gustav Klimt expôs O friso de Beethoven. Ocupando três paredes, essa obra é uma alegoria da busca da felicidade, inspirada na 9a Sinfonia, de Beethoven. Composta em três painéis, a obra de Klimt representa: em uma das paredes, “A aspiração à felicidade”; na parede central, “As forças inimigas”; e, na parede oposta à primeira, “A alegria, nobre centelha divina”. Carlo Bollo/Alamy/Fotoarena/ Edifício da Secessão, Viena, Áustria. Entre os traços simbolistas do painel “As forças inimigas”, destacam-se os elementos simbólicos e míticos que, em seu conjunto, representam forças maléficas, como, à esquerda do painel, o invencível gigante Tifão, em forma simiesca, e suas filhas, as três Górgonas (monstros de aparência feminina, que tinham o poder de transformar em pedra os que diretamente olhavam para o rosto delas), que sugerem violência, morte, irracionalidade, perversão e vaidade excessiva. ARTGEN/Alamy/Fotoarena/ Edifício da Secessão, Viena, Áustria. Painel “As forças inimigas”, da obra O friso de Beethoven (1902), de Gustav Klimt (1862-1918). Da fase simbolista do pintor, a obra representa a eterna busca da felicidade empreendida pelo ser humano, na qual ele tem de lutar tanto contra o mal que há no mundo quanto o que habita seu interior. 246 L ite ra tu ra O friso de Beethoven (1902), de Gustav Klimt, integral, em exposição no Museu de Secessão, em Viena, Áustria, 2019. Não escreva no livro. Meios de circulação No Brasil, os poetas simbolistas foram contemporâneos dos poetas parnasianos. Seus poemas, porém, não alcançaram a mesma popularidade que os dos parnasianos entre o público leitor da época. Um dos motivos para essa diferença na recepção é o fato de as produções simbolistas terem sido consideradas mais herméticas, por vezes de difícil compreensão. A divulgação dos poemas simbolistas ocorreu por meio de rodas literárias, livros, revistas e jornais. Nas numerosas revistas que lançaram em diversas regiões brasileiras, os simbolistas realizaram experiências inovadoras com imagens e palavras, contribuindo, assim, para o aprimoramento gráfico das publicações e para o estabelecimento de um clima pré-modernista. Idealizada e editada pelos simbolistas Gonzaga Duque, Mario Pederneiras e Lima Campos, a revista Fon-Fon! começou a ser publicada em 1907, no Rio de Janeiro, e circulou até 1958. O título da revista, inspirado na buzina de carro, sugeria a efervescência da vida urbana, motivada pelas inovações tecnológicas e pelas transformações culturais da época. Nos primeiros anos, a revista, alinhada com as concepções simbolistas, se aventurou em novas experiências com a linguagem gráfica e publicava poemas do Simbolismo brasileiro e francês. Também eram publicados na revista crônicas, textos irreverentes e humorísticos sobre política e comentários sobre peças teatrais e filmes, em um momento no qual o cinematógrafo era a grande novidade. Reprodução/Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, RJ. A rev ist a Fo n- Fo n! Ilustração da revista Fon-Fon!, extraída da primeira edição, publicada em abril de 1907. Lu z tra ns ce nd en te Reprodução/Coleção particular No quadro Moça no trigal, do pintor ítalo-brasileiro Eliseu Visconti (1866-1944), a figura da moça em pé, no trigal, com a cabeça inclinada para baixo sugere um momento de reflexão. A luminosidade diáfana, isto é, algo como uma transparência, dá destaque à cor branca do vestido junto ao dourado do trigal criando uma atmosfera de transcendência, que ultrapassa a natureza física das coisas. Moça no trigal (1902), do pintor ítalo-brasileiro Eliseu Visconti (1866-1944), considerado o primeiro simbolista na pintura brasileira. Li te ra tu ra 247 Simbolismo em contexto Surgido na segunda metade do século XIX, o Simbolismo foi um movimento de reação ao positivismo presente nas produções culturais e intelectuais europeias, bem como aos valores e aos ideais materialistas e cientificistas vigentes na sociedade da época. Diante da aversão a essa perspectiva de mundo essencialmente objetiva, concreta e material, os simbolistas postularam a existência de correspondências secretas presentes no universo, cujos sinais eles tentavam encontrar e, se possível, decifrar. De acordo com tal ponto de vista, o objetivo e o subjetivo se fundem em razão de correspondências misteriosas entre o material e imaterial, a interioridade e a exterioridade, o corpo e a alma, o mundo físico e o mundo espiritual. Em termos estéticos, os simbolistas rejeitaram a representação fiel e objetiva da realidade defendida pelos realistas e, resgatando a subjetividade romântica, voltaram-se para a imaginação, a interioridade e a introspecção. Porém, os poetas simbolistas conservaram, tal como seus predecessores parnasianos, a preocupação com os aspectos formais, de modo que, na sua poesia, se observa, por exemplo, a musicalidade das palavras e dos versos, o uso do soneto e das figuras de linguagem. A primazia do mistério e da transcendência sobre o mundo concreto e objetivo se traduziu no gosto dos simbolistas pelo misticismo, pela música, pela mitologia, Reprodu•‹o/TV Brasil/EB C pela morte, bem como em seu interesse pela totalidade, pela amplitude cósmica e pelo etéreo. Em termos temáticos, a literatura e as artes simbolistas abordaram a loucura, os sonhos, os anseios e os estados de alma (desejo, medo, frustração, melancolia, etc.), entre outros. Na pintura simbolista, em particular, prevaleceu o estilo imaginativo e intuitivo, de modo que os diferentes temas são sugeridos tanto por meio de cores, formas e linhas quanto por elementos simbólicos e alegóricos. No Brasil, o Simbolismo se manifestou na década de 1890. Nessa época, diante da recente abolição da escravatura, se, por um lado, ocorria em uma parcela da sociedade movimentos que favoreciam a tomada de consciência em relação ao preconceito, de outro, disseminavam-se teorias raciais que perpetuavam a discriminação contra afroPôster do filme Cruz e Sousa, o poeta do desterro, dirigido por Sylvio Back em produção de 1998. Esse longa-metragem ficcional narra a vida e obra do escritor simbolista. 248 L ite ra tu ra descendentes. Esse contexto histórico-social influenciou a produção poética do jovem Cruz e Sousa, principal expressão da poesia simbolista no país e um dos poetas mais importantes da literatura brasileira. Não escreva no livro. Foco no texto Leia, a seguir, um poema de Cruz e Sousa (1861-1898), expoente do 1. c) As reticências deixam os versos não concluídos, contribuindo para causar certa imprecisão Simbolismo brasileiro. nas imagens e dando ideia de que tudo fica em aberto, sem conclusão ou fechamento. O emprego de maiúsculas dá destaque às palavras e pode gerar tanto o efeito de criar conceitos ou verdades e transcendentes (Eternidade, Vis›es) quanto o de criar Siderações absolutas uma atmosfera mais emocional nos poemas. Segundo alguns críticos, as maiúsculas também podem significar personificação. Reprodução/Coleção particular Para as Estrelas de cristais gelados as ânsias e os desejos vão subindo, galgando azuis e siderais noivados, de nuvens brancas a amplidão vestindo... Num cortejo de cânticos alados os arcanjos, as cítaras ferindo, passam, das vestes nos troféus prateados, as asas de ouro finamente abrindo... Dos etéreos turíbulos de neve claro incenso aromal, límpido e leve, ondas nevoentas de Visões levanta... E as ânsias e os desejos infinitos Anjo dos esplendores (1894), de Jean Delville (1867-1953). vão com os arcanjos formulando ritos da Eternidade que nos Astros canta... SOUSA, Cruz e. Siderações. In: CANDIDO, A.; CASTELLO, J. A. Presença da literatura brasileira: história e antologia. Rio de Janeiro: Bertrand, 1997. p. 396. 1. Os simbolistas, como os parnasianos, cultivaram o aprimoramento formal. a) No poema em estudo, a métrica e a forma de composição poética podem ser associadas à estrutura de obras do Parnasianismo? Justifique sua resposta. Sim, o poema é um soneto, com versos decassílabos, forma poética amplamente cultivada pelos poetas parnasianos. b) Hipérbato é o nome que se dá a construções em que a ordem direta das palavras em frases deixa de ser usada. No poema, esse recurso foi bastante utilizado. Passe para a ordem direta os versos da primeira e da terceira estrofes desse texto nos quais há hipérbato. c) Os simbolistas utilizaram com frequência reticências e letras maiúsculas em substantivos comuns. Observe o emprego desses recursos estilísticos no poema em estudo e levante hipóteses: Que efeito o emprego desses recursos produz nos poemas em estudo? 2. Seguindo uma postura antimaterialista, os simbolistas evocavam nos poemas o misticismo, a religiosidade, a vida cósmica e a transcendência. a) Como se manifesta a aspiração do eu lírico à transcendência? Justifique sua resposta com elementos do texto. 2. a) Manifesta-se na sugestão de que os desejos vão em direção às estrelas e se integram ao mundo cósmico e celestial: “Para as Estrelas... as ânsias e os desejos vão subindo / galgando azuis e siderais noivados”; “vão com os arcanjos formulando ritos”. galgando: percorrendo; andando por. siderais: relativos ao céu, celestes. cânticos: melodias ou hinos, geralmente de caráter espiritual. alados: dotados de asas, que voam. cítaras: instrumentos de cordas feitos de madeira. etéreos: celestiais, divinos. turíbulos: recipientes nos quais se queima incenso em cerimônias religiosas. 1. b) Primeira estrofe: as ânsias e os desejos vão subindo / para as Estrelas de cristais gelados, / galgando noivados azuis e siderais / vestindo a amplidão de nuvens brancas.... Terceira estrofe: incenso aromal claro, límpido e leve / levanta Visões de ondas nevoentas / dos etéreos turíbulos de neve... Li te ra tu ra 249 b) Que palavras ou expressões de caráter místico e religioso reforçam a atmosfera de transcendência? Cânticos, arcanjos, “etéreos turíbulos”, incenso, ritos. c) Observe as palavras e expressões em destaque nestes versos extraídos do texto: • Para as Estrelas de cristais gelados • de nuvens brancas a amplidão vestindo... • passam, das vestes nos troféus prateados, • as asas de ouro finamente abrindo... • Dos etéreos turíbulos de neve • ondas nevoentas de Visões levanta... • da Eternidade que nos Astros canta... Nesses versos, em que consiste o cromatismo, recurso bastante explorado pelos poetas simbolistas resultante do emprego das palavras e expressões em destaque? Que efeito esse cromatismo produz O cromatismo consiste na reunião de elementos esbranquiçados (brancas, no poema? nevoentas, “de neve”), translúcidos (cristais) e brilhantes (Estrelas, Astros, DeAgostini/Getty Images/Museu Fabre, Montpellier, França. “de ouro”, prateados). Esse cromatismo tem como efeito a criação de uma atmosfera cósmica, transcendente, misteriosa. Charles Baudelaire Charles Baudelaire nasceu em 1821, em Paris, na França. Em 1857, lançou As flores do mal, obra que, além de representar o marco inicial simbolista, demarcou o início do que se convencionou chamar de poesia moderna. Em vez de poemas narrativos ou descritivos, Baudelaire produziu uma obra com mais sugestões do que certezas, com temas muiRetrato de Charles Baudelaire tas vezes pessimistas e uma atmosfera que privilegiava os sentidos. (1847), de Gustave Courbet Baudelaire foi, ainda, crítico de arte e tradutor. (1819-1877). 3. Na concepção de Baudelaire, poeta francês precursor do Simbolismo, os elementos que compõem o mundo natural e o mundo metafísico têm afinidades, se correspondem. Para os simbolistas, esse jogo de correspondências de elementos diferentes é percebido pelo poeta e traduzido por meio da sinestesia, recurso que consiste na fusão de duas ou mais sensações percebidas pelos órgãos dos sentidos (visão, olfato, paladar, audição e tato). a) Dê pelo menos dois exemplos de trechos do poema que exploram a linguagem sinestésica. “Estrelas de cristais gelados” / “cânticos alados” / “claro incenso aromal” b) Troque ideias com a turma e depois registre a resposta no caderno: De acordo com a sua resposta ao item anterior, quais são os órgãos sensoriais envolvidos nos trechos indicados? Em mais de um trecho há referências à visão. O tato aparece em “cristais gelados”, a audição em “cânticos” e o olfato em “incenso aromal”. 4. No Simbolismo, o valor dos poemas não se concentra em processos descritivos ou narrativos, mas, sim, na sugestão; por isso, os poetas simbolistas se aproximaram da música, da melodia, explorando a sonoridade dos versos. No poema em estudo, é possível verificar figuras de linguagem que contribuem para a musicalidade do texto, como a aliteração (repetição de sons consonantais) e a assonância (repetição de sons vocálicos). a) Identifique no poema um exemplo de cada um desses recursos, isto é, de aliteração e de de aliteração: repetição do fonema /s/ (siderações, ânsias, siderais, cítaras). Em relação à assonância, assonância. Exemplo verifica-se a repetição de fonemas nasais: /ã/ (ânsias, galgando...), /ẽ/ (nevoentas), / ˜/ (subindo, vestindo, abrindo...). b) Discuta com os colegas e o professor: Na sua opinião, que papel esses recursos sonoros desempenham nesse poema de Cruz e Sousa? Pode haver mais de uma resposta. Os recursos sonoros têm o papel de criar no poema uma atmosfera leve, fluida, mística, celestial, transcendental. 250 L ite ra tu ra RES E B A S E R T N E Não escreva no livro. e Hum an as te Ciências c a d a s; Ar li p A is ia Soc Dinamismo no universo artístico e científico do Simbolismo O final do século XIX foi um período de efervescência artística e de novas descobertas a respeito da mente humana. O que é o impressionismo? O que há de comum entre a pintura impressionista e o poema simbolista? O que é o inconsciente? Para refletir sobre essas questões, leia os textos, a seguir: Texto 1 O Simbolismo e a pintura impressionista [...] Tal como o simbolismo, [...] o impressionismo é um retorno à poesia pessoal, proscrita tanto por parnasianos como realistas. É um apelo apaixonado à liberdade e à vida, mas é o contrário de uma anarquia. Quer descobrir relações de ordem intuitiva, mas admite a necessidade do método e do valor das regras. [...] O simbolismo, com seu apetite de novidade e de emoção pura, recorre a processos que têm uma notória semelhança com os do impressionismo. Os seus efeitos devem-se essencialmente ao ritmo e à supressão das linhas e do tema, bem como a supressão das imagens clássicas e dos processos descritivos dá à nova arte uma fluidez até então desconhecida que lhe permite sugerir o movimento e o efêmero. Qualquer uma destas artes se recusa a precisar as imagens, embora sejam pródigas em sugestões visuais, que pretendem provocar não pela representação, mas pela analogia, através da emoção. O ritmo, forma livre tão diferente quanto possível da simetria, de que por vezes utiliza alguns métodos, tem um papel decisivo, embora oculto. É ele que faz que, diante das Nymphéas, tenhamos a ilusão de ver levantar-se um mundo de formas, asilo maravilhoso sonhado pelo poeta, que se recusa a impor a sua visão ao espectador, pretendendo unicamente provocar-lhe um estado de alma que lhe permita transformar-se ele mesmo num poeta, pelo encadeamento simultâneo de emoções de ordem óptica e sentimental. [...] Belas Artes de Houston À medida que a fotografia se desenvolvia, a percepção experimentada pelo pintor diante do real adquiria mais importância do que a descrição fiel do real. Essa nova perspectiva na pintura, considerada impressionista, decorria de os pintores valorizarem sobretudo o registro da impressão que a luz e as cores de determinada paisagem produziam em sua sensibilidade. Tecnicamente, essa pintura se caracterizou pela suspensão dos contornos e pelo uso de pinceladas fragmentadas e justapostas. O movimento impressionista se iniciou na França, com uma exposição em 1874, e teve entre seus principais representantes Monet, Renoir, Sisley, Pissarro, Cézanne e Degas. Reprodução/ Museu de Im pr es si on is m o , Houston, EUA. FRANCASTEL, Pierre. O impressionismo. São Paulo: Martins Fontes, 1988. p. 123-124. Ninfeias (1907), do pintor impressionista Claude Monet (1840-1926). 251 t, Paris, França Reprodução/Museu Marmottan Mone Impressão, sol nascente (1872), de Claude Monet (1840-1926), cujo título deu origem ao nome do movimento impressionista. Texto 2 A mente cotidiana É fácil presumir a realidade do consciente e ingenuamente acreditar que pensamentos, sentimentos, lembranças e experiências constituem a totalidade da mente humana. Segundo Freud, porém, o estado ativo da consciência – isto é, a mente operacional da qual estamos diretamente cientes durante a experiência cotidiana – é apenas uma fração total de forças atuantes em nossa realidade psicológica. O consciente existe em um nível superficial, ao qual temos acesso fácil e imediato. Sob o consciente estão as potentes dimensões de armazenagem do inconsciente que ditam os nossos estados cognitivos ativos e comportamentos. O consciente está à mercê do inconsciente. A mente consciente é apenas a superfície de um complexo reino psíquico. O inconsciente abrange tudo, afirmou Freud, e contém dentro dele os domínios do consciente e de uma área denominada “pré-consciente”. Tudo o que é consciente – aquilo sobre o qual temos um saber ativo – esteve em algum momento nas profundezas do inconsciente antes de emergir à consciência. Entretanto, nem tudo se torna conhecimento consciente; muito do que é inconsciente lá permanece. Lembranças que não estão na nossa memória cotidiana, mas que não foram reprimidas, habitam a parte da mente consciente denominada por Freud de pré-consciente. Somos capazes de trazer essas memórias para a consciência a qualquer momento. O inconsciente funciona como receptáculo de ideias e memórias poderosas ou dolorosas demais, ou que estão de alguma forma além da capacidade de processamento da mente consciente. Freud acreditava que, quando certas ideias ou memórias (e as emoções a elas associadas) ameaçam inundar a psique, elas são retiradas da memória acessível pela mente consciente e armazenadas no inconsciente. GLOBO LIVROS. O livro da psicologia. São Paulo: Globo, 2012. p. 95-96. (As grandes ideias de todos os tempos). Sigmund Freud (1856-1939), médico neurologista austríaco, aproximou-se do mundo do inconsciente em 1885, quando conheceu o trabalho do neurologista Jean-Martin Charcot, que utilizava a hipnose em tratamentos de doenças mentais. Na obra fundamental que escreveu, A interpretação dos sonhos (1900), Freud se referiu à existência do inconsciente, porém, conforme afirmou o criador da psicanálise, não foi ele quem fez essa descoberta: “Poetas e filósofos descobriram o inconsciente antes de mim; o que eu descobri foi o método científico de estudá-lo”. Sigmund Freud. 252 Images en te Bettmann Archive/Getty Fr eu d e o in co ns ci Não escreva no livro. Tanto a poesia simbolista quanto a pintura impressionista rompem com o culto à Agora, discuta com os colegas: 1. precisão das imagens, valorizam o movimento, o efêmero, e optam pela sugestão visual e pela analogia, valendo-se da emoção e da sensibilidade do poeta ou do pintor. 1. O Impressionismo foi um movimento na pintura que ocorreu paralelamente ao movimento da poesia simbolista. Segundo o texto 1, há algumas semelhanças entre a arte dos pintores impressionistas e os poemas simbolistas. Quais são as principais semelhanças? 2. As áreas mais profundas da mente humana, alvo de interesse dos poetas simbolistas, foram abordadas por diferentes estudiosos no final do século XIX. O austríaco Sigmund Freud, criador da psicanálise, propôs um modelo de funcionamento do aparelho psíquico. De acordo com o texto “A mente cotidiana”, de que maneira se constitui esse modelo? 3. Como você pode observar no texto 2, segundo Freud, o que permanece no inconsciente dita nossos comportamentos e o funcionamento ativo de nossas habilidades mentais, como memória, atenção, raciocínio e resolução de problemas. Diante dessa hipótese, ele defendia que falar sobre pensamentos, sentimentos e lembranças aliviaria as angústias provocadas pelo que estava reprimido no inconsciente. Na época, essa perspectiva era algo novo, mas hoje é comum a percepção de que falar de questões aflitivas pode melhorar a saúde mental. Você já conhecia o conceito de inconsciente e as funções a ele atribuídas? De que maneira se pode cuidar da saúde mental nos dias de hoje? Compartilhe seus conhecimentos e sua opinião com a turma e também ouça o que seus colegas têm a dizer sobre esse assunto. Resposta pessoal. Simbolismo 2. Segundo Freud, o aparelho psíquico é constituído por três domínios: o consciente (onde estão as memórias cotidianas), o pré-consciente (onde estão as memórias não reprimidas) e o inconsciente, que abrange também os domínios anteriores. A função do inconsciente é armazenar ideias e memórias poderosas ou dolorosas demais, ou que estão além da capacidade de a mente consciente processá-las. Sob influência das obras de poetas franceses como Baudelaire e Verlaine, o Simbolismo se iniciou no Brasil em 1893, com a publicação de Missal (poemas em prosa) e BroquŽis (poemas em versos). As duas obras foram escritas por Cruz e Sousa, considerado o mais representativo poeta simbolista. Destacaram-se, ainda, no movimento os poetas Alphonsus de Guimaraens (1870-1921), Emiliano Perneta (1866-1921), Dario Veloso (1869-1937) e Pedro Kilkerry (1885-1917). Cruz e Sousa No início deste capítulo você conheceu alguns aspectos da poesia simbolista de Cruz e Sousa, mas a obra dele vai além do cultivo dessa estética literária, uma vez que também expressa uma subjetividade construída a partir da condição de ser negro na sociedade brasileira de seu tempo. Historicamente, o poeta viveu em uma época de tomada de consciência em relação ao preconceito e à discriminação racial e, nesse contexto, Cruz e Sousa não apenas se posicionou como um sujeito negro nos textos literários, como também abordou os dramas por ele vivenciados. O poeta atuou na campanha abolicionista, participando de conferências e publicando artigos contra a escravidão, e manifestou sua insatisfação a respeito da situação dos negros em textos literários como “Pandemonium”, “Litania dos pobres”, “Dor negra”, “Consciência tranquila”, “Emparedado” e “Crianças negras”. Dada a postura que assumiu em seus textos literários, Cruz e Sousa, além de ser o principal representante da literatura simbolista no Brasil, é considerado um dos precursores da literatura afro-brasileira, conforme você poderá observar a seguir. 253 Reprodução/Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, RJ. Cruz e Sousa João da Cruz e Sousa (1861-1898) nasceu em Nossa Senhora do Desterro, atual Florianópolis (SC). Os pais dele eram alforriados, isto é, escravizados que foram libertos por meio de uma carta de alforria. Cruz e Sousa teve acesso à educação formal até a morte de seus padrinhos, quando teve de deixar os estudos. Retrato de Cruz e Sousa feito por M. J. Garnier para a coletânea Sonetos brasileiros (edição completa): desenhos dos sonetos 135 a 176, organizada por Laudelino Freire, 1913. Na imprensa catarinense, ele colaborou com textos em que se manifestava contra a escravidão e o preconceito racial, de que foi vítima em mais de uma ocasião. Cruz e Sousa teve que lidar, ao longo de sua vida, com falta de reconhecimento, pobreza, a morte de seus filhos e problemas de saúde. Uma parte considerável de sua produção simbolista expressa o pessimismo e a angústia que marcaram sua existência. Quando se mudou para o Rio de Janeiro, entrou em contato com as obras de Verlaine e de Baudelaire e liderou o primeiro grupo de simbolistas brasileiros. Colaborou de maneira irregular em jornais e revistas cariocas. Foco no texto Recomendamos a leitura do poema em grupos ou em duplas. Leia, a seguir, um trecho do poema “Crianças negras”, de Cruz e Sousa, publicado postumamente na obra Últimos sonetos (1905). No início, o eu lírico faz como que um apelo à Poesia, pedindo-lhe que, com sua capacidade de expressar o mundo em sua grandeza, o ajude a olhar as crianças negras, pequeninas, mas pungentes em sua dor. Crianças negras [...] [Eu quisera estar] Preso à cadeia das estrofes que amam, que choram lágrimas de amor por tudo, que, como estrelas, vagas derramam num sentimento doloroso e mudo. Preso à cadeia das estrofes quentes como uma forja em labaredas acesa para cantar as épicas frementes tragédias colossais da Natureza. forja: instrumento de metal. frementes: trêmulos, agitados. 254 Para cantar a angústia das crianças! Não das crianças de cor de oiro e rosa, colossais: que têm grandes proporções. mas dessas que o vergel das esperanças vergel: pomar. viram secar, na idade luminosa. L ite ra tu ra Não escreva no livro. Das crianças que vêm da negra noite, dum leite de venenos e de treva, E que ouvem pelos séculos afora dantescos: que causam terror, sofrimento, tal como em cenas da obra A divina comédia, de Dante Alighieri. o carrilhão da morte que regela, açoite: golpe, pancada, castigo. dentre os dantescos círculos do açoite, filhas malditas da desgraça de Eva. a ironia das aves rindo à aurora e a boca aberta em uivos da procela. Das crianças vergônteas dos escravos, desamparadas, sobre o caos à toa e a cujo pranto de mil peitos bravos, desgraça de Eva: referência a Eva, que, segundo a Bíblia, foi a primeira mulher criada por Deus. Ela comeu o fruto proibido e, por isso, foi expulsa do paraíso. a harpa das emoções palpita e soa. carrilhão: conjunto de sinos que tocam ao mesmo tempo. Ó bronze feito carne e nervos, dentro regela: que se torna gelado; no poema, o mesmo que paralisa. do peito, como em jaulas soberanas, ó coração! És o supremo centro das avalanches das paixões humanas. Como um clarim as gargalhadas vibras, vibras também eternamente o pranto procela: tormenta, temporal. vergônteas: proles, rebentos. bronze: no poema, o mesmo que sino. de forma tal, que a tudo dás encanto. clarim: instrumento de sopro, feito de metal, cujo som é claro e estridente. És tu que à piedade vens descendo, urzes: pequenos arbustos com flores coloridas. dentre o riso e o pranto te equilibras como quem desce do alto das estrelas e a púrpura do amor vais estendendo sobre as crianças, para protegê-las. És tu que cresces como o oceano, e cresces até encher as curvas dos espaços e que lá, coração, lá resplandeces e todo te abres em maternos braços. Te abres em largos braços protetores, em braços de carinho que as amparam, e elas, crianças, tenebrosas flores, tórridas urzes que petrificaram. Li te ra tu ra 255 3. a) As metáforas e comparações sugerem que o coração é o centro das mais intensas emoções do ser humano (“como um clarim as gargalhadas vibras”, “és o supremo centro das avalanches das paixões humanas”). As pequeninas, tristes criaturas ei-las, caminham por desertos vagos, sob o aguilhão de todas as torturas, na sede atroz de todos os afagos. aguilhão: ponta de ferro, perfurante, colocada na extremidade de uma vara. Vai, coração! Na imensa cordilheira atroz: cruel, de enorme gravidade. partindo toda a horrível gargalheira gargalheira: espécie de coleira usada para sujeitar escravizados rebeldes, fugitivos. falange: multidão, legião. 3. b) O coração lhe desperta a piedade (“És tu que à piedade vens descendo”) e o desejo de amparar e proteger as crianças negras (“e todo te abres em maternos braços / Te abres em largos braços protetores, / em braços de carinho que as amparam”). da Dor, florindo como um loiro fruto da chorosa falange cor de luto. As crianças negras, vermes da matéria colhidas do suplício à estranha rede, arranca-as do presídio da miséria e com teu sangue mata-lhes a sede! SOUSA, Cruz e. Crianças negras. In: BERND, Zilá (org.). Antologia da poesia afro-brasileira: 150 anos de consciência negra no Brasil. Belo Horizonte: Mazza, 2011. p. 50-52. 1. Nas duas primeiras estrofes do trecho, o eu lírico sugere que, para cantar a angústia das crianças negras, seus versos terão de ser “quentes como uma forja em labaredas acesa”. Que sentimentos essa imagem expressa? Justifique sua resposta com elementos do texto. Sentimentos como amor (“preso à cadeia das estrofes que amam”/ “choram lágrimas de amor por tudo”) e dor (“num sentimento doloroso e mudo”). 2. Em seus versos, o eu lírico sugere a angústia das crianças negras por meio de elementos sensoriais (imagens, sons, texturas, etc.). 2. a) O eu lírico sugere que, diferentemente do que ocorre com as crianças brancas (“Não das crianças cor de oiro e rosa”), não há esperanças para as crianças negras a) Que diferença de tratamento social há para com as crianças negras e para com as crianças dessas que o vergel das esperanças / brancas? Justifique sua resposta com elementos do texto. (“mas viram secar, na idade luminosa”). b) Além da desigualdade em relação a crianças brancas, o poema evoca outras circunstâncias ameaçadoras para crianças negras, como a morte e o desamparo. Identifique no texto versos A morte é evidenciada no segundo verso da quinta estrofe (“o carrilhão da morte que indiquem tais circunstâncias. que regela”). Já o desamparo pode ser identificado na sexta estrofe (“Das crianças vergônteas dos escravos, / desamparadas, sobre o caos à toa”). c) Na quarta e na quinta estrofes do trecho, o eu lírico expressa sua dor diante do sofrimento das crianças negras. Identifique trechos que, por meio de elementos sensoriais, comprovam essa afirmação. “dum leite de venenos e de treva”; “dentre os dantescos círculos do açoite”; “o carrilhão da morte que regela”; “a ironia das aves rindo à aurora”; “e a boca aberta em uivos da procelaÓ. 3. A partir da sétima estrofe do trecho, o eu lírico evoca o coração, o “bronze feito carne e nervos”. a) Para descrevê-lo, ele emprega metáforas e comparações. Explique o sentido que essas figuras de linguagem sugerem no texto, utilizando exemplos de tais recursos estilísticos. b) O eu lírico sugere que o coração lhe desperta determinados sentimentos e desejos. Quais são eles? Justifique sua resposta com elementos do texto. c) Nas duas últimas estrofes do trecho lido, o eu lírico faz um apelo ao coração. O que ele lhe pede? Que arranque as crianças negras “do presídio da miséria / E com teu sangue mata-lhes a sede!”. d) Em meio a esse diálogo com o coração, o eu lírico se volta para o mundo social, para as dores das crianças negras, afastando-se do mundo cósmico, sideral, pelo qual os simbolistas ansiavam. Discuta com os colegas e o professor e registre a resposta no caderno: Que versos do poema expressam o movimento do eu lírico em direção ao mundo social? 256 Os versos: “És tu que à piedade vens descendo, / como quem desce do alto das estrelas / e a púrpura do amor vais estendendo / sobre as crianças, para protegê-las”. L ite ra tu ra Não escreva no livro. Língua e linguagem Regência verbal e regência nominal BN CC Foco no texto Competências gerais da Educação Básica: 1, 2, 6, 7, 9 Na língua portuguesa em geral, para construir sentido nos enunciados que produzimos, os verbos e os nomes ligam-se a outros termos de formas variadas. Releia os versos a seguir, do poema “Crianças negras”, de Cruz e Sousa, que você estudou neste capítulo. Competências específicas da área de Linguagens: 1, 2, 4, 6 Crianças negras Preso à cadeia das estrofes que amam, que choram lágrimas de amor por tudo, […] Para cantar a angústia das crianças! [...] ó coração! És o supremo centro das avalanches das paixões humanas. […] És tu que à piedade vens descendo, como quem desce do alto das estrelas e a púrpura do amor vais estendendo sobre as crianças, para protegê-las. [...] As pequeninas, tristes criaturas ei-las, caminham por desertos vagos, sob o aguilhão de todas as torturas, na sede atroz de todos os afagos. Habilidades específicas da área de Linguagens: EM13LGG101, EM13LGG103, EM13LGG104, EM13LGG201, EM13LGG401, EM13LGG601, EM13LGG604 Habilidades específicas de Língua Portuguesa: EM13LP01, EM13LP02, EM13LP08, EM13LP09, EM13LP10, EM13LP14 SOUSA, Cruz e. Crianças negras. In: BERND, Zilá (org.). Antologia da poesia afro-brasileira: 150 anos de consciência negra no Brasil. Belo Horizonte: Mazza, 2011. p. 50-52. 1. Há versos nos quais o eu lírico interpela um interlocutor, o coração dele, isto é, se dirige diretamente ao próprio coração, o que pode ser percebido por meio do emprego de palavras flexionadas na 2a pessoa, além de uma interjeição de chamamento. a As formas verbais conjugadas na 2 pessoa do a) Identifique palavras do poema que se referem à 2a pessoa. singular são és, vens, vais e o pronome de 2a pessoa singular, tu. b) Considerando o que você aprendeu sobre as interjeições, deduza: Qual palavra do texto pode ser considerada uma interjeição de apelo ou de chamamento? A palavra ó em “ó coração! És o supremo centro”. Nesse caso, embora não esteja isolado por vírgula, o termo funciona como vocativo. 2. Observe as palavras e expressões em destaque nos versos lidos. Entre elas, há substantivos, adjetivos e formas verbais. Identifique: a) Qual delas é substantivo? A palavra sede. b) Qual é adjetivo? A palavra preso. c) Quais são formas verbais? As formas choram, cantar, “vens descendo”, desce e “vais estendendo”. 3. Agora observe que, no poema, há termos que complementam os sentidos das palavras e expressões identificadas por você na questão 2. Identifique cada um deles. Respectivamente, considerando a ordem da questão 2: sede “de todos os afagos”; preso “à cadeia das estrofes”, choram “lágrimas”; cantar “a angústia”; “vens descendo” “à piedade”; desce “do alto”; “vais estendendo” “a púrpura do amor” e “sobre as crianças”. Língua e linguagem 257 4. Leia o boxe “A crase (revisão)” para responder ao que se pede. A cr as e (r ev is ão) A crase é o fenômeno da fusão da preposição a com o artigo feminino a, indicado pelo acento grave. Portanto, há crase quando a preposição a é exigida pela regência de um verbo ou um nome (substantivo, adjetivo ou advérbio). Além disso, por ser a contração da preposição com o artigo a, em geral, a crase ocorre antes de palavra feminina, como se observa em suas ocorrências no poema em estudo: preso a – a cadeia preso à cadeia vens descendo a – a piedade vens descendo à piedade a) Quais dos termos identificados por você na questão 3 se ligam às palavras que complementam diretamente e quais necessitam de preposições para se conectar a elas? Com preposição: “de todos os afagos”, “à cadeia”, “à piedade”, “do alto”, “sobre as crianças”. Sem preposição: lágrimas, “a angústia”, “a púrpura do amor”. b) Identifique, entre as duas ocorrências de crase, qual completa um nome e qual completa um verbo. “À cadeia” completa um nome, o adjetivo preso; e “à piedade” completa a forma verbal “vens descendo”. c) Uma das formas verbais tem dois complementos, um com e outro sem preposição. Indique qual é ela, bem como quais são os complementos. A forma verbal “vais estendendo” tem dois complementos, um preposicionado, “sobre as crianças”, e outro sem preposição, “a púrpura do amor”. 5. Entre os termos observados por você nas questões 2 a 4, há duas formas verbais derivadas de um mesmo verbo, mas que, no trecho lido, foram empregadas com diferentes preposições. formas “vens descendo” e desce, deria) Quais são essas formas verbais e de que verbo elas derivam? As vadas do verbo descer. b) Troque ideias com os colegas e o professor e explique a diferença de sentido gerada nas duas construções por meio do emprego das diferentes preposições. Com a preposição a o complemento tem o sentido de destino para onde se desce, enquanto que, com a preposição de, o complemento refere-se à origem de onde se desce. Reflexões sobre a língua Ao responder às questões anteriores, você observou que, no texto, há termos que são complementados por outros para construir sentido no contexto, como é o caso do adjetivo preso, dos verbos chorar, cantar, descer e estender e do substantivo sede. No texto analisado, preso foi complementado por “à cadeia”; chorar foi complementado pelo termo “lágrimas”; cantar, por “a angústia”; descer, pelas expressões “à piedade” e “do alto das estrelas”; estender, por “da púrpura do amor” e “sobre as crianças”; sede, pela expressão “de todos os afagos”. Quando um termo — verbo ou nome — exige a presença de outro em determinado contexto, ele se chama regente ou subordinante; os que completam a sua significação chamam-se regidos ou subordinados. Observe a regência neste trecho: As pequeninas, tristes criaturas […] caminham por desertos vagos, na sede atroz de todos os afagos. verbo transitivo indireto (VTI) termo regente objeto indireto (OI) substantivo termo regido termo regente compl. nominal termo regido Na frase composta dos versos do poema, a expressão “por desertos vagos” completa o sentido do verbo caminhar e “de todos os afagos” completa o sentido do nome (substantivo) sede. Assim, quando o termo regente é um verbo, ocorre regência verbal. Quando o termo regente é um nome – substantivo, adjetivo, advérbio –, ocorre regência nominal. 258 Língua e linguagem Não escreva no livro. Regência verbal Ao longo dos seus estudos neste livro, você vem aprendendo que a língua está em constante evolução e que é natural que a forma de empregar e combinar as palavras mude com o tempo. Novos hábitos, tecnologias e práticas sociais interferem diretamente nesses usos, e há casos nos quais formas utilizadas antigamente não são mais encontradas hoje em dia, nem mesmo em textos escritos. Essa transformação também acontece com as regras de regência verbal e, por isso, é comum que os dicionários e gramáticas contemporâneos não apenas registrem as regras da norma-padrão, mas também considerem os usos concretos da língua. Por exemplo, no Brasil, o mais comum não é dizer “Vamos ao cinema assistir ao filme que ganhou o Oscar”, tal como impõe a gramática normativa, mas sim “Vamos no/para o/pro cinema assistir o filme que ganhou o Oscar”. Essas diferenças de regência tendem a passar despercebidas no uso cotidiano, mas dependendo da situação podem resultar em alterações de sentido. Vamos conhecer algumas das diferentes possibilidades de alguns verbos e os sentidos que a presença ou ausência de preposição pode atribuir a eles. Convém lembrar que em contextos nos quais o uso da norma-padrão é exigido, como é o caso de provas escritas em exames e concursos, é importante fazer uso da regência conforme as regras da gramática normativa. Quando houver dúvida sobre a indicação da norma-padrão, é sempre bom consultar um dicionário comum ou específico de regência. Veja, a seguir, as regências de alguns verbos, segundo a gramática normativa, e alguns usos cotidianos do português brasileiro que diferem da prescrição. Verbo Regência/ preposição VTD • sorver, respirar. Os turistas aspiravam o ar puro do campo. VTI (a) • pretender, desejar: O funcionário aspirava a um cargo mais alto na empresa. Entretanto, o uso corrente varia: O funcionário aspirava (a) um cargo mais alto na empresa. VTD • acompanhar, prestar assistência: Os médicos assistiram o acidentado. VTI (a) • ver, presenciar: Ontem assistimos a um clássico do cinema. Entretanto, o uso corrente é este: Ontem assistimos um clássico do cinema. VTI (em) • residir, morar: Meu tio atualmente assiste em Fortaleza. aspirar assistir chegar/ir esquecer/ esquecer-se e lembrar/ lembrar-se Sentido(s) – usos – exemplos VI VTD e VTI (de) • lugar: Chegou à casa da infância. Chegou a Brasília ontem. Vou ao centro da cidade. Entretanto, o uso corrente varia: Chegou na casa da infância. Chegou em Brasília ontem. Vou no centro da cidade. • não reter/reter na memória (são transitivos diretos quando não pronominais e transitivos indiretos quando pronominais): Esqueci o compromisso. Lembrou que havia reunião. Entretanto, o uso corrente varia: Esqueci(-me)/Lembrei(-me) do compromisso. Esqueci/Lembrei o compromisso. Esqueceu(-se)/Lembrou(-se) de ligar para a mãe. Esqueceu-se/ Lembrou-se (de) que havia reunião. Língua e linguagem 259 VTD • ter como consequência, acarretar: Toda escolha implica perdas e ganhos. Entretanto, o uso corrente varia: Toda escolha implica (em) perdas e ganhos. VTI (a) • fazer/não fazer o que é ordenado: Sempre obedece ao pai. Entretanto, o uso corrente é este: Sempre desobedece o pai. preferir VTDI (a) • escolher entre duas ou várias coisas: Prefiro ter felicidade a ter dinheiro. Entretanto, o uso corrente é este: Prefiro felicidade do que dinheiro. Prefiro ter felicidade do que (ter) dinheiro. simpatizar/ antipatizar VTI (com) • ter simpatia ou antipatia: Eu simpatizo com o seu projeto. Ela antipatizou com ele desde a primeira vez que o viu. implicar obedecer/ desobedecer VTD • mirar: O atirador visou o alvo, mas não acertou. • pôr visto: Não posso viajar, pois não visei o passaporte. VTI (a) • ter como objetivo, pretender: Está se aperfeiçoando, porque visa a uma promoção. visar APLIQUE O QUE APRENDEU Andre Dahmer/Acervo do cartunista Leia a tira a seguir para responder às questões 1 a 3. DAHMER, André. Malvados. Folha de S.Paulo, São Paulo, 28 jan. 2016. p. C7. 1. No 1o quadrinho, um dos interlocutores expõe um dado. No 2o quadrinho, o outro interlocutor apresenta imediatamente uma resposta. a) A primeira parte da resposta dada no 2o quadrinho, em forma de pergunta, sugere qual sentiresposta em forma de pergunta sugere surpresa pelo alto valor gasto para desmento por parte do interlocutor? A poluir o rio Tietê. b) Qual sentimento sugere a segunda parte da resposta dada no 2o quadrinho? De otimismo, ou mesmo ingenuidade, por acreditar que, com um gasto tão alto, o problema estaria resolvido. 2. No 3o quadrinho, o personagem avalia a resposta de seu interlocutor. a) Considerando a primeira palavra dita, espera-se que ele vá concordar com o que seu interlocutor disse? Justifique sua resposta. Sim, pois utiliza uma palavra afirmativa: Sim. b) Pelo restante da fala, é possível considerar que ele concorda com seu interlocutor? Qual novo sentido ganha a primeira palavra dita nesse contexto? Ele não concorda, dando ao sim um valor irônico. 3. b) No primeiro caso, o verbo não pede nenhum complemento (é intransitivo) e significa “mover-se na água”; no segundo, pede um complemento (“em dinheiro”) ligado a ele por meio de preposição (transitivo indireto) e significa “ter em abundância”. 3. O humor é construído com base no emprego com sentido metafórico de um dos verbos utilizados da tira. a) Qual é esse verbo? nadar b) Qual a variação na regência e qual mudança ela acarreta no sentido do verbo? c) Explique como essa alteração constrói o efeito de humor do texto. 260 No 2o quadrinho, a fala do personagem faz referência ao suposto fato de o rio ter ficado limpo depois do investimento e, consequentemente, apropriado para banho; no 3o quadrinho, a ironia do personagem, somada à mudança de sentido do verbo, sugere que a verba foi desviada; portanto, o rio continua sujo e as pessoas envolvidas no desvio da verba estariam com muito dinheiro. Língua e linguagem Não escreva no livro. Leia cada dupla de textos a seguir e responda às questões 4 a 7. CHANDLER, Raymond. O sono eterno. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2015. E-book. Ilustrações: Ilustra Cartoon/Arquivo FREUD, Sigmund. Compêndio de psicanálise e outros escritos. Belo Horizonte: Autêntica, 2016. II. Ela cruzou o salão como um relâmpago até a base da escada, e saltitou pelos degraus como uma corça. Desapareceu antes que eu pudesse aspirar o ar profundamente e soltá-lo. da editora I. O eu aspira ao prazer e quer evitar o desprazer. Uma intensificação esperada, prevista, do desprazer é respondida com o sinal de medo; o motivo dessa intensificação, quer ele ameace de fora ou de dentro, chama-se perigo. III. O fotógrafo Edson Lopes Jr. viajou a trabalho para João Pessoa, capital da Paraíba, mas ficou curioso para assistir ao pôr do sol na praia do Jacaré ao som de “Bolero”, de Ravel. ELBEIN, Asher. A força está com a comunidade de cosplay dos cavaleiros jedi. Folha de S.Paulo, São Paulo, 16 jun. 2015. Ilustrações: Ilustra Cartoon/Arquivo da editora FOTÓGRAFO clica pôr do sol ao som de “Bolero” em João Pessoa. Folha de S.Paulo, São Paulo, 16 fev. 2016. Turismo. IV. Ele se encantou com Star Wars desde que seu pai o levou para assistir o primeiro filme em 1977. Marc tinha quatro anos na época. “Sempre me interessei por cavaleiros medievais”, ele diz. “Vi os sabres de luz na tela e fiquei hipnotizado.” 4. a) Na dupla I, o primeiro texto trata das relações entre medo, desprazer e a sensação de perigo; o segundo descreve a passagem de uma mulher 4. Observe os textos em estudo e suas fontes. e a reação que ela provoca no enunciador. Na dupla II, o primeiro texto informa um passeio feito por um fotógrafo em sua viagem a trabalho para a) Qual é o assunto de cada um dos trechos em análise? João Pessoa, na Paraíba; o segundo relata as sensa- ções que marcaram um menino ao assistir a um filme. b) Qual desses textos tem uma linguagem mais técnica, especializada? Quais têm uma linguagem jornalística? E qual tem uma linguagem literária, narrativa? Justifique sua resposta com base em termos e expressões empregados em cada trecho, com base na estrutura de algumas frases e com base na fonte de cada um. Consulte a resposta da atividade 4, item b nas Orientações específicas do Manual do Professor. 5. Observe os verbos dos trechos transcritos. a) Identifique, em cada dupla, um verbo cuja regência varia. Nos textos I, aspirar; nos textos II, assistir. b) Em qual dupla de textos a alteração na regência implica também uma mudança de sentido no verbo? Explique. Na dupla I, em que o verbo aspirar tem o sentido de desejar, almejar no primeiro texto e o sentido de inspirar no outro. Língua e linguagem 261 c) Atualmente, a possibilidade de variação na regência de determinadas formas verbais é admitida por alguns dicionários e gramáticas renomados, embora outros ainda considerem correta apenas a forma mais tradicional. Identifique, em um dos verbos em análise, qual é a forma padrão tradicional e qual é a forma incorporada à língua posteriormente, pelo uso corrente. Na dupla II, a forma tradicional é assistir a, com preposição; a forma de uso corrente desse verbo é sem preposição. 6. Releia os trechos em que a regência varia e o sentido permanece o mesmo e troque ideias com os colegas e o professor: Entre as duas formas, qual é a mais utilizada por vocês? Resposta pessoal. 7. Faça uma breve pesquisa e procure textos que utilizem um mesmo verbo empregado com diferentes regências. a) Troque ideias com os colegas e o professor: Há alteração de sentido da forma verbal nos textos analisados? Resposta pessoal. pessoal. Em geral, o mais provável b) Entre as formas encontradas, qual é a mais utilizada por você? Resposta é que eles utilizem as formas de uso corrente. c) Considerando os textos pesquisados, levante hipóteses: Por que o autor optou por empregar tal regência? Resposta pessoal. Regência nominal Como falante da língua portuguesa, você provavelmente conhece preposições que complementam nomes e quais são seus respectivos sentidos. É importante saber, entretanto, que as regras podem variar, seja entre uma variedade linguística e outra, seja de acordo com a formalidade da situação. Portanto, elencamos a seguir os principais nomes e as preposições regidas por cada um deles segundo a norma-padrão. Não há necessidade de memorizar essas regências; é, porém, interessante conhecê-las, para fins de consulta e em caráter de informação complementar. Caso você pretenda produzir um texto escrito em situações formais ou em exames e avaliações, a indicação é que você dê preferência a essas formas, sempre atento às diferenças de sentido. acessível a adequado a admiração a, por agradável a alheio a análogo a ansioso de, para, por apto a, para atentado a, contra atento a, em aversão a, por avesso a ávido de, por capacidade de, para capaz de, para caro a cego a comum a, de contemporâneo a, de contrário a, de curioso de, para desatento a digno de 262 Língua e linguagem disposto a dúvida em, sobre erudito em escasso de fácil de fiel a grato a, por hábil em horror a impaciência com inábil para incompatível com livre de longe de maior de, entre mau com, para, para com medo de menor de natural de necessário a nocivo a obediência a obrigação de oposto a orgulhoso com, para, para com, de paciência com paralelo a perito em perto de piedade de possível de posterior a preferível a prejudicial a pronto para, em propenso a, para querido de, por sedento de, por sensível a temeroso de último em, de, a útil a, para visível a vizinho a, de 1. a) A luta da população negra contra o racismo e a opressão. Comente com os estudantes que a data foi escolhida por ser o dia da morte de Zumbi dos Palmares, importante líder negro que lutou contra a escravização e fundou o Quilombo dos Palmares, o maior do Brasil. Se julgar conveniente, lembre também que os quilombos eram grupos de resistência ao regime escravocrata, Não escreva no livro. formados por negros que fugiam das fazendas onde estavam aprisionados e buscavam outros modos de vida em comunidade. APLIQUE O QUE APRENDEU Leia o cartum a seguir, de Cazo, e responda às questões 1 a 3. 1. Por meio da legenda, na parte superior, o cartum Cazo/Acervo do cartunista faz referência a uma data comemorativa. a) O que se celebra nesse dia? b) Em qual data acontece essa comemoração? Se não souber, faça uma breve pesquisa. No dia 20 de novembro. c) Troque ideias com os colegas e o professor: Qual é a importância de haver uma data como essa? CAZO. Dia da Consciência Negra. Diário do Litoral, Santos, 20 nov. 2018. 2. Há, no cartum, um diálogo entre neto e avô, no qual os dois personagens falam sobre luta. Observe os possíveis sentidos dessa palavra, segundo o Dicion‡rio Houaiss da l’ngua portuguesa. substantivo feminino 2. b) O neto usa a palavra com a acepção 1, de “combate esportivo”, e o avô usa a palavra com a acepção 4, de “esforço para superar, para vencer obstáculos ou dificuldades”. 1 combate, esp. de caráter esportivo, em que dois adversários desarmados se enfrentam em corpo a corpo 2 qualquer contenda com ou sem armas, conflito, guerra <a l. de Davi contra Golias> 3 oposição firme ou violenta, feita por alguém a uma pessoa ou a um grupo de pessoas [...] <l. de classes> [...] 4 esforço para superar, para vencer obstáculos ou dificuldades < l. contra o tempo> <l. contra os vícios> LUTA. In: INSTITUTO Antonio Houaiss. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009. Disponível em: https://tedit.net/3fer8u. Acesso em: 23 out. 2024. a) Os personagens utilizam a palavra luta com o mesmo sentido? Não. b) Indique, entre as acepções dadas pelo dicionário, qual(is) é(são) usada(s) no cartum. 3. A palavra luta pode ser regida por diferentes preposições, dependendo do sentido que se quer dar ao enunciado. É regida pela preposição por, contida na con- a) Na fala do avô, no cartum, por qual preposição ela é regida? tração pela (= por + a). b) Observe as possibilidades de uso de preposições a seguir e reescreva a fala do avô no caderno, trocando o símbolo por uma palavra, expressão ou oração que poderia complementá-la, mantendo a coerência com o sentido do cartum. I. É a luta contra II. É a luta entre III. É a luta com IV. É a luta para © Armandinho, de Alexandre Beck/ Acervo do cartunista 3. b) Há possibilidades variadas de resposta. Algumas possibilidaLeia esta tira para responder às questões 4 a 6. des: I. a desigualdade, as injustiças; II. o preconceito e a justiça social; III. toda a sociedade brasileira; IV. acabar com o preconceito. BECK, Alexandre. Armandinho Sete. São Paulo: Matrix, 2016. p. 58. 4. Observe a parte não verbal da tira. a) Para onde o personagem Armandinho está olhando em cada um dos quadrinhos? Respectivamente, para seu pé/tênis, para seu pai e para trás/para a rua. b) E qual é a expressão facial dele nos três quadrinhos? É uma expressão desanimada, aborrecida. 5. Releia as falas de Armandinho no 1o e no 3o quadrinho. Respectivamente, vergonha e crianças a) Que termos complementam as formas verbais tenho e vejo? descalças. b) Que termo complementa o substantivo vergonha? “do meu tênis” 1. c) Abra a discussão com a turma: A celebração do dia 20 de novembro instaura um movimento de debate e conscientização da população sobre a importância de se combater o preconceito e a discriminação racial na sociedade como um todo. Língua e linguagem 263 3. a) Na primeira ocorrência me é objeto indireto de chegue, “chegue a (até) mim”. Na segunda, o termo “sem pressa” é adjunto adverbial e diz respeito ao modo como se chega, sendo a forma verbal chegar intransitiva. 6. A fala de Armandinho no terceiro quadrinho instaura um novo sentido para a fala dele no primeiro a) O pai entendeu que o filho tinha vergonha porque não gostava do seu tênis ou porque achava os tênis dos amiquadrinho. 6. gos da escola melhores. a) Observe a resposta do pai no 2o quadrinho. O que ele compreendeu da primeira fala do filho? b) Qual novo sentido é colocado em cena pela fala final de Armandinho? c) No caderno, sugira duas reescritas para a fala inicial de Armandinho, explicitando os dois sentivariadas possibilidades de resposta, entre elas: “Às vezes tenho vergonha de ter o que calçar dos explorados na tira. Há e outras pessoas, não” e “Às vezes tenho vergonha por meu tênis ser feio”. Quaisquer que sejam as respostas dos estudantes, chame a atenção para as escolhas dos complementos do substantivo vergonha feitas por eles. Texto e enunciação 6. b) O sentido de que ele ficava moralmente constrangido ao ver pessoas que não têm o que calçar, o que o colocava em estado de superioridade simplesmente por ter um tênis nos pés. Leia o poema a seguir. Espero o dia Que você me chegue E me beije o beijo De quem vai chegar Sem pressa E me amar sem planos De ir embora. E que você se apresse Somente em chegar, Pois, quanto mais Eu te espero, Mais o dia Que você me chega Se demora. Filipe Rocha/Arquivo da editora Demora LUCÃO. Demora. In: LUCÃO. Telegramas. São Paulo: Saraiva, 2016. p. 73. título, demora é substantivo e 1. Qual é o sentido da palavra demora em cada uma das ocorrências? No corresponde a uma longa espera, a algo que demora. No final do poema, demora é verbo e se refere diretamente ao dia da chegada, que se demora. 2. Qual é a relação entre o eu lírico e o seu interlocutor? Justifique sua resposta com elementos do texto. Uma relação amorosa (“me beije o beijo”,“me amar”), provavelmente impossibilitada pela distância física entre eles (“espero o dia que você me chegue”). 3. Há no poema verbos empregados com regências pouco usuais. a) Descreva a diferença entre os complementos do verbo chegar no segundo e no quarto versos. b) Quais são os complementos da forma verbal beije no segundo verso? me e “o beijo” c) Troque ideias com os colegas e o professor e explique o efeito de sentido que as construções analisadas por você nos itens anteriores conferem aos versos. Respeite a vez de cada um falar. 4. Releia os versos destacados e observe que há neles uma ocorrência de regência nominal, na construção “planos de ir embora”. Explique a relação de sentido entre o termo regente e seu complemento. O complemento “de ir embora” indica o conteúdo dos planos. 5. O segundo verso destacado não apenas completa o primeiro, mas também modifica o seu sentido. Qual é o sentido do primeiro verso, se lido como uma frase isolada? Se lido como uma frase isolada, o primeiro verso tem o sentido de um amor acidental, passageiro, sem planos ou perspectiva de continuidade. de que forma o segundo verso destacado modifica o sentido do primeiro. • Explique Ao complementar o sentido da expressão “sem planos” com o termo “de ir embora” o sentido é completamente modificado, pois, nesse caso, pelo contrário, o amor passa a ser duradouro, sem data para terminar. 6. Regência verbal e nominal são relações que um termo (verbo ou nome) estabelece com outro(s), que complementa(m) seu sentido. Indique no caderno, entre as afirmações a seguir, qual descreve corretamente a relação entre o emprego da regência e as ideias do poema estudado. I. No poema, o eu lírico acredita que nunca mais vai encontrar a pessoa amada e, por isso, lamenta a distância que existe entre eles. A utilização das regências acentua essa impossibilidade do encontro. II. No poema, o eu lírico age ativamente para minimizar a distância entre ele e a pessoa amada, e o uso incomum da regência chama a atenção para essas suas atitudes. III. No poema, o eu lírico aguarda a chegada da pessoa amada a fim de que possa se completar no outro; o uso incomum da regência no texto chama a atenção sobre essas relações entre forma e conteúdo. Os estudantes devem copiar no caderno a afirmação III. 264 3. c) A inserção do pronome oblíquo me como objeto das formas verbais analisadas enfatiza a presença do eu lírico, inserindo-o como ponto de chegada em “me chegue” / “me chega” e alvo do beijo (“me beije”). Além Língua e disso, neste último caso, o objeto direto duplicado reforça o ato do beijo, pelo qual o eu lírico tanto espera. linguagem Não escreva no livro. Produção de texto BN CC Crônica Na unidade 1, você viu que, no início do século XIX, a vinda da família real para o Brasil, em 1808, teve como uma de suas consequências a intensificação da vida cultural em nosso país, em decorrência da criação da Imprensa Nacional, da publicação de jornais e livros e da formação de um público leitor. Além dos romances de folhetim, publicados diariamente em capítulos curtos, os jornais passaram a publicar também crônicas, dando início ao gênero no Brasil. Entre os principais cronistas do século XIX, estão José de Alencar e Machado de Assis. As crônicas dessa época prendiam-se bastante aos fatos jornalísticos da época, mas, aos poucos, foram se desprendendo da realidade e ganhando o campo ficcional. Hoje, temos crônicas de diferentes tipos: algumas ainda comentam os fatos noticiados pela imprensa e outras situam-se no terreno puramente ficcional. Foco no gênero Competências gerais da Educação Básica: 1, 3, 4, 7, 9 Competências específicas da área de Linguagens: 1, 2, 3, 4, 6 Habilidades da área de Linguagens: EM13LGG101, EM13LGG104, EM13LGG201, EM13LGG301, EM13LGG402, EM13LGG601, EM13LGG602, EM13LGG603 Habilidades específicas de Língua Portuguesa: EM13LP01, EM13LP02, EM13LP05, EM13LP06, EM13LP07, EM13LP15, EM13LP20, EM13LP28, EM13LP46, EM13LP49, EM13LP51, EM13LP53, EM13LP54 Leia, a seguir, uma crônica de Antonio Prata, um dos principais cronistas brasileiros. O puxador de palmas Não sei se é verdade que ao bater as botas vemos um túnel de luz — e taí um mistério que não tenho pressa em desvendar. O que venho descobrindo empiricamente é que quando uma pessoa muito especial parte, cria um túnel de luz do lado de cá, ajudando os que ficam a fazer a passagem. Tem o susto, a dor, mas aos poucos vão surgindo as memórias, histórias engraçadas vão brotando e quando você vê, um papo que começou com “meus pêsames” termina em risada. empiricamente: baseado na experiência e na observação. Eu não conhecia direito o Marcão, mas ele era dessas pessoas que a gente não precisa conhecer direito pra conhecer bem. Vivia de guarda abaixada, o sorriso à mostra, principalmente quando falava da filha mais velha, Renatinha, minha amiga e colega de trabalho. Todo dia, há três anos, eu, a Renata, a Thais, o Chico e a Hela escrevemos uma série em longas reuniões Zoom. Quando o Marcão faleceu, não faz nem duas semanas, preparei-me pra uma Renata deprimida, calada: eu não contava com o túnel de luz. A cada dia a Renatinha traz uma história, uma memória, um traço do pai que nos leva às lágrimas ou às gargalhadas — não raro, ao mesmo tempo. Anteontem ela nos contou que um dos maiores orgulhos do Marcão era ser “puxador de palmas”. Ele era aquele cara que no teatro Pr od uç ão de te xto 265 ou num show aplaude primeiro, forte, convicto, arrastando milhares atrás de si. Você pode achar que não há grande mérito em ser puxador de palmas. Que seria uma virtude caxias, tipo: ser o primeiro a chegar numa fila ou o primeiro a acordar na família. Nada disso. Pedro, meu querido cunhado, mencionou outro dia como o entusiasmo está fora de moda. O arrebatamento é tratado como uma fraqueza. Ficar enlevado é coisa de criança. No mundo das redes sociais, com as opiniões transformadas em commodities, nos tornamos todos “brokers” de nós mesmos, num “day-trade” infernal. Nos exibimos em tempo real nessas vitrines virtuais, ansiosos para que nosso valor seja estabelecido hora a hora pelo número de views, likes, reposts. caxias: aquele que cumpre com extremo rigor suas obrigações e responsabilidades. arrebatamento: exaltação, arroubo, comportamento precipitado. enlevado: maravilhado, deleitado. views, likes, reposts: visualizações, curtidas e repostagens em redes sociais. circuit breaker: mecanismo que interrompe a negociação de ações no mercado financeiro quando há grandes quedas, para evitar pânico. alumbramento: maravilhamento, revelação. Como todo mercado, é um terreno competitivo, hostil. Nos apresentamos, portanto, segurados pela ironia, alavancados pelo sarcasmo, contando com circuit breaker do cinismo. Sai um filme, um álbum novo, um livro, as pessoas consultam as opiniões de duas dúzias antes de dar um pio [...]. Na dúvida, falam mal, como se não gostar decorresse de profunda atividade intelectual e o alumbramento de uma espécie de reflexo instintivo. Diametralmente oposto aos habitantes desta savana vital está o puxador de palmas. O puxador de palmas não tá na bolsa de valores, tá na praça, tá na roda. O que diz com o aplauso é “não importa o que o cês acharam, eu adorei!”. Uma mente amolecida pelo sol da savana veria no “puxador de palmas” um líder. Um influenciador. Talvez lançasse um livro de autoajuda: “Aplauda antes para ser aplaudido depois — como gerir pessoas e liderar equipes”. Não, amizade. O puxador de palmas não tá nem aí pro que os outros pensam, pra quem vem atrás, é o contrário. Ele é alguém que está à vontade dentro de si, despreocupado. Sua convicção não vem da análise macro e microeconômica das tendências culturais, vem do coração. Esse é o tipo de assunto que surge toda vez que a Renatinha, no meio da lida, evoca o Marcão, orgulhoso puxador de palmas. De repente, do pranto faz-se o riso. Das mãos espalmadas faz-se o encanto. Faz-se de um Zoom uma aventura errante. De repente, não mais que de repente. Lucas Lacaz Ruiz/Folhapress PRATA, Antonio. O puxador de palmas. Folha de S.Paulo, São Paulo, 4 maio 2024. Disponível em: https://tedit.net/41seol. Acesso em: 3 out. 2024. 266 Antonio Prata Antonio Prata (1977-) nasceu em São Paulo, é escritor e roteirista. Publicou livros de crônicas, contos, de literatura infantil, entre outros. Escreve roteiros para tevê e cinema e mantém uma coluna no jornal Folha de S.Paulo. Pr od uç ão de te xt o Não escreva no livro. En tr e liv ro s Rubem Braga (1913-1990), São Paulo, 1988. Eduardo Anizelli/Folha press s Andre Borges/Folhapres Daniel Marenco/Fohapre ss Sergio Tomisaki/Folhapre ss Embora não tenha surgido no Brasil, a crônica encontrou em nosso país um campo fértil para se desenvolver, e desde o século XIX vem se solidificando como um dos gêneros literários mais lidos entre nós. Sugerimos que a turma faça uma pesquisa para conhecer melhor esse gênero e trocar ideias sobre essas produções tendo como base alguns nomes fundamentais da crônica brasileira, como: Affonso Romano de Sant’Anna, Antonio Prata, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Domingos Pellegrini, Fernando Bonassi, Fernando Sabino, Ignácio de Loyola Brandão, João do Rio, Lourenço Diaféria, Luis Fernando Verissimo, Luís Vilela, Marina Colasanti, Mário Prata, Martha Medeiros, Rubem Braga, Stanislaw Ponte Preta, Walcyr Carrasco. Luís Fernando Verissimo (1936-), São Paulo, 2016. Marina Colasanti (1937-) em sua casa, em Ipanema, Rio de Janeiro, 2014. Para se aventurar por esse universo, considere os passos seguintes. Martha Medeiros (1961-) durante palestra na primeira Bienal do Livro em Brasília, Distrito Federal, 2012. • Forme um grupo com seus colegas e dividam-se para fazer uma pesquisa junto à biblioteca para conhecer os principais cronistas brasileiros. • Cada membro do grupo poderá escolher um dos cronistas indicados neste boxe e selecionar uma crônica dele para ler ou escolher uma que já tenha lido e da qual goste bastante. • Cada estudante então apresenta a crônica aos colegas do grupo e comenta o porquê de sua preferência. É importante ouvir os colegas com respeito, favorecendo uma cultura de paz. • O grupo vai, na sequência, digitar os textos e prepará-los para que, juntamente com as crônicas das demais equipes, seja organizado um acervo de crônicas da turma. Será importante disponibilizar esse acervo para todos, seja de forma impressa, em murais, seja em formato digital. 1. O narrador inicia a crônica relatando um fato da vida que ocorreu com o pai de uma pessoa de seu círculo de trabalho: a morte de Marcão. Como era Marcão, segundo esse ponto de vista? Marcão é descrito como uma pessoa de “guarda abaixada”, sempre com um sorriso, especialmente quando falava da filha Renatinha. Mesmo sem conhecê-lo bem, o narrador indica que conhece Marcão como alguém autêntico, espontâneo e cheio de vida. 2. Algumas pessoas associam a morte a um misterioso “túnel de luz”, mas o cronista rejeita a ideia de desvendar esse “mistério”. Em contrapartida, afirma que a partida de uma pessoa querida “cria um b) O “túnel de luz” é uma metáfora que representa as memórias deixadas por uma pestúnel de luz do lado de cá”. 2. soa especial após sua morte. Ele representa certo conforto aos que ficaram, pois transforma a) Qual parece ser o motivo pelo qual o narrador rejeita a possibilidade de conhecer esse “mistério”? Porque deseja continuar vivo. b) O “túnel do lado de cá” pode ser compreendido como uma metáfora. Explique essa ideia. c) De que maneira você encara a morte? Respeite a vez de cada um falar. Resposta pessoal. a dor da perda em momentos de reflexão e, eventualmente, de alegria, permitindo aos que ficaram “do lado de cá” que façam a “passagem” do luto de uma forma mais leve e acolhedora. De acordo com o cronista, a memória de Marcão continua trazendo luz e felicidade para aqueles que o conheceram. Pr od uç ão de te xto 267 3. Renatinha, a filha de Marcão e amiga do narrador, revela uma característica do pai – a de puxador de palmas. a) Por que esse comportamento de Marcão, na opinião de Pedro (cunhado do narrador) parece ser inadequado nos dias de hoje? Porque sentimentos como esse são considerados infantis ou sinal de fraqueza nos dias de hoje. b) Você concorda com a postura das pessoas que fazem esse tipo de avaliação? Explique. Resposta pessoal. O importante é os estudantes observarem que nem todas as pessoas têm a mesma opinião sobre o comportamento humano e que, para haver uma convivência respeitosa, é necessário respeitar pontos de vista diferentes. 4. O narrador faz uma contraposição entre essa característica de Marcão ao comportamento das pessoas nas redes sociais. E, para isso, emprega uma linguagem própria do mercado financeiro. Observe estas palavras empregadas na crônica e seus significados: commodities: produtos básicos negociáveis, como petróleo, soja, milho, que são padronizados e negociados no mercado internacional. BRKH-STUDIO/Shutterstock broker: corretor ou intermediário no mercado financeiro. day-trade: prática de comprar e vender ações no mesmo dia, com o objetivo de obter lucro a partir das variações de preço. O narrador dá a entender que nossas opiniões publicadas nas redes sociais não são autênticas, pois são moldadas por opiniões e avaliações alheias. Como se fossem mercadoria, podem ter menos ou mais valor social de acordo com o número de likes que recebemos. a) Levando isso em conta, dê uma interpretação coerente a estes trechos da crônica: • “No mundo das redes sociais, com as opiniões transformadas em commodities”. tornamos todos ‘brokers’ de nós mesmos, num ‘day-trade’ infernal” • “nos O cronista considera que as pessoas se tornam vendedoras de si mesmas, em uma busca incessante, a cada dia, por uma b) Em meio às “vitrines virtuais” desse mercado da internet, qual é a remuneração mais desejada? São os views, os likes e os reposts. c) Por que o comportamento de Marcão, segundo o cronista, contrasta com o comportamento Porque Marcão é descrito como alguém que aplaudia com entusiasmo e sem se das pessoas nas redes sociais? preocupar com a opinião dos outros; por sua vez, as pessoas nas redes sociais não agem com liberdade e espontaneidade, já que têm medo de perder a popularidade, o número de likes ou de serem “canceladas”. d) Para você, faz sentido essa comparação entre o mercado financeiro e as redes sociais? Por quê? E de que maneira você interpreta o comportamento de Marcão em destaque? Explique. Respostas pessoais. Espera-se que os estudantes observem que a aproximação entre mercado financeiro e o comportamento das pessoas em redes sociais é uma crítica feita a esse comportamento, assim como a valorização do modo de ser de Marcão, considerado na crônica mais espontâneo, menos preocupado com a opinião alheia. 5. Releia o trecho: Sai um filme, um álbum novo, um livro, as pessoas consultam as opiniões de duas dúzias antes de dar um pio [...]. Na dúvida, falam mal, como se não gostar decorresse de profunda atividade intelectual cada vez melhor nas redes sociais. Assim, e o alumbramento de uma espécie de reflexo instintivo. avaliação postam durante o dia para avaliar, no dia seguinte, o quanto lucraram com suas publicações. Nesse trecho, o narrador contrapõe duas posturas que as pessoas podem ter ao avaliar, nas redes sociais, um objeto cultural, como filme, livro ou álbum de música. a) De que modo é vista a pessoa que critica negativamente o objeto? É vista como uma pessoa que tem profundidade intelectual. b) E a que critica com entusiasmo? É vista como uma pessoa levada por um reflexo instintivo, sem pensar e avaliar de modo racional. c) Você concorda com essas avaliações? Por quê? Respostas pessoais. Espera-se que os estudantes percebam que o cronista faz uma crítica a internautas que receiam expressar as próprias opiniões ou fazer críticas negativas sem muito fundamento. 6. A crônica lida é marcada pela leveza e pelo humor, que se transformam, em alguns momentos, em crítica social e ironia. Identifique, no texto, situações de humor, ironia e crítica social. 268 Humor, ironia e crítica se misturam no texto e estão presentes em várias passagens, como a comparação dos comportamentos humanos nas redes sociais ao mercado financeiro; a associação feita por uma “mente amolecida pelo sol” do puxador de palmas a um influenciador ou líder e ao possível lançamento do livro Aplauda antes para ser aplaudido o xt depois, a referência ao “economês” na expressão “Análise macro e micro econômica das te de ão uç Pr od tendências culturais”, etc. 7. b) A intertextualidade reforça a ideia de que, assim como no poema, as emoções e as circunstâncias mudam repentinamente, especialmente no luto. A referência enfatiza não apenas o pranto, mas também a transformação que ocorre após a perda, quando as memórias criam momentos de riso e cumplicidade. Assim, o de repente não marca apenas o rompimento e a dor, mas também a capacidade de a dor se transformar em algo mais leve e cheio de luz, como ocorre, para alguns, na passagem do luto para Não escreva no livro. a celebração das lembranças. 7. No final, a crônica estabelece uma relação intertextual com o “Soneto de separação”, de Vinicius de Moraes, que você pode ler no boxe a seguir. a) No poema de Vinicius de Moraes, a separação é relativa ao fim do relacionamento entre duas pessoas que se amam. Na crônica, que novo sentido ganha a ideia de separação? A separação decorrente da morte. b) No trecho da crônica “De repente, do pranto faz-se o riso”, é invertida a posição que os substantivos têm no verso original de Vinicius de Moraes. Explique a mudança de sentido provocada por esse recurso. c) No contexto da crônica, qual é o sentido da ideia de fazer de reuniões virtuais, que acontecem No 2o parágrafo, o narrador já havia mencionado que faz as reuniões de trabalho por vídeo, “uma aventura errante”? por um aplicativo que possibilita reuniões virtuais. No contexto, dá a entender que essas reuniões se tornam uma aventura porque permitem descobrir novas histórias e facetas de Marcão, capazes de promover reflexão e riso a um só tempo. So ne to de se pa ra çã o Esse soneto de Vinicius de Moraes é um dos mais conhecidos de nossa literatura. Construído com base em antíteses, o poema flagra a dor da separação e a fragilidade das relações humanas, que podem se esvair de um instante para o outro. Leia-o. Soneto de separação De repente do riso fez-se o pranto Silencioso e branco como a bruma E das bocas unidas fez-se a espuma Arquivo/Estadão Conteúd o E das mãos espalmadas fez-se o espanto. De repente da calma fez-se o vento Que dos olhos desfez a última chama E da paixão fez-se o pressentimento E do momento imóvel fez-se o drama. De repente, não mais que de repente Fez-se de triste o que se fez amante E de sozinho o que se fez contente. Fez-se do amigo próximo o distante O escritor Vinicius de Moraes (1913-1980), em foto de 1972. Fez-se da vida uma aventura errante De repente, não mais que de repente. MORAES, Vinicius de. Soneto de separação. In: MORAES, Vinicius de. Vinicius de Moraes: poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1974. p. 226-227. 8. Observe estas expressões empregadas na crônica: • “ao bater as botas” • “tá na praça, tá na roda” • “taí um mistério” • “o que o cês acharam” • “guarda abaixada” • “Não, amizade” • “virtude caxias” • “não tá nem aí pro que os outros pensam” Pr od uç ão de te xto 269 8. a) É uma linguagem com muitas marcas de coloquialidade, própria da comunicação oral ou de situações informais do dia a dia. a) De acordo com esses trechos, como se caracteriza a linguagem empregada pelo cronista? b) Que efeito tem o emprego dessas expressões quanto ao tom da crônica e à relação estabelecida com os leitores? Elas contribuem para conferir leveza e humor ao texto, aproximando os leitores. 9. b) Sim, pois se trata de um gênero literário, produzido há várias décadas e destinado a público leitor de jornais e de literatura. 9. Observe agora os tempos verbais empregados na crônica “O puxador de palmas”. os tempos presente, pretérito perfeito e pretérito ima) Que modo e tempos verbais predominam? Predominam perfeito do modo indicativo. b) Considerando a situação de produção do texto – o enunciador, o público a que se destina, o veículo (jornal e livro) e o gênero textual – pode-se dizer que a linguagem é adequada? Comente que a crônica, entretanto, pode sofrer muitas variações, dependendo do narrador, do perfil dos personagens, do contexto social no qual é veiculada, etc. 10. A crônica quase sempre é um texto curto, com poucas personagens, com tempo e espaço limitados. a) Quais são os personagens da crônica? Os personagens têm pouca participação, já que esta é uma crônica mais reflexiva. Os principais são o próprio narrador, Marcão e Renatinha. Há poucas referências a espaço, mas subentende-se que o narrador tenha ido ao velório b) Qual é o espaço retratado? de Marcão. Além disso, há um espaço virtual no qual o cronista trabalha com Renatinha e outras pessoas. c) Qual é o tempo de duração dos fatos da crônica? O tempo é curto, mas o cronista afirma que se passaram duas semanas desde a morte e o funeral de Marcão. 11. Em uma crônica, o narrador pode ser observador ou personagem. Qual é o tipo de narrador da um narrador personagem, pois ele participa dos fatos, conforme o crônica em estudo? Justifique sua resposta. É emprego da 1a pessoa em “Não sei se é verdade”, “não tenho pressa em desvendar”. “Eu não conhecia direito o Marcão”. 12. A crônica é um gênero textual que oscila entre o campo da literatura e do jornalismo; antes de ser publicada em livro, costuma ser veiculada em jornal, blogue ou revista. Seus temas giram em torno de fatos supostamente ocorridos no dia a dia da cidade. a) Qual é o fato que serve como ponto de partida da crônica lida? A morte de Marcão. b) Qual é o tema central da crônica, que está para além do fato? É o comportamento das pessoas nas redes sociais, que perderam a espontaneidade e a autenticidade ao participarem de uma espécie de competição social em busca de visibilidade. 13. Como afirma o crítico Manuel da Costa Pinto, as crônicas em geral exploram “fatos do dia a dia [...], acontecimentos que propiciam momentos de nostalgia, enternecimento ou indignação” (PINTO, M. da C. (org.) Crônica brasileira contemporânea. São Paulo: Moderna, 2005. p. 8.). Quais desses substantivos são adequados à crônica de Antonio Prata? Justifique. 14. Com a orientação do professor, junte-se a alguns colegas para resumir as características básicas do gênero crônica. Para isso, copiem o quadro a seguir no caderno e respondam às questões de acordo com o que perceberam da crônica em estudo ou de outras crônicas conhecidas. Crônica: construção e recursos expressivos 270 Quem são os interlocutores de uma crônica? O escritor literário ou jornalista, de um lado, e público de leitores interessados nesse gênero, do outro. Qual é o objetivo desse gênero textual? Entreter, envolver, divertir, provocar emoções ou reflexões críticas e filosóficas sobre a vida e os comportamentos humanos. Que temas circulam nas crônicas em geral? Temas do cotidiano, geralmente colhidos no noticiário jornalístico ou na observação direta da vida. Qual é o suporte da crônica e por onde ela circula? Em jornais, revistas, livros, sites, blogues e podcasts especializados em literatura. Qual é a estrutura básica de uma crônica? Não há uma estrutura rígida. Geralmente o texto situa um fato observado no cotidiano e, a partir dele, extrai humor, crítica e reflexões. Como são o tempo e o espaço que integram uma crônica? São curtos. O tempo pode corresponder a alguns minutos, por exemplo. O espaço também costuma ser limitado: uma casa, um ambiente de trabalho, uma rua, uma calçada, etc. 13. De certa forma todos: Os dois primeiros porque remetem à espontaneidade e à alegria de Marcão, juntamente com sua morte; e indignação por causa da reflexão crítica que o texto faz em relação às redes sociais. Pr od uç ão de te xt o Não escreva no livro. Hora de produzir Ao final desta unidade, você participará com seus colegas da produção de um jornal de ciência e cultura. Nele, serão publicados os textos produzidos pela turma, que serão divulgados para outros estudantes, para seus familiares, para professores e para funcionários da escola. Entre os textos, estarão as crônicas de vocês. Seguem duas propostas para a produção de crônicas. Desenvolva pelo menos uma dessas propostas, de acordo com a orientação do professor. 1. Cenas do cotidiano. A exemplo de Antonio Prata, escreva você também uma crônica, ficcional ou não, a partir de uma situação do cotidiano. Se quiser, poderá escolher um dos temas a seguir ou optar por outro. • O palhaço • No salão de beleza • O malabarista do semáforo • Dois irmãos • No ônibus • No hospital • A fotografia • O beijo 2. Humor. A crônica serve também para o entretenimento, para ser lida quando queremos nos divertir. Luis Fernando Verissimo é um de nossos principais cronistas, pois consegue relatar situações do cotidiano de maneira que, além de proporcionar diversão, leva também à reflexão e à crítica. Leia parte de uma crônica desse autor: O olhar da truta O homem pediu truta e o garçom perguntou se ele não gostaria de escolher uma pessoalmente. — Como, escolher? — No nosso viveiro. O senhor pode escolher a truta que quiser. Ele não tinha visto o viveiro ao entrar no restaurante. Foi atrás do garçom. As trutas davam voltas e voltas dentro do aquário, como num cortejo. Algumas paravam por um instante e ficavam olhando através do vidro, depois retomavam o cortejo. E o homem se viu encarando, olho no olho, uma truta que estacionara com a boca encostada no vidro à sua frente. — Essa está bonita... — disse o garçom. — Eu não sabia que se podia escolher. Pensei que elas já estivessem mortas. — Não, nossas trutas são mortas na hora. Da água direto para a panela. A truta continuava parada contra o vidro, olhando para o homem. — Vai essa, doutor? Ela parece que está pedindo... Mas o olhar da truta não era de quem queria ir direto para uma panela. Ela parecia examinar o homem. Parecia estar calculando a possibilidade de um diálogo. Estranho, pensou o homem. Nunca tive que tomar uma decisão assim. Decidir um destino, decidir entre a vida e a morte. Não era como no supermercado, em que os bichos já estavam mortos e a responsabilidade não era sua — pelo menos não diretamente. Você podia comê-los sem remorso. Havia toda uma engrenagem montada para afastar você do remorso. As galinhas vinham já esquartejadas, suas partes acondicionadas em bandejas congeladas, nada mais distante da sua responsabilidade. Os peixes jaziam expostos no gelo, com os olhos abertos mas sem vida. Exatamente, olhos de peixe morto. Mas você não decretara a morte deles. Claro, era com sua aprovação tácita que bovinos, ovinos, suínos, caprinos, galinhas e peixes eram assassinados para lhe dar de comer. Mas você não estava presente no ato, não escolhia a vítima, não dava a ordem. Não via o sangue. De certa maneira, pensou o homem, vivi sempre assim, protegido das entranhas do mundo. Sem precisar me comprometer. Sem encarar as vítimas. Mas agora era preciso escolher. Pr od uç ão de te xto 271 — Vai essa, doutor? — insistiu o garçom. — Não sei. Eu… [...] VERISSIMO, Luis Fernando. O olhar da truta. In: VERISSIMO, Luis Fernando. Em algum lugar do paraíso. São Paulo: Objetiva, 2011. p. 14-16. • A ideia é que você dê continuidade à história narrada por Verissimo, mantendo o humor reflexivo do texto original. Mas, se preferir, imagine uma situação, real ou imaginada, em que a relação entre os seres humanos e os animais também seja retratada. Pense, por exemplo, nos locais elencados a seguir, ou em outro que lhe ocorra: • No elevador • No veterinário • Num local que alugue cavalos para passeio • No zoológico Planejamento do texto • Pense no leitor, considerando que sua crônica será publicada em um jornal de ciência e cultura da turma, portanto, será lida por colegas de sua turma e de outras, por professores e funcionários da escola, por familiares e amigos. • Pense também no objetivo de sua crônica: fazer o leitor refletir sobre a realidade, abrir seus olhos para a poesia do cotidiano ou, simplesmente, fazê-lo se divertir. • No caso da proposta 2, procure ser fiel ao tom da crônica de Verissimo (caso tenha optado por dar continuidade a ela) ou procure se lembrar de uma situação já vivida ou imagine uma situação que envolva animais e que expresse seu olhar ou sua relação com eles. • Pense no número de personagens da história, no tempo e no espaço. No caso de ter escolhido dar sequência à crônica de Verissimo, alguns desses dados já estão estabelecidos, embora nada o impeça de mudá-los, caso prefira. • Caso sua crônica seja inteiramente original, imagine qual vai ser o conflito da narrativa e como vai ser o final da história. Escrita Se você optou por não dar continuidade à crônica de Verissimo, leve em conta os aspectos a seguir. • Aborde o fato ou a situação escolhida procurando ir além do que aconteceu, narrando com sensibilidade ou humor. • Faça a apresentação dos personagens e, se quiser dar mais dinamismo à narrativa, utilize o discurso direto. • Conte o fato de uma forma que envolva o leitor, despertando nele o interesse pela narração e a vontade de chegar ao final dela. • Logo após a introdução, apresente o conflito da narrativa. Desenvolva as ações conduzindo-as para o clímax, no qual se dará o desfecho da história. • Escreva de forma simples, procurando proximidade com o leitor, e empregue uma variedade linguística que esteja de acordo com a norma-padrão ou de acordo com a linguagem dos personagens. 272 Pr od uç ão de te xt o 3. O uso de uma linguagem mais impessoal sugere que o texto expõe os fatos por si mesmos, sem que o autor manifeste seu posicionamento pessoal. Com isso, cria-se uma sensação no leitor de que o conteúdo do texto corresponde a uma verdade que supostamente não poderia ser contestada. Não escreva no livro. • Tente criar um final surpreendente, ou reflexivo, ou engraçado. Caso tenha escolhido dar continuidade à crônica de Verissimo, fique atento a estes pontos: • Procure manter o tom do texto (ao mesmo tempo humorístico e reflexivo) e ser fiel à personalidade do homem que hesita diante da truta. • Busque surpreender o leitor, mas mantenha a coerência com a parte da crônica que você já conhece. Revisão e reescrita Antes de passar sua crônica a limpo, releia-o, observando: • se ela apresenta uma visão pessoal do assunto escolhido; • se aproveita situações do cotidiano para tratar do tema; • se o número de personagens é reduzido e se o tempo e o espaço são limitados; • se ela ficou curta e leve e se a leitura pode levar o leitor à reflexão ou a se divertir; • se a linguagem está adequada ao gênero, à situação e aos personagens; • se o desfecho está adequado ao objetivo da crônica. Caso tenha optado por dar sequência à crônica de Verissimo, releia os itens sobre essa possibilidade apresentados em “Planejamento do texto” e “Escrita” e veja se seu texto atendeu às orientações neles apresentadas. Hora de compartilhar: Jornal de ciência e cultura Guarde sua crônica para que possa ser publicada no jornal a ser organizado pela turma e compartilhado com a comunidade escolar ao final desta unidade. 2. A produção literária de Cruz e Sousa não se restringe aos traços típicos do Simbolismo, uma vez que aborda o tema da condição dos afrodescendentes no Brasil, diferindo bastante da tônica de outros poetas simbolistas. O traço social em sua poesia liga-se à própria experiência pessoal, refletindo, portanto, a expressão de sua subjetividade construída a partir da condição de ser negro na sociedade brasileira de seu tempo. Avali an do os es tu do s Você e os colegas vão retomar os objetivos indicados no início do capítulo e avaliar os estudos 1. O movimento simbolista surgiu como uma reação às teorias feitos e o percurso, considerando estas questões: filosóficas e cientificistas que embasavam a produção cultural da época, tendência que, na perspectiva dos simbolistas, promovia uma visão mecanicista do ser humano e do mundo. 1. No Brasil, o Simbolismo se desenvolveu na última década do século XIX. Como esse movimento reagiu em relação às teorias científicas e filosóficas da época? 2. Cruz e Sousa é o principal poeta do Simbolismo brasileiro. Por que sua obra poética não se restringe ao aspecto transcendente, sugestivo, misterioso típico da estética simbolista? 3. Quais efeitos de sentido a opção por uma linguagem mais impessoal constrói em um texto? 4. Cite alguns recursos linguísticos que podem ser empregados como estratégias de impessoalização da linguagem. Consulte a resposta da atividade 4 nas Orientações específicas do Manual do Professor. A matéria essencial da crônica é o coti- 5. Qual é a matéria essencial da crônica, isto é, do que ela é feita? diano, são os fatos aparentemente banais do dia a dia que, quando narrados por um cronista, ganham uma ótica particular, criando nova visão da realidade. 6. A crônica é um gênero enxuto, com poucos personagens e tempo e espaço restritos. Que relação existe entre esses aspectos formais do gênero e seu conteúdo? A crônica capta situações instantâneas do cotidiano – por exemplo, passa-se na padaria, no elevador, no caminho para o trabalho, etc. Como essas situações ocorrem geralmente num contexto restrito, é natural que o número de personagens, o tempo e o espaço também sejam limitados Pr od uç ão de te xto 273 capítulo 8 Simbolismo (II) m ad a s to re : a c ti ís u g n li e s li á n A Resenha crítica e videorresenha Neste capítulo você vai: • refletir sobre a poesia simbolista de Alphonsus de Guimaraens e a poesia afro-brasileira de Cruz e Sousa; • conhecer a sintaxe de regência verbal e nominal conforme a norma-padrão; • comparar usos do português brasileiro corrente aos usos da norma-padrão, no que diz respeito às possibilidades de regência verbal e regência nominal; • refletir sobre a influência da regência verbal e da regência nominal na construção de sentidos dos textos; BN CC Competências gerais da Educação Básica: 1, 2, 3, 4, 7, 9, 10 Competências específicas da área de Linguagens: 1, 2, 3, 6 Habilidades específicas da área de Linguagens: EM13LGG101, EM13LGG202, EM13LGG301, EM13LGG601, EM13LGG602, EM13LGG604 Habilidades específicas de Língua Portuguesa: EM13LP01, EM13LP03, EM13LP04, EM13LP05, EM13LP06, EM13LP11, EM13LP12, EM13LP14, EM13LP20, EM13LP28, EM13LP30, EM13LP32, EM13LP34, EM13LP46, EM13LP48, EM13LP49, EM13LP50, EM13LP51, EM13LP52 274 • identificar características básicas da resenha crítica de obra literária e produzir esse gênero, tanto na modalidade escrita quanto na audiovisual. Justificativa A fim de dar continuidade ao desenvolvimento da fruição estética, ao aprimoramento da leitura e à aprendizagem do processo de constituição da literatura no Brasil, é importante que você possa analisar textos significativos da literatura brasileira, com foco na literatura afro-brasileira, baseando-se no contexto social, histórico e estético de sua produção. Partindo ainda de textos literários, você vai analisar a sintaxe de regência e comparar as regras da norma-padrão aos usos correntes no português brasileiro para potencializar o processo de compreensão desses textos. Tal processo também propicia escolhas mais conscientes e adequadas às diversas situações comunicativas. Entre os textos que podem vir a ser produzidos em tais situações, a resenha crítica é um gênero relacionado às práticas culturais das sociedades letradas em geral e que será trabalhado neste capítulo como forma de estimular a aproximação a objetos culturais diversos. Além disso, a produção da videorresenha possibilita a você experienciar diversas práticas no campo da cultura digital, como a produção de roteiro de vídeos, fundamentais para a era digital em que vivemos. Não escreva no livro. Literatura Simbolismo (II) Alphonsus de Guimaraens Uma das peculiaridades da poesia é a manifestação livre e subjetiva do eu lírico diante do mundo por meio dos poemas. Nesse aspecto, a poesia de Alphonsus de Guimaraens manifesta angústias e sofrimentos que se confundem com a própria experiência pessoal do poeta. A presença da espiritualidade e o tema da morte relacionam-se, sobretudo, com o trauma da morte prematura de sua prima e noiva Constança, experiência que marcou sua juventude e toda sua vida. Em torno da morte e em meio a uma atmosfera mística, litúrgica e misteriosa, o poeta também evoca outros temas, como a arte, a natureza, a religião e os estados mais profundos da mente. Em alguns poemas, a presença do luto, das procissões, dos espectros e das orações fúnebres é expressão de um diálogo com o Romantismo gótico, estabelecido também por outros poetas simbolistas. Reprodução/Acervo Iconographia Reprodução/Museu Metropolitano de Arte, Nova York, EUA. A poesia de Alphonsus de Guimaraens, mais simples em comparação com a de Cruz e Sousa, se distingue pela fluidez e pela melancolia. O poeta cultivou versos de maior rigor formal, como os decassílabos e os alexandrinos (doze sílabas métricas), mas também as redondilhas, originadas na tradição popular. Algumas de suas obras são Kiriale (1902) e Escada de Jacó (1938). A ilha dos mortos (1880), do pintor simbolista suíço Arnold Böcklin (1827-1901). Alphonsus de Guimaraens Sobrinho do escritor romântico Bernardo Guimarães, Afonso Henriques da Costa Guimarães (1870-1921) nasceu em Ouro Preto, Minas Gerais. Estudou Direito em São Paulo, onde se integrou a um grupo de poetas simbolistas. Foi admirador de Cruz e Sousa, a quem conheceu pessoalmente, no Rio de Janeiro. Em 1902, utilizando o nome Alphonsus de Guimaraens, publicou a obra Kiriale, que o projetou como poeta e o tornou reconhecido no meio literário. Li te ra tu ra 275 Foco no texto Leia, a seguir, um soneto de Alphonsus de Guimaraens. Hão de chorar por ela os cinamomos, Murchando as flores ao tombar do dia. Dos laranjais hão de cair os pomos, Lembrando-se daquela que os colhia. cinamomos: árvores de flores aromáticas, pequenas e de cor violeta. silente: silencioso. As estrelas dirão: — “Ai! nada somos, Pois ela se morreu silente e fria…” E pondo os olhos nela como pomos, Hão de chorar a irmã que lhes sorria. A lua, que lhe foi mãe carinhosa, Que a viu nascer e amar, há de envolvê-la Entre lírios e pétalas de rosa. Os meus sonhos de amor serão defuntos… E os arcanjos dirão no azul ao vê-la, Pensando em mim: — “Por que não vieram juntos?” GUIMARAENS, Alphonsus de. [Hão de chorar por ela os cinamomos...]. In: CANDIDO, A.; CASTELLO, J. A. Presença da literatura brasileira: História e antologia. Rio de Janeiro: Bertrand, 1997. p. 409. Consulte a resposta da atividade 1 (item c) nas Orientações específicas do Manual do Professor. 1. Os poemas de Alphonsus de Guimaraens se caracterizam por um rigor formal na metrificação e por uma rica sonoridade. a) Faça a escansão dos versos do primeiro quarteto do soneto e identifique a métrica empregada. Os versos são decassílabos, ou seja, apresentam dez sílabas métricas. b) Qual é o esquema rítmico do poema? O poema apresenta cinco rimas, no esquema: ABAB, ABAB, CDC, EDE. c) Identifique no soneto fonemas que constroem a aliteração (repetição de sons consonantais) e a assonância (repetição de sons vocálicos). 2. No poema, a natureza é retratada de modo subjetivo. De que maneira o eu lírico relaciona os elecinamomos murcham, os laranjais perdem os frutos, as estrementos da natureza com seu estado de alma? Os las se sentem insignificantes: todos esses elementos naturais mimetizam o estado de alma do eu lírico, que se encontra enlutado. 3. Ao tematizar a morte da amada e expressar seus sentimentos, o eu lírico emprega prosopopeias (figura de linguagem que consiste em atribuir ações, pensamentos e sentimentos a seres inanima“Hão de chorar por ela os cinamomos… Lembrando-se dados ou irracionais). quela que os colhia”; “As estrelas dirão: ‘Ai! nada somos…, a) Identifique no poema exemplos de prosopopeia. Hão de chorar a irmã que lhes sorria”; “A lua… há de envolvê-la / Entre lírios e pétalas de rosa.” b) Que efeito de sentido o emprego dessa figura de linguagem constrói no texto? A prosopopeia confere maior intensidade à atmosfera de luto, de tristeza e de melancolia do poema, pois dá ideia de que a natureza – os cinamomos, as estrelas e a lua – sofre com o eu lírico a morte da mulher amada. 4. A poesia de Alphonsus de Guimaraens é marcada pela espiritualidade. a) Que elementos do texto evocam religiosidade? Arcanjos e a presença da amada no céu. b) O poema lido tematiza o luto. O que a morte representa para o eu lírico? Representa a transcendência, pois ele imagina a amada em meio a “arcanjos… no azul”. 5. Em sua poesia, Alphonsus Guimaraens expressou, por meio da estética simbolista, questões existenciais, como a melancolia, o luto e a religiosidade. Que poemas ou canções que exploram temas existenciais, como a felicidade, a tristeza, a espiritualidade, o amor, a identidade e a autodescoberta, etc. são especiais para você? Que reflexões sobre a vida lhe despertam essas canções ou esses poemas? Compartilhe suas ideias e preferências com a turma e ouça as de seus colegas. Resposta pessoal. 276 L ite ra tu ra RES E B A S E R T N E Ciências Não escreva no livro. e Humanas plicadas. Sociais A Reflexões sobre racismo No Brasil, as décadas finais do século XIX foram um período de transformações políticas e sociais, entre elas a Abolição da escravatura (1888). Para refletir sobre a situação dos negros nesse momento da nossa história e sobre o racismo, presente na sociedade até os dias de hoje, leia os textos a seguir. Texto 1 […] Logicamente, todo o intento pelo movimento abolicionista, perpassado por uma ideologia humanitária, não recaía nos reais problemas que diziam respeito ao homem negro, mas sim se pautava pela ótica ideológica do branco. Assim sendo, atingindo o que se considerava o intento verdadeiro, a proclamação da República, a abolição dos escravos é dada como causa superada. Não existirá, a partir de 1888, nenhuma preocupação por parte dos dirigentes da nação em se promover uma política social capaz de favorecer a integração desse homem livre ao contexto social da época. A liberdade do negro não é respaldada por nenhuma política econômica. Seria uma liberdade para a ociosidade e não para o fortalecimento social do país. Os suicídios de negros e mulatos, que começaram a ocorrer depois de 1850, aumentaram muito depois de 1888. Era uma resposta pessoal que se dava a tal postura branca. Um pouco antes da abolição eram muitos os levantes de escravos que já sofriam as mais variadas formas de pressões. São trágicas as condições de trabalho do negro. É a partir daí que se instaura o profundo preconceito de cor no Brasil. […] intento: dedicação; objetivo. respaldada: que tem apoio moral ou político. levantes: ações coletivas contra a ordem ou autoridade estabelecida. instaura: introduz, implanta. ABDALA, Benjamim; LAJOLO, Marisa; CAMPEDELLI, Samira Y. Cruz e Sousa. São Paulo: Nova Cultural, 1988. p. 15. (Literatura Comentada). Texto 2 […] ao mesmo tempo em que ia se aproximando o momento da abolição definitiva da escravidão, tomavam força teorias do darwinismo racial. Ou seja, na década de 1880, modelos como o determinismo racial viraram uma verdadeira voga no Brasil. Raça tornava-se uma essência, e os homens não escapavam de seus estigmas biológicos hereditários, que determinavam como a humanidade se dividia entre grupos superiores e inferiores. Mais ainda, o cruzamento extremado, tal qual encontrado no país, tendia a produzir indivíduos degenerados. O Brasil ia se transformando, assim, num laboratório de raças mistas e degeneradas, com os negros sendo discriminados não só por conta do que era considerada a sua história pregressa, como agora pela biologia: um critério ainda mais definitivo e radical. 277 É por isso que na época se dizia que a liberdade podia ser negra mas a igualdade era apenas branca. Nos estertores do sistema escravocrata ganhavam corpo, pois, teorias raciais que condenavam a mestiçagem e estabeleciam hierarquias ainda mais rígidas entre negros e brancos; na verdade, condenavam radicalmente qualquer mistura. GOMES, Flávio dos Santos; SCHWARCZ, Lilia Moritz (org.). Dicionário da escravidão e liberdade: 50 textos críticos. São Paulo: Companhia das Letras, 2018. p. 39-40. Texto 3 Definindo o racismo No racismo estão presentes, de modo simultâneo, três características: a primeira é a construção de/da diferença. A pessoa é vista como “diferente” devido à sua origem racial e/ ou pertença religiosa. Aqui, temos de perguntar: quem é “diferente” de quem? É o sujeito negro “diferente” do sujeito branco ou o contrário, é o branco “diferente” do negro? Só se torna “diferente” porque se “difere” de um grupo que tem o poder de se definir como norma — a norma branca. Todas/os aquelas/es que não são brancas/os são construídas/os então como “diferentes”. A branquitude é construída como ponto de referência a partir do qual todas/os as/os “Outras/os” raciais “diferem”. Nesse sentido, não se é “diferente”, torna-se “diferente” por meio do processo de discriminação. A segunda característica é: essas diferenças construídas estão inseparavelmente ligadas a valores hierárquicos. Não só o indivíduo é visto como “diferente”, mas essa diferença também é articulada através do estigma, da desonra e da inferioridade. Tais valores hierárquicos implicam um processo de naturalização, pois são aplicados a todos os membros do mesmo grupo que chegam a ser vistas/os como “a/o problemática/o”, “a/o difícil”, “a/o perigosa/o”, “a/o preguiçosa/o”, “a/o exótica/o”, “a/o colorida/o” e “a/o incomum”. Esses dois últimos processos — a construção da diferença e sua associação com uma hierarquia — formam o que também é chamado de preconceito. Por fim, ambos os processos são acompanhados pelo poder: histórico, político, social e econômico. É uma combinação do preconceito e do poder que forma o racismo. E, nesse sentido, o racismo é a supremacia branca. Outros grupos raciais não podem ser racistas nem performar o racismo, pois não possuem esse poder. Os conflitos entre eles ou entre eles e o grupo dominante branco têm de ser organizados sob outras definições, tais como preconceito. O racismo, por sua vez, inclui a dimensão do poder e é revelado através de diferenças globais na partilha e no acesso a recursos valorizados, tais como representação política, ações políticas, mídia, emprego, educação, habitação, saúde, etc. Quem pode ver seus interesses políticos representados nas agendas nacionais? Quem pode ver suas realidades retratadas na mídia? Quem pode ver sua história incluída em programas educacionais? Quem possui o quê? Quem vive onde? Quem está protegido/o e quem não é? KILOMBA, Grada. Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano. Cobogó: Rio de Janeiro, 2019. p. 75-76. Consulte as respostas das atividades 1, 3, 4 e 5 nas Orientações específicas do Manual do Professor. Agora discuta com os colegas: 1. No período em que ocorreu o movimento simbolista no Brasil, além do fim da escravidão, houve a Proclamação da República (1889). No texto 1, é feita uma crítica aos primeiros dirigentes republicanos do país. Qual é essa crítica? 2. Segundo os autores do texto 1, que problema existente na sociedade brasileira atual foi desencadeado pela situação descrita? O preconceito contra os negros. 278 3. No texto 2, os autores do Dicionário da escravidão e liberdade abordam teorias vigentes na época que intensificaram a discriminação contra as pessoas negras. Com base no texto 2 e no boxe “Racismo”, responda: Em que consistiam essas teorias do século XIX? Em que se baseavam? Explique com exemplos. 4. Conclua: Em que bases se assenta a construção do racismo contra as Andrew Lalchan/Alamy/Fotoarena Não escreva no livro. pessoas negras no Brasil? 5. Para Grada Kilomba, em que consiste a diferença entre o racismo e o preconceito? 6. O poeta Cruz e Sousa, que viveu no final do século XIX, sofreu duramente os efeitos do racismo ao longo de sua vida. Passados mais de 120 anos de sua morte, como você avalia a presença de afrodescendentes na cena cultural brasileira atualmente? Na sua opinião, de que maneira podemos, individual e coletivamente, combater o racismo e promover a igualdade? Resposta pessoal. R ac is m o Pode-se compreender o racismo como toda pretensão de superioridade natural de um grupo humano sobre outro. No século XIX, teorias com base na ciência moderna foram usadas para estabelecer a superioridade de uns sobre outros. Para saber mais sobre o racismo no século XIX, leia, a seguir, um trecho do verbete “racismo”, do Dicionário de política do filósofo italiano Norberto Bobbio: No final do século XVIII, com o progresso das ciências naturais fomentado pelo Iluminismo, começou-se a tentar a classificação das raças humanas, com base no estudo do crânio (frenologia) ou do rosto (fisionomia) [...] daí a uma definição da psicologia das várias raças o passo é muito curto, como é fácil também estabelecer uma hierarquia entre elas, colocando a raça branca em primeiro lugar, a negra em último e a amarela no meio. [...] A raça branca — ou, melhor, ariana — possuiria qualidades de que carecem as outras duas: seria uma raça superior, porque as suas qualidades são superiores à sensualidade dos negros e ao materialismo dos amarelos. À parte estas simplificações psicológicas, este estudo do homem natural tem reflexos no Racismo devido ao estereótipo que formula [...]. Grada Kilomba Escritora, artista e psicóloga, Grada Kilomba nasceu em Lisboa, em 1968, e vive em Berlim, na Alemanha. Suas obras são multidisciplinares e abrangem escrita, performances, instalações, entre outras formas. Seu trabalho tem como foco a decolonialidade e questões como racismo, trauma, gênero e memória. Foto de 2022. Este conceito materialista se desenvolve no século XIX, tanto com a teoria da hereditariedade dos biólogos raciais, como com a livre interpretação do pensamento de Darwin: a seleção natural, que permite a sobrevivência a quem se adapta ao ambiente, se transforma em sobrevivência da raça favorecida por fatores hereditários. Estas teorias científicas dão origem a práticas que depois serão utilizadas pela política racista: a eugenia (ou higiene racial) que há de servir para combater a degeneração racial e para melhorar a qualidade da raça, para a tornar mais pura. No Racismo, o perigo da mistura das raças torna-se uma obsessão. BOBBIO, Norberto. Dicionário de política. Brasília, DF: Editora Universidade de Brasília, 1998. p. 1060-1061. 279 Para conhecer mais da biografia de Luís Gama e de sua obra, seguindo a orientação do professor, reúna-se em grupo com alguns colegas para pesquisar em bibliotecas e/ou em páginas confiáveis da internet. Com a ajuda do professor, a turma vai estabelecer uma divisão de tarefas de acordo com determinados objetivos. Durante a pesquisa, descartem o que parecer menos confiável ou menos correto; tomem nota do que for mais interessante de acordo com os objetivos de pesquisa do grupo e organizem um relatório para compartilhar com a turma. Comparem os dados colhidos de modo a perceberem: quais são as informações em comum; quais se desencontram e se é preciso pesquisar um pouco mais para compreender o que deve ser compartilhado; o que está equivocado e deve ser descartado. Nas pesquisas em mídias e revistas especializadas, procurem selecionar textos com linguagem acessível à compreensão de todos e que despertem na turma o interesse pela obra e pelas ideias do escritor. Selecionem então alguns desses textos para compartilhá-los, produzindo um pequeno relatório de cada um para incentivar a turma a lê-los. Reprodução/Buda Filmes/Globo Filmes Luís Gama (1830-1882), escritor, jornalista e advogado, lutou pela abolição da escravidão e contribuiu para a libertação de centenas de negros escravizados. Dedicou-se também à literatura, com a publicação de Primeiras trovas burlescas de Getulino (1859), livro de poemas de caráter satírico em que faz duras críticas à sociedade de sua época. /Paranoid Filmes En tr e liv ro s Cartaz de Doutor Gama (2021), filme baseado na vida de Luís Gama, dirigido por Jeferson De. O longa-metragem pode ser utilizado como fonte de pesquisa da biografia de Gama. Combinem um prazo para organizarem os resultados da pesquisa em um relatório. Infográfico clicável No dia combinado com o professor, os componentes de cada grupo serão redistribuídos, de modo que possam compartilhar com os colegas que não conhecem sua pesquisa e os resultados dela. Dessa maneira, toda a turma terá acesso às informações pesquisadas, tendo a oportunidade de perceber a contribuição de Luís Gama e de sua obra para a literatura brasileira. Ao final, se possível, montem um painel com os resultados da pesquisa, considerando todos os objetivos propostos no início do trabalho, para que todos possam ter acesso às informações coletadas e usufruir desse resultado do esforço coletivo. Organizem-se também para ler trechos da obra Primeiras trovas burlescas de Getulino (disponível em: https://tedit.net/98d79h ou no acervo da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin: https://tedit.net/qbwa3c; acesso em: 24 out. 2024). Quando forem trocar impressões sobre suas leituras da obra de Luís Gama, orientem-se pelas seguintes perguntas: • Qual é a importância de Gama nos debates sobre a abolição da escravidão no Brasil do século XIX? • Que temas são abordados na obra de Gama? Que críticas ele faz nos poemas? • O autor expressa sua identidade negra no texto? • Com que poetas Gama dialoga em seus versos? • De qual poema você mais gostou? Por quê? Além dessas questões, proponham outras perguntas, a fim de aprofundar a reflexão sobre a vida e a obra de Luís Gama. 280 E NTRE TEX TO S Como você viu no capítulo anterior, Cruz e Sousa é considerado um dos precursores da literatura afro-brasileira, devido à postura que assumiu em seus textos de denunciar as injustiças sociais e de afirmar sua negritude. Para refletir sobre a literatura afro-brasileira, você vai ler, a seguir, dois textos: um trecho de “Emparedado”, poema em prosa de Cruz e Sousa, e o poema “A cor da pele”, do poeta contemporâneo Adão Ventura (1839-2004). Texto 1 Recomendamos a leitura do texto-poema em voz alta. Emparedado […] Artista! pode lá isso ser se tu és da África, tórrida e bárbara, devorada insaciavelmente pelo deserto, tumultuando de matas bravias, arrastada sangrando no lodo das civilizações despóticas, torvamente amamentada com leite amargo e venenoso da Angústia! A África arrebatada nos ciclones torvelinhantes das Impiedades supremas, das Blasfêmias absolutas, gemendo, rugindo, bramando no caos feroz, hórrido, das profundas selvas brutas, a sua formidável Dilaceração humana! […] Artista?! Loucura! Pode lá isso ser se tu vens dessa longínqua região desolada, lá do fundo exótico dessa África sugestiva, gemente, Criação dolorosa e sanguinolenta de Satãs rebelados, dessa flagelada África, grotesca e triste, melancólica, gênese assombrosa de gemidos, tetricamente fulminada pelo mortal; […] […] Não! Não! Não! Não transporás os pórticos milenários da vasta edificação do Mundo, porque atrás de ti e adiante de ti não sei quantas gerações foram acumulando, acumulando pedra sobre pedra, pedra sobre pedra, que para aí estás agora o verdadeiro emparedado de uma raça. Se caminhares para a direita baterás e esbarrarás ansioso, aflito, numa parede horrendamente incomensurável de Egoísmos e Preconceitos! Se caminhares para a esquerda, outra parede, de Ciências e Críticas, mais alta do que a primeira, te mergulhará profundamente no espanto! Se caminhares para a frente, ainda nova parede, feita de Despeitos e Impotências, tremenda, de granito, broncamente se elevará ao alto! Se caminhares, enfim, para trás, ah! Ainda, uma derradeira parede, fechando tudo, fechando tudo — horrível — parede de Imbecilidade e Ignorância, te deixará num frio espasmo de terror absoluto… E, mais pedras, mais pedras se sobreporão às pedras já acumuladas, mais pedras, mais pedras… Pedras destas odiosas, caricatas e fatigantes civilizações e Sociedades… Mais pedras, mais pedras! E as estranhas paredes hão de subir […] subir, subir mudas, silenciosas, até às Estrelas, deixando-te para sempre perdidamente alucinado e emparedado dentro do teu Sonho… CRUZ E SOUSA. Emparedado. In: BERND, Zilá (org.). Antologia da poesia afro-brasileira: 150 anos de consciência negra no Brasil. Belo Horizonte: Mazza, 2011. p. 48-49. 281 Reprodução/Arquivo da editora Adão Ventura Neto de negros escravizados, Adão Ventura Ferreira dos Reis (1946-2004) nasceu em Santo Antônio do Itambé, no Vale do Jequitinhonha, (MG), em 1946. Cursou Direito na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), lecionou no exterior e colaborou no Suplemento Literário de Minas Gerais. Entre os livros publicados por Adão Ventura, estão Jequitinhonha (1980) e A cor da pele (1980), que contribuiu para o seu reconhecimento como poeta. A obra literária de Adão Ventura faz parte de antologias como Os cem melhores poemas brasileiros do século, organizada por Ítalo Moriconi. 1. b) A crítica de que essas civilizações, ao invadir a África e escravizar os povos que ali viviam, causaram a morte e a degradação nesse continente (“arrastada sangrando no lodo das civilizações despóticas”; “arrebatada nos ciclones… das Impiedades supremas”; “sua formidável Dilaceração humana!”). Consulte as respostas das atividades 2 (item b) e 3 nas Orientações específicas do Manual do Professor. Texto 2 A cor da pele a cor da pele saqueada e vendida. a cor da pele vomitada e engolida. a cor da pele chicoteada e cuspida. a cor da pele esfolada em banho-maria. 1. a) O ponto de vista de que era impensável, descabido, um negro ser artista, pois vinha da África, uma região “tórrida e bárbara”, incivilizada. O revela uma postura crítica em relação a esse ponto de vista, que a cor da pele poeta estabelecia vínculo entre a cor da pele e a produção de cultura. camuflada 2. c) Porque todas as barreiras que o circundam são vistas por ele como pedras que vão se acumulando à sua volta, transformando-se em paredes e despida. intransponíveis; assim, ele se sente emparedado, fechado dentro de seu próprio sonho. VENTURA, Adão. A cor da pele. In: BERND, Zilá (org.). Antologia da poesia afro-brasileira: 150 anos de consciência negra no Brasil. Belo Horizonte: Mazza, 2011. p. 204. 1. No texto 1, Cruz e Sousa revela uma postura crítica em relação à sociedade de seu tempo. a) No primeiro parágrafo do trecho, o poeta expõe o ponto de vista que a sociedade tinha sobre os artistas negros. Qual é esse ponto de vista? Como ele se posiciona em relação a tal ponto de vista? Justifique sua resposta com elementos do texto. b) Nesse parágrafo, há uma crítica implícita do poeta às civilizações europeias, que ele chama “despóticas”. Qual é essa crítica? Justifique sua resposta com elementos do texto. 2. Cruz e Sousa, a julgar pela própria experiência, considera a condição do a) Os “Egoísmos e Preconceitos”, as “Ciências artista negro como “emparedado”. 2. e Críticas”, os “Despeitos e Impotências” e a “Im- a) Quais são as paredes que ele sente à sua volta? becilidade e a Ignorância”. b) Tendo em vista que o poeta viveu no período de circulação das teorias positivistas, evolucionistas e deterministas, o que significa ser emparedado pelas “Ciências e Críticas”? c) Considerando todas as paredes que circundam o poeta, conclua: Por que ele se sente emparedado dentro do próprio sonho? Justifique sua resposta com elementos do texto. 3. No texto 2, o poeta Adão Ventura repete em todas as estrofes o verso “a cor da pele”. Com base nos demais versos que compõem o poema, responda: Que sentido a repetição do verso “a cor da pele” constrói no texto? Justifique sua resposta com elementos do texto. 4. Os poemas de Cruz e Sousa e de Adão Ventura foram escritos em momentos históricos diferentes, mas apresentam, igualmente, uma importante reflexão sobre o tratamento dado aos negros nesses diferentes períodos. a) Há diferença no sentimento que os poemas revelam? Não. b) Nesse contexto, qual papel social é possível considerar que esses textos tiveram, cada um em sua época? 282 L ite ra tu ra O papel de denunciar o preconceito racial e todas as injustiças dele decorrentes – como a desigualdade de oportunidades, o desprezo, a exploração, etc. – e de propor aos leitores/ouvintes uma reflexão sobre esse assunto. NS E G A U G N I L E E NTR Observe, a seguir, uma obra de Auguste Rodin (1840-1917), escultor francês do final do século XIX, e leia uma tirinha de Mafalda, do cartunista argentino Quino (1932-2020). Reprodução/Museu Rodin, Paris, França. Texto 1 2. Mafalda fica surpresa, sentimento demonstrado também pelo olhos bem abertos e a boca com traçado de decepção, pois esperava que Filipe conhecesse a figura da fotografia, uma vez que se trata de uma escultura muito famosa. O pensador (1881), do escultor francês Auguste Rodin. ig ui da de A es cu lt ur a na A nt cl as si ci sm o C lá ss ic a e no N eo As esculturas dos deuses na Antiguidade clássica apresentam perfeição anatômica, como o Apolo Belvedere, considerado um exemplo de perfeição física masculina. Durante o Neoclassicismo (século XVIII), os escultores pretendiam inspirar e instruir o ser humano por meio de sua associação com as perfeições estéticas e morais dos deuses e heróis da Antiguidade. 3. a) Provavelmente, porque a ideia que Mafalda tem de esculturas é que elas sempre representam deuses, como geralmente ocorre nas esculturas da Antiguidade clássica. © Sucesores de Joaquín S. Lavado Tejón (QUINO), MAFALDA NO JARDIM DE INFÂNCIA/Fotoarena Texto 2 Não escreva no livro. QUINO. Toda Mafalda. São Paulo: Martins Fontes, 2010. p. 15. 1. Diferentemente da escultura do período do Neoclassicismo, a que era produzida no final do século XIX se voltava para a interioridade humana. Na concepção de Rodin, a escultura deveria expressar a complexidade e a intensidade das emoções e dos sentimentos do ser humano. Tendo em vista essas informações, o que a postura e a expressão do homem retratado na escultura O pensador sugerem? Sugerem um profundo estado de meditação, de concentração, dando ideia de que o homem luta internamente com suas reflexões. 2. Na tirinha de Quino, a personagem Mafalda mostra para Filipe uma fotografia da escultura de Rodin. No 3o quadrinho, como Mafalda reage diante do desconhecimento de Filipe a respeito da escultura? A reação é apresentada por linguagem verbal ou não verbal? Por que ela reage dessa forma? 3. No último quadrinho da tira, Mafalda diz: “O deus da telepatia, cara!”. Levante hipóteses: a) Por que, na perspectiva de Mafalda, a figura representada, é um deus, e não um homem? b) Por que, na opinião de Mafalda, a figura representada está se comunicando por telepatia? Mafalda lê a escultura de acordo com o conhecimento que ela tem do mundo, que inclui suas vivências de criança; por isso, o profundo estado de concentração da figura sugere a ela uma situação de telepatia. 4. Como o humor é construído na tira? É construído pela quebra de expectativa do leitor no último quadrinho, uma vez que, no 3o quadrinho, Mafalda parecia conhecer a figura da fotografia. 283 Língua e linguagem BN CC Competências gerais da Educação Básica: 1, 3, 7, 9 Competências específicas da área de Linguagens: 1, 2, 3, 4, 6 Habilidades específicas da área de Linguagens: EM13LGG101, EM13LGG102, EM13LGG103, EM13LGG104, EM13LGG302, EM13LGG401, EM13LGG402, EM13LGG601 Habilidades específicas de Língua Portuguesa: EM13LP01, EM13LP02, EM13LP06, EM13LP07, EM13LP08, EM13LP09, EM13LP10, EM13LP46 Análise linguística: retomadas Ao longo dos capítulos deste livro, você estudou conteúdos gramaticais diversificados, os quais dão base para a construção de sentidos nos textos que circulam em nossa sociedade. Quando nos engajamos em uma leitura ou uma produção textual em nossa vida cotidiana, o conhecimento dos recursos linguísticos utilizados na composição dos textos pode contribuir tanto para uma leitura mais crítica e uma compreensão mais aprofundada quanto para uma produção mais consciente. É por esse motivo que, neste capítulo, convidamos você a ler e analisar textos diversos, buscando perceber estratégias de uso da linguagem relacionadas aos diferentes conteúdos gramaticais estudados ao longo do ano. Observe que, antes de cada estudo, há um boxe com tags que indicam os assuntos explorados. Elas vão ajudá-lo a identificar, no sumário do volume, onde estão esses estudos para retomá-los, caso queira revisar o conteúdo ou esclarecer alguma dúvida. APLIQUE O QUE APRENDEU 1 Reto mad as #VariaçãoLinguística #Substantivos #Adjetivos #Verbos #ConcordânciaVerbalENominal Você já estudou a riqueza da variação linguística, compreendendo como diferentes contextos sociais, regiões de origem e períodos históricos podem influenciar o uso da língua. Além disso, sabe que substantivos, adjetivos e verbos são elementos fundamentais da estrutura gramatical e essenciais para a construção de frases. Leia, a seguir, trechos da letra da canção “Passarinhos”, de Emicida, e responda às questões 1 a 5. Se possível, ouça a canção completa antes de realizar o estudo. Passarinhos Despencados de voos cansativos Passarinhos Complicados e pensativos Soltos a voar dispostos Machucados após tantos crivos A achar um ninho Blindados com nossos motivos Nem que seja no peito Amuados, reflexivos [um do outro E dá-lhe antidepressivos crivos: entre outras possibilidades, pode fazer referência à grelha das fornalhas nos engenhos de açúcar e, por extensão, é utilizada também com o sentido de provas, avaliações criteriosas. nonsense: sem significado, incoerente ou absurdo. Acanhados entre discos e livros […] Inofensivos Cidades são aldeias mortas, desafio nonsense Competição em vão que ninguém vence 284 […] Pense num formigueiro, vai mal E no meio disso tudo, Quando pessoas viram coisas, Tamo tipo… Cabeças viram degrau Língua e linguagem No pé que as coisa vão, Jão, Doidera, daqui a pouco, resta madeira nem p’os caixão […] Água em escassez bem na nossa vez Assim não resta nem as barata (é memo!) Injustos fazem leis e o que resta pr’ocês? Escolher qual veneno te mata Pois somos tipo… Passarinhos soltos a voar dispostos A achar um ninho Nem que seja no peito um do outro arvitalya/Adobe Stock Não escreva no livro. PASSARINHOS. Intérprete: Emicida. Compositores: Emicida; Maurício Cersósimo; Tony Dawsey; Vanessa da Mata. In: SOBRE crianças, quadris, pesadelos e lições de casa... Intérprete: Emicida. [S. l.]: Laboratório Fantasma, 2015. Álbum digital, faixa 7. Disponível em: https://tedit.net/2y0wrm. Acesso em: 3 set. 2024. 1. Considerando o trecho lido da canção, como você explica o título dela? Resposta pessoal. Espera-se que os estudantes reconheçam a representação de liberdade presente no termo Passarinhos. 2. Na primeira estrofe, predomina o emprego de palavras pertencentes a uma classe gramatical. a) Qual é essa classe? Adjetivos. 2. b) Referem-se às pessoas da b) A quem essas palavras se referem e qual é a função delas no contexto? cidade em geral, incluindo o eu lí- rico. No contexto, têm a função de caracterizar, especificar a percepção do eu lírico sobre a vida e os sentimentos dessas pessoas. c) Identifique, entre os versos a seguir, aqueles que são explicitamente metafóricos. Versos explicitamente metafóricos: I, III e IV. I. Despencados de voos cansativos II. Complicados e pensativos III. Machucados após tantos crivos IV. Blindados com nossos motivos V. Amuados, reflexivos VI. Acanhados entre discos e livros d) Troque ideias com os colegas e o professor e explique o sentido do verso “E dá-lhe antidepressivos”, no contexto. As pessoas estão cada vez mais fechadas em si mesmas, tendo de enfrentar muitos problemas sozi- nhas, e por isso muitas entram em um processo depressivo e precisam de remédios para melhorar. 3. Releia os versos que introduzem as duas ocorrências do refrão no trecho: “Tamo tipo”, “Pois somos tipo”. a) Identifique as formas verbais empregadas em cada verso. tamo e somos b) Uma dessas formas não está escrita conforme a norma-padrão. Identifique qual é ela e levante hipóteses: Por que isso ocorre? A primeira: tamo. c) Troque ideias com os colegas e o professor: É possível considerar que se trata de uma variação na forma de fazer a concordância verbal? Justifique sua resposta. Não, pois a desinência que faz a concordância com a 1a pessoa do plural está aí, ainda que reduzida, representada pelo mo(s). d) A forma verbal identificada por você no item b foi formada por um processo de: I. derivação imprópria A forma verbal identificada foi formada por redução. II. redução III. justaposição e) Indique outro termo ou expressão na letra da canção que se forma pelo mesmo processo identificado por você no item d. Jão, memo, ocês. Se julgar relevante, comente com os estudantes que em p’os e pr’ocês há aglutinação, e não redução de palavras. 4. No refrão, o eu lírico estabelece uma comparação. a) Quais elementos compõem essa comparação? As pessoas (incluindo o eu lírico) e os passarinhos. b) Considerando a letra da canção, por que os elementos comparados se aproximam? Porque todos estão soltos, sem rumo, procurando um local para pousar e descansar. c) Qual palavra empregada na canção é responsável pela introdução dessa comparação? A palavra tipo. d) A palavra indicada por você no item c é uma gíria. Por quais outras palavras ela poderia ser substituída em um contexto de fala mais formal? Poderia ser substituída por como, tal como, conforme, semelhantes a, etc. Língua e linguagem 285 5. Ao ouvir a canção, percebe-se que a palavra dispostos é pronunciada com o primeiro o fechado. a) De qual palavra ela é derivada? É o plural do adjetivo disposto, derivado do particípio da forma verbal dispor. b) Como deve ser a pronúncia dessa palavra segundo gramáticas e dicionários? /Dispóstos/, com o primeiro o pronunciado aberto. c) Levante hipóteses: Por que, na canção, ela é pronunciada dessa forma? Porque nessa canção a sonoridade e as rimas ficam mais harmoniosas com essa outra pronúncia. d) A palavra soltos tem essa mesma alteração na pronúncia, segundo a norma-padrão? Não. e) Indique entre os pares de palavras a seguir aqueles que formam plural de forma semelhante a dispostos, considerando a pronúncia. • olho – olhos • socorro – socorros • moço – moços olho – olhos; socorro – socorros 6. Releia esta estrofe: Consulte a resposta da atividade 6 (item c) nas Orientações específicas do Manual do Professor. Cidades são aldeias mortas, desafio nonsense Competição em vão que ninguém vence Pense num formigueiro, vai mal quando pessoas viram coisas Cabeças viram degrau No pé que as coisa vão, Jão Doideira, daqui a pouco, resta madeira nem p’os caixão a) Identifique frases e expressões nominais nas quais a concordância se faz com a marcação do plural em todos os termos. “Cidades são aldeias mortas”; “pessoas viram coisas” b) Agora, identifique expressões nominais nas quais a concordância se faz com a marcação do plural apenas no primeiro termo. “Cabeças viram degrau”; “as coisa”; “p’os caixão” c) Converse com os colegas e o professor: Por que a concordância foi feita dessas duas formas? d) Volte ao trecho da letra apresentado anteriormente e identifique mais um exemplo de cada um desses dois tipos de concordância. • Concordância conforme a norma-padrão. Injustos fazem leis • Concordância marcada em apenas um dos elementos. não resta nem as barata as respostas das atividades 2 e 4 (item b) nas Orientações A P L I Q U E O Q U E A P R E N D E U 2 Consulte específicas do Manual do Professor. Reto mad as #ClassesDePalavras #Substantivo #Adjetivo #Verbo Clara Gomes/Bichinhos de Jardim Leia esta tira e responda às questões 1 a 4. GOMES, Clara. Bichinhos de jardim, [s. l.], 5 jul. 2020. Disponível em: https://tedit.net/vq0s8t. Acesso em: 3 set. 2024. 286 Língua e linguagem 3. b) O modo verbal imperativo é usado para dar ordem, conselho, ditar regras, isto é, para indicar ao leitor que se trata de ações ou itens necessários ou desejáveis, que, do ponto de vista do enunciador, devem ser cumpridos ou realizados. Não escreva no livro. 1. Releia a palavra sublinhada no 1o quadrinho. a) Essa palavra existe no vocabulário do português brasileiro? Não. b) Qual é a origem dessa palavra, segundo a joaninha? É a união das palavras alienação e alegria. c) A que classe de palavras ela pertence? À classe dos substantivos. 2. Relacione as partes verbal e não verbal da tira e explique de que forma elas se complementam. Consulte a resposta da atividade 2 nas Orientações específicas do Manual do Professor. 3. A fala da joaninha no 2o quadrinho dá um conselho aos interlocutores. a) Quais formas verbais são responsáveis por esse tom de conselho? Em qual modo verbal elas estão conjugadas e a quem elas se referem no contexto? Pare e aprenda, conjugadas na 3a pessoa do singular do modo imperativo em referência à forma de tratamento você, isto é, o leitor da tirinha e interlocutor da joaninha. b) Explique a relação desse modo verbal com a finalidade da fala da joaninha nesse quadrinho. c) Troque ideias com os colegas e o professor: Qual é a função de um roteiro? Indicar, passo a passo, ações que devem ser cumpridas para determinado fim. d) Considerando suas respostas aos itens anteriores, conclua: Por que essa fala da joaninha pode ela dá orientações a seus interlocutores com a finalidade de que eles parem de seguir roser considerada irônica? Porque teiros; com isso, o conteúdo da fala nega a própria fala, daí que ela pode ser considerada irônica. 4. Agora releia o último quadrinho. a) Identifique a locução adjetiva e os adjetivos empregados na fala da joaninha, bem como os nomes por eles modificados. Há na fala uma locução adjetiva, de exercícios, e dois adjetivos: pleno e master, os quais se referem, respectivamente, aos substantivos lista, nível e vadiagem. b) Entre os termos que você indicou no item a, indique qual deles particulariza o sentido do nome que modifica sem acrescentar juízo de valor. Justifique sua resposta comparando o termo indicado com os outros. c) A fala da joaninha nesse quadrinho, assim como na do segundo, também pode ser considerada irônica, tanto em si mesma quanto em relação aos demais quadrinhos da tira. Explique É irônica em si mesma porque, ao fazer uma lista de exercícios, uma pessoa não estará “vadiando” e é essa afirmação. irônica no contexto porque, ao fazer um curso e uma lista de exercícios, uma pessoa segue um roteiro, ao contrário do que é dito na fala do quadrinho anterior. d) Indique, em seu caderno, entre os pares de palavras a seguir, aquelas que, por serem antagônicas, reforçam a ironia da fala. • mandar – conquistar • exercícios – vadiagem • lista – exercícios • pleno – master Os estudantes devem indicar no caderno o par “exercícios – vadiagem”. APLIQUE O QUE APRENDEU 3 Reto mad as #ClassesDePalavras #Pronome #Verbo #AnáliseSintáticaPeríodoSimples #ConcordânciaVerbal #Sujeito Você aprendeu que as classes de palavras são categorias gramaticais que agrupam palavras com características semelhantes, como substantivos, adjetivos, verbos e pronomes. Neste capítulo, também revisitou a concordância verbal e a concordância nominal. A análise sintática do período simples também foi abordada, destacando a importância de identificar corretamente os elementos da oração, como sujeito, predicado, objetos e adjuntos. E, sobre o sujeito, aprendeu que ele pode ser simples, composto, oculto ou indeterminado. Compreender a organização desses elementos na estruturação dos períodos pode contribuir para a construção de frases coerentes e gramaticalmente corretas. Leia esta crônica de Mario Prata. Língua e linguagem 287 Separei e mudei A coleção do Eça é minha. Você me deu. Lembrei-me do Neruda, que você nunca leu. Separação é assim mesmo. A gente divide o passado, relembra os presentes e acha que o futuro vai ser uma festa. Deve ter sido a tal crise dos cinco anos. Já que a outra parte não saía, tomei eu a iniciativa. Mudei. Comprei o apartamento da frente, atravessei o corredor sem entrar no elevador da vida, arrastando minhas toalhas, meus cobertores, meus projetos, minhas cuecas. Woodstock: referência ao festival de música que ocorreu em agosto de 1969, em Nova York, Estados Unidos, tendo como tema a contracultura dos anos 1960. Trancoso: vila em Porto Seguro, na Bahia, famosa por suas praias turísticas. Nos anos 60 o sonho de todo jovem era se mandar. Woodstock era ali mesmo, bem mais perto que Trancoso. A gente queria distância dos pais. Para ficar sozinho e fazer coisas que perto deles não podia. Hoje a gente deixa tudo. […] Mas a sabedoria da separação está em cometê-la antes que a situação se deteriore de vez. A gente sabe quando está na hora certa. Sabe quando você vai com ele no restaurante e parece que não tem mais nada para conversar? Sabe quando um fica no quarto e o outro na sala? Sabe quando aquele chinelo esquecido na sala é motivo pra cara feia? Sabe como é? Entro em obras. Além das do Eça, no apartamento novo. Ele pouco vai olhar as evoluções. Faz cara feia para o piso. Pergunta que cor é aquela, meu Deus. Sente que o pai está saindo de casa. Um dia isso tinha de acontecer. Os pais crescem e um dia têm que ir embora. Tentar a vida sozinhos. Dizem que é assim desde que o mundo é mundo. — O quê? A coleção completa do Caetano? Não vem, não. A mamãe que me deu. Até que ele foi compreensivo. Ajudou-me a carregar os quadros, a geladeira e a cama com o colchão novo. […] Duas da manhã, volto para o apartamento velho. Ver se ele está dormindo, se está coberto. Estava acordado, lendo Eça, como se nada estivesse acontecendo. Como se fosse a coisa mais normal do mundo um pai, depois de crescidinho, sair de casa, ir tentar a vida-solo. — Você fica com a Folha e eu com o Estadão. Você fica com a Istoé, eu com a Época. […] Você fica com a Uol e eu com o Terra. […] Posso levar o papel higiênico? E o cortador de unhas, aquele bom? São cinco da manhã e a gente ainda está ali, na sala, dividindo as nossas vidas. Ele me deseja sorte, faz recomendações. […] É duro cara, cair na real, separar e mudar. Principalmente quando a gente ama, e como ama, a pessoa separada. PRATA, Mario. Separei e mudei. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 23 dez. 1998. 288 Língua e linguagem Não escreva no livro. 1. O título do texto é composto de duas orações. ambas, sujeito eu, que não está expresso, mas pode ser identificado a) Classifique o sujeito de cada uma delas. Em pela desinência do verbo. b) A quem corresponde esse sujeito, no contexto da crônica? Ao narrador. c) Troque ideias com os colegas e o professor: Qual expectativa é criada pelo título sobre o conteúdo da crônica? A expectativa de que o narrador terminou um casamento, um relacionamento amoroso e saiu da casa. 2. A expectativa inicial construída pelo título vai se modificando ao longo da crônica. Troque ideias com os colegas e o professor: 2. a) No começo do 5o parágrafo, quando ele introduz a expressão “todo jovem” e, em seguida, a frase “a gente queria distância dos pais”. a) Qual é a primeira pista dada no texto sobre essa quebra da expectativa inicial? b) Explique de que forma essa quebra de expectativa constrói certo efeito de humor no texto. Ao tratar o fato de deixar o filho sozinho no apartamento onde morava com ele como uma separação conjugal, o narrador estabelece comparações que constroem efeito de humor no texto, porque a relação entre pai e filho é igualada a um casamento. 3. Releia o 4o parágrafo. a) Qual é o sujeito da forma verbal saía? Classifique-o. “a outra parte”: sujeito simples b) Explique de que forma esse sujeito contribui para sustentar a hipótese sugerida pelo título. A palavra parte é com frequência utilizada para denominar os dois lados interessados em processos jurídicos e, portanto, sustenta a hipótese de que ele esteja passando por um divórcio matrimonial. 4. Observe o emprego da expressão “a gente” em destaque no 3o, no 5o e nos dois últimos parágrafos do texto. Consulte as respostas das atividades 4 (itens b e c), 5 (item b) e 9 nas Orientações específicas do Manual do Professor. a) Qual é a função sintática dessa expressão em cada uma das ocorrências destacadas? Em todas as frases, a expressão “a gente” é sujeito. b) Troque ideias com os colegas e o professor: Qual é a classificação morfológica dessa expressão no contexto? c) Considerando o conteúdo da crônica, conclua: Qual é o referente desse termo em cada uma das ocorrências? Justifique sua resposta. 5. a) Na primeira ocorrência, o sujeito é a expressão “a gente”. Em todas as demais, o sujeito é desia) Identifique e classifique o sujeito em cada uma dessas ocorrências. nencial, você, interpelando o leitor. 5. No 6o parágrafo, a forma verbal sabe é empregada cinco vezes. b) Levante hipóteses: Qual efeito de sentido essa repetição constrói no texto? 6. Analise a frase “Entro em obras”. a) Identifique o sujeito dessa frase. O sujeito é o pronome de 1a pessoa eu, implícito na desinência da forma verbal entro. b) Explique a ambiguidade dessa frase no contexto da crônica. A ambiguidade está no emprego da palavra obras, que, no contexto, pode se referir à reforma do novo apartamento e aos livros que o narrador lê, talvez como uma fuga da realidade. 7. Observe o trecho a seguir. “Ele pouco vai olhar as evoluções. Faz cara feia para o piso. Pergunta que cor é aquela, meu Deus. Sente que o pai está saindo de casa. Um dia isso tinha de acontecer. Os pais crescem e um dia têm 7. a) vai olhar: “ele”; faz, pergunta, sente: “ele” (não está expresso, mas pode ser identificado pela desinência que ir embora.” do verbo); está saindo: “o pai”; tinha de acontecer: “isso”; crescem: “os pais”; têm: “os pais” (não está expresso, mas pode ser identificado pelo contexto). a) Identifique o sujeito de cada uma das formas verbais em destaque. b) Que expressão o narrador utiliza para fazer referência a si mesmo nesse trecho? “o pai” c) Que sentido é construído pelo emprego da expressão “os pais”, no plural, na última frase do trecho? Um sentido universal, pois se refere a todos os pais, e também irônico, pois, na verdade, quem cresce e vai embora são os filhos, não os pais. 8. Releia os dois últimos parágrafos da crônica. É possível considerar que o narrador volta a abordar o tema de forma genérica, como no início do texto? Justifique sua resposta. Sim, pois, embora use a palavra ele em referência ao filho, o narrador volta a usar expressões genéricas tais como nossas vidas, separar, mudar, a gente ama, pessoa separada. 9. Como conclusão do estudo, troque ideias com os colegas e o professor e explique de que maneira a escolha dos sujeitos das formas verbais empregadas na crônica foi fundamental para a construção de sentidos do texto. Consulte a resposta da atividade 9 nas Orientações específicas do Manual do Professor. Língua e linguagem 289 Produção de texto Vídeo BN CC Competências gerais da Educação Básica: 1, 3, 4, 5, 7, 9 Competências específicas da área de Linguagens: 1, 2, 3, 4, 6, 7 Habilidades específicas da área de Linguagens: EM13LGG101, EM13LGG103, EM13LGG201, EM13LGG202, EM13LGG301, EM13LGG302, EM13LGG402, EM13LGG601, EM13LGG602, EM13LGG603, EM13LGG701, EM13LGG703 Habilidades específicas de Língua Portuguesa: EM13LP01, EM13LP02, EM13LP07, EM13LP15, EM13LP16, EM13LP17, EM13LP18, EM13LP20, EM13LP28, EM13LP29, EM13LP45, EM13LP46, EM13LP51, EM13LP52, EM13LP53, EM13LP54 oriundos: originários, provenientes. A obra Quarto de despejo foi indicada para leitura na seção Entre livros da Unidade 3 do volume 1. Verifique se os estudantes chegaram a ler a obra ou se foi feito algum comentário sobre ela no 1o ano e peça que comentem o que sabem a respeito da autora e da obra. 290 Resenha crítica Você estudou, neste volume, textos literários de Narcisa Amália, Maria Firmina dos Reis e Júlia Lopes de Almeida, mulheres cujas obras só recentemente passaram a ser revistas e valorizadas pela crítica literária. Foco no gênero O texto que você vai ler é uma resenha crítica da reedição da obra Quarto de despejo: diário de uma favelada, lançada em 1960, de Carolina Maria de Jesus, que, apesar de ter sofrido preconceitos por ser mulher e negra, ganhou ampla projeção no século XX. Leia-o a seguir. Quarto de despejo – Carolina Maria de Jesus “Quarto de despejo” é talvez um dos diários mais sinceros e impactantes que tive a oportunidade de ler. Saber que sua influência no cenário literário nacional foi sentida tanto em âmbito comercial quanto em âmbito cultural é reconfortante. Normalmente, autores como Carolina Maria de Jesus, oriundos de núcleos marginalizados da sociedade brasileira, são constantemente deixados para trás em um mercado que não os considera como “literatura de verdade”. Foi um fato extraordinário e de grande relevância cultural que “Quarto de despejo” conseguisse o êxito em não apenas ter um ótimo número de vendas para a sua época, como também ter vencido a briga por espaço dentro das prateleiras de escolas, universidades e premiações, sendo hoje considerado um importante livro para o campo literário contemporâneo. Simples, direto e fácil de ler, “Quarto de despejo” encanta por ser real em cada uma das suas descrições e por transcrever com tanta realidade a vida de Carolina, bem como seus sentimentos, medos, sonhos e emoções. Mais do que mostrar ao leitor a realidade de um mundo que é constantemente esquecido — referida pela própria autora como “quarto de despejo”, a favela, sua rotina e seus moradores não passam de meros fantasmas na perspectiva social do Brasil, sendo mencionados apenas em âmbito de noticiários policiais e com representações estigmatizadas nas mídias —, o diário de Carolina é também o relato de uma mulher que exerce distintos papéis dentro de sua comunidade. Como mãe, Carolina mostra sua faceta de preocupação com a segurança dos filhos, com o que fazer quanto à comida do dia que precisa ser colocada na mesa para eles, com o temor pelo que o futuro reserva. A autora consegue facilmente passar todas essas emoções para quem a acompanha, mostrando de forma direta, mas carregada de emoção, o quanto ela gostaria de fazer mais pelas crianças do que ela pode. Pr od uç ão de te xt o Não escreva no livro. Carolina também é escritora e leitora em seu diário. Por diversas entradas ela afirma veementemente o quanto a escrita funciona quase como um processo terapêutico para ela, pois fornece pequenos momentos de felicidade em meio aos períodos caóticos que ela vive. Sua relação com os livros também é bastante marcada, pois a autora sempre referencia alguma obra famosa, seja por metáfora ou analogia, além de comentar várias vezes o quanto ela não consegue dormir sem ler antes. lo0kus/Adobe Stock Ter essa perspectiva de alguém que usava as palavras como refúgio e como arma para tornar sua voz visível traz inúmeras reflexões para quem acompanha a leitura de seus escritos, afinal, a função da literatura torna-se algo diferente quando vemos o que ela pode fazer para alguém que está inserido numa condição social vulnerável. Entrar em contato com esses debates sobre o papel da arte, da representatividade cultural na vida econômica e social de alguém foi um dos pontos mais tocantes da leitura do diário. Não é como se as palavras conseguissem salvar o mundo, mas quando lemos diários como os de Carolina, é inevitável pensar que elas ao menos podem torná-lo melhor. […] “Quarto de despejo” não possui uma escrita rebuscada ou difícil, não foram precisos grandes artifícios linguísticos para fazer da escrita de Carolina algo único e marcante por si. Carolina é uma escritora acima de tudo e, apesar de simples, o modo como ela utiliza a linguagem a seu favor para contar uma história, para criar metáforas, para refutar poetas que ela costuma ler ou mesmo para provocar uma reflexão em quem a acompanha, faz do diário dela a prova de que não é preciso norma culta ou conhecimento acadêmico para que alguém seja bom na arte que faz. Como diria Emicida: “uma frase bonita, mesmo que em grafia errada, ainda é uma frase bonita”. E é isso que Carolina faz em seu texto, de forma simples, até errada, ela faz de seus diários um conjunto literário completo. Tocante, real e necessário, “Quarto de despejo” é daqueles livros que entrariam na lista de “o que todo mundo deveria ler um dia”, mas ele é ainda mais especial para leitores brasileiros que não têm costume de ler obras nacionais. Um diário talvez seja estranho para começar a adentrar na literatura nacional, mas Carolina faz de seus escritos a porta de entrada perfeita para quem quer ver um Brasil que quase sempre é deixado de fora dos retratos. Se você gosta de narrativas que são fortes em mensagem e importantes em impacto sociocultural, se aprecia a literatura nacional ou deseja conhecê-la melhor, “Quarto de despejo” é um livro que não vai apenas te agradar, como também vai surpreender e superar suas expectativas. ARAÚJO, Isabela. Quarto de despejo – Carolina Maria de Jesus. Resenhando sonhos, Porto Alegre, 25 jun. 2020. Disponível em: https://tedit.net/pte61m. Acesso em: 15 out. 2024. 1. A resenha, também chamada de crítica, é um gênero textual geralmente publicado em jornais, revistas, sites ou blogues, e trata de um objeto cultural: um filme, uma peça de teatro, um livro, um show de música, um festival, uma exposição de arte, etc. a) Qual é o objeto cultural tratado na resenha lida? Uma nova edição do livro Quarto de despejo: diário de uma favelada, de Carolina Maria de Jesus. b) Qual é a finalidade do texto lido? Avaliar a qualidade da obra e eventualmente indicá-la aos leitores da página em que é veiculado o texto. c) Levante hipóteses: Quem geralmente escreve resenhas? Pessoas interessadas em literatura, cinema, artes. No caso de jornais e revistas, os autores costumam ser jornalistas especializados em literatura, cinema, artes ou profissionais dessas áreas. 2. A resenha foi extraída de um blogue chamado “Resenhando sonhos”. Levante hipóteses: a) Que assuntos provavelmente são tratados nesse blogue? O blogue deve apresentar resenhas de objetos culturais, como filmes, livros, séries e jogos. Se possível, acesse o blogue com a turma. b) A quem ele se destina? Ao público em geral interessado nesses objetos culturais. Pr od uç ão de te xto 291 5. c) Para a autora da resenha, um dos pontos altos da obra é reconhecer “o papel da arte, da representatividade da vida econômica e social de alguém”, no caso, o quanto a literatura deu uma identidade a Carolina Maria de Jesus e a ajudou a superar as dificuldades e alcançar seus objetivos. Norberto Esteves/Jornal Última Hora, São Paulo/Arquivo Público do Estado de São Paulo, SP. 3. Os dois primeiros parágrafos da resenha em estudo fazem uma apresentação da obra, contextualizando sua importância para a literatura brasileira, quando foi lançada na primeira edição, em 1960. Segundo esses parágrafos: a) Qual foi a importância de Quarto de despejo na época de seu lançaPara a autora da resenha, o destaque está no fato de Carolina Maria de Jesus mento, em 1960? ter origem nos grupos excluídos da sociedade e, mesmo assim, ter alcançado um importante espaço na literatura brasileira, bem como um número considerável de vendas. b) A autora da resenha deixa transparecer sua posição diante do objeto avaliado. Identifique palavras e expressões dos dois primeiros parágrafos que demonstrem avaliação apreciativa, isto é, um julgamento sobre a qualidade da obra. “diários mais sinceros e impactantes”, “fato extraordinário”, “relevân- Carolina Maria de Jesus Carolina Maria de Jesus nasceu em Sacramento, no interior de Minas Gerais, em 1914. Notabilizou-se pela publicação de Quarto de despejo: diário de uma favelada (1960), obra autobiográfica que relata o dia a dia de uma mulher negra, catadora de papelão, que sustenta a si mesma e a seus três filhos. O livro foi traduzido para catorze línguas, e, somente nos Estados Unidos, teve mais de 300 mil cópias vendidas. Entre outras obras da autora estão Casa de alvenaria: diário de uma favelada (1961) e Pedaços de fome (1963). Carolina também foi contista, poeta, artista têxtil e compositora, chegando a lançar o disco Quarto de despejo: Carolina Maria de Jesus cantando suas composições. Morreu em 1977. Foto de 1952. cia cultural”, “ótimo número de vendas”, “importante livro” c) Essas palavras e expressões resultam em uma avaliação positiva ou negativa a respeito da obra? Resultam em uma avaliação positiva. 4. O 3o parágrafo apresenta o ponto de vista da autora da resenha a respeito da obra, se lida nos dias de hoje. Para ela, depois de sessenta anos, a obra Para ela, a obra “encanta” ainda nos ainda causa interesse ou não mais? Por quê? dias de hoje, por mostrar a realidade da favela e, ao mesmo tempo, a luta de uma mulher, seus sentimentos, medos, sonhos e emoções. 5. De acordo com o texto, o diário de Carolina Maria de Jesus relata o dia a dia de uma mulher que exerce diferentes papéis. a) Quais são esses papéis? O papel de mãe, de trabalhadora, de escritora e de leitora. b) Por que os papéis de leitora e escritora chamam a atenção da autora Porque a relação da escritora com a literatura cumpre um papel terapêutico, da resenha? já que proporciona a ela momentos de felicidade, em meio à vida difícil que leva. c) Segundo a autora da resenha, qual é um dos pontos altos da obra, considerando os papéis desempenhados por Carolina Maria de Jesus? c) Para ela, esse fato não confere nenhum prejuízo ao texto, pelo contrário, Por quê? 6. valoriza a forma pela qual Carolina Maria de Jesus conta sua história e a contrapõe a autores clássicos da literatura, dando mais força ao texto. d) Por meio dessas descrições é possível apreender uma imagem de como era a escritora? Sim, a imagem de uma mulher amorosa, forte, sensível e batalhadora. Consulte a resposta da atividade 6 (item a) nas Orientações específicas do Manual do Professor. 6. Nas resenhas, é comum serem destacadas as qualidades e apresentados os possíveis defeitos do objeto cultural em análise. Na resenha lida: a) Quais possíveis defeitos do livro analisado são apontados? b) Como a escrita da autora do livro é caracterizada na resenha? É uma escrita simples e de fácil compreensão. c) Para a autora da resenha, que importância tem o fato de a obra não seguir rigorosamente a norma-padrão? d) O rapper, cantor, compositor e escritor Emicida (1985-) é um importante artista da atualidade, cuja influência extrapolou os limites do rap brasileiro e tem alcançado um público cada vez mais amplo. Que efeito tem, para o texto em análise, a reprodução de uma frase de Emicida a respeito do uso da língua com “grafia errada”? ZUMA Press/Alamy/Fotoarena O uso de uma frase de Emicida confirma e legitima o ponto de vista da autora a respeito da linguagem utilizada na obra. 7. A resenha tem uma estrutura relativamente livre e pode variar muito de- Emicida se apresenta em show em São Paulo, 2022. 292 Pr od uç ão de te xt pendendo de seu autor, do público e do veículo em que é publicada. Apesar disso, apresenta alguns elementos essenciais, como a apresentação e contextualização do objeto cultural em exame, sua descrição e a opinião do autor da resenha sobre a qualidade da obra. Em relação à resenha lida, responda: a) Em que parágrafo(s) ocorre a apresentação ou contextualização da obra e de sua autora? No 1o e no 2o parágrafo. o 9. b) Essa diferença marca bem o momento em que ela se refere à obra hoje, no presente, aproximando o leitor do objeto cultural que está à disposição para a leitura. Não escreva no livro. b) Em que parágrafo(s) ocorre a descrição da obra? Do 4o ao 6o parágrafo. c) Em que parágrafo(s) a autora da resenha explicita sua avaliação sobre o livro? A autora apresenta seu ponto de vista e avalia o livro ao longo de toda a resenha. d) Em que parágrafo a autora da resenha explicita sua recomendação, interpelando diretamente o leitor? No último parágrafo. 8. Observe a conclusão do texto. A opinião da autora a respeito da obra é favorável? Que palavras ou a opinião dela é favorável, conforme a expressão “Tocante, real e necessário” trechos comprovam sua resposta? Sim, e o trecho “é um livro que não vai apenas te agradar, como também vai surpreender e superar suas expectativas”. 9. Observe a linguagem utilizada na resenha em estudo. a) Que variedade linguística foi empregada? Uma variedade de acordo com a norma-padrão. b) No texto, as formas verbais predominantes estão no presente do indicativo. Isso só não ocorre quando a autora da resenha faz referência ao passado da escritora ou à época em que a obra foi publicada. Que efeito de sentido essa diferença no emprego dos tempos verbais constrói na resenha? 10. Ao fazer sua apreciação do objeto cultural, o autor de uma resenha pode se colocar no texto de forma explícita, empregando expressões como “A meu ver”, “Eu penso que”, etc.; ou pode ser impessoal, ao se colocar de forma indireta, empregando recursos como a 3a pessoa ou a 1a pessoa do plural e a voz passiva. Com base nesses dados, pode-se dizer que a crítica em estudo tende à pessoalidade ou à impessoalidade? Consulte a resposta da atividade 10 nas Orientações específicas do Manual do Professor. 11. Com a orientação do professor, reúna-se com alguns colegas para resumir as características básicas da resenha crítica. Para isso, copiem o quadro a seguir no caderno e respondam às questões de acordo com o que perceberam da resenha em estudo ou de outros textos conhecidos. Resenha crítica: construção e recursos expressivos Jornalista ou crítico especializado no assunto e o público leitor/ Quem são os interlocutores da resenha crítica? espectador/ouvinte. Qual é o objetivo desse gênero textual? Apresentar aos leitores informações e uma apreciação crítica de determinado objeto cultural. Por onde circula? Geralmente, o texto é divulgado em órgãos de imprensa: jornais, revistas, sites e blogues. Qual é a estrutura básica da resenha crítica? Geralmente, ela começa situando a obra no conjunto da produção do autor e depois passa a descrever a obra, destacando os aspec- Pode ser pessoal, com verbos e pronomes em 1a pessoa, ou mais impessoal, com verbos e pronomes em 3a pessoa. Geralmente, segue a norma-padrão e os verbos ficam no presente do indicativo. tos positivos e negativos. Por fim, introduz uma conclusão, que costuma trazer a avaliação final, recomendando ou não a obra ao público. Como se caracteriza a linguagem de uma resenha crítica? Hora de produzir Ao final desta unidade, você vai montar com a turma um jornal de ciência e cultura, no qual também haverá resenhas críticas de objetos culturais. Que tal aproveitar a oportunidade para conhecer melhor a produção cultural brasileira ou local que interessa a você, aos seus colegas e a toda a comunidade em que vive? Há, a seguir, duas propostas. Junte-se a seu grupo e, sob a orientação do professor, escolham uma delas. • Retomem o acervo de crônicas criado com toda a turma no capítulo anterior e escolham uma obra da qual tenham gostado. Leiam a obra e compartilhem a experiência de leitura antes de fazer a resenha crítica. • Selecionem uma obra do repertório artístico-cultural da atualidade (de sua comunida- de, de sua cidade ou do país) de acordo com as preferências do grupo: pode ser uma obra literária, um filme, uma peça teatral, um lançamento musical, um show, uma feira Pr od uç ão de te xto 293 cultural, etc. Depois, troquem informações sobre os objetos culturais que selecionaram, compartilhando com os colegas os aspectos interessantes de cada um deles. Se possível, troquem entre si os objetos culturais e desfrutem deles. Em seguida, elejam um deles para ser o tema da resenha crítica que será produzida por vocês. Planejamento do texto • Antes de iniciar a produção do texto, procurem conhecer bem o objeto cultural que será abordado na resenha. Anotem os dados técnicos do objeto cultural, como título, autor(es), diretor(es), atores e outros dados que julgarem importantes para incluí-los na resenha. • Façam também outras anotações que possam ajudar na descrição do objeto resenhado. Por exemplo, caso se trate de livro, anote trechos interessantes, pensando na possibilidade de citá-los, ou comentem uma cena se for um filme ou uma peça teatral. • Busquem alguns aspectos da trajetória de vida pessoal e artística do(s) autor(es) da obra ou demais participantes (componentes, personagens, atores, diretores, músicos, etc.) que possam enriquecer a resenha. Escrita • Com base nos dados coletados e pensando no público-alvo, iniciem a redação da resenha, apresentando ao leitor o objeto analisado. • Destaquem aspectos da trajetória de vida pessoal e profissional do(s) autor(es) do objeto resenhado que contribuam para compreender melhor a obra em destaque. • Descrevam o objeto, destacando seus aspectos positivos e negativos (se houver). • Se julgarem conveniente, citem trechos (versos, partes, cenas, faixas) da obra que a ilustrem e aproximem-na do público. • Situem a obra em relação às demais obra do autor. Por exemplo, se for um filme, comparem o filme em análise a outros do mesmo diretor. • Abordem o objeto resenhado sem divulgar aspectos que adiantem algum elemento-cha- ve ou surpresa que possa vir a atrapalhar a experiência futura dos consumidores da obra. • Empreguem verbos predominantemente no presente do indicativo. • Combinem o texto verbal com imagens (fotografias, ilustrações, reproduções) que o complementem. Avaliem a necessidade de identificar cada uma com legenda e mencionar referências sobre onde e quando a fotografia foi feita ou qual é sua origem. Revisão e reescrita Antes de finalizar a resenha e passá-la para o suporte final, releiam sua produção, observando se ela: • apresenta uma descrição do objeto cultural analisado e se destaca seus pontos positivos e/ou negativos; • fornece parâmetros para que o leitor decida conhecer ou consumir o objeto analisado; • apresenta e destaca aspectos da trajetória de vida do autor do objeto resenhado que possam ser importantes para situar a obra; • descreve e comenta os aspectos mais importantes da obra; • não contém elementos-chave que prejudiquem a experiência futura do consumidor da obra; • identifica os dados técnicos da obra; • emprega os verbos predominantemente no presente do indicativo; • utiliza linguagem adequada ao gênero, ao veículo e ao público-alvo. 294 Pr od uç ão de te xt o Não escreva no livro. Hora de compartilhar: Jornal de ciência e cultura Guardem as resenhas críticas produzidas, pois elas farão parte do jornal de ciência e cultura que a turma vai produzir ao final desta unidade para compartilhar com a comunidade escolar. Videorresenha DC Studio/Shutterstock Na internet, existem diferentes canais especializados em resenhar livros, filmes, músicas, discos e outros objetos culturais. A produção de resenhas em vídeo ou em podcast demanda cuidados adicionais. Para as produções em vídeo, é preciso preparar um roteiro, que, além do texto em si, contemple outros aspectos, como ambiente ou cenário de fundo, figurino, eventualmente música e legendas. Além disso, como a resenha em vídeo é falada, é preciso considerar altura e ritmo da voz, gestos e expressões. Os especialistas em fazer resenhas de livros em vídeo são chamados de booktubers. A resenha em vídeo exige preparo de roteiro, de cenário e até de postura. Nas resenhas em podcasts, também são válidas as preocupações com a voz e com música e efeitos sonoros. Foco no gênero Vamos conhecer melhor uma resenha produzida para as mídias digitais? Reúna-se com seu grupo e, sob a orientação do professor, escolham um canal da internet com videorresenhas pelo qual se interessem. Pode ser um canal de resenhas sobre livros, discos, cinema, teatro, shows, etc. Em seguida, selecionem uma resenha desse canal para proceder a uma análise. Façam uma análise do vídeo selecionado, respondendo às seguintes questões no caderno: • Como o vídeo é iniciado? O apresentador cumprimenta o público? Se sim, de modo formal ou informal? • Como o apresentador está vestido: de modo descontraído ou formal? Ele é jovem ou mais velho? Volta-se a que tipo de público? • Como é o cenário de fundo do vídeo? Ele tem relação com o objeto cultural apresentado ou é um cenário comum a todos os vídeos do apresentador? • O apresentador fala rápido ou de forma pausada? Sua fala contém variações na voz que tornam o vídeo mais atraente ou é monótono? • Como é a linguagem do apresentador: formal ou informal? Ela contém gírias? Tem um tom mais cômico, mais sério ou irônico? Está de acordo com o perfil do público que o vídeo pretende atingir? • De que forma é apresentado o objeto cultural? • Há imagens na apresentação? Elas cumprem um papel importante na resenha? • O apresentador aponta aspectos negativos e positivos do objeto resenhado por meio de sequências descritivas e avaliativas? Ele fundamenta seu ponto de vista com argumentos ou exemplos do objeto avaliado? Pr od uç ão de te xto 295 • De que forma o vídeo é concluído? Há algum tipo de despedida? • No início e no fim do vídeo, há uma vinheta, isto é, uma música, imagem ou animação que dá identidade ao canal? Concluída essa etapa da análise, reúna-se com toda a turma e exponham os resultados da análise que fizeram; ouçam também a análise e os comentários dos colegas. Procurem perceber as variações que ocorrem de acordo com o objeto cultural resenhado, com o perfil do apresentador, do veículo e do público-alvo. Hora de produzir Para a produção da videorresenha, o grupo poderá utilizar como base a resenha escrita, produzida anteriormente, ou escolher outro objeto cultural. Em caso de reaproveitamento da resenha feita, é necessário fazer adaptações para criar o roteiro. Planejamento do texto • Definam funções para toda a equipe. Convém que cada integrante do grupo, ou cada dupla, especialize-se e fique responsável por uma função específica: roteirista, câmera, ator, locutor, sonoplasta, iluminador e editor. • Todos os participantes devem aprovar cada uma das etapas do trabalho. • Primeiramente, planejem o roteiro para a videorresenha. Ele deverá definir o texto e orientar o encaminhamento das gravações ou montagens, descrevendo as cenas detalhadamente, na ordem em que devem aparecer. • Planejem como será o cenário, o espaço e o tempo da encenação. O cenário poderá ter relação direta com o objeto cultural selecionado. Por exemplo, se o objeto for musical, poderá haver um fundo com imagens de artistas, bandas musicais, etc. • Selecionem e organizem todo o material audiovisual que será utilizado: fotografias ou vídeos do objeto cultural, por exemplo. • Pesquisem músicas e efeitos sonoros para integrarem o vídeo ou para servirem de vinheta de abertura e fechamento. Escrita • Redijam o roteiro levando em conta as características básicas da resenha que aprendeu na atividade anterior: situem o autor e sua obra, comentem a importância do objeto cultural em estudo no conjunto da obra do autor, descrevam suas características, apontando aspectos positivos e negativos, se houver, e deem destaque para algumas partes ou aspectos que chamam a atenção. Também é importante informar como acessar o objeto cultural e, se for o caso, data, preço, local, etc. • Deixem claro no roteiro se haverá uma vinheta musical no início e no fim do vídeo, como será o cenário, se haverá a inserção de imagens durante a apresentação. Produção do vídeo • Antes de iniciar a gravação, façam um ensaio para avaliar a sequência e o ritmo da apresentação, a qualidade da voz, a iluminação, o uso de objetos ou imagens, o enquadramento, etc. 296 Pr od uç ão de te xt o Não escreva no livro. • Com o apoio de toda a equipe, façam a filmagem em local silencioso, em ambiente devidamente iluminado e com um cenário adequado para tratar do objeto escolhido. • Fiquem atentos ao enquadramento da imagem, aos movimentos da câmera e aos aspectos da fala, como modulação de voz, entonação, ritmo, altura e intensidade, respiração, etc. e à postura corporal do apresentador, a seus movimentos, à gestualidade, à expressão facial, etc. • Assistam a todas as cenas que foram gravadas ou captadas, selecionem as que entrarão na edição final e disponham-nas na ordem em que vão aparecer no vídeo. • Editem a videorresenha, fazendo uso de um dos programas de edição de vídeo disponíveis gratuitamente na internet; se necessário, consultem tutoriais. • Sincronizem o vídeo com os áudios produzidos e as músicas escolhidas. Revisão do vídeo Antes de concluir a edição do vídeo, verifiquem: • se as cenas previstas no roteiro estão todas presentes e na sequência planejada; • se o som está uniforme, sem trechos excessivamente baixos ou altos; • se a postura física do apresentador é boa e se o texto foi falado por ele de forma clara e fluente, com ritmo e altura de voz adequados; • se eventual inserção de imagens ficou adequada e se os cortes estão devidamente justapostos; • se eventual uso de sons e vinhetas musicais ficou devidamente integrado com as imagens e com o texto. Após a checagem final, salvem o trabalho e o convertam para o formato de arquivo de vídeo. Depois, providenciem a gravação em uma mídia ou façam o upload para a nuvem. A videorresenha vai integrar o jornal que será organizado e lançado ao final desta unidade. Hora de compartilhar: Jornal de ciência e cultura Guardem as videorresenhas, pois elas terão o endereço publicado no jornal de ciência e cultura a ser produzido pela turma ao final desta unidade e compartilhado com a comunidade escolar. Avali an do os es tu do s Você e os colegas vão retomar os objetivos indicados no início do capítulo e avaliar os estudos 1. A poesia de Alphonsus de Guimaraens se distingue pela feitos e o percurso, considerando estas questões: fluidez e pela melancolia, há a presença da religiosidade, do interesse pela morte e da busca pela transcendência. 1. Quais são as características da poesia de Alphonsus de Guimaraens? 2. Explique por que as regras de concordância não podem ser consideradas unicamente do ponto de vista da gramática tradicional. Que outros fatores podem influenciar na forma como diferentes pessoas fazem a concordância? 3. O que o público busca em uma resenha crítica? O público busca informar-se a respeito de um objeto cultural 4. Como se desenvolve uma resenha crítica? do seu interesse: livro, filme, música, disco, show, espetáculo de teatro ou de dança, slam, etc. 5. É conveniente ler integramente o texto de uma resenha escrita ao gravar uma videorresenha? Consulte as respostas das atividades 2, 4 e 5 nas Orientações específicas do Manual do Professor. Pr od uç ão de te xto 297 : R A H L I T R A P M O C E D A R HO JORNAL DE CIÊNCIA E CULTURA BN CC Competências gerais da Educação Básica: 1, 2, 3, 4, 5, 8, 10 Competências específicas da área de Linguagens: 1, 3, 6, 7 Habilidades específicas da área de Linguagens: EM13LGG101, EM13LGG103, EM13LGG104, EM13LGG201, EM13LGG202, EM13LGG204, EM13LGG301, EM13LGG302, EM13LGG303, EM13LGG304, EM13LGG305, EM13LGG402, EM13LGG601, EM13LGG602, EM13LGG603, EM13LGG604, EM13LGG701, EM13LGG703 Macrovector/Shutterstock Habilidades específicas de Língua Portuguesa: EM13LP01, EM13LP04, EM13LP09, EM13LP13, EM13LP15, EM13LP16, EM13LP21, EM13LP46, EM13LP47 298 Nas unidades 3 e 4, você produziu textos dos campos das práticas de estudo e pesquisa, artístico-literário e jornalístico-midiático. Discutiu temas como demência, feminismo, cancelamento nas redes sociais e leu crônicas e resenhas críticas de obra literária. Ao longo dos capítulos, produziu artigo de divulgação científica, artigo de opinião, crônica e resenha. Agora, você vai participar da organização de um jornal de ciência e cultura, impresso ou digital, no qual será apresentada à comunidade a produção feita por vocês ao longo do semestre. O jornal será exposto em um evento escolar. Decisões coletivas Não escreva no livro. Converse com os colegas e o professor a respeito de como gostariam de desenvolver o jornal e o evento, levando em conta os textos produzidos e a realidade da comunidade em que vivem. Para isso, discutam questões como: • Como será o evento de lançamento do jornal? • Quem fará a curadoria dos textos e como serão organizados? • De que modo vão organizar o jornal? Quem vai cuidar da parte de editoração dele? O jornal terá uma apresentação? • Que equipamentos serão necessários? Que espaço da escola poderá abrigar o evento de lançamento? • Quem vai participar do lançamento do jornal? Como serão feitos os convites aos convidados? • Como será organizado o cronograma das ações? E a divulgação do evento? Que tal convidarem um booktuber ou produtor de conteúdo local para falar sobre livros e sobre como produzir resenhas críticas digitais? A turma pode fazer uma pesquisa prévia para escolher quem será o convidado; usem a criatividade e façam um convite personalizado em formato de vídeo, por exemplo. O contato pode ser feito pelo professor ou pela direção escolar, em nome da turma organizadora do evento. Preparem um roteiro com as perguntas que serão feitas no dia do bate-papo e escolham um mediador para controlar o tempo e direcionar possíveis dúvidas do público. Peçam dicas sobre como produzir uma resenha crítica digital e explorem a experiência do convidado com plataformas digitais; afinal, esse conhecimento pode estimular algum estudante a começar o próprio canal ou blogue. É possível abrir uma conversa com os presentes ao final, para que possam dialogar, compartilhar experiências e sugerir dicas de leitura. Para acomodar a apresentação e o público-alvo da conversa, será necessário planejar, em conjunto com o professor e com a direção escolar, um espaço para que esse evento aconteça. Por exemplo, se o bate-papo for realizado na quadra de esportes, haverá lugares para acomodar o público? Os convidados se sentarão na arquibancada, se houver, ou em cadeiras previamente organizadas na quadra? Há equipamentos disponíveis, como microfones e caixas de som? Compartilhe suas ideias e ouça com atenção as propostas dos colegas e do professor. Defenda suas propostas com base em argumentos consistentes, considerando o contexto escolar e os desejos da turma. Toda a turma deve definir um plano para implementar o que ficar combinado. A seguir algumas sugestões para a distribuição de ações entre os grupos. 299 ProStockStudio/Shutterstock O que faremos AÇÃO: CRONOGRAMA | RESPONSÁVEL: EQUIPE 1 O que fazer: Planejar o prazo de execução de cada tarefa, considerando as particularidades das diferentes atividades envolvidas, a realidade da escola e as datas combinadas com o professor. AÇÃO: PRODUÇÃO DO JORNAL | RESPONSÁVEL: EQUIPE 2 Vasyl Yurlov/Shutterstock O que fazer: Decidir como o jornal será produzido — se digital ou impresso; se com o auxílio de um programa de edição de textos e imagens ou manualmente. Reunir todo o material produzido nas unidades 3 e 4: os artigos de divulgação científica, as crônicas, as resenhas críticas e os artigos de opinião. Com o material reunido, planejar a diagramação do jornal e a montagem. A primeira página deve conter o título e uma indicação da turma responsável. Decidir sobre a sequência dos textos: se serão dispostos por gêneros, por temas ou por autores. Decidir se o jornal terá um texto de apresentação e quem vai produzi-lo; se a parte cultural do jornal, que vai consistir em crônicas e resenhas, terá um tratamento à parte ou se os textos serão dispostos com os outros. A versão final deve ser aprovada por toda a turma. v.iraa/Shutterstock AÇÃO: DIVULGAÇÃO DO EVENTO | RESPONSÁVEL: EQUIP E3 300 O que fazer: Preparar cartazes, convites, pôsteres e flyers para divulgar o evento. Fotografar ou digitalizar os convites e utilizar as redes sociais para convidar familiares, amigos e outros estuda ntes da escola. Afixar, próximo ao local do evento, um cartaz com o título respec tivo. Montar um espaço — um mural ou caderno — para que os visitan tes do evento possam deixar seus comentários. Utilizar as redes sociais para publicar informações sobre o evento . Não escreva no livro. AÇÃO: ORGANIZAÇÃO DO LANÇAMENTO E EXPOSIÇÃO DO JORNAL | RESPONSÁVEL: EQUIPE 4 O que fazer: Fazer um levantamento de espaços e equipamentos que serão necessários no dia do lançamento do jornal — se o lançamento será feito num auditório ou numa sala; se haverá cadeiras para o público se sentar; se haverá equipamento de som para uma apresentação do trabalho; quem falará com o público; se será feita uma exposição do jornal impresso em murais, ou se serão providenciadas cópias impressas para os visitantes, etc. Conversar com a gestão escolar sobre os espaços que serão necessários para o lança- Liana Nagieva/Shutterstock mento do jornal. Discutir com toda a turma, com o professor e com a direção sobre a possibilidade de convidar alguém da comunidade ou da cidade que possa fazer uma palestra sobre um dos temas discutidos no semestre, como meio ambiente, demência, redes sociais e feminismo. Expor os jornais impressos em mesas, de forma que eles possam ser manuseados e lidos. Se a turma optou por jornal digital, devem ser dispostos computadores e monitores para que o público possa ler. ck Visual Generation/Shuttersto E-PAPO COM BOOKTUBER | AÇÃO: ORGANIZAÇÃO DO BAT RESPONSÁVEL: EQUIPE 5 me nto s que serão neme nto de esp aço s e equ ipa nta leva um er Faz er: faz que O uma sala de aula versa será feita na quadra, em con a se — apo e-p bat do dia cessários no erá equipamento de som no para o público se sentar; se hav ou online; se haverá cadeiras local escolhido. olar sobre o espaço Conversar com a direção esc . necessário para o bate-papo booktuber ou proEscolher, com o professor, um a a conversa; preparar e dutor de conteúdo local par turma; preparar um roenviar o convite em nome da ntação e perguntas da teiro com o tempo de aprese turma; escolher um mediador. 301 DE S E Õ T S QUE S A D A T N E M O C S E M A EX 1. (Urca-CE, 2020) Na formação de nossa identidade nacional, a literatura desempenhou um papel de extrema importância, determinando temas e modos de expressão que, ainda hoje, são muito presentes em nossa maneira de ver o mundo e falar sobre ele. Leia atentamente o trecho a seguir e assinale o que que se pede: “Os outros dois, que o Capitão teve nas naus, a que deu o que já disse, nunca mais aqui apareceram – do que tiro ser gente bestial, de pouco saber e por isso tão esquiva. Porém e com tudo isso andam muito bem curados e muito limpos. E naquilo me parece ainda mais que são como aves ou alimárias monteses, às quais faz o ar melhor pena e melhor cabelo que às mansas, porque os corpos seus são tão limpos, tão gordos e tão formosos, que não pode mais ser. Isto me faz presumir que não têm casas nem moradas a que se acolham, e o ar, a que se criam, os faz tais. Nem nós ainda até agora vimos nenhuma casa ou maneira delas.” (CAMINHA, Pero Vaz de. A Carta de Pero Vaz de Caminha. Disponível em <http://objdigital.bn.br/Acervo_Digital/livros_eletronicos/carta.pdf>) No trecho citado, a atitude de Caminha revela PRINCIPALMENTE: a) racismo, pelo emprego da palavra “bestial”, que denota o desejo de escravizar os índios, por serem como animais. b) tolerância, pelo esforço de compreender as diferenças culturais e defendê-las diante do Rei, destinatário da Carta. c) etnocentrismo, por apreciar negativamente a diversidade da cultura do Outro, por meio de critérios baseados no modo de viver europeu. d) xenofobia, pois a desqualificação do índio se dá em todos os aspectos, pelo fato de eles não serem portugueses. e) autoritarismo, pois está implícito que os portugueses têm o direito de impor aos índios a adoção de seus costumes e crenças. C om en t‡ ri o Alternativa c. Para responder à questão, é importante ter em mente o conceito de etnocentrismo, que corresponde à tendência de avaliar outras culturas com base nos padrões e valores da própria sociedade. Caminha, ao descrever os indígenas como “gente bestial”, “de pouco saber” e sem morada, sugerindo que vivem como animais (“como aves ou alimárias”), expressa uma presunção de superioridade e desprezo por quem tem uma cultura e um modo de vida diferente do seu. Na alternativa a, há informações a mais, pois, no trecho do texto em análise, Caminha não expressa desejo de escravizar os indígenas. Na alternativa b, há informação discordante, uma vez que Caminha, ao usar expressões como “gente esquiva”, “bestial”, não revela o interesse de compreender e defender diferenças culturais dos indígenas diante do rei. A alternativa c, portanto, está correta e deve ser assinalada. Na alternativa d, há também informação discordante, pois não há, no texto, a desqualificação dos indígenas por não serem portugueses. Na alternativa e, há informações a mais, já que não há elementos no texto em destaque que indiquem o anseio de impor aos indígenas os costumes e as crenças dos portugueses. 302 Não escreva no livro. 2. (Unifacs-BA, 2022) Leia o poema de Adélia Prado para responder [à questão]. Anímico Nasceu no meu jardim um pé de mato que dá flor amarela. Toda manhã vou lá pra escutar a zoeira da insetaria na festa. Tem zoado de todo jeito: tem do grosso, do fino, de aprendiz e de mestre. É pata, é asa, é boca, é bico. é grão de poeira e pólen na fogueira do sol. Parece que a arvorinha conversa. (Adélia Prado. Bagagem, 2012.) A linguagem, no poema de Adélia Prado, a) mistura a norma culta com a oralidade, estabelecendo uma reflexão metalinguística. b) traz a predominância da variedade coloquial, que revela um olhar singelo para o cotidiano. c) apresenta a norma culta do português, conforme se espera de um texto de valor artístico. d) demonstra um uso espontâneo da língua, incomum em poemas contemporâneos. e) cria uma expressão simplificada, que aparece no diálogo entre eu lírico e natureza. (Unesp-SP, 2024) Leia o soneto do poeta parnasiano Olavo Bilac para responder às questões [3 e 4]. Em mim também, que descuidado vistes, Encantado e aumentando o próprio encanto, Tereis notado que outras coisas canto Muito diversas das que outrora ouvistes. Mas amastes, sem dúvida… Portanto, Meditai nas tristezas que sentistes: Que eu, por mim, não conheço coisas tristes, Que mais aflijam, que torturem tanto. Quem ama inventa as penas em que vive: E, em lugar de acalmar as penas, antes Busca novo pesar com que as vive. Pois sabei que é por isso que assim ando: Que é dos loucos somente e dos amantes Na maior alegria andar chorando. (Olavo Bilac. Poesias, 2001.) C om en tá ri o Alternativa b. A alternativa a está errada porque não há, no poema, uma reflexão metalinguística, ou seja, uma reflexão sobre a própria linguagem ou sobre o próprio fazer poético. A alternativa b está correta: o eu lírico retrata uma situação cotidiana em seu jardim - o nascimento de mato, os sons de insetos e aves. A linguagem escolhida para tratar desse cenário prosaico busca adequar-se, ao fazer uso de vocábulos mais comuns na linguagem cotidiana, como insetaria e arvorinha. A alternativa c está errada, uma vez que, em textos literários a norma culta não é obrigatória. A alternativa d está errada porque o uso espontâneo da língua ou o uso de uma linguagem espontânea são comuns em poemas contemporâneos. A alternativa e está errada porque não há, no poema, um diálogo entre o eu lírico e a natureza. 303 3. Depreende-se do soneto que a) os amantes idolatram a loucura. b) o amor é a cura para o sofrimento. c) os amantes sentem atração pelo sofrimento. d) os amantes encenam a própria loucura. C om en tá ri o e) o amor conduz invariavelmente à loucura. Alternativa c. A questão demanda a interpretação do soneto de Bilac. Na alternativa a, há uma informação discordante, pois o soneto em questão não apresenta uma adoração explícita da loucura. As alternativas b e d apresentam informações discordantes: o verso “Quem ama inventa as penas em que vive:” sugere que o amor pode aumentar o sofrimento, e não curá-lo, como aponta a alternativa b; e, além disso, o soneto não apresenta qualquer expressão ou verso que indique encenação ou fingimento por parte dos amantes. A alternativa c, por sua vez, está de acordo com o primeiro terceto do soneto, o qual sugere que os amantes inventam “as penas em que vivem”, buscam “novo pesar”, ratificando a ideia de que sentem atração pelo sofrimento. A “maior alegria [em] andar chorando” reforça essa atração pelo sofrer. Portanto, a afirmação da alternativa c interpreta os versos de forma correta. Em relação à alternativa e, embora o eu lírico mencione que apenas os loucos e os amantes andam chorando na maior alegria (“Que é dos loucos somente e dos amantes / Na maior alegria andar chorando”), ele não afirma que o amor conduz invariavelmente à loucura, uma vez que a ênfase está na coexistência de alegria e sofrimento no amor. C om en tá ri o Alternativa a. A alternativa a está correta, pois, embora o eu lírico do poema se dirija à pessoa amada por diversas vezes, o poema como um todo é a expressão e o lamento do eu lírico em relação a seus sentimentos não correspondidos, destacando a função emotiva da linguagem, enfatizada pelo emprego de formas verbais e pronomes de 1a pessoa do singular: mim, eu, conheço, ando. A alternativa b está errada porque o poema não apresenta engajamento com nenhuma questão social ou política. A alternativa c está errada porque o poema não apresenta contenção lírica, como se nota na última estrofe, embora o poeta seja reconhecido como parnasiano e esse seja um traço comum ao movimento literário. A alternativa d está errada porque o poema é mais reflexivo do que descritivo. A alternativa e está errada porque não há idealização do passado: o eu lírico refere-se ao seu estado emocional no presente. 304 4. Uma característica que aproxima esse soneto da estética romântica é a) a função emotiva da linguagem. b) o discurso socialmente engajado. c) a rigorosa contenção lírica. d) o acentuado caráter descritivo. e) a idealização do passado. 5. (Unemat-MT, 2019) “[...] Dito isto, expirei às duas horas da tarde de uma sexta-feira do mês de agosto de 1869, na minha bela chácara de Catumbi. Tinha uns sessenta e quatro anos, rijos e prósperos, era solteiro, possuía cerca de trezentos contos e fui acompanhado ao cemitério por onze amigos. Onze amigos! Verdade é que não houve cartas nem anúncios. Acresce que chovia — peneirava uma chuvinha miúda, triste e constante, tão constante e tão triste, que levou um daqueles fiéis da última hora a intercalar esta engenhosa ideia no discurso que proferiu à beira de minha cova: — ‘Vós, que o conhecestes, meus senhores, vós podeis dizer comigo que a natureza parece estar chorando a perda irreparável de um dos mais belos caracteres que têm honrado a humanidade. Este ar sombrio, estas gotas do céu, aquelas nuvens escuras que cobrem o azul como um crepe funéreo, tudo isso é a dor crua e má que lhe rói à Natureza as mais íntimas entranhas; tudo isso é um sublime louvor ao nosso ilustre finado. [...]” ASSIS, Machado. Memórias Póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. Memórias Póstumas de Brás Cubas é o romance com o qual Machado de Assis inaugura o Realismo no Brasil, cujo narrador protagonista conta as suas memórias depois de morto, sendo também o responsável pela caracterização das demais personagens. As narrativas machadianas fazem, com frequência, um jogo temporal, oscilando as ações entre o cronológico e o psicológico. Considerando o texto base, é correto afirmar que o fragmento apresenta: Não escreva no livro. a) Não apresenta marca de tempo, nem cronológico, muito menos psicológico. b) Marcas exclusivamente do tempo psicológico, constituindo-se um tempo interno e individual, com influência de emoções e sentimentos. c) Não apresenta marcas do tempo cronológico. d) Marcas do tempo cronológico e do tempo psicológico. e) Marcas do tempo cronológico, pois é o tempo real, aquele marcado pelo calendário e pelo relógio. C om en t‡ ri o Alternativa e. Essa é a alternativa correta porque, no texto, as menções ao horário, dia, mês e ano da morte do protagonista narrador são uma referência clara ao tempo cronológico. Para responder à questão, é preciso observar com atenção as marcações de tempo no trecho da narrativa explorado: as alternativas a e c são discordantes, pois afirmam que não há tempo cronológico, informação desmentida pelo trecho “expirei às duas horas da tarde de uma sexta-feira do mês de agosto de 1869”. Nesse sentido, a alternativa b também se mostra discordante, pois o uso da palavra “exclusivamente” em relação ao “tempo psicológico” igualmente desconsidera o trecho “expirei às duas horas da tarde de uma sexta-feira do mês de agosto de 1869”. Além disso, as alternativas b, c e d se mostram discordantes, pois no trecho apresentado na questão não há marcas do tempo psicológico. Vale ressaltar que, embora a narrativa de Machado de Assis, em geral, oscile entre o tempo cronológico e o psicológico, o texto trabalhado na questão apresenta apenas um relato objetivo e cronológico de um evento da vida do narrador-personagem. (Ufam, 2023 – 1a Fase) Considere os excertos do texto a seguir para responder às questões [6 e 7]: Os bravos pezinhos de Goreti Reprodução/Ufam, 2023. Faz uns três meses, perdi a paciência e coloquei essa plaquinha aí: Porque cansei de ver as pessoas entrarem na loja, olharem a vitrine e virarem pra um dos meninos do balcão: “Nossa, cara, você correu tudo isso?!” Mesmo se eu estivesse ali do lado, era com os homens que falavam: “Rapaz, esse tanto de medalha é seu? Parabéns, hein, meu!”. Ai que ódio. Nunca perguntaram QUEM FOI que ganhou as medalhas. Presumiam que tinha sido um homem. Aí falei: peraí que vou acabar com essa festa. Mesmo assim tem gente que continua, pois acha que Dinorá é homem. Então tô pra bolar um outro jeito de deixar mais claro que essas conquistas são minhas, mulher aqui, ó, e não do zezinho ou joãozinho. Só que tem uma confusão aí, porque meu nome não é Dinorá, é Goreti. Eu te explico melhor esse negócio, só um minutinho. — Benhê, dá uma olhada na loja que eu vou conversar com o rapaz. 305 O Benhê é meu marido. Toninho. Estamos juntos há 45 anos. Toninho pro resto, Benhê pra mim. Então. A loja é que se chama Dinorá, tá na fachada, em homenagem à nossa filha mais velha. Abrimos quando ela nasceu, em 1987, pra fazer carimbos, brindes, chaves, xerox. Mas desde o começo a freguesia confundiu, achou que Dinorá era a dona. Durante um tempo, até que eu tentei desfazer o mal-entendido, mas não funcionou e larguei mão. Todo mundo aqui me conhece por Dinorá. No fim é até bom, porque um dos tratos que eu tenho com o Benhê é de não falar de trabalho em casa. Jamais! Então, aqui dentro eu sou Dinorá e lá fora, Goreti. Nas corridas, Goretinha, por causa desse meu tamanho todo que você pode ver. Mas deixa eu te falar. Quero te pedir pra não colocar no papel o meu nome junto da palavra idosa. Tenho 65 anos, não escondo de ninguém, mas idosa é de lascar. Eu vou viver até os 120, então tô só na metade do caminho. Quando eu passar dos 100 talvez eu deixe você escrever sobre a idosa que corre ultramaratona. Antes não. Agora, o “senhora” pode dispensar sempre. Isso é bobagem. O maior sinal de respeito é a gente lidar com qualquer pessoa de igual pra igual, não se colocar abaixo dela dando esses tratamentos de senhor e senhora. Pra mim todo mundo é você. E olha que levei muito tabefe por causa disso. Nós éramos dez irmãos e eu, desde criança, a única que se recusava a chamar meu pai de senhor. Eu falava “você” e lá vinha a mão dele na minha cara. Pra ele era uma afronta. Mas acho que eu nasci pra afrontar mesmo. [....] Disponível em: https://tab.uol.com.br/colunas/trombadas/2022/05/19/os-bravos-pezinhosde-goreti.htm?comment=109390714. 6. Sobre o conteúdo do perfil, é INCORRETO afirmar que: a) a perfilada, embora tenha 65 anos, não quer seu nome associado à palavra “idosa”, porque entende que terá uma vida longeva, muito além dessa idade; também dispensa o tratamento “senhora”, porque, por si só, ele não é sinal de respeito. b) as informações apresentadas permitem concluir que a perfilada é uma corredora de ultramaratona. C om en t‡ ri o Alternativa d. A afirmação da alternativa d está incorreta porque o título é coerente com o conteúdo do texto, e a razão de haver outro nome na placa é explicada pelo fato de que a filha de Goreti se chama Dinorá e as pessoas confundem o nome das duas. Além disso, o título pode ser lido de duas formas, uma vez que Goreti assume que ficava nervosa com a confusão (“Ai, que ódio”), mas que também, por ser corredora e por ser pequena, tem os pés pequenos e bravos no sentido de notáveis, admiráveis. As afirmações das demais alternativas estão corretas, e essa verificação é possível observando a relação dessas afirmações com o conteúdo do texto. A afirmação da alternativa a está justificada no trecho “o ‘senhora’ pode dispensar sempre. Isso é bobagem. O maior sinal de respeito é a gente lidar com qualquer pessoa de igual pra igual, não se colocar abaixo dela dando esses tratamentos de senhor e senhora”. O conteúdo da alternativa b se justifica pelos trechos “Nossa, cara, você correu tudo isso?!”; “essas conquistas são minhas, mulher aqui” e “aqui dentro eu sou Dinorá e lá fora, Goreti. Nas corridas, Goretinha”, os quais indicam que os troféus e as medalhas são frutos da participação em corridas que foram realizadas pela perfilada, Goreti. A alternativa c, por sua vez, se justifica pelo trecho “um dos tratos que eu tenho com o Benhê é de não falar de trabalho em casa. Jamais!” e a alternativa e, por fim, pode ser verificada pela presença do diminutivo “pezinhos” no título e pela referência ao nome no diminutivo, “Goretinha”, associado de forma irônica pela perfilada à expressão “desse meu tamanho todo” em “Nas corridas, Goretinha, por causa desse meu tamanho todo que você pode ver”. 306 Não escreva no livro. c) a perfilada, a partir de um acordo estabelecido com o seu marido, decidiu separar os assuntos referentes ao trabalho daqueles inerentes à vida doméstica familiar, não tratando de questões laborais quando está em casa. d) o título é incoerente e isso é confirmado pela plaquinha reproduzida na foto, que o contradiz, e não há uma explicação para essa divergência. e) embora não esteja explícito nos excertos do perfil, é possível inferir, pelo título, e pelo tratamento “Goretinha”, que a perfilada usa uma numeração pequena de calçados. 7. Em relação aos aspectos linguísticos do perfil, é CORRETO afirmar que: a) o autor procura dar um tom mais intimista à voz da perfilada, lançando mão de usos próprios da linguagem oral, como “peraí”, “tô”, “é de lascar”, a forma de tratamento “cara”, entre outros. b) o verbo “haver” pode substituir “fazer” quando indica tempo decorrido, de modo que o período “Faz uns três meses, perdi a paciência e coloquei essa plaquinha aí” pode ser alterado para “Haviam uns três meses, perdi a paciência e coloquei essa plaquinha aí”. c) o trecho “Agora, o ‘senhora’ pode dispensar sempre. Isso é bobagem.” poderia ser reescrito com o conectivo “mas”, sem prejuízo coesivo ou de sentido: “Agora, o ‘senhora’ pode dispensar sempre, mas isso é bobagem”. d) se o trecho “Então tô pra bolar um outro jeito de deixar mais claro que essas conquistas são minhas, mulher aqui, ó, e não do zezinho ou joãozinho” fosse reescrito como “Então tô pra bolar um outro jeito de deixar mais claras essas conquistas: elas são minhas, da mulher aqui, ó, e não do zezinho ou joãozinho”, haveria erro de concordância no emprego de “claras”. e) a substituição do verbo em “Presumiam que tinha sido um homem” por “Sabiam que tinha sido um homem” manteria a mesma ideia. C om en t‡ ri o Siglas: Ufam (Universidade Federal do Amazonas); Unemat (Universidade do Estado de Mato Grosso); Unesp (Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”); Unifacs (Universidade Salvador); Urca (Universidade Regional do Cariri). Alternativa a. Os termos que na alternativa a exemplificam usos da linguagem oral no texto estão corretos, e de fato tais ocorrências dão um tom intimista, isto é, estreitam a relação entre o leitor e o texto, pois é como se a perfilada estivesse de fato conversando informalmente com eles: peraí e tô são reduções, respectivamente, da expressão “espere aí” e da forma verbal estou; “é de lascar”, por sua vez, constitui uma expressão regional típica de usos informais e, no contexto, tem o sentido de “é decepcionante”. O tratamento cara, por fim, é também típico da fala em contextos menos formais, pois constrói uma relação de maior proximidade entre os interlocutores. A alternativa b está incorreta porque a conjugação haviam, no plural, não é admitida pela norma-padrão, uma vez que haver, nesse contexto, é um verbo impessoal , ou seja, não se flexiona, mantendo-se sempre na 3ªa pessoa do singular: “havia uns três meses...”. A alternativa c está incorreta porque a substituição do ponto pelo conectivo mas alteraria o sentido do texto: na versão original, a relação entre as duas frases é de explicação, pois a oração “isso é bobagem” explica o motivo pelo qual a perfilada dispensa o tratamento de senhora. Se as duas orações fossem ligadas pelo conectivo mas, por sua vez, o sentido seria o de oposição, adversidade e, dessa forma, daria a entender que a perfilada considera sua afirmação da frase anterior como bobagem. Na alternativa d, a proposta de reescrita não produziria um erro de concordância, uma vez que o adjetivo claras concordaria com a expressão “essas conquistas”, ambos flexionados no feminino plural. Por fim, a alternativa e está incorreta porque a substituição sugerida não mantém a mesma ideia, já que presumiam não tem o sentido de sabiam, mas, sim, de pensavam, julgavam. 307 T R A N S C R I Ç Ã O D E ÁU D I O S Lista de podcasts oferecidos no volume Podcast 1 Unidade 1, Capítulo 3, p. 126 Como identificar fake news Olá, seja bem-vindo a mais um podcast de Língua Portuguesa. Neste episódio, falaremos sobre as notícias falsas, também chamadas de fake news. Esse assunto ganhou a atenção de todos de uns tempos para cá. Mas você sabe por que ele é tão importante? Fique atento e confira! Em seus estudos, você aprendeu mais sobre o gênero textual notícia e como ele é importante em nossa sociedade. Agora, imagine só quando uma notícia falsa começa a circular por aí. Ela pode criar uma grande confusão! Por isso, precisamos estar atentos e saber reconhecer uma notícia falsa quando lemos uma. Vamos entender um pouco mais sobre esse assunto? É muito importante estarmos bem-informados sobre o que está acontecendo no mundo. É por meio da informação que construímos nossa opinião e podemos tomar ações para mudar as coisas com as quais não concordamos. É por isso que as notícias falsas são tão perigosas. Quando mentiras circulam na sociedade como se fossem verdade, podem se formar opiniões equivocadas a respeito de diversos assuntos. Mas como reconhecer notícias falsas quando nos deparamos com uma? Aqui vão algumas dicas: 1) Desconfie de notícias escritas em veículos não oficiais: normalmente, as notícias falsas estão muito atreladas a aplicativos de mensagens instantâneas e às redes sociais; então, antes de formar uma opinião sobre algum assunto, pesquise em uma fonte segura, como jornais, revistas, portais de notícias ou até mesmo nas redes sociais oficiais desses veículos. Um bom hábito que você pode adotar é sempre verificar o link do site no qual a notícia foi publicada para garantir que a fonte é realmente confiável. Apenas ler o título de uma notícia em um grupo de mensagens, por exemplo, pode não ser suficiente para avaliar a sua veracidade. Lembre-se de que as notícias falsas costumam ter títulos chamativos ou sensacionalistas justamente para causar impacto. Portanto, antes de compartilhar qualquer informação, preste atenção a esses detalhes e confirme a autenticidade da notícia. 308 2) Desconfie de notícias com informações vagas: se uma notícia não apresenta informações de forma detalhada logo em seu início, é importante ficar alerta, pois jornalistas profissionais não cometeriam esse erro. Diferentemente das notícias falsas, que podem se basear em palpites e opiniões pessoais, veículos de comunicação confiáveis fundamentam suas informações com dados concretos. Por isso, priorize artigos completos e que citem fontes confiáveis, já que eles tendem a ser mais precisos e seguros. 3) Preste atenção à linguagem: você aprendeu que a linguagem da notícia deve ser objetiva, evitando a emissão de opiniões e apresentando um vocabulário relacionado ao assunto. Além disso, as notícias são escritas de acordo com a norma-padrão da língua portuguesa, isto é, uma notícia veiculada por uma fonte confiável não deixaria passar um erro ortográfico grosseiro, por exemplo. Sendo assim, fique atento! Se uma notícia não está redigida de acordo com esses padrões, ela pode ser falsa. 4) Verifique sempre a data de publicação da notícia. Muitas vezes, notícias falsas são “recicladas”, o que significa que voltam a circular novamente anos depois de terem sido originalmente criadas, como se fossem novas. Além disso, é possível ver fatos verdadeiros que aconteceram há muito tempo serem isolados da situação social em que ocorreram e colocados novamente em circulação sob uma ótica manipulada, a fim de dar a entender outros sentidos ao fato original. Há casos em que são até mesmo feitas montagens com vídeos ou imagens de origens diversas que, em conjunto, deturpam situações e sugerem comportamentos que não correspondem à realidade atual. Verificar a data de publicação ajuda a garantir que as informações não estão desatualizadas ou distorcidas. Também vale a pena ver se a notícia foi atualizada recentemente, já que, às vezes, são feitas edições para incluir novas informações, o que pode alterar o sentido original. Por isso, crie o hábito de sempre conferir a data e se houve alguma atualização antes de compartilhar uma notícia. As notícias falsas costumam circular na internet e podem se espalhar rapidamente, já que é muito fácil hoje disseminar informações nessa rede, por isso é tão importante fazermos uma análise antes de compartilhar algo. Hoje abordamos a importância de desconfiar de notícias publicadas em veículos de comunicação não oficiais e com informações vagas. Também sinalizamos a necessidade de prestar atenção à linguagem das notícias e verificar suas datas de publicação. Siga essas dicas e você estará sempre atualizado com informações verdadeiras e confiáveis, além de evitar contribuir para a propagação de fake news. E aí, gostou das dicas para reconhecer uma notícia falsa? De agora em diante, verifique sempre as informações e só compartilhe notícias verdadeiras! Você pode discutir mais sobre esse assunto com o professor e os colegas. Até a próxima! Podcast 2 Unidade 2, Capítulo 4, p. 158 Como fazer uma fotorreportagem Olá, seja bem-vindo a este podcast de Língua Portuguesa! Neste episódio, vamos explorar o mundo das fotorreportagens, ou seja, das reportagens em que as imagens têm um papel central! Vamos lá? Atualmente, vivemos em um mundo de imagens, não é mesmo? A internet, as redes sociais e a facilidade de compartilhamento têm nos possibilitado tudo isso. Pois basta um clique para que uma imagem dê a volta ao mundo, podendo impactar milhares de pessoas. E é por isso que a fotorreportagem é tão importante, uma vez que ela tem o poder de conscientizar as pessoas! É como diz o velho ditado: uma imagem vale mais do que mil palavras! Mas e aí, já parou para pensar em como poderia ajudar a construir uma sociedade melhor por meio de uma reportagem impactante? Continue ouvindo, que você terá uma grande dica para isso! Na disciplina de História, por exemplo, não raramente entramos em contato com fotos que podem ser consideradas icônicas, isto é, extremamente marcantes, a ponto de influenciar a opinião pública em algum aspecto. É nesse ponto que reside o poder da fotorreportagem. As fotos precisam ser persuasivas, convincentes, para que o público leitor compartilhe da perspectiva que o fotojornalista pretende retratar em seu trabalho. Sendo assim, uma dica importante para escrever — e fotografar! — uma boa fotorreportagem é a definição do tema, da pauta a ser tratada. É preciso que você tenha um ponto de vista claro sobre o assunto, para que consiga abordá-lo com segurança e de forma persuasiva. Quer um exemplo? No seu bairro, você vem percebendo que há lixo sendo jogado em determinado local com muita frequência. E, depois de algum tempo, percebe que isso tem prejudicado a fauna daquele lugar, pois alguns animaizinhos foram encontrados doentes. Pois bem, esse é um fato, concorda? Agora, pense: qual é a sua opinião sobre esse fato? De que perspectiva você quer tratá-lo? Que recorte do tema você escolheria abordar? Sendo um fotojornalista, é possível que você descubra que as pessoas que estão jogando o lixo no lugar não tiveram acesso à educação ambiental e queira explorar esse assunto: como a falta de acesso à educação ambiental impacta as outras esferas da sociedade? Então, nesse caso, quais seriam as fotos que acompanhariam a sua narrativa? Provavelmente, registros da situação em que vivem as pessoas que estão cometendo esse ato inadequado, por ignorarem outras formas de agir em tal situação. Essa seria uma perspectiva um pouco incomum, não é mesmo? Mas é aí que está: você é quem define a sua perspectiva! Explore o fato, pesquise-o, forme uma opinião sobre o assunto. Depois, fotografe e escreva. Um tema bem definido é um ótimo começo para uma boa fotorreportagem! Aliás, agora que você aprendeu como são feitas as fotorreportagens, que tal pôr esse conhecimento em prática e criar a sua própria? Converse com os colegas e os professores para escolher um tema que você gostaria de explorar. Pode ser algo atual, relevante para sua comunidade, ou um assunto que desperte sua curiosidade. Após definir o tópico, faça uma pesquisa detalhada em fontes confiáveis e, se possível, realize uma investigação em campo para obter uma perspectiva mais aprofundada e autêntica. Lembre-se de que é essencial basear sua fotorreportagem em fatos e dados concretos. Depois, escolha o ponto de vista que você deseja transmitir. Por fim, comece a produção: escreva o texto, faça suas próprias fotografias ou selecione as imagens e organize todo o material. É importante que as imagens, o texto e o título conversem entre si para criar uma experiência visual e informativa rica para o leitor. Quando sua fotorreportagem estiver pronta, compartilhe o resultado com os colegas, professores e amigos da escola. Divertido, não é? Bom, como vimos neste episódio, a fotorreportagem é um gênero textual em que imagem e texto andam de mãos dadas para transmitir um significado, conduzindo o leitor a formar uma opinião. Atualmente, com o poder das redes sociais, esse gênero tem sido bastante explorado. Aliás, será que depois dos seus estudos e deste podcast você saberá reconhecer uma fotorreportagem? Fique atento. 309 E aí, gostou de entender um pouco mais sobre as fotorreportagens? Já foi impactado por alguma? Converse com os colegas de sala sobre o assunto! Quem sabe vocês não criam um jornal da turma? Espero que você tenha gostado do conteúdo! Bons estudos e até a próxima! Podcast 3 Unidade 3, Capítulo 6, p. 224 Modalização e impessoalização Olá, seja bem-vindo a mais um podcast de Língua Portuguesa! Neste episódio, trataremos de um assunto importante para entender as nuances presentes nos discursos: a modalização. Já ouviu falar dela? Continue ouvindo para conhecê-la melhor! Vamos pensar na seguinte situação: você acabou de estudar os gêneros do campo jornalístico-midiático e aprendeu que alguns desses textos buscam a imparcialidade. É o caso das notícias, por exemplo, que têm como objetivo informar a comunidade sobre fatos recentes e relevantes de forma clara e objetiva. Ao passar os olhos por uma manchete do jornal da sua cidade, você lê a seguinte frase: “Infelizmente o concurso de poesias do município será cancelado”. Será que essa frase é imparcial? Ela expressa ou não um posicionamento de quem a escreveu? Vamos conferir a seguir! Se você pensou que o advérbio infelizmente está sobrando na nossa manchete de jornal fictícia, acertou! Esse é um modalizador discursivo que transparece a opinião do jornalista, o que, no caso de uma notícia, não é algo muito bem-vindo. Os modalizadores discursivos são elementos linguísticos que indicam a intenção do enunciador em um discurso, ou seja, eles ajudam esse enunciador a demonstrar o ponto de vista adotado em seu texto ou ato comunicativo. Esses elementos tornam a argumentação mais expressiva, pois ajudam a dar o tom desejado na comunicação. Os modalizadores discursivos permitem que o enunciador expresse nuances como dúvida, certeza, concordância ou discordância, moldando a interpretação do interlocutor e fortalecendo a persuasão do discurso. Ou seja, eles não são apenas palavras que ajudam a defender a sua opinião, mas também termos que realmente deixam uma marca no texto. Por exemplo: você deseja expressar aos colegas que está muito animado para participar da feira de ciências da escola. O que você diria? Talvez: “Com certeza eu vou participar da feira de ciências!”. Essa locução adverbial “com certeza” demonstra a sua ênfase, a sua vontade. Se você não a tivesse usado, seu posicionamento em re- 310 lação ao que diz seria menos evidente. Por isso, é muito importante prestar atenção nos modalizadores discursivos quando lemos e interpretamos textos, porque, a partir dessa análise atenta, nos tornamos leitores mais eficientes: conseguimos enxergar as nuances presentes nos discursos e, consequentemente, temos mais elementos para buscar compreender as intenções de cada um deles. Essa habilidade nos ajuda a lidar melhor com a complexidade das interações cotidianas, permitindo que nos comuniquemos de forma mais clara e consciente. Afinal, quanto mais atentos formos a essas nuances, mais preparados estaremos para responder e argumentar de forma eficaz, seja em um texto, seja em uma conversa. Mas o que fazer se a sua intenção for justamente ser o mais objetivo e imparcial possível no texto? Lembre-se do que discutimos sobre as notícias. Nem sempre é adequado que um texto revele claramente a opinião de quem o escreveu. Para esses casos, existem estratégias de impessoalização que são essenciais para dar objetividade e imparcialidade ao texto. O uso da terceira pessoa do singular, por exemplo, evita a presença de opiniões pessoais, distanciando o autor do conteúdo. Já a voz passiva põe o foco na ação em vez do agente, o que também contribui para a impessoalidade. Além de serem fundamentais em notícias, essas técnicas são amplamente utilizadas em textos acadêmicos e científicos, nos quais a imparcialidade é muitas vezes desejável. Portanto, a escolha entre expressividade e impessoalidade depende do objetivo do texto e do contexto em que ele será lido. Os modalizadores discursivos permitem que se dê o tom desejado ao texto, sem necessariamente fazer um uso explícito de formais verbais e pronominais de primeira pessoa. As estratégias de impessoalização, por sua vez, são essenciais quando a prioridade é informar com imparcialidade, sem evidenciar no texto um posicionamento do enunciador. Os modalizadores discursivos, como a própria palavra sugere, indicam a modalização, isto é, a marca que um enunciador pretende empregar em seu texto. Lembra-se do que discutimos? Uma frase pode mudar radicalmente quando usamos um modalizador. Por exemplo: “Infelizmente o podcast de hoje está chegando ao fim” é diferente de “Felizmente o podcast de hoje está chegando ao fim”. Bem, espero que você tenha dito a primeira frase! Gostou de saber mais sobre os modalizadores discursivos? Espero que sim! De agora em diante, aplique-os ao seu texto de forma consciente sempre que quiser deixar a sua marca, seja ela menos ou mais pessoal! Então, até a próxima! E bons estudos! RE FE RÊ NC IAS AS D A T N E M O C I CA S BIBLIOGRÁF ATTIE FILHO, Miguel. Marcas e pensamentos: notas a uma história do pensamento da Terra. São Paulo: Ed. do autor, 2016. Em um percurso interdisciplinar, o autor propõe, por meio da categoria trina pensamento-espaço-tempo, reflexões sobre os tipos e modos de pensamento. As reflexões partem das marcas do pensamento, isto é, dos diversos tipos de registros deixados pelos seres humanos desde os primórdios até os dias atuais. BAGNO, Marcos. Nada na língua é por acaso: por uma pedagogia da variação linguística. São Paulo: Parábola, 2007. O autor desenvolve nesse livro conceitos como o de variação linguística, norma-padrão e norma culta, com base nas pesquisas científicas da área da Sociolinguística, buscando romper preconceitos com análises práticas de fatos da língua. BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 1979. O autor trata da natureza ideológica do signo linguístico, estabelecendo considerações sobre a palavra como arena de luta social na construção dos sentidos dos textos. BAKHTIN, Mikhail. Os gêneros do discurso. In: BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997. p. 261-306. Essencial na discussão sobre o tema dos gêneros discursivos, esse texto apresenta o conceito de gêneros do discurso e explora como se dá socialmente a construção dos sentidos dos enunciados. BECHARA, Evanildo. Moderna gramática portuguesa. 37. ed. Rio de Janeiro: Lucerna, 2004. Publicada pela primeira vez em 1961, essa gramática é frequentemente atualizada de acordo com pesquisas de teóricos da linguagem, contrapondo a descrição normativa aos fatos gramaticais da língua e consolidando-se como referência na área. BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Versão final. Brasília, DF: MEC, 2018. Documento de caráter normativo que estabelece, como referência para a construção de currículos de todas as redes de ensino do país, as aprendizagens essenciais que toda criança e todo adolescente deve desenvolver durante a Educação Básica. BUNZEN, Clecio; MENDONÇA, Márcia. Múltiplas linguagens para o Ensino Médio. São Paulo: Parábola, 2013. Os autores abordam nesse livro o trabalho com gêneros diversos que podem ser explorados nas práticas escolares nas aulas do componente curricular Língua Portuguesa, como grafite, documentário, telejornal, vidding, entre outros, sugerindo estratégias e reflexões teóricas que dão base para o trabalho com a multimodalidade. BUNZEN, Clecio; MENDONÇA, Márcia. Português no Ensino Médio e formação do professor. 2. ed. São Paulo: Parábola, 2022. Nessa edição reformulada, os autores atualizam a primeira edição de 2006, considerando a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e as propostas de alteração do Ensino Médio no Brasil. Além disso, abordam a fragmentação frequentemente encontrada nesse segmento no componente curricular Língua Portuguesa, compartimentando o ensino em gramática, redação e literatura. CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira. Rio de Janeiro: Ouro Sobre Azul, 2014. O autor analisa o Arcadismo e o Romantismo no Brasil, movimentos literários que são um marco na formação do que ele denominou “sistema literário”, um sistema trino no qual se interligam autor, obra e público. CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade. São Paulo: Publifolha, 2000. Livro que reúne ensaios nos quais o autor discute vários níveis da correlação entre literatura e sociedade, de modo a averiguar como a realidade social se transforma em componente de uma estrutura literária. CASTILHO, Ataliba Teixeira de. Nova gramática do português brasileiro. São Paulo: Contexto, 2010. Resultado de anos de pesquisa em diferentes projetos na área da Linguística, essa gramática rompe com a tradição clássica e acrescenta um viés descritivo da fala e da escrita no português brasileiro atual. COSCARELLI, Carla Viana (org.). Tecnologias para aprender. São Paulo: Parábola, 2016. Esse livro reúne artigos de diferentes autores-professores cujas práticas e pesquisas se relacionam ao letramento digital. Cada autor expõe e discute sua experiência com as possibilidades de uso do digital no trabalho em sala de aula. DIONÍSIO, Angela Paiva et al. (org.). Gêneros textuais e ensino. Rio de Janeiro: Lucerna, 2002. 311 As organizadoras desse livro reúnem ensaios de diferentes autores, que fornecem tanto base teórica quanto sugestões práticas para um trabalho em sala de aula pautado no ensino de gêneros, considerando os usos sociais dos textos. DORRICO, Julie. Vozes da literatura indígena brasileira contemporânea: do registro etnográfico à criação literária. In: DORRICO, Julie et al. (org.). Literatura indígena brasileira contemporânea: criação, crítica e recepção. Porto Alegre: Fi, 2018. p. 227-255. Nesse artigo, a autora aborda a produção literária contemporânea de autores indígenas com base nas perspectivas epistêmica, política, estética e ontológica. DUARTE, Eduardo de Assis; FONSECA, Maria Nazareth Soares (org.). Literatura e afrodescendência no Brasil: antologia crítica. Belo Horizonte: Ed. da UFMG, 2011. (História, teoria, polêmica, v. 4). Esse livro reúne depoimentos de autores e intelectuais afrodescendentes, bem como reflexões sobre a produção literária e o conceito de literatura afro-brasileira. ILARI, Rodolfo. Introdução à Semântica. São Paulo: Contexto, 2001. Nesse livro, o autor, professor e linguista mostra de forma prática, leve e bem-humorada como trabalhar com a análise semântica, partindo de textos de variados gêneros que circulam na sociedade. ILARI, Rodolfo; BASSO, Renato. O português da gente: a língua que estudamos, a língua que falamos. São Paulo: Contexto, 2006. Nesse livro, os autores abordam a língua portuguesa desde suas origens até os usos atuais, chegando a discussões sobre variação linguística e ensino do componente curricular Língua Portuguesa na escola nos dias de hoje. KOCH, Ingedore Villaça. O texto e a construção dos sentidos. 9. ed. São Paulo: Contexto, 2008. A autora apresenta reflexões sobre a produção de sentidos dos textos, considerando que tais sentidos são socialmente construídos com base nas atividades discursivas e na materialidade linguística dos textos em análise. KOCH, Ingedore Villaça; ELIAS, Vanda Maria. Escrever e argumentar. São Paulo: Contexto, 2016. As autoras desenvolvem o trabalho com a argumentação em textos escritos em diversos níveis, tratando o assunto sob a perspectiva das estratégias, da progressão textual, da intertextualidade e dos articuladores, apresentando, inclusive, formas de iniciar, desenvolver e concluir o texto argumentativo. MARCUSCHI, Luiz Antônio; XAVIER, Antônio Carlos. Hipertexto e gêneros digitais: novas for- 312 mas de construção do sentido. Rio de Janeiro: Lucerna, 2004. Os autores tratam dos novos modos de leitura e produção textual provenientes do meio digital, considerando os diversos gêneros e as práticas sociais que emergem especificamente nesse ambiente e os novos papéis que assumem leitores, autores e textos. MIGNOLO, Walter. Retos decoloniales, hoy. In: BORSANI, María Eugenia; QUINTERO, Pablo (org.). Los desafíos decoloniales de nuestros días: pensar en colectivo. Neuquén, Argentina: Educo, 2014. p. 23-46. Nesse artigo, o autor situa o contexto histórico do surgimento dos estudos pós-coloniais e decoloniais, discute o conceito da colonialidade e define os propósitos dos estudos decoloniais no que se refere aos âmbitos político, econômico, epistemológico e cultural. NEVES, Maria Helena de Moura. Gramática de usos do português. São Paulo: Ed. da Unesp, 2000. A autora toma por base os usos correntes do português no Brasil para, com base neles, produzir uma sistematização que, embora seja subdividida como as gramáticas tradicionais, tem uma perspectiva mais descritiva e analítica do que normativa. POSSENTI, Sírio. Questões de linguagem: passeio gramatical dirigido. São Paulo: Parábola, 2011. Nesse livro, o autor aborda conteúdos clássicos da gramática sob uma perspectiva linguística e analisa determinados fenômenos de forma crítica, confrontando a abordagem tradicional da norma-padrão com os usos e sentidos da língua. Além disso, apresenta ideias de como conduzir a reflexão e algumas atividades para as aulas do componente curricular Língua Portuguesa. RONCARI, Luiz. Literatura brasileira: dos primeiros cronistas aos últimos românticos. São Paulo: Edusp, 2014. O autor analisa textos literários produzidos entre os séculos XVI e XIX, com base na perspectiva da intersecção da literatura com a sociedade. As análises literárias são acompanhadas por informações histórico-sociais das diferentes épocas, buscando apreender o modo como a literatura segue as mudanças ocorridas na vida social. SOUZA, Ana Lúcia Silva et al. Letramentos no Ensino Médio. São Paulo: Parábola, 2012. Com uma linguagem simples, descontraída e bastante didática, as autoras abordam práticas escolares de leitura e de produção escrita com objetivos variados, sugerindo estratégias e atividades que podem ser realizadas nas aulas do componente curricular Língua Portuguesa de forma significativa para os estudantes. Manual do Professor Linguagens e s u a s Te c n o l o g i a s Língua Portuguesa Apresentação Prezados professores: Esta coleção foi escrita para você, que sempre desejou trabalhar com uma obra de língua portuguesa que integrasse os conteúdos de literatura, de gramática e de produção textual. Uma obra que não tratasse os estilos de época da literatura de forma cristalizada e estanque, mas que estabelecesse relações dialógicas entre a literatura de um autor e de uma época com obras e autores de outras épocas. Uma obra que apresentasse não apenas os conteúdos essenciais de gramática, mas também uma forma diferente de abordá-los, e que, no campo da produção textual, trabalhasse com uma perspectiva dos estudos de letramento, abrangendo diversas práticas de leitura e escrita em meio impresso e digital. A coleção busca trazer uma abordagem contemporânea e atualizada dos conteúdos, alinhada com os estudos literários mais recentes, com a teoria dos gêneros e as novas concepções de língua e linguagem. O estudo da literatura aqui presente visa desenvolver a competência leitora de textos literários, ao mesmo tempo que estabelece conexões com o contexto de produção deles, com textos de outras áreas do conhecimento e com outras formas de expressão artística. A literatura está presente ao longo de todo o livro, permeando também as seções de gramática e de produção textual. Destaca-se também a inclusão de literaturas africanas de língua portuguesa, da literatura afro-brasileira e da literatura indígena contemporânea, com espaço privilegiado e inédito em obras didáticas. O estudo da gramática desenvolve, preferencialmente, os conteúdos indispensáveis para a proficiência linguística do estudante, tratados sempre de forma contextualizada e com uma perspectiva textual e enunciativa. Textos estudados na parte de literatura frequentemente são retomados para serem vistos também sob a perspectiva linguística e gramatical, em cujos exercícios são por vezes também propostos outros textos do autor estudado na parte de literatura. Ainda, em momentos oportunos, os exercícios são associados a estratégias de produção de textos, em um trabalho conjunto entre as partes de língua e de produção. Na produção textual, os projetos são organizados em torno de práticas sociais de linguagem que envolvem gêneros escritos, orais, digitais e multimodais, como o roteiro de documentário, o videominuto, o videopoema, o videoconto, além de outras formas contemporâneas de expressão. Sempre que possível, esses gêneros estão em diálogo com os textos e contextos históricos estudados na literatura, além de concretizarem muitos dos usos linguísticos estudados em gramática. Enfim, esta é uma obra em sintonia com as demandas contemporâneas e oferece ao estudante uma experiência rica e instigante, atendendo ao desejo do professor de ministrar um curso de língua portuguesa dinâmico e envolvente. Os Autores. 314 Sumário O Novo Ensino Médio ....................................... 316 O contexto legislativo ...................................... 316 A sociedade contemporânea.......................... 316 A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) ............................................. 321 Competências e habilidades ........................... 321 A coleção de Linguagens ............................... 322 Os componentes curriculares nesta coleção ..................................................... 323 O ensino-aprendizagem de Língua Portuguesa............................................ 323 Avaliação ................................................................ 341 Tipos de avaliação ............................................ 342 Leitura: o que avaliar? ..................................... 342 Conhecimentos gramaticais e análise linguística: o que avaliar? ................. 343 Produção de texto: o que avaliar? ................ 344 Por uma educação inclusiva ........................ 344 Dicas para a sala de aula ................................ 344 Saúde mental ....................................................... 345 Práticas e sugestões de atividades para promover a saúde mental dos estudantes e combater o bullying e o racismo ......................................................... 345 O desenvolvimento da consciência crítica e das produções criativas e propositivas dos estudantes........................... 323 Organização e estrutura da obra ............... 346 Pensamento computacional e resolução de problemas .................................. 324 Os capítulos ........................................................ 347 Investigação científica e práticas de pesquisa .............................................................. 325 Abordagem teórico-metodológica e proposta didático-pedagógica desta obra .............................................................. 326 Leitura ................................................................. 326 Reflexão sobre a língua e análise linguística ............................................................ 330 As unidades ........................................................ 346 As seções ............................................................ 347 Os boxes .............................................................. 348 Cronogramas (sugestões de planejamento) ....................... 348 Orientações específicas ............. 350 Produção de textos escritos, orais e multimodais .................................................... 332 Referências bibliográficas comentadas ................................................ 390 Interdisciplinaridade na obra ....................... 337 Artigos, ensaios e livros ................................ 390 A interdisciplinaridade e os projetos da escola ............................................................. 340 Documentos oficiais ......................................... 392 Temas Contemporâneos Transversais (TCTs) ........................................... 340 Orientações gerais – Linguagens e suas Tecnologias – Língua Portuguesa Orientações gerais............................. 316 Vídeos ...................................................................... 392 Sites ......................................................................... 392 315 S E Õ Ç A T N E I R O GERAIS O Novo Ensino Médio A Lei n. 14 945, sancionada em julho de 2024, modifica e revoga parcialmente a Lei n. 13 415/2017, que dispõe sobre a reforma do Ensino Médio. Essa mudança atende a algumas das reivindicações de grande parte dos estudantes e professores do Ensino Médio, alterando a carga básica de 1 800 horas para 2 400 horas (somados os três anos do Ensino Médio) para estudantes que não optarem pelo Ensino Técnico e possibilitando o retorno de disciplinas como História, Biologia, Sociologia e Educação Física, garantindo uma formação mais completa do estudante. (IMPRENSA NACIONAL. Diário Oficial da União. Lei n. 14 945, de 31 de julho de 2024. Disponível em: https://tedit.net/tfx33u. Acesso em: 7 nov. 2024). Com essa mudança, espera-se que o currículo do Ensino Médio dialogue mais com as necessidades dos estudantes e proporcione maior poder de escolha e motivação, minimizando o problema da evasão escolar, que se acentua sobremaneira ao término dos anos finais do Ensino Fundamental. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), o percentual de jovens que deixam a escola aos 15 anos quase dobra se comparado à faixa etária anterior, passando de 8,1%, aos 14 anos, para 14,1%. Entre as principais causas, estão a necessidade de trabalhar (39,1%) e a falta de interesse (29,2%) (ESTATÍSTICAS SOCIAIS. PNAD Educação 2019: Mais da metade das pessoas de 25 anos ou mais não completaram o ensino médio. Agência de Notícias IBGE. Disponível em: https://tedit.net/emtkt7; acesso em: 9 out. 2024). Dessa forma, espera-se que o Novo Ensino Médio seja mais conectado ao futuro profissional e acadêmico dos jovens e permita maior autonomia na construção do projeto de vida de cada um deles. O contexto legislativo A Lei de Diretrizes e Bases (LDB), sancionada em 1996, cumpriu um papel relevante nas questões curriculares relativas à Educação Básica, incluindo o Ensino Médio e o Ensino Superior. Com a homologação da BNCC, em 2018, o Ensino Médio passou por reforma através da Lei n. 13 415/2017, alterando a LDB com a implementação de mudanças, como o aumento da carga horária mínima, a ampliação das escolas de tempo integral e a possibilidade de que todos os estudantes da etapa escolhessem caminhos de aprofundamento dos estudos por meio de itinerários formativos. A reforma educacional sancionada em 2017 começou a ser implementada em 2020, mas foi suspensa por contestação de professores e estudantes. O Ministério da Educação (MEC), então, lançou em 2023 a Consulta Pública para a Avaliação e Reestruturação da Política Nacional de Ensino Médio, de cujos resultados nasceu um novo projeto de lei, lançado no mesmo ano, que passou por diversas discussões e negociações no Congresso Nacional. Em 2024, o então presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, sancionou a Lei n. 14.945, que estabelece a Política Nacional de Ensino Médio. Essa norma, válida a partir de 2025, altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei n. 9 394/1996) e revoga parcialmente a Lei n. 13 415/2017, que dispõe sobre a Reforma do Ensino Médio. A seguir, apresentamos algumas das principais mudanças estabelecidas pela Lei n. 14 945/2024, então vigente na publicação deste material. 316 Carga horária ampliada Essa lei estabelece a carga horária de 2 400 horas para componentes curriculares obrigatórios (previstos na BNCC) e 600 horas para itinerários formativos, totalizando 3 000 horas para os três anos da etapa do Ensino Médio, favorecendo, entre outras possibilidades, com a carga maior, o desenvolvimento de projetos em escolas de tempo integral e o desenvolvimento dos itinerários formativos (fonte: Agência Câmara de Notícias). Componentes curriculares obrigatórios Os estudantes devem cursar os seguintes componentes curriculares obrigatórios em todos os anos: Português, Matemática, Ciências da Natureza (Biologia, Física e Química), Ciências Humanas (História, Geografia, Filosofia e Sociologia), Inglês, Arte e Educação Física. O Espanhol fica como facultativo (fonte: Agência Câmara de Notícias). Itinerários formativos Para completar a carga total nos três anos, espera-se que as escolas ofereçam pelo menos dois itinerários relacionados a uma área (com exceção das escolas que oferecem o Ensino Técnico). Cada itinerário deve cumprir as 600 horas com aprofundamento dos estudos. Os estudantes devem ter a possibilidade de escolha em pelo menos uma das áreas do conhecimento, ressalvada a formação técnica e profissional. • Linguagens e suas Tecnologias; • Matemática e suas Tecnologias; • Ciências da Natureza e suas Tecnologias; • Ciências Humanas e Sociais Aplicadas. Segundo o Ministério da Educação: Os itinerários formativos são o conjunto de disciplinas, projetos, oficinas, núcleos de estudo, entre outras situações de trabalho, que os estudantes poderão escolher no Ensino Médio. Os itinerários formativos podem se aprofundar nos conhecimentos de uma área do conhecimento (Matemática e suas Tecnologias, Linguagens e suas Tecnologias, Ciências da Natureza e suas Tecnologias e Ciências Humanas e Sociais Aplicadas) e da Formação Técnica e Profissional (FTP) ou mesmo nos conhecimentos de duas ou mais áreas e da FTP. As redes de ensino terão autonomia para definir quais itinerários formativos irão ofertar, considerando um processo que envolva a participação de toda a comunidade escolar. MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. Portal MEC. Novo Ensino Médio: perguntas e respostas. Disponível em: https://tedit.net/09oclt. Acesso em: 9 out. 2024. Ensino Técnico O Ensino Técnico terá 2 100 horas com formação básica, admitindo-se que até 300 horas sejam destinadas ao aprofundamento de conteúdos da BNCC relacionados à formação técnica. Para os cursos que exigem carga horária maior, serão destinadas no máximo 1 200 horas, ocupando parte das horas de formação geral básica (BRASIL. Presidência da República. Casa Civil. Lei n. 9 394, de 20 de dezembro de 1996. Artigo 36, inciso V. Disponível em: https://tedit.net/tglobz. Acesso em: 16 out. 2024). A sociedade contemporânea A sociedade contemporânea, marcada pela expansão das redes sociais e pela instantaneidade da comunicação, tem enfrentado importantes desafios em relação à disseminação de discursos Exercitar a empatia, o diálogo, a resolução de conflitos e a cooperação, fazendo-se respeitar e promovendo o respeito ao outro e aos direitos humanos, com acolhimento e valorização da diversidade de indivíduos e de grupos sociais, seus saberes, identidades, culturas e potencialidades, sem preconceitos de qualquer natureza. BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Versão final. Brasília, DF: MEC, 2018. Assim, com o objetivo de desnaturalizar qualquer forma de violência no contexto da escola, contribuindo para a formação integral dos estudantes com base em princípios éticos e democráticos, acreditamos ser importante trabalhar, tendo como base os textos de leitura propostos, temas relacionados com o contexto escolar e a vivência dos estudantes que possibilitem discutir questões como racismo, preconceito, direitos humanos, direitos da juventude, etc. O preconceito, por exemplo, é um tema explorado sob múltiplas perspectivas, partindo sempre de atividades que envolvem, por exemplo, textos de Djamila Ribeiro (capítulo 6 do volume 1), Conceição Evaristo (capítulo 8 do volume 1 e capítulo 6 do volume 2), Grada Kilomba e Norberto Bobbio (capítulo 8 do volume 2), José Craveirinha e Cuti (capítulo 8 do volume 3), Ailton Krenak (capítulo 7 do volume 3), além da realização de uma pesquisa sobre o abolicionista Luís Gama (capítulo 8 do volume 2); o tema do preconceito linguístico é abordado mais de uma vez na obra (como no capítulo 7 do volume 1 e no capítulo 3 do volume 2); o tema da ética é explorado a partir de um texto de Gil Vicente (capítulo 2 do volume 1); os direitos humanos e os direitos da juventude são trabalhados a partir de texto sobre Malala Yousafzai (capítulo 8 do volume 1) e de textos relativos à Declaração Universal dos Direitos Humanos (capítulo 7 do volume 1 e capítulo 1 do volume 3); o tema dos direitos indígenas é abordado a partir de textos de Ailton Krenak, Sônia Guajajara e Jairo Munduruku (capítulo 4 do volume 1); o tema da uberização e dos direitos trabalhistas a partir de textos jornalísticos e de artigo científico da área de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas (capítulo 5 do volume 1); os direitos das mulheres, a representatividade feminina e questões de gênero a partir de textos jornalísticos (capítulo 1 do volume 2) e de escritoras como Júlia Lopes de Almeida (capítulo 6 do volume 2), Carolina Maria de Jesus (capítulo 8 do volume 2), entre outras; o tema da inclusão de pessoas com deficiência a partir de texto jornalístico sobre a produção de slam por pessoas surdas (capítulo 3 do volume 1); o tema da sustentabilidade e do respeito ao meio ambiente a partir de entrevista do pesquisador Carlos Nobre (capítulo 2 do volume 2) e de reportagens sobre desmatamento (capítulo 3 do volume 2); e o tema dos direitos dos cidadãos em geral, previstos na Constituição, é explorado nos capítulos 1 a 4 do volume 3, que resulta na “Campanha de conscientização da juventude pelos direitos humanos e pelos direitos do jovem”, a ser organizada para o evento Hora de compartilhar, ao final do segundo semestre do volume 3. Destacamos ainda o trabalho com bullying e saúde mental dos adolescentes, que dizem respeito à competência geral 9, mais particularmente à competência geral 8: Conhecer-se, apreciar-se e cuidar de sua saúde física e emocional, compreendendo-se na diversidade humana e reconhecendo suas emoções e as dos outros, com autocrítica e capacidade para lidar com elas. (Brasil, 2018, p. 10.) De acordo com o relatório do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) 2018 e com o próprio portal do MEC, os estudantes brasileiros têm sido vítimas da prática de bullying mais do que os de outros países. O bullying também é tema do relatório. Enquanto 23% dos estudantes dos países da OCDE [Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico] declararam que já sofreram esse tipo de violência, no Brasil esse número chegou a 29%. Em relação à disciplina em sala de aula, os próprios estudantes (41%) disseram que os professores levam bastante tempo até conseguirem manter a ordem na classe. Nos países membros da OCDE, o índice é de 26%. OLIVEIRA, Shismênia. Pisa 2018 revela baixo desempenho escolar em Leitura, Matemática e Ciências no Brasil. Portal MEC, 3 dez. 2019. Disponível em: https://tedit.net/1lm1fh. Acesso em: 16 out. 2024. Como se nota, a prática do bullying e a indisciplina são alguns dos problemas e das dificuldades apontados pelos próprios estudantes nos questionários que preencheram para o exame. E certamente são também algumas das causas que favorecem a repetência e a evasão escolar. A indisciplina inibe a criação de um ambiente de estudo adequado, em que professor e estudantes solidariamente participem da construção do conhecimento, provocando atritos e ressentimentos, além de favorecer a agressividade e a violência, o que contraria os pressupostos da BNCC em relação à cultura da paz. A prática do bullying destrói a autoconfiança da vítima, enfraquecendo-a psicologicamente, e pode comprometer sua saúde mental, seu equilíbrio emocional e seu relacionamento social por toda a vida. Além disso, prejudica o ambiente escolar, que fica marcado por segregação, sentimentos de ódio e vingança, competição desleal, relações de força, etc. 317 Orientações gerais – Linguagens e suas Tecnologias – Língua Portuguesa de ódio e preconceitos. As plataformas digitais, apesar de seu potencial para promover o diálogo e a conexão entre pessoas de diferentes culturas e ideologias, também têm sido palco de ataques verbais, que reforçam cisões sociais, raciais e de gênero. O anonimato e a facilidade com que mensagens se espalham possibilitam que grupos e indivíduos promovam conteúdos de ódio, muitas vezes alimentados por preconceitos de raízes históricas, intensificando a polarização e minando a convivência democrática. Em paralelo, a proliferação de fake news agrava ainda mais a situação, pois informações falsas ou alteradas, criadas deliberadamente para manipular a opinião pública, têm sido usadas para legitimar discursos preconceituosos e desrespeitosos. Esses fenômenos não só prejudicam a coesão social, mas também violam os direitos humanos fundamentais ao perpetuar a exclusão de minorias e enfraquecer os esforços em prol da igualdade e da justiça. No contexto dos adolescentes, a disseminação dos discursos de ódio e de preconceitos tem acentuado as práticas de bullying e de cyberbullying, que envolvem agressões verbais, psicológicas e, muitas vezes, físicas, já que o assédio pode alcançar um público maior e ocorrer de modo anônimo. O cyberbullying, em particular, é impulsionado pela mesma lógica de desumanização presente nos discursos de ódio e preconceito, expondo vítimas a ataques constantes, humilhações públicas e isolamento social, o que pode gerar graves consequências emocionais e psicológicas. A ampliação desse tipo de violência em meio à juventude reforça a importância de se combater o bullying e o cyberbullying nas escolas, desenvolvendo atividades de reflexão crítica que levem a uma cultura de paz, empatia e não violência, além de cultivar princípios éticos necessários à construção da cidadania. A Declaração sobre uma Cultura de Paz, publicada pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1999, diz em seu artigo 4o que “A educação, em todos os níveis, é um dos meios fundamentais para construir uma Cultura de Paz. Neste contexto, a educação sobre os direitos humanos é de particular relevância”. (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Declaração sobre uma cultura de paz, 13 set. 1999. Comitê Paulista para a Década da Cultura de Paz – parceria UNESCO-Associação Palas Athena, Disponível em: https://tedit.net/uzu0vy. Acesso em: 9 out. 2024.) Assim, entendemos que uma obra voltada para estudantes do Ensino Médio no mundo contemporâneo precisa colaborar para o desenvolvimento de todas as competências gerais da Educação Básica propostas pela BNCC. Os textos explorados na obra foram pensados para ajudar o professor nessa tarefa, propiciando momentos de discussão, de pesquisa e de leitura que envolvam as dez competências propostas para a Educação Básica. Destacamos o trabalho feito com a competência geral 9, a qual, segundo a BNCC, leva os estudantes a: Esta coleção cria algumas situações que favorecem a discussão do bullying e do cyberbullying e fortalecem a saúde mental dos estudantes. No capítulo 6 do volume 2, por exemplo, são relacionados e discutidos diferentes textos que abordam o tema do cancelamento nas redes sociais e que levam à reflexão sobre como práticas como essas, que são formas de manifestação do bullying e do cyberbullying, interferem na saúde mental e emocional das pessoas. A violência social é debatida no capítulo destinado ao debate regrado (capítulo 1 do volume 3). A saúde mental do jovem também é uma das preocupações desta obra e é abordada diretamente no capítulo 5 do volume 2. A diversidade de temas contemporâneos abordados —- como identidade, preconceito, consumo, meio ambiente (aquecimento global, desmatamento), cidadania, internet, direitos humanos, necropolítica, decolonialidade, uberização, entre outros —- permite aos estudantes posicionarem-se criticamente diante dos problemas de seu tempo e fazerem suas escolhas de forma mais madura e consciente. Seções como Entre saberes, Entre linguagens e Entre textos, além do boxe “Entre livros/filmes/documentários/músicas”, favorecem o convívio permeado pela pluralidade de ideias e por diferentes manifestações das culturas juvenis, abrindo espaço para as expressões individuais e para trabalhos de produção autoral coletiva, contribuindo para o desenvolvimento de valores como a empatia e a cultura de paz. Culturas juvenis e diferentes perfis de estudantes A cultura juvenil contemporânea é rica e multifacetada, refletindo a diversidade e a pluralidade da sociedade brasileira. Os jovens da cidade e do campo, embora muitas vezes enfrentem desafios relacionados à exclusão social, à violência e à falta de oportunidades e ao seu projeto de vida, têm desenvolvido uma cultura vibrante e própria, que se manifesta em diferentes formas de arte, moda, esportes e coletivos sociais. O rap, o funk, o hip-hop, o slam, o sertanejo, o rock, o catimbó, o grafite e o skate são exemplos de como essa juventude ressignifica suas vivências cotidianas, transformando entraves sociais em expressões de resistência e identidade cultural. Nesse contexto, a escola tem o papel fundamental de ser um espaço acolhedor, no qual o desenvolvimento intelectual, físico, afetivo, social e cultural dos jovens seja promovido de maneira integrada. A BNCC enfatiza que os estudantes são interlocutores legítimos de seu currículo, o que significa que a educação não deve se limitar a uma seleção de conteúdos preestabelecidos. Ao contrário, o currículo deve considerar os temas e as realidades que os jovens vivenciam em suas diferentes experiências de vida, contextos socioeconômicos, interesses, personalidades e níveis de desenvolvimento. A escola, portanto, precisa ser um ambiente em que as culturas juvenis sejam valorizadas em sua pluralidade, proporcionando oportunidades de aprendizagem que dialoguem com a diversidade de forma democrática, permitindo que o jovem faça suas escolhas e veja nos estudos uma perspectiva concreta de vida. Essa abordagem se articula diretamente com o conceito de projeto de vida, que se torna mais significativo quando ancorado na realidade vivida pelos jovens. Ao planejar seu futuro, os estudantes precisam ser incentivados a refletir sobre suas trajetórias pessoais e sobre as transformações no mundo do trabalho, especialmente no contexto pós-pandemia de covid-19, que acentuou desigualdades e impactou fortemente a população mais vulnerável. Assim, é importante que o projeto de vida seja tratado de forma realista na escola: por um lado, reconhecendo as limitações estruturais e econômicas que podem afetar o acesso a oportunidades; por outro, preparando os jovens para o ingresso na vida acadêmica ou no mundo do trabalho por meio do fortalecimento de suas capacidades de resiliência, de pensamento crítico e de ação social, promovendo uma educação que os prepare para lidar com os desafios e para transformar sua realidade. 318 Em uma obra como esta, voltada para o ensino da língua portuguesa, em que o estudo dos textos é um dos elementos centrais, a par da análise textual e linguística, a abordagem das culturas juvenis não poderia ocorrer senão com base no estudo dos textos. Além disso, tendo em vista as perspectivas sociodiscursiva e enunciativa que procuram nos orientar no tratamento dos diferentes objetivos de ensino da língua portuguesa, trabalhar culturas juvenis significa poder situá-las e repensá-las a partir de três coordenadas indissociáveis: a pessoa (os sujeitos de linguagem, no caso, os estudantes), o tempo e o espaço. Assim, quando pensamos em culturas juvenis, procuramos concebê-las como modos de vida e práticas cotidianas dos jovens que se traduzem também por coordenadas de ordem subjetiva, definidas por conjuntos diversos de práticas de linguagem através das quais os estudantes convivem, tais como as artes em geral (literatura, música, cinema, artes plásticas, moda, etc.), as formas de construção da própria subjetividade (maneiras de ser e de agir, indumentária, estilos de penteado, música, etc.) e os lugares e os tempos ocupados por esses sujeitos (a família e os antepassados, a escola, a comunidade, os diferentes grupos sociais, etc.). Esse conjunto de coordenadas dá origem à noção de pertencimento: o jovem sente que pertence a determinado grupo, com o qual consegue se identificar por meio de práticas de linguagem diversas mobilizadas por esse grupo. Como essas práticas são situadas no tempo e no espaço, elas se originam da herança cultural dos grupos familiares e, ao mesmo tempo, da capacidade que os jovens têm de ruptura em relação a essa herança, inovando ou buscando diferenciar-se do mundo dos adultos e do mundo das crianças, situando-se nesse tempo-lugar entre a infância e a vida adulta. É nesse tempo-lugar específico que se constroem as identidades dos jovens e se definem as culturas juvenis. Os adolescentes passam a se identificar com diferentes grupos e a circular entre eles, valorizando práticas de linguagem ligadas ao corpo, ao movimento, à moda, às manifestações musicais, entre outras possibilidades. Múltiplas e variadas, as identidades se entrecruzam na constituição dessas áreas de pertencimento juvenis revelando a importância das práticas de linguagem na constituição dessas culturas. Esse exercício de definição de identidades recebe importante influência do consumo cultural no processo de compreender o que é ser jovem, considerando as diferentes realidades socioeconômicas e políticas. E, por estarem relacionadas com práticas de linguagem que se constroem socialmente, não há como essas culturas juvenis não estarem relacionadas com a ideia de consumo cultural e tecnológico, em que as mídias e as tecnologias da comunicação e da informação tentam moldar as representações dessas identidades. Assumimos que a juventude é marcada pelo pertencimento, pela eleição de grupos com interesses afins e pela desconstrução e reconstrução de uma identidade pessoal e coletiva própria que definem os territórios sociais, justificando o viver em grupo. Além disso, é a fase em que o indivíduo se prepara para os desafios e projetos para o futuro, exigindo muita energia, criatividade e segurança. Nesse contexto, as práticas de linguagem típicas da juventude têm grande importância, pois contribuem para que os jovens criem seus espaços e tempos próprios, sejam eles reais, sejam virtuais, e usem a música, o cinema, as séries, os desenhos, os grafites, os animes, os videogames, as redes sociais e uma infinidade de outros recursos como expressões da cultura juvenil. Além disso, nos três anos do Ensino Médio, é preciso considerar ainda que as identidades dos jovens estão em processo intenso de construção. Por todas essas razões, nesta coleção procuramos trabalhar as culturas juvenis em sua relação (que entendemos indissociável) com as práticas de linguagem, a saber, a leitura, a escuta, a produção oral, escrita e multimodal e até mesmo a análise linguística, o que pode ser amplamente observado sobretudo na escolha dos temas ligados aos gêneros explorados, principalmente: (1) aqueles ligados às artes, como os quadrinhos, as tiras humorísticas, as letras de canção e as batalhas de slam; Reflexões sobre a prática docente O professor desempenha um papel fundamental na sociedade, já que atua como mediador no processo de construção do conhecimento e no desenvolvimento integral dos estudantes. Mais do que transmitir conteúdos, ele exerce a função de orientar, inspirar e facilitar o aprendizado, promovendo o pensamento crítico e a formação de cidadãos conscientes e preparados para enfrentar os desafios da vida em sociedade. A prática docente exige constante reflexão e adaptação às demandas contemporâneas da educação, especialmente em relação à transformação das metodologias de ensino e à promoção de uma aprendizagem significativa. O relacionamento respeitoso e colaborativo entre professor e estudante é essencial para o sucesso desse processo, pois é a partir do diálogo, da escuta ativa e da construção de vínculos de confiança que o professor pode identificar as necessidades e os interesses do estudante. Ao reconhecer o estudante como sujeito central no processo educativo, o professor assume uma postura colaborativa, criando um ambiente de aprendizagem mais democrático e participativo. Nesse contexto, a escola cumpre sua função social de formar cidadãos críticos e conscientes, e o professor se torna peça-chave na promoção de uma sociedade mais justa, ética e plural. Estudante protagonista da aprendizagem A centralidade do estudante no processo de aprendizagem, proposta pela BNCC, reforça a importância de um papel mais ativo e protagonista dos estudantes em sua trajetória educacional. Nessa perspectiva, ele não é visto como um receptor passivo de informações, mas sim como agente ativo na construção do próprio conhecimento, participando de maneira crítica e reflexiva do desenvolvimento de habilidades e competências que vão além dos objetivos acadêmicos da escola. As metodologias ativas, como a aprendizagem fazendo uso de projetos e resolução de problemas, contribuem para promover essa autonomia, incentivando-os a pôr em prática na vida cotidiana conhecimentos, habilidades, atitudes e valores construídos durante a vida escolar. Dessa forma, o aprendizado torna-se mais significativo, conectando-se diretamente às realidades e desafios que os estudantes enfrentam, fortalecendo sua capacidade de resolver problemas, colaborar e agir de maneira ética e consciente na sociedade. Esta obra apresenta diversas oportunidades de o jovem exercitar o seu protagonismo, produzindo, valorizando e fruindo das manifestações artísticas culturais, como recomenda a competência 3 da Educação Básica, segundo a BNCC, seja produzindo cordel ou participando de batalhas de slam; seja selecionando obras do repertório artístico-literário contemporâneo segundo suas preferências; seja fazendo uso de meios digitais, como recomendam as competências 4 e 5, para expressar ideias e sentimentos, por meio de videopoemas, videorreportagens, videorresenhas, documentários, etc.; seja compreendendo o mundo do trabalho e alinhando-o ao seu projeto de vida, como recomenda a competência 6, produzindo biodata, videocurrículo e se preparando para entrevistas de emprego; seja desenvolvendo habilidades argumentativas, como recomenda a competência 7, defendendo e negociando ideias de forma respeitosa, apresentando e ouvindo diferentes pontos de vista, tomando decisões coletivas por meio do debate regrado ou de diferentes gêneros argumentativos e reivindicatórios no âmbito de uma campanha de valorização dos direitos humanos e dos direitos da juventude. E, por meio da realização de todos esses projetos, que mobilizam procedimentos das metodologias ativas, os estudantes desenvolvem, entre outras, a competência 10 da Educação Básica, voltada para a autonomia. Se até alguns anos atrás a escola e a sala de aula eram o principal espaço de aquisição do saber, e o professor o seu principal agente, hoje esses papéis estão bastante alterados. Em um mundo cujas relações sociais estão cada vez mais pautadas pela internet e pelas redes sociais, entre outras transformações do final do século XX e início do século XXI, percebeu-se a importância de, nas escolas, haver mais espaço para que os estudantes se tornem mais participativos em seu processo de formação, podendo assim se sentir mais motivados a continuar os estudos da Educação Básica. A internet aproximou os cidadãos de suas preferências. Por exemplo, quem gosta de cultura pode, sem sair de casa, navegar por sites dos principais museus do mundo —- por exemplo, Louvre, Museu D’Orsay e Museu Rodin, de Paris (França); Museu de Arte de São Paulo; Museu Van Gogh, de Amsterdã (Países Baixos) —- e conhecer em detalhes, com uma proximidade às vezes maior do que em uma visita presencial, obras de grandes artistas. Assim, os estudantes que se interessam por artes visuais podem já conhecer certas pinturas que estão reproduzidas no livro e relatar aos colegas o que sabem ou o professor pode iniciar uma aula navegando com a turma pelo site de determinado museu. Nesse novo contexto, o professor passa a ter um papel de facilitador e orientador das atividades desenvolvidas em sala de aula, muitas delas em ambiente on-line, e dos debates decorrentes dessas atividades, assumindo com os estudantes um papel de coautor no processo de construção do conhecimento, além de ser responsável pela crítica às informações coletadas, estimulando a turma a rever a precisão e a profundidade de conceitos, problematizando-os. Os estudantes, por sua vez, assumem maior protagonismo nesse processo, pesquisando, preparando enquetes, traçando estratégias, promovendo interações, e assim por diante. 319 Orientações gerais – Linguagens e suas Tecnologias – Língua Portuguesa (2) os ligados às práticas de linguagem do meio virtual, como a videorresenha (ou booktube), o videoconto e o videopoema; (3) os gêneros do campo jornalístico-midiático e os do campo das práticas de estudo e pesquisa, como as notícias, as reportagens e as fotorreportagens, os resumos, os artigos de divulgação científica; (4) os gêneros do campo da vida pessoal, como a biodata, o videocurrículo, o mapa de profissões e a entrevista de emprego. Os textos trabalhados na coleção trazem muitos subsídios, nos três volumes, para que o professor trabalhe as culturas juvenis: estão voltados, de alguma forma, para temáticas relacionadas à juventude e à construção da identidade dos jovens, própria das culturas juvenis: discussões sobre redes sociais, direitos humanos e direitos da juventude, preconceito racial, variação linguística e preconceito linguístico, ciência e saúde, cancelamento nas redes sociais, possibilidade de organização em entidades estudantis, formas de manifestação política e reivindicação social. Ganha destaque também a organização das unidades didáticas por meio dos eventos temáticos de projetos da seção Hora de compartilhar, com atividades que levam à circulação das produções dos estudantes: elas procuram explorar essas culturas juvenis de diferentes modos, desde chamar a atenção dos jovens para sua existência e constituição, como se vê, por exemplo, ao final da unidade 2 do volume 1 (sarau literário, declamação de poemas e batalha de slam a partir das produções realizadas nos capítulos da unidade), a produção de jornal impresso e para outras mídias a fim de divulgar as produções de texto dos capítulos das unidades 1 e 2 do volume 2, o evento de literatura e cinema, que reúne as produções das unidades 3 e 4 do volume 3, com apresentação de contos, videocontos, documentários e videominutos produzidos pelos estudantes, ou ainda a revista de ciência e cultura, que reúne a produção das unidades 3 e 4 do volume 1, que envolve verbetes, resenhas, resumos, poemas visuais e videopoemas produzidos pelos estudantes. Para se aprofundar no tema das culturas juvenis, indicamos a seguir uma pequena bibliografia, na qual nos inspiramos ao propor as unidades didáticas desta coleção. MARTINS, Carlos Henrique dos Santos; CARRANO, Paulo Cesar Rodrigues. A escola diante das culturas juvenis: reconhecer para dialogar. Educação, Santa Maria, v. 36, n. 1, p. 43-56, 2011. Disponível em: https://tedit.net/oexjqw. Acesso em: 9 out. 2024. SOUZA, Bruna Mantese de; MAGNANI, José Guilherme Cantor (org.). Jovens na metrópole: etnografias dos circuitos de lazer, encontros e sociabilidade. São Paulo: Terceiro Nome, 2007. UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS. Faculdade de Educação. Observatório da Juventude. Disponível em: https:// tedit.net/djk8bf. Acesso em: 9 out. 2024. Para aprofundar-se em questões como o letramento digital e o uso de tecnologias em sala de aula, sugerimos a leitura dos textos a seguir, quase todos disponíveis na internet. BARBOSA, Jaqueline Peixoto. Outras mídias e linguagens na escola. In: CARVALHO, Maria Angélica F. de; MENDONÇA, Rosa Helena (org.). Práticas de leitura e escrita. Brasília, DF: Ministério da Educação, 2006. p. 174-180. Disponível em: https://tedit.net/ ddung6. Acesso em: 10 out. 2024. BUZATO, Marcelo El Khouri. Letramento e inclusão: do Estado-nação à era das TIC. D.E.L.T.A., v. 25, n. 1, p. 1-38, 2009. Disponível em: https://tedit.net/l3tvmg. Acesso em: 10 out. 2024. BUZATO, Marcelo El Khouri. Letramentos digitais e formação de professores. In: Congresso Ibero-Americano Educarede: Educação, Internet e Oportunidades, São Paulo, 2006. Disponível em: https://tedit.net/em6798. Acesso em: 10 out. 2024. COSCARELLI, Carla Viana (org.). Tecnologias para aprender. São Paulo: Parábola Editorial, 2016. ROJO, Roxane H. Alfabetização e letramentos múltiplos: como alfabetizar letrando? In: RANGEL, E. O.; ROJO, R. H. (org.). Língua Portuguesa: ensino fundamental. Brasília, DF: Ministério da Educação, Secretaria da Educação Básica, 2010. p. 15-36. Educação digital As Normas sobre Computação na Educação Básica —- Complemento à Base Nacional Comum Curricular (BNCC), estabelecidas pela Resolução CNE/CE n. 1/2022, visam integrar de maneira mais efetiva a computação ao currículo da Educação Básica no Brasil. Esse complemento define diretrizes para a inserção de conteúdos relacionados à ciência da computação, como pensamento computacional, algoritmos, programação e análise de dados, desde as primeiras etapas do ensino. O objetivo é garantir que os estudantes desenvolvam competências digitais essenciais para o século XXI, ampliando sua capacidade de resolução de problemas e uso de tecnologias de maneira crítica e criativa. A Lei n. 14.533/2023, que institui a Política Nacional de Educação Digital, reforça e complementa essa iniciativa ao estabelecer uma política pública mais ampla para a inclusão da educação digital em todos os níveis de ensino. Essa
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